quinta-feira, 30 de julho de 2009

Hoje tem Cine Chinelo no PE - traga a vasilha, e seu filme também



Daqui a pouco rola o 8º Cine Chinelo no Pé.

Será na Rua da Moeda, Recife Antigo a partir das 20h.

Há seis anos, durante o evento, o logradouro se transforma em uma grande sala de cinema.

Diferente das outras mostras, os filmes exibidos não passam por curadoria alguma. Para participar, o realizador traz seu filme na hora, das 18h às 20h, ou até completar a grade de 150 minutos da programação.

A entrada é franca.

"Prezamos pela liberdade de conteúdo. Contemplamos as produções audiovisuais de forma desglamourizada. O público assiste aos filmes se quiser, toma cerveja e aplaude da forma que lhe convir", afirma o idealizador e diretor geral da mostra, Gê Carvalho.

"Os filmes inscritos precisam ter no máximo 20 minutos. Além disso, não fazemos nenhum outro tipo de restrição conceitual", explica Carvalho, que também é presidente da Federação Pernambucana de Cineclubes (Fepec).

Após a mostra, batizada "caldo de cana" haverá show da banda Chambaril.

Pela segunda vez, o Cine Chinelo NoPE foi contemplado pelo Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco, idealizado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e Governo do Estado.

Dois filmes brasileiros na Mostra Internacional de Veneza



Viajo porque preciso, volto porque te amo, novo filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, foi selecionado para a competição Orizzonti da 66a. Mostra Internacional de Veneza, que acontece de 02 a 12 de setembro.

O longa, estrelado por Irandhir Santos e produzido pela Rec Produtores e Daniela Capelato, conta a história de José Renato (Irandhir Santos), um geólogo que viaja pelo sertão coletando imagens, sons e músicas.

Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, é outra produção brasileira a concorrer na mostra Orizzonti. Descrito pelos diretores como uma história "sobre o amor e outras utopias", o filme é estrelado por Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Maria Luisa Mendonça e Leandra Leal.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Prefeito de Paulínia reassume cargo - secretário comenta a crise



José Pavan, prefeito de Paulínia, reassumiu o cargo na última quinta-feira.

Leia matéria aqui.

Ele foi afastado por suspeita de compra de votos no último dia do festival.

A administração pública municipal da cidade é a organizadora do Festival de Cinema, assim como do Pólo Cinematográfico.

Nesse meio tempo, surgiu o temor de que, com a crise, o projeto estivesse comprometido.

Em depoimento publicado no Almanaquito, newsletter da crítica de cinema Maria do Rosário Caetano, o secretário de cultura de Paulínia, Emerson Alves, comenta a situação:

"A crise política realmente nos pegou de surpresa e claro, para quem está apenas no começo de um projeto deste porte e com a ambição de se tornar parte importante na produção cinematográfica brasileira é realmente um "balde d'agua fria" ver todo o trabalho realizado correndo risco"

"Hoje a cidade não fala mais do Festival", continua o secretário. "Hoje a cidade fala da política rasteira. Hoje a cidade se lembrou do quanto precisamos do cinema, da arte, da cultura, para ver se a gente consegue extrair as pessoas o que elas tem de melhor....

Durante uma semana o Festival mostrou para a cidade que é possível sair das páginas da política e ocupar um lugar de destaque por fazer cultura, por defender o que é nosso, o que é legitimamente brasileiro.

Mas os políticos não sossegam.

A cidade começa a brilhar e eles fazem de tudo para nos lembrar do lugar onde devemos ficar.

Eles sempre querem o seu lugar nas páginas da política.

Não tem jeito.

Quer dizer, jeito tem.

Sou otimista.

Primeiro, porque acredito que o TRE vai manter o Prefeito José Pavan no cargo, não porque ele defende o cinema e a cultura, mas porque as acusações contra ele são falsas, baseadas em testemunhos viciados e tendenciosos e sem qualquer prova que o coloque em situação ilegal.

E em segundo e por isso mesmo, o mais importante: porque nestes sete dias a cidade descobriu o quanto é bom estar na vanguarda, o quanto é bom iluminar.

Este sentimento de orgulho, de identidade com as coisas da nossa própria cidade, este sentimento está nas pessoas, está nos e-mails que eu recebo, nos abraços que recebi durante o Festival, nas conversas na loja da minha mãe.

Acreditem: Paulínia veio para ficar".

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pouca Chinfra faz o samba falar mais alto



O Projeto Vitrine 2009 traz como atração de hoje o samba do Trio Pouca Chinfra e a Cozinha. Ao leitor incauto, é bom não levar ao pé da letra o nome da banda surgida há quatro anos.

Primeiro, porque não se trata exatamente de um trio, mas um grupo de onze músicos. Além do mais, a chinfra dos jovens não tem nada de orgulho vão, pose ou empáfia. Está mais para a outra acepção do termo nos dicionários: sensação muito agradável, barato, curtição.

O compositor José Demóstenes, a.k.a Macaco, dá a pista. "No começo, a gente surgiu como trio mesmo. Era eu, Mago Fabrício e Lucas Temporal, que se reunia para tirar um som. Até que juntou mais gente e quando vimos, tinha doze pessoas tocando. Por isso batizamos eles de "a cozinha", que no meio musical é quem segura a onda".

A "onda" a que Macaco se refere são as várias vertentes do samba trabalhado nos palcos. Samba de roda carioca e pernambucano, choro e bossa-nova, com direito a incursões pelo maracatu e forró. Apesar das influências explícitas de Adoniran Barbosa, Originais do Samba, Nelson Cavaquinho, Demônios da Garoa, Cartola, Fundo de Quintal, só para enumerar alguns, o show de hoje será todo de autoria própria e de parceiros como Junior Black e a Mesa de Samba Autoral.

Eis os músicos que encontrarão logo mais o público do Vitrine: Macaco (cavaquinho e voz), Fabrício (violão de 6 cordas e voz), Vinícius Sarmento (violão de 7 cordas), Lucas Temporal (reco-reco, ganzá e voz), Deco (pandeiro e voz), Dedeco (agogô), Vicente Monstro (rebolo e prato), Ernesto Favela (tamborim e voz), Filipino do Surdão (surdo e voz), Lima (cuíca) e Moab (trombone).

Acostumado com o ambiente etílico das gafieiras e bares onde chegam a sustentar uma roda por mais de três horas, o Pouca Chinfra terá na noite de hoje um momento diferente, que permite conversas com o público para contar como nasceram as músicas novas, entre elas, Perdoa o botequim, Pedra no sapato e Coração passarinho, que em breve estarão no primeiro álbum.

Curador do Vitrine, o maestro Cussy de Almeida conheceu o trabalho do Pouca Chinfra através da internet. Ao Diario, ele confessa que acha o nome "horroroso". "Chinfra já é um negócio chato, quando diz 'pouca chinfra' é que complica. Mas quando ouvi, gostei. Não é nenhuma poluição musical, pelo contrário. São jovens que pretendem fazer boa música brasileira".

Serviço
Projeto Vitrine - Trio Pouca Chinfra e a Cozinha
Quando: Hoje, às 19h
Onde: Auditório dos Diarios Associados (Rua do Veiga, 600 - Santo Amaro)
Quanto: 1 quilo de alimento não-perecível
Informações: 3320-2020

(Diario de Pernambuco, 27/07/2009)

sábado, 25 de julho de 2009

Grito do cinema alternativo



O circuito alternativo de cinema vive dias de tormenta. Momento mais do que oportuno para entrar na pauta nacional. Enquanto quase dois terços das salas comerciais estão alegremente monopolizadas por apenas dois filmes, Harry Potter 6 e A Era do Gelo 3, as nanicas agonizam entre restrições econômicas e tecnológicas. Capitaneada por texto de Walter Salles, a edição de ontem da Folha de São Paulo dedicou amplo espaço para uma série de matérias a sugerir que o buraco é mais embaixo: diminuem não só os espaços de exibição, mas também novas produções e o público interessado em filmes "de arte", "alternativos" ou "independentes".

É nesse contexto que a Fundação Joaqum Nabuco promoveu o primeiro encontro nacional de programadores de salas alternativas. Após dois dias de atividades, o evento aponta para a formação de uma rede capaz de atrair mais pessoas e obter respaldo político e econômico para barganhar com as majors, grandes distribuidoras com poder suficiente para ditar as regras.

"A ideia principal é organizar o setor para garantir nossa sobrevivência e a diversidade dos filmes em cartaz", diz Marcus Mello, da sala gaúcha P.F. Gastal e idealizador do encontro. Ele percebeu que os problemas que enfrenta são os mesmos em todo o Brasil: a migração para o suporte digital e aluguéis exorbitantes dos rolos em 35mm.

Kleber Mendonça, que coordena o encontro, diz que tais dificuldades existem também para os "primos ricos", como define as salas mantidas por grandes instituições bancárias como o Unibanco e Santander. "Nós alugamos um filme por 50% da bilheteria. Para eles, é cobrada a quantia fixa de R$ 1.500 semanais".

Roberto Nunes, que mantém o projeto Cinecult em 15 cidades e 21 complexos da rede Cinemark, aponta para a necessidade de viabilizar cópias extras através de incentivos da Lei Rouanet. Por estar vinculado a um sistema blockbuster, Nunes foi meio que um "estranho no ninho", inclusive questionado por utilizar dessa retaguarda e poder de barganha para obter a preferência das distribuidoras, como no caso de Gomorra, que teria sido "desperdiçado" em sessões únicas às 14h. "A espera seria a mesma se eu abrisse mão do filme", diz Nunes.

Para Marcos Sampaio, que coordena o Cine Sesi Pajuçara, em Maceió, é preciso enfrentar a "miopia das distribuidoras", que oferecem uma ou duas cópias de filmes que supostamente farão pouca bilheteria. Assim, filmes relevantes como Valsa com Bashir demoram até dois anos para encontrar seu público, que a esta altura pode até ter assistido - legalmente - a obra em DVD. Parece incrível, mas o filme peruano La teta asustada, melhor filme no último Festival de Berlim, será lançado no Brasil com apenas uma cópia. "Por que não fazer mais duas?", diz o exibidor.

Sistema de baixo custo

Na busca de saídas políticas, tecnológicas e financeiras para os impasses dos pequenos exibidores, uma resposta incrivelmente simples para a tempestade de problemas enumerados nos últimos dois dias: a projeção de filmes a partir de um media player conectado a um projetor full HD HW10, da Sony. O sistema atinge resolução satisfatória em telas de até 10m, conta com audio digital 5.1 surround e custa pouco mais de US$ 3 mil.

A solução foi apresentada por Daniel Leite, que ainda este ano inaugura o Cine Rio Carioca, conjunto de três salas em Laranjeiras, tradicional bairro do Rio de Janeiro, que terá uma sala equipada com projetor 35mm e duas para filmes em suporte digital.

Responsável pela finalização e "transfer" (processo de conversão de filmes captados digitalmente para a película) de mais de 50 curtas e dos longas O engenho de Zé Lins, Amigo de risco e Tudo isto me parece um sonho, Leite levou dois anos de pesquisa até encontrar um sistema eficiente e de baixo custo. "Ele é mais econômico e tem a vantagem de não restringir filmes digitais em outros formatos de distribuição".

Questionado sobre como obter filmes desprovidos do sistema Rain (que protege a cópia contra a pirataria), Leite disse que pretende negociar diretamente e conseguir a confiança das distribuidoras para exibir filmes que ainda não foram lançados em DVD. E que acredita que, aos poucos, o jogo de poder com as distribuidoras vai acabar. "Me interesso na internet como canal para ter acesso a cinematografia de diferentes lugares do mundo".

(Diario de Pernambuco, 25/07/2009)

"Che: o guerrilheiro" será lançado no Cine Ceará - veja a programação completa



Che: a guerrilha será lançado nacionalmente na próxima terça-feira.

A segunda parte da saga dirigida por Steven Soderbergh será a atração principal da noite de abertura do 19º Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema.

A cerimônia contará com a presença do ator chileno Santiago Cabrera. Em Che: part 1, ele interpreta Camilo Cienfuegos, o amigo revolucionário de Ernesto "Che" Guevara.

Na mostra competitiva, há a presença dos pernambucanos Lírio Ferreira e Renata Pinheiro, além de Heitor Dhalia, que nasceu no Rio mas prefere ser conhecido como pernambucano.

Ferreira apresenta seu novo longa, O homem que engarrafava nuvens , doc biográfico sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga.

Não por acaso, imagino, ele será exibido no dia 2, em que Gonzaga completa 20 anos de falecimento. Teixeira é cearense, daí pode-se imaginar o barulho que o filme causará.

Pinheiro concorre com Superbarroco, um dos melhores curta-metragens da temporada, exibido em Cannes e vencedor dos prêmios máximos nos festivais de Brasília e Pernambuco.

Para quem não viu, basta dizer que o filme é uma aposta acertada no experimentalismo de linguagem e traz como ator principal o paraibano Everaldo Pontes, que contracena consigo próprio e... a cantora Dalva de Oliveira.

Em sua segunda exibição no País, À deriva deve novamente dividir opiniões.

Enquanto entusiastas aplaudirão o apelo imagético produzido por Dhalia e equipe, principalmente o olhar voyeur voltado à ninfeta candidata a atriz Laura Neiva, outros poderão questionar a narrativa um tanto "solta" em torno de uma família em crise enquanto passa férias numa casa em Búzios.

A seguir, a programação da mostra competitiva brasileira de curta-metragem e ibero-americana de longa-metragem.

29/7, quarta-feira
19h30 – curtas: Leituras Cariocas (Consuelo Lins Doc., 13’, Cor, RJ, 2009)
Selos (Gracielly Dias, Ficção, 15’, Cor, CE, 2008)
A Mulher Biônica (Armando Praça, Ficção, 19’, Cor, CE, 2008)

Longa-metragem: O Prêmio (El Premio), de Alberto Chicho Durant (ficção,35mm, 92’,Cor,PERU)

30/7, quinta-feira
19h30 – curtas: Silêncio e Sombras (Murilo Hauser, Animação, 9’, P&B, PR, 2008)
Passos no Silêncio(Guto Parente, Ficção, 17’, P&B, CE, 2008)

Longa-metragem: Os Deuses Quebrados (Los Dioses Rotos), de Ernesto Daranas (Ficção, 35mm, 96´,CUBA, 2008)

31/7, sexta-feira
19h30 – Curtas:Flores em Vida (Rodrigo Marques e Eduardo Consonni, Doc., 12’, Cor, SP, 2008)
Josué e o Pé de Macaxeira (Diogo Viegas, Animação, 12’, Cor, RJ, 2009)
A Montanha Mágica (Petrus Cariry, Doc, 13’, Cor, CE, 2009)
Os Filmes que não Fiz (Gilberto Scarpa, Ficção, 16', Cor, MG, 2008)

Longa-metragem: Haroldo Conti - Homo Viator, de Miguel Mato (documentário, 2008, 90 min, ARGENTINA)

01/08, sábado
19h – Longa-metragem: Coração do tempo (Corazón del tiempo), de Alberto Cortés (ficção, 2008, 90 min, MÉXICO)
Se nada mais der certo (Jose Eduardo Belmonte , ficção, 120 min, BRASIL)

02/08, domingo
19h – Curtas: Vida Vertiginosa (Luiz Carlos Lacerda, Ficção, 15’, Cor, RJ, 2009)
Bolívia te extraño (Dellani Lima e Joacélio Batista, Exp., 7’ Cor, MG, 2009)
Sweet Karolynne (Ana Barbara Ramos, Exp. 15’, Cor, PB 2009)
Os Sapatos de Aristeu (Renê Guerra, Ficção, 17’, P&B, SP, 2008)

Longa-metragem: O Homem que engarrafava nuvens, (Lírio Ferreira,documentário, 2008, 105 min, BRASIL) classificação etária:

03/08, segunda-feira
19h30 – Curtas: Nordeste B (Mirela Kruel, Exp.,15’, Cor/P&B, RS 2008)
Superbarroco (Renata Pinheiro, Ficção, 17’, Cor, PE, 2008)

Longa-metragem: Pequeno Burguês - Filosofía de Vida, (Edu Mansur documentário, 2008, 70 min, Brasil) – classificação etária
A Deriva (Heitor Dhalia,Ficção,103’,Cor,SP,2009)

04/08, terça-feira
20h – Cerimônia de encerramento, para convidados, com exibição do longa-metragem Siri-Ará, de Rosemberg Cariry.

Fábio Moon e Gabriel Bá em destaque no The Comics Journal



Os desenhistas gêmeos são o destaque da nova edição do The Comics Journal, publicação eletrônica especializada em quadrinhos.

Leia uma parte da entrevista concedida a Diego Assis, em inglês, aqui.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vá ao Festival de Gramado com tudo pago - aumentou o prazo do concurso



O prazo para se inscrever no concurso que levará um leitor do Diario de Pernambuco a Gramado se estendeu para a próxima quinta-feira.

Ganha quem escrever a melhor crítica sobre o filme A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele.

O motivo da prorrogação é que a próxima sessão do filme será somente na quarta-feira, às 20h15, no Cinema da Fundação.

Para conhecer o regulamento completo, clique aqui aqui.

"À deriva", de Heitor Dhalia, estreia 31 de julho



Seleção Cannes 2009, exibido em Paulínia e na mostra competitiva do Cine Ceará.

Leia aqui matéria que escrevi para o Diario sobre À deriva e equipe em Paulínia.

"Há tanto tempo que te amo", de Phillippe Claudel, em cartaz no Cinema da Fundação



Um filme triste, misterioso e delicado entra em cartaz no Cinema da Fundação. Vencedor do Bafta de melhor filme estrangeiro, Há tanto tempo que eu te amo, do diretor estreante Phillippe Claudel, apresenta o processo de ressocialização da ex-detenta Juliette (Kristin Scott Thomas, excelente), que cumpriu 15 anos de prisão por cometer um crime em circunstâncias obscuras.

Com dificuldade de manter o novo emprego e estabelecer novas relações, a refratária Juliette é carinhosamente recebida pela irmã mais nova, Lea (Elsa Zylberstein), professora que mora com o marido, o pai e duas filhas adotivas de origem vietnamita. A intensa relação com a irmã se torna o único porto seguro de Juliette. E o necessário apelo dramático que dá força à narração.

(Diario de Pernambuco, 24/07/09)

"Sinédoque, Nove York", de Charlie Kaufmann, estreia no Recife



O Cine Rosa e Silva exibe a partir de hoje Sinédoque, Nova York, esperado primeiro filme escrito e dirigido por Charlie Kaufmann.

Nesta nova produção, o cultuado roteirista deve exercitar e quiçá, expandir, sua narrativa labiríntica, refletida em jogos de espelhos e repleta de autoanálise.

Recursos que, se conduzidos com maestria próxima a Brilho eterno de uma mente sem lembranças e Quero ser John Malkovich - apenas para citar dois roteiros de Kaufmann dirigidos por, respectivamente, Michel Gondry e Spike Jonze - pode render uma instigante aventura cinematográfica.

O filme parte de um diretor de teatro em crise, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), que pretende reproduzir no palco, milimetricamente, suas experiências de cidadão nova-iorquino.

(Diario de Pernambuco, 24/07/09)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Craig Thompson no Brasil



Craig Thompson estará em outubro no Brasil.

O autor de Retalhos (Blankets) será um dos convidados do 6º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.

Mais informações no blog do evento.

Concurso de críticas leva leitor do Diario a Gramado



De 9 a 15 de agosto, o Festival de Cinema de Gramado realiza sua 37ª edição. Mais uma vez, o Diario de Pernambuco marca presença e fará a cobertura completa deste que é um dos mais antigos e conhecidos festivais de cinema do país.

Anunciada na semana passada, a programação deste ano traz uma boa amostra da produção nacional e latino-americana. Mérito da curadoria dos cineastas Sérgio Sanz e José Carlos Avellar, que há quatro anos se dedicam a fazer de Gramado um reduto não só de personalidades e famosos da TV, mas também de bons filmes e ideias.

"Antes, as pessoas prestavam mais atenção ao tapete vermelho do que à tela. Nossa preocupação é que os filmes voltem a ser a atração principal", disse Avelar, no fim da última edição do evento.

O ator Reginaldo Faria e o cineasta Ruy Guerra são os principais homenageados deste ano. Um dos destaques da mostra competitiva é Canção de Baal, longa de estreia de Helena Ignez, atriz de carreira consolidada por filmes como Assalto ao trem pagador e O bandido da luz vermelha. Baseado em peça de Bertolt Brecht, seu filme tem cenários de Guto Lacaz, músicas de Tom Waits cantadas em português e cenas de nudez que prometem dar o que falar.

Na mostra internacional, os olhos se voltam para produção peruana La teta asustada, de Claudia Llosa, vencedora do Urso de Ouro no último Festival de Berlim. Entre os 12 curtas nacionais (ainda há 15 curtas da mostra gaúcha), concorre o pernambucano Não me deixe em casa, de Daniel Aragão.

Fora de competição, o Panorama do Cinema traz Garapa, de José Padilha (também exibido em Berlim), Morro do céu, de Gustavo Spolidoro, e Tudo isto me parece um sonho, de Geraldo Sarno (parcialmente rodado em Pernambuco). A Mostra Música e Poesia exibe, entre outros, Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar (sobre Manoel de Barros) e o pernambucano A geração 65, de Luci Alcântara.

Concurso leva leitor ao festival - Em tradicional parceria com o evento, o Diario de Pernambuco promove um concurso que levará, com todas as despesas pagas, um de nossos leitores para participar do júri popular do Festival de Gramado. Para concorrer, basta escrever uma resenha crítica sobre o longa-metragem A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele, atualmente em cartaz no Cinema da Fundação (veja roteiro). Ano passado, o filme foi um dos destaques de Gramado, onde ganhou 6 Kikitos de Ouro (prêmio especial do júri, melhor ator para Daniel de Oliveira, melhor fotografia, melhor música, prêmio da crítica e melhor filme pelo júri popular).

O texto deve ter até 35 linhas, em corpo Times New Roman 12, e ser enviado para o e-mail edviver.pe@diariosassociados.com.br ou via Correios, endereçado à sede dos Diários Associados (Rua do Veiga, 600, Santo Amaro). O prazo para as inscrições se encerra na próxima segunda-feira, dia 27. Entre os critérios de avaliação estão originalidade, concisão, capacidade argumentativa e teor opinativo. Podem participar candidatos de qualquer faixa etária, desde que residentes na Região Metropolitana do Recife. Ao todo, o festival convocará quinze jurados de todo o Brasil.

(Diario de Pernambuco, Caderno Viver, 22/07/09)

Janela Internacional de Cinema do Recife abre inscrições para oficina de crítica cinematográfica



Estão abertas as inscrições para a Janela Crítica, oficina do festival de Janela Internacional de Cinema do Recife, que acontece entre 17 e 29 de outubro de 2009. A oficina busca incentivar o pensamento crítico de jovens universitários e/ou cinéfilos do estado de Pernambuco, a partir de encontros com o jornalista e crítico de cinema Luiz Joaquim, que introduzirá idéias e conceitos relativos ao universo da critica cinematográfica.

Para participar da seleção, os candidatos precisam enviar e-mail para janelacritica@janeladecinema.com.br com uma crítica de 25 linhas sobre um filme da sua escolha e seus dados pessoais como nome, idade, cidade, telefone de contato, universidade (curso e periodização), conhecimento de línguas estrangeiras, endereço do blog ou site (caso possua um). O prazo para inscrição vai até 20 de setembro.

Serão selecionados sete jovens para participar da iniciativa. Além dos encontros da oficina, os jovens selecionados ganham passe livre nas sessões de cinema do festival para produzir críticas que serão veiculadas no site do evento diariamente. Ao final do festival, os jovens formam o júri especial Janela Crítica, que elege os melhores nas categorias de curtas nacionais e internacionais.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Incentivo // SIC do Recife seleciona 48 projetos culturais

A Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife divulgou ontem a relação dos contemplados do edital 2009 do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC).

Através de sua comissão deliberativa - formada por cinco representantes do poder público e quatro da sociedade civil - o SIC selecionou 48 projetos, entre 224 inscritos.

Entre eles estão fotobiografia de Raimundo Carrero, uma exposição comemorativa dos 35 anos da artista plástica Ana Vaz, o terceiro CD de Maciel Salu, o Encontro de Sanfoneiros do Nordeste, o Cine Escola e os festivais Animage, Coquetel Molotov e de Circo do Brasil.

Este ano, o valor total de renúncia fiscal reservada aos projetos é de R$ 1,5 milhão, o mesmo do ano passado. O segmento mais beneficiado é o musical, com 18 projetos e a possibilidade de captar mais de R$ 500 mil em renúncias fiscais.

Logo após, foram escolhidos nove projetos do segmento audiovisual, oito de artes cênicas, sete de literatura e três de artes gráficas e plásticas. Artesanato,pesquisa cultural e patrimônio cultural figuram com um projeto cada.

Para o secretário de cultura Renato L, o resultado reflete a diversidade dos projetos inscritos. Ele explica que a predominância de projetos ligados à musica resultad do grande número de inscrições desse segmento no edital.

"Todos os anos a música ocupa um valor próximo a esse percentual", diz. E adianta que, para o próximo ano, pretende antecipar os resultados de forma a ampliar o tempo disponível para os produtores executarem a captação junto às empresas.

Na próxima sexta-feira (24), às 10h, haverá um seminário de orientação para prestação de contas, no auditório do Museu da Cidade do Recife (Forte das Cinco Pontas).

Na ocasião, estarão presentes auditores da Secretaria de Finanças e assistentes técnicos da PCR que darão esclarecimentos aos selecionados sobre como fazer uso do prêmio, assim como certificado que atesta a contemplação.

Edital do SIC - lista dos selecionados

Artesanato
  • I Mostra: Recife Moda de Periferia - Alcione Freitas Marques de Lima - R$ 20.304,56
Pesquisa Cultural
  • De repente o Recife - Eneuran Etelvina Beserra - R$ 36.000
Patrimônio Cultural
  • Pernambuco Rumo as Etnias - Mísia Coutinho Pessoa - R$ 42.000
Artes Plásticas
  • Ana Vaz - 35 Anos de Pintura - Ana Elizabeth Moreira Vaz - R$ 25.000
  • Pare Olhe Escute - Daniela Patrícia Azevedo - R$ 31.000
Artes Gráficas e Plásticas
  • Arte no Jockey - Patrícia Azevedo - R$ 27.000
Literatura
  • Raimundo Carrero - Fotobiográfia - Diana Dores Silveira Lins - R$ 44.000
  • Coleção Velha Histórias, Novas Leituras - Inaldete Pinheiro de Andrade - R$ 34.888
  • IV Semana Alternativa Recifense de Arte Literária ( IV Sarau) - Rogério Generoso da Silva - R$ 17.898
  • Seis de Março - A história de Amor de Domingos e Maria Teodora e a Revolução Pernambucana de 1817 - Ângela Maria Loureiro Martins - R$ 40.000
  • Geraldino Brasil - Antologia Poética - Beatriz Lopes Brenner - R$ 27.687,80
  • A Corça noCampo Coletânea Poética 1987/2009 - Edileuza Oliveira da Rocha - R$ 17.735,10
  • Tudo aqui fora escrito, tudo fora escrito ali: Antologia de Autores Pernambucanos - Wellington José de Melo - R$ 15.871,60
Artes Cênicas - Dança
  • Cinco Minutos para Black-out - Paulo Henrique da Silva Ferreira - R$ 45.000
Artes Cênicas - Teatro
  • Carícias - José Marcelino de Oliveira Dias - R$ 46.126,00
Artes Cênicas - Ópera
  • A Ópera de Dulcinéia e Trancoso - Ana Lucia Altino Garcia - R$ 34.260,00
Artes Cênicas - Circo
  • Festival de Circo do Brasil - Luni Produções Ltda - R$ 30.000,00
Artes Cênicas
  • 7° Festival Estudantil de Teatro e Dança - Manuel Francisco Pedro Rodrigues - R$ 45.000
  • Domingo das Artes - Movimento Pró-Criança - R$ 20.000
  • Histórias de Além Mar - Andreza de Lima Alves - R$ 45.950
  • A noite dos assassinos - Jonathan de Queiros Gama - R$ 39.048,90
Música
  • Festival no Ar Coquetel Molotov 2009 - Ana Cristina Altino Garcia - R$ 48.170
  • Terceiro CD de Maciel Salú - Sarah Figuerôa Hazin - R$ 35.000
  • Irresistível Miudinho: Deneil Laranjeira interpreta Alfredo Gama - Mônica Muniz de Brito Silva - R$ 35.000
  • Nordeste Occitan - S. L. Pessoa Shows - ME -R$ 35.000
  • 50 anos de morte de Villa-Lobos -Rafael Fernando Garcia Saavedra - R$ 35.000
  • Edson Rodrigues: Maestro Soberano de Pernambuco - Associação Musical e Cultural da Barriguda - R$ 33.160
  • 12° Encontro de Sanfoneiros do Nordeste - Marcos Antonio Veloso de Farias - R$ 30.000
  • CD 10 anos de Poesia - L. G. Projetos e Produções Artísticas - R$ 35.000
  • É Frevo - Mônica Soares Cosas - R$ 30.000
  • CD Bloco das Flores - 90 anos - Bloco das Flores - R$ 30.000
  • Polifonia Musical Indígena do São Francisco - Paloma Granjeiro dos Santos - R$ 35.000
  • CD Sagane Para eventos, festas e feriados - João Henrique Rodrigues da Silva - R$ 25.000
  • Box Visceral - Renato Pereira Correa - R$ 35.000
  • Turnê Vitor Araújo - Capitais - Vitor Barros Barbosa de Araújo - R$ 30.000
  • Rabecado - Naara Souza dos Santos - R$ 30.000
  • CD Eu Nasci no dia 9 de fevereiro - José Pinheiro de Oliveira - R$ 30.000
  • Mônica Feijó CD À vista - Mônica Porto Feijó Alencar - R$ 27.000
  • No Capibaribe também tem maré - Julio Antonio da Costa Verçoza - R$ 27.000
Audiovisual - Vídeo
  • Programa de TV Plano Aberto - Ateliê Produções Ltda - R$ 11.900
  • Vago - Renata Belo Pinheiro Pinto Ltda - R$ 18.000
  • Fonofotografia - Luiz Carlos dos Santos - R$ 25.000
  • Animage II - Rec Beat Discos e Produções Artísticas - R$ 30.000
  • O Homem Planta - Pedro Loureiro Severien - R$ 27.000
  • Faço de mim o que quero - Petrônio Freire de Lorena - R$ 28.000
  • Cine Bomba- Cultura e Comunidade - Auçuba - Pesquisa e documentação - R$ 30.000
  • História de Amor- Baseado na Obra de Reginaldo Rossi - Al Filmes Ltda - Urso filmes - R$ 25.000
  • Cine Escola - Andréa Mota Silveira - R$ 35.000

Ator pernambucano em ascensão



Premiado como melhor ator coadjuvante pelo trabalho no filme Olhos azuis, de José Joffily, o ator Irandhir Santos foi um dos destaques do 2º Festival Paulínia de Cinema. Na festa de encerramento do evento, na última quinta-feira, os aplausos e sorrisos são a prova de que o evidente talento deste pernambucano de 30 anos conquistou mais adeptos. Desta vez, não como o Maninho de Baixio das bestas ou o Quaderna, de A pedra do reino, apenas para citar dois de seus grandes momentos. E sim como Nonato, o brasileiro que há dez anos mora nos EUA, mas amarga o pão que o diabo amassou na mão de Marshall, chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK.

Em entrevista ao Diario, Irandhir conta como construiu esse novo personagem e os desafios da interpretação em outra língua e as três novas produções em que participa: A morte e a morte de Quincas Berro D'água, de Sérgio Machado sobre livro de Jorge Amado; Besouro, de João Daniel Tikhomiroff; e A hora e vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra, que será rodado em Minas Gerais, com João Miguel no papel principal. De quebra, aproveita para contar sobre os novos planos para a carreira.

Entrevista // Irandhir Santos: "Os filmes têm me ensinado lições importantes"

Qual sua visão do filme de Joffily?
É um filme que trata da questão da diferença. E deixa claro que ela existe porque impomos isso de alguma maneira, como fator externo. Quando Nonato vê a filha com olhos azuis, me pergunto o porquê de Marshall se sentir tão superior, se ele é tão igual a mim.

Como Nonato foi construído?
Li muito o roteiro, sempre desconstruindo e cortando, rasgando o personagem. A partir das orientações do diretor, acrescentei a minha parte. No roteiro há muito o Nonato empreendedor, que sai do país para ganhar a vida. Quis imaginar outras situações, trazer mais humanidade para ele.

Foi difícil interpretar em inglês?
Tive que estudar, pois não tinha muito domínio do inglês. Também fui para a cultura americana, procurei saber o que existe lá que moveria alguém a sair de seu país. Comecei a contatar brasileiros que moravam lá, fiz entrevistas, procurei imagens.

Que imagens?
Os olhos foram imagens que mais captei. Gosto muito de olhos azuis e o desafio era olhar para eles e sentir o inverso. Adoro minha avó materna, a lembrança de carinho ligada a olhos azuis vem dela. Sentir o contrário foi um desafio.

Como foi a iniciação no teatro e a formação de ator profissional?
Minha recordação mais antiga está ligada à escola em que estudei em Limoeiro. É um lugar tradicional, administrado por freiras que trabalhavam teatro e arte-educação com os alunos. Quando fui estudar o segundo grau no Recife, também queria um colégio que tivesse teatro, mas fui para o Colégio Militar, pois meus pais me convenceram que era bom para passar no vestibular. Por sorte, um dos alunos de lá se formou e retornou para dar aulas de teatro.

Quem era ele?
André Cavendish. Foi meu primeiro professor de teatro. Lá eu tive a certeza de que queria continuar no palco. Então juntei a necessidade dos meus pais de ter que fazer universidade com a minha, de fazer teatro.

Qual era seu foco de estudo na universidade?
Na UFPE eu trabalhava com o corpo como expressão. Já na universidade procurava essa linha. Tive como professor Roberto Lúcio, que desenvolveu um trabalho muito bom. Foi também quando me aproximei de amigos como Kléber Lourenço e Jorge de Paula. Em Olhos azuis, dez minutos antes de rodar a sequência da arma, utilizei exercícios que aprendi na universidade, de respiração e exaustão física pra abrir o canal para as emoções.

Qual o papel mais difícil que já fez?
Gosto quando tenho tempo para a preparação. Para mim, é primordial. No teatro é possível, geralmente tenho seis meses para isso. No cinema não é assim, mas tive sorte de pegar papéis no qual existiam esse tempo disponível. De todos, o Quaderna foi o mais difícil, pela própria complexidade do personagem. O próprio Ariano (Suassuna) o define como quatro personagens: o palhaço, o rei, o contador e o sertanejo. E o Luiz (Fernando Carvalho, diretor de A pedra do reino) me deu um Quaderna velho, amadurecido. O momento em que cada um deveria aparecer foi um desafio grande, dividido com profissionais que me deram suporte.

O que faz sua profissão valer a pena?
Ultimamente, é o fato de poder exercê-la, de poder viver isso. Só por isso, já me sinto premiado. Quando esteve em Taperoá, Fernanda Montenegro disse: "nosso prêmio é o nosso ofício". Pois temos que enfrentar uma batalha diária, com quase todas as dificuldade e ainda lidar com o lado criativo. Equilibrar isso é a grande questão. Fico feliz quando penso no que já fiz e no que ainda tenho para fazer.

Quando você voltará ao teatro?
Ainda este ano. Estou ensaiando semanalmente com o Grupo Visível (Visível Núcleo de Criação), que Kléber Lourenço montou para retomar o ator como criador da história. O nome do projeto é Daquilo que move o mundo. Ele trabalha a dramaturgia com exercícios cênicos coordenados pelo dramaturgo Felipe Botelho. A ideia é iniciar o trabalho no Recife e no fim do ano vir pra Campinas para a preparadora Tiche Vianna, que tem um excelente trabalho com a comédia dell'arte, lapidar e fazer o que quiser com nossos corpos. Pra mim será uma retomada. Há três anos não faço teatro e esse é um grupo que gosto muito, ligado à universidade, com um senso de pesquisa e continuidade que me interessa.

Fale sobre o personagem que você faz em Besouro. Ele é um vilão?
É. Seu nome é Noca de Antonia. Para fazê-lo, tive que trabalhar com sombras. A preparadora de elenco, Fátima Toledo, disse que os capoeiristas são a luz e nós precisamos das sombras, que sou eu e o coronel. Então tive que ativar o que há de pior em mim. Sou muito recatado, mas em um dos exercícios ela me "destampou" e tudo que estava reprimido saltou com a raiva. Para ativar minha sombra falei todos os palavrões e coisas sujas.

Como foi a experiência de filmar A morte e a morte de Quincas Berro D'água, com atores veteranos como Paulo José e Marieta Severo?
Também foi com Fátima, só que o filme é uma comédia. Eu faço o Cabo Martin, um dos quatro amigos de Quincas. A grande questão foi trabalhar o tema morte de um grande amigo, uma grande perda. Apesar de ser comédia, tive que trabalhar de maneira muito séria. Ver Paulo José morto é algo bem doloroso, então parti daí. A ideia do Sérgio (Machado, o diretor do filme) é que o cômico não estivesse nos personagens, mas sim nas situações absurdas. Os filmes dos irmãos Cohen foram referências.

Ultimamente, você tem recebido muitos convites. O que te faz escolher um projeto?
Sempre escolho a partir do que me toca naquele momento da vida. Os filmes que faço têm me ensinado lições importantes. Trabalhar com Luís Fernando Carvalho e Cláudio Assis me fez redescobrir o lugar onde nasci. Naquele momento estava em dúvida se ficava lá ou ia para o Recife. Meu olhar para aquela região mudou muito. No caso de Olhos azuis, senti que deveria fazer pelo roteiro, uma história fantástica, por Joffily, diretor que já admirava e pelo desafio, pois a maioria das cenas são em inglês, língua em que não tenho tanta prática.

O que te atraiu na refilmagem de A hora e a vez de Augusto Matraga?
Guimarães Rosa foi primeiro autor que entrou lá em casa, período que lembro muito do meu pai. Ele lia muito e conversava sobre a obra, tinha olhar peculiar. Ele achava que Guimarães mostrava um sertão cru, forte, seco. E minha mãe via o contrário, via poesia. Então sempre havia discussão. Quando fiz A pedra do reino, me debati com o Sertão de Ariano, colorido e alegre de pessoas que se encantam com sua raiz. Agora sinto a necessidade de viver o sertão duro, seco, para haver um diálogo.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Arnaldo Antunes na UFPE: espaço ideal



Finalmente Arnaldo Antunes encontrou local apropriado para mostrar seu Ao vivo no estúdio para o Recife. Desde que começou a turnê, há dois anos, suas passagens pela cidade foram notáveis, porém, incompletas. Mesmo que a presença do ex-titã seja um convite para dançar e cantar junto, este é um show para assistir sentado, com olhos e ouvidos abertos. No palco do Teatro da UFPE, onde esteve sábado à noite, Antunes teve a estrutura de luz e som que precisava para apresentar a versão completa, nos moldes do gravado em DVD. Por isso, não importa quantas vezes o show passou pelo Recife. E muito menos que, antes e depois, seja nessário assistir a um comercial de biscoito.

No repertório composto quase que totalmente por canções de Saiba e Qualquer, os dois últimos álbuns de estúdio, não houve novidades. Para quem assistiu aos shows anteriores, o grande barato foi curtir o conceito visual do projeto, que investe em jogos de luzes laterais e sombras, muitas sombras projetadas num telão, atrás da banda, e sobre a própria banda, formada por Marcelo Jeneci (teclado, acordeon eefeitos eletrônicos), Chico Salem e Betão Aguiar (violão e guitarras).

Poucos movimentos agressivos restaram do tempo em que Arnaldo usava cabelo arrepiado e batia a cabeça ao som de AA-UU e Bichos escrotos. Vinte e cinco anos depois, sua desconstrução da estética punk parece ter chegado ao máximo. Pois se reinventa em canções de ninar e bossas de ruídos estranhos e aura tranquila.

Do disco novo (Iê, Iê, Iê, em que divide composições com Ortinho e Edgard Scandurra), Arnaldo apresentou somente uma música, Longe. Do tempo dos Titãs, cantou O quê, Não vou me adaptar e O pulso, todas com novos arranjos. Da primeira fase solo, vieram à tona O silêncio em versão forró e Judiaria em arranjo soft.

A passagem pelo Recife é também um pit-stop para a participação especial que Antunes fará no show de Nação Zumbi na próxima quinta-feira, em Garanhuns. Ao lado de Edgard Scandurra e Bnegão, eles comemoram os 15 anos do álbum Da lama ao caos. Por isso, é provável que a música Inclassificáveis, gravada por Chico Science e Antunes em 1996, faça parte do tributo.

(Diario de Pernambuco, 20/07/09)
* com alterações e acréscimos

Arnaldo Antunes no Recife: mais fotos





domingo, 19 de julho de 2009

Pólo Cinematográfico de Paulínia // Cinema forjado a barris de petróleo



Paulínia, uma pequena, jovem e milionária cidade do interior paulista, caminha a passos largos para ser o maior centro de produção audiovisual do país. Cinema forjado a barris de petróleo da Replan, refinaria da Petrobras instalada ali há quase 40 anos. A grande produção de barris rende cerca de R$ 10 bilhões em impostos. Uma fatia desse bolo possibilita o investimento, surreal para o padrão do país. Somente o festival custa R$ 8 milhões (são 650 mil em prêmios). Assim que ficar pronto, o Polo Cinematográfico de Paulínia terá custado a bagatela de R$ 100 milhões.

Cientes de que não basta investir somente em estrutura, a secretaria de cultura municipal, gestora do polo, traçou uma estratégia irresistível para atrair produtoras e artistas: construiu escolas para formação de mão de obra, disponibiliza estúdios a 10% do valor praticado pelo mercado e lança editais que patrocinam produções rodadas parcialmente no local. Desde 2006, mais de 40 produções foram atraídas paraPaulínia, entre elas, Hotel Atlântico, de Suzana Amaral, Salve geral, de Sérgio Rezende, Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles e Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira. O edital mais recente destina R$ 9 milhões para dez longas, entre eles, As vidas de Chico Xavier, de Daniel Filho; Filme de estrada, de Selton Mello; À beira do caminho, de Breno Silveira; e Transeunte, de Eryk Rocha.

A opção por investir na cultura - o cinema é foco principal, mas há atividades ligadas à música (mês que vem o teatro municipal recebe a Orquestra Filarmônica de Israel regida por Zubin Mehta) e dança - não é gratuita. De acordo com Albert Moreira, diretor do departamento de cinema da secretaria municipal de cultura, Paulínia não arrecada tanto quanto antes. Nas próximas décadas, diz ele, decrescerão as atividades ligadas ao petróleo. "Fizemos um estudo e constatamos que o cinema é o segmento de mercado com o maior retorno financeiro", diz Moreira.

Tudo está sendo construído num enorme terreno desapropriado pela prefeitura, pois pertencia a uma empresa falida há muitos anos. Neste momento, estão em atividade a Paulínia Film Comission, a Escola Magia de Cinema (com 2 mil metros quadrados que já formou 520 alunos), uma escola infantil de animação stop motion e um estúdio de 600 metros quadrados (atualmente alugado para a produção de Daniel Filho). Nos próximos meses, mais quatro estúdios entrarão em funcionamento. O maior deles terá 900 m2, grids eletrônicos e 14 metros de altura.

Estúdio 3D é o maior da América Latina

Na última terça-feira, o Polo de Paulínia inaugurou um estúdio de animação 3D, anunciado como o maior e mais bem equipado da América Latina. Baseado no modelo da Industrial Light and Magic de George Lucas, o Paulínia Animation Studio conta com estúdios de computação gráfica e animação capazes, de acordo com o diretor de design Rodrigo Eustáquio, de produzir efeitos semelhantes a dos filmes 300 e Sin city. "Não queremos concorrer com outros estúdios. Nosso foco é cinema de longa-metragem".

Sob os auspícios do consultor israelense Effi Wizen, um dos pioneiros da animação em 3D, o estúdio de três pavimentos está equipado a mais recente tecnologia do mercado: são 120 workstations, ilhas de edição e montagem, auditório para exibição e correção de cor. "Nosso equipamento se equipara a qualquer estúdio norte-americano", diz Eustáquio. Alguns dos trunfos do estúdio são as salas com edição Maya, Lustre, Smoke e Flame, software que renderiza em tempo real e permite acompanhamento via satélite, ligado a uma rede de 10 terabytes que permite acesso a arquivos de 50 gb em 15 segundos. Ainda este ano, estará em funcionamento um scanner 3D capaz de digitalizar seres humanos, técnica utilizada no filme Beowulf, de Robert Zemeckis.

Além de viabilizar produções locais com o preço 80% abaixo do praticado no mercado, o objetivo é atrair estúdios internacionais para as facilidades do Polo de Paulínia. "Aqui, o custo com estrutura e mão de obra é mais baixo. Parece pouco, mas numa produção de R$ 100 milhões isso faz muita diferença", diz Eustáquio.

Como estratégia de divulgação, a prefeitura de Paulínia convidou "arautos" como Alan Brewer, representante da The Weinstein Company e o diretor de arte Laurent Ben-Mimoun, que tem no currículo filmes como O senhor do anéis e Moulin rouge e o recente Terra perdida (Land of the lost), que estreia em agosto.

A mão de obra ainda é uma das poucas, senão a única defasagem do estúdio de Paulínia. Há capacidade para 200 funcionários, mas apenas seis ocupam as cadeiras. "Precisamos de modeladores, profissionais de textura e principalmente operadores Flame", diz Eustáquio. Candidatos às vagas devem enviar currículo para o email juliana@qfx.com.br. Ao que parece, os profissionais de animação finalmente encontraram um playground à altura.

(Diario de Pernambuco, Caderno Viver, 19/07/09)

sábado, 18 de julho de 2009

Maurício de Souza, 50 anos de carreira



Hoje fazem 50 anos que Maurício de Souza publicou sua primeira tira.

Foi no jornal Folha da Manhã, atual Folha de São Paulo, em 18 de julho de 1959.

Ele trabalhava na redação, como repórter policial.

Até que assumiu sua verdadeira ambição: se tornar desenhista.


Clique na imagem para ler a tirinha

De lá para cá, são mais de 200 personagens e 1 bilhão (!) de revistas vendidas em 125 países.

A Mônica, inspirada na própria filha, surgiu em 1962.





Para comemorar a data foi organizada uma grande exposição em São Paulo, no Museu Brasileiro das Esculturas - MuBe (Av. Europa, 218 – Jardim Europa).

Hoje será a abertura, somente para convidados. A partir de amanhã, ela fica aberta ao público, até 18 de agosto.

Na TV, haverá a exibição de um documentário sobre a trajetória de Mauricio no Biography Channel. Será hoje, às 22h, para toda a América Latina.

Além disso, dois livros especiais serão lançados em setembro: MSP 50, em que 50 artistas nacionais reinventam os personagens da Turma da Mônica, entre eles, Angeli, Ziraldo, Laerte, Gonzales, Spacca, Guazzelli, Fábio Moon e Gabriel Bá; e Bidú 50 anos,

Mês passado, escrevi uma matéria sobre o projeto MSP 50. Para ler, clique aqui.

Na terça-feira, o Diario de Pernambuco publica entrevista que fiz com Maurício. Nela, o desenhista / empresário conta sua história, da infância até os anos 1970, quando teve que lidar com a censura do regime militar - sim, até ele precisou se adaptar aos anos de chumbo.

Até lá.

Festival de Paulínia // A noite de premiação


Crédito das fotos: Aline Arruda / Divulgação

Paulínia (SP) – A festa de premiação do 2º Festival Paulínia de Cinema, na noite da última quinta-feira, foi uma grande confusão em que ninguém sabia exatamente o que fazer. Estrutura havia de sobra, mas faltou logística na organização do palco. Nem mesmo o casal de apresentadores Murilo Benício / Guilhermina Guinle, perdidos e dependentes de um equivocado teleprompter, conseguiram manter o controle da situação, quando uma dezena de premiados foram de uma só vez chamados ao palco. Representantes da administração municipal, a dona do evento, transpareciam desconforto no papel de anfitriões do mundo do audiovisual, reunido anteontem para a entrega dos troféus Menina de Ouro. Possível reflexo do escândalo que afastou do cargo o prefeito da cidade, sob suspeita de compra de votos.

Paulínia quer ser vista como um festival democrático, capaz de transitar entre filmes “cabeça” e populares. Nesse sentido, a distribuição de troféus, feita de forma equânime, pode ser consequência dessa política. Olhos azuis venceu em seis categorias, inclusive o prêmio principal, no valor de R$ 60 mil. “Ninguém pediu para que esse filme fosse feito. Dedico esse prêmio ao voluntarismo de todos os artistas”, discursou José Joffily, o diretor. Eleito melhor ator coadjuvante pelo papel de Nonato, o imigrante brasileiro em solo norte-americano, o pernambucano Irandhir Santos foi simples e direto: “já me sinto agraciado por exercer a função de ator neste país. Agora, volto pra casa acompanhado por uma bela ‘menina’”.


Irandhir Santos contracena com David Rasche...



... e recebe o prêmio de melhor ator coadjuvante


Romance de formação sobre duas rodas, Antes que o mundo acabe, de Ana Luiza Azevedo foi um dos grandes destaques do festival. Nada mais justo do que receber o prêmio da crítica e ter sido escolhido em cinco categorias pelo júri oficial (formado por Zuenir Ventura, Adhemar de Oliveira, João Jardim, a roteirista Elena Soarez e a diretora de programação da HBO, Ângela de Jesus).


Antes que o mundo acabe, de Ana Luíza Azevedo levou cinco troféus

No momento máximo de generosidade do Júri, três atores e três atrizes principais receberam troféus: Silvia Lourenço e a transexual Maria Clara Spinelli, de Quanto dura o amor?, e Cristina Lago (atriz-revelação de Olhos Azuis); e Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, pelo papel do contador de histórias Roberto Carlos Ramos nas fases criança, jovem e adulto. “Quando eu era criança, sempre quis ter uma boneca mas nunca me deram. Agora tenho uma Menina de Ouro!”, provocou Spinelli.

Da ficção aos documentário (ainda precisamos promover esse apartheid?), os holofotes iluminaram Só dez por cento é mentira, um elogio ao poeta Manoel de Barros e Hebert de perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz. Diretor de vários clipes dos Paralamas do Sucesso, Berliner conversa com família e amigos de Hebert Vianna, faz uso das próprias imagens de arquivo e da proximidade que tem com o compositor para mostrá-lo na intimidade, como no depoimento que Hebert dá entre o closet e o banheiro da suíte onde dorme.

Coube à crítica lembrar o valor de Moscou, doc em que Eduardo Coutinho expande a investigação que apaga as fronteiras entre real e fictício, memória e invenção. “Não sei o que fiz nesse filme”, disse, angustiado, ao apresentar o filme no dia da exibição. Frase que seria muito mais adequada à atriz / produtora Lucélia Santos com relação ao sofrível Destino, filme que sequer deveria existir, quando mais figurar entre as produções escolhidas para o festival, que ali atingiu seu momento mais lamentável.

O prêmio do público para Caro Francis demonstra o talento de Nelson Hoineff em se comunicar com grandes platéias. Fazem pouco mais de dois meses que Alô Alô Terezinha!, também de sua autoria, foi eleito pelo júri popular como o melhor do Cine PE. “Faço filmes para serem vistos. É um erro pensar que há falta de preparo no público. Ele é muito mais sábio do que se imagina”, disse o diretor.

Os curtas Timing, de Amir Admoni, e Spectaculum, de Juliano Luccas, foram os melhores de suas categorias. O primeiro usa efeitos especiais para prender o ator Caco Ciocler (que contracena com o pai, Jackson) no painel de uma estação de metrô. O segundo apresenta a vida de um palhaço fora do picadeiro, como fosse um documentário de inclinação artística, coroado pelo depoimento de que, “para ser palhaço, precisa ser muito intelgente”.


Stulbach - boa atuação

Elogio ao teatro – Antes da premiação, foi exibido Tempos de paz, sétimo longa de Daniel Filho, com presença dos atores principais, Tony Ramos e Dan Stulbach. Baseado no livro Novas diretrizes para tempos de paz, de Bosco Brasil, o filme é algo mais teatral do que televisivo, o que conta pontos a favor do diretor de Se eu fosse você. Em bem-vindo viés autoral, Filho conta a história de Clausewitz (Stulbach), ator polonês que, com o fim da 2ª Guerra é impedido de entrar no Brasil ao esbarrar na burocracia ressentida do oficial de imigração Segismundo (Ramos). A homenagem aos imigrantes Anatol Rosenfeld, Nydia Lícia, Otto Maria Carpeaux e Zbigniew Ziembrinski faz de Tempos de paz um elogio ao teatro e ao ofício do ator foram arrebatadoras e responsáveis pelo ponto alto e de maior comoção do encerramento do 2º Festival de Paulínia.

* o repórter viajou a convite do evento.

(Diario de Pernambuco, 18/07/09)

Mais impressões sobre Paulínia (escritas de um aeroporto)


Tony Ramos e Dan Stulbach em Tempos de paz: bom momento

O segundo Festival de Paulínia terminou ontem à noite. Daqui a pouco sai a matéria que fiz para o Diario (post acima).

Enquanto aguardo o avião para o Recife, nada como um blog para divagar sem preocupações com os limites de tempo / espaço de um jornal impresso.

Penso em como foi cobrir este festival. Ao mesmo tempo, um trabalho difícil e gratificante.

Primeiro, os obstáculos. Diferente do ano passado, a organização hospedou a imprensa no Hotel Royal de Campinas. Ou seja, todos os dias eram entre duas a quatro viagens de van para Paulínia, cada trecho com 30 a 40 minutos. Na ponta do lápis, em oito dias, foram em média 16 horas dentro de uma van.

Por tudo isso, foram dias bastante cansativos. À noite, havia os filmes em competição - dois curtas e dois longas, somados a um interminável desfile de vinhetas e logomarcas. Após a sessão, janta. Hotel entre 1h e 2h da manhã. No dia seguinte, as coletivas começavam às 10h, na prefeitura de Paulínia. Após o almoço, corrida para entregar as matérias dentro do prazo.

Problemas de translado à parte, há que destacar a vontade do evento em dar conta de todas as frentes que fazem um bom festival de cinema. Do começo ao fim, tivemos projeções com ótima qualidade técnica, mostras paralelas, exibições nos bairros, debates, seminários de todos os tipos. Não bastasse, duas festas bacanas – uma no sábado, promovida pela Quanta, e outra ontem, de despedida.

Quanto à programação da mostra competitiva, houve maus momentos, sim. Mas a maioria dos filmes e coletivas fizeram a vida de maratonista valer a pena.

É o caso do doc de Eduardo Coutinho, Moscou. A exibição foi um choque. Nos que permanceram, pois há quem não suporte algo tão fora do padrão. No dia seguinte, rendeu uma das melhores coletivas, se não, a melhor. Pena que Coutinho não esteve na noite de encerramento para receber o prêmio da crítica. A informação é que ele estaria no MoMa, em Nova York, onde sua obra está sendo exibida.

Eleito melhor filme pelo júri especial Olhos azuis, de José Joffily, foi alvo de críticas por trazer uma história muito esquemática e fatalista.


Joffily, melhor longa de ficção em Paulínia: 13 anos de projeto

Pode ser, mas isso não chega a ser um problema. O roteiro de Paulo Halm (cujos pais são de Pernambuco) tem seus méritos; a trilha de Jacques Morelembaum, com músicas de Siba Veloso e participação de Arlindo dos Oito Baixos é de uma beleza monumental; e o elenco deu um show de interpretação. Mais do que merecidos os prêmios de melhor coadjuvante para Irandhir Santos e melhor atriz para Cristina Lago.

Na noite de segunda-feira, Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira, rendeu ótimos comentários no caminho de volta para o hotel. “Finalmente, um filme”, disseram alguns, escaldados pela traumática experiência de assistir Destino, uma peça de duas horas e R$ 10 milhões que não funciona como cinema, novela, ou mesmo catálogo turístico de paisagens do Brasil e leste asiático. Pode até ser que dê certo lá na China - na coletiva, a produtora Lucélia Santos disse que a ideia é atingir os 900 milhões de espectadores da TV de lá. No Brasil, não tem a mínima chance. Quem sabe como série de 35 capítulos, formato para que o roteiro foi pensado, há 13 anos.

Antes que o mundo acabe é um caso curioso. Não tem vocação se enquadra exatamente como filme de festival (chegou a ser questionado se ele deveria ou não ir direto para o circuitão). Ao mesmo tempo, foi um dos mais votados (prêmio da crítica mais cinco do júri oficial). De qualquer forma, graças a ele, tivemos outro momento bom.

Só dez por cento é mentira é um caso à parte. Impossível não se entregar a poesia de Manoel de Barros. Dá até pra encarar vacilos como a voz em off do diretor Pedro Cezar e excessos cometidos pela pretensão de “traduzir” o espírito do poeta para a linguagem audiovisual.

Parece ter sido dificil a disputa pelo troféu de melhor atriz principal. Todas mereciam. A opção do júri pelo prêmio coletivo foi conciliadora, mas meio covarde. Paulínia parece ainda não ter maturidade para o embate saudável que pode surgir em um festival.


Spinelli...


... e Lago

Fica o protesto pelo completo abandono da portuguesa Maria de Medeiros, que acertou no papel da professora Marguerit na produção mineira O contador de histórias.

Quanto aos curtas, bem, com exceção dos vencedores, estão abaixo de qualquer comentário. Fica a esperança que no ano que vem a curadoria seja um pouco mais seletiva. Opção não falta.

Foi uma festa de premiação das mais estranhas que assisti na minha curta carreira de coberturas. Como apresentador, Murilo Benício se mostrou um bom troglodita. Trocou nomes, improvisou piadas de mau gosto e transpareceu um desânimo quase burocrático.

A sessão de Tempos de paz, novo longa de Daniel Filho, foi o ponto alto da noite. Longe do trabalho que fez em Se eu fosse você 1 e 2, o diretor mostrou verve criativa ao adaptar para o cinema o texto que há meses está em cartaz nos teatros com os mesmos atores: Tony Ramos e Dan Stulbach.

Após o filme, até Benício virou gente.


Tempos de paz, de Daniel Filho, estreia em agosto no circuitão

Festival de Paulínia // "Olhos azuis" e "Antes que o mundo acabe" são os grandes premiados

Longa-metragem Ficção
Filme: Olhos azuis, de José Joffily
Direção: Ana Luiza Azevedo (Antes que o mundo acabe)
Prêmio Especial do Júri: O Contador de histórias, de Luiz Villaça.
Roteiro: Paulo Halm e Melanie Dimantas (Olhos azuis)
Ator: Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, (O contador de histórias)
Atriz: Cristina Lago (Olhos Azuis), Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli (Quanto dura o amor?)
Ator Coadjuvante: Irandhir Santos (Olhos azuis)
Atriz Coadjuvante: Nívea Magno (No meu lugar)
Figurino: Rosangela Cortinhas (Antes que o mundo acabe)
Trilha Sonora:Leo Henkin (Antes que o mundo acabe)
Direção de Arte: Fiapo Barth (Antes que o mundo acabe)
Som: François Wolf (Olhos azuis)
Montagem: Pedro Bronz (Olhos azuis)
Fotografia: Jacob Solitrenick (Antes que o mundo acabe)

Longa-metragem Documentário
Filme: Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar
Direção: Roberto Berliner e Pedro Bronz (Hebert de Perto)

Curta Regional
Spectaculum, de Juliano Luccas

Curta Nacional
Timing, de Amir Admoni

Prêmio da Crítica
Longa ficção: Antes que o mundo acabe, de Ana Luiza Azevedo
Longa documentário: Moscou, de Eduardo Coutinho

Júri Popular
Longa ficção: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça
Longa documentário: Caro Francis, de Nelson Hoineff
Curta nacional: Nesta Data Querida, de Julia Rezende
Curta regional: Quem será katlyn, de Caue Fernandes Nunes

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Festival de Paulínia encerra mostra competitiva


Antes que o mundo acabe - inteligência e apelo pop

Paulínia (SP) – Os longas Hebert de perto, documentário de Roberto Berliner, e a ficção gaúcha Antes que o mundo acabe, de Ana Luíza Azevado, encerraram na noite de quarta-feira a maratona de 12 longas e 12 curtas do 2º Festival Paulínia de Cinema. Foram seis dias de competição, uma programação que, de forma ascendente, representou a diversidade que hoje é o cinema brasileiro. O voto da crítica, decidido ontem pela manhã, elegeu Moscou, doc de Eduardo Coutinho e Antes que o mundo acabe. Resta agora saber quais receberão o troféu Menina de Ouro pela eleição do público e júri oficial, formado pelo escritor Zuenir Ventura, o exibidor Adhemar de Oliveira, a roteirista Elena Soarez, o diretor João Jardim, a diretora de programação da HBO Maria Ângela de Jesus e a atriz Sandra Corveloni.

Romance de formação sobre duas rodas, Antes que o mundo acabe reafirma a marca da Casa de Cinema de Porto Alegre em fabricar filmes bem acabados, inteligentes, de pegada pop sem abrir mão do tempero gaúcho. Conta narra a vida de Daniel, um menino de 15 anos que vive em Pedra Grande, cidade com 16 mil habitantes e oito mil bicicletas. Para a família é só variação de hormônios, mas Daniel está perdendo a namorada para o melhor amigo. Não bastasse, o pai biológico, um fotógrafo que foi morar na Tailândia, começa a fazer contato via envelopes com muitas imagens e histórias exóticas e pessoais. A trilha sonora que lembra Belle and Sebastian (há duas músicas da banda Os Darma Lovers) alterna entre o tom “folk fofo” e rock’n’roll, de acordo com as oscilações de humor do protagonista.

Com rara capacidade de se comunicar diferentes faixas etárias, o filme de Azevedo deve consolidar boa carreira no circuito comercial. A diretora gaúcha despontou em 1989 com o curta Barbosa, co-dirigido por Jorge Furtado, sócio mais famoso da Casa de Cinema, empresa que se projetou a partir de Ilha das Flores, de Furtado. De lá para cá, acumula nove filmes, todos de curta duração, entre eles Dona Cristina perdeu a memória, eleito melhor curta de 2003 pelo Cine PE. Foi também assistente de direção de quase todos os longas de Furtado (Meu tio matou um cara, O homem que copiava), com quem assina a série global Decamerão, que vai ao ar no fim deste mês.

Produção independente, Antes que o mundo acabe é baseada em livro homônimo de Marcelo Carneiro da Cunha, que Azevedo conheceu através de seus filhos. “Acho bárbaro que existam mais filmes para essa faixa etária, fundamental para formação de público para o cinema brasileiro”, disse a diretora, em conversa com o Diario. “Até pouco tempo, os jovens não tinham interesse em ver filmes brasileiros. É um trabalho árduo ganhar esse público”.

Um dos melhores documentários do festival, Hebert de perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, se mostrou bem resolvido enquanto linguagem, algo raro na atual onda de filmes sobre personalidades da MPB recente, que tem em Nelson Motta sua figura mais fácil e cansativa.

Desta vez, nada de “especialistas”. Diretor de vários clipes dos Paralamas do Sucesso, Berliner reuniu a família de Hebert Vianna (o que inclui os companheiros de banda, o produtor e o amigo Dado Villa Lobos), fez uso das próprias imagens de arquivo e da proximidade que tem com o compositor para mostrá-lo na intimidade, como o título sugere. A proximidade foi tanta que há depoimentos de Hebert entre o closet e o banheiro da suíte onde dorme.

Grande sacada de Berliner e Bronz foi editar o primeiro show da banda no Circo Voador e apresentações da turnê de 2006 como se fosse uma só. Cinema como ponte entre o jovem de óculos vermelhos e camiseta do Mickey Mouse com o homem de cadeira de rodas, renascido do acidente aéreo, tudo no mesmo palco.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

HQ inédita de Art Spiegelman na Piauí deste mês



A revista Piauí de julho traz uma história em quadrinhos inédita de Art Spielgelman.

Nela, o autor de Maus e À sombra das torres ausentes analisa como os cartunistas norte-americanos trataram o episódio em que, em 1939, um navio de judeus refugiados da Europa foi mandado de volta sem dó nem piedade.

Na mesma revista, há uma HQ de três páginas de Robert e Aline Crumb. Desta vez, eles refletem sobre a vida no bairro em que moram, numa pequena cidade do sul da França.

Pernambuco na tela do Festival de Paulínia


Marshall (Rasche) e Bia (Cristina Lago) no sertão pernambucano
Crédito: Helder Tavares

Paulínia (SP) - Olhos azuis, de José Joffily, colocou Pernambuco na tela do 2º Festival de Paulínia na noite de terça, a penúltima da mostra competitiva de longas e curta-metragens. A ficção trata do que parece ser o assunto da vez no cinema mundial: a truculência com que habitantes de países periféricos são tratados quando migram para nações ricas. Apenas para citar casos recentes, há À oeste do eden, de Costa Gavras, exibido no último Cine PE; Jean Charles, história real do brasileiro assassinato em Londres; Bem-vindo, que deu o que falar na França por tocar na polêmica lei que penaliza imigrantes ilegais; e de forma leve em A proposta, comédia romântica em que Sandra Bullock será deportada se não resolver seus papéis na imigração. Coincidência ou não, Tempo de Paz, novo filme de Daniel Filho hoje à noite encerra o festival (hors concours, após a cerimônia de premiação) aborda tema parecido, em situação inversa: após a segunda guerra, um ator polonês tenta em vão adentrar o Brasil.

Com locações entre o Recife e Petrolina, Olhos azuis tem Heloísa Resende na produção, Pedro Bronz na montagem e Jacques Morelembaum na trilha sonora, que ainda conta com músicas de Siba, Petrúcio Amorim e Alceu Valença. O roteiro, contemplado em 1998 pelo Sundance Festival, foi construído a partir da experiência de Joffily em abrigar em sua casa, no Rio, um amigo deportado dos Estados Unidos. “Ele me contou detalhadamente o que tinha acontecido. Desde então passei a ouvir depoimentos de tantas pessoas que passaram por maus tratos na imigração”, disse o diretor, na coletiva para a imprensa, ontem.

De forma não-linear, o filme apresenta o último dia de trabalho do oficial do departamento de imigração Marshall (David Rashe). Forjado no moralismo do americano médio, ele não vê muito sentido em abandonar o trabalho onde, justificado pela paranóia terrorista, pode exercer livremente seus preconceitos contra chicanos, cubanos e outros cucarachas como Nonato (Irandhir Santos), ao lado de dois subalternos de descendência terceiro-mundista que brigam pelo seu posto. A trágica situação limite, insinuada desde o primeiro plano, chega após bons goles de uísque.

Da luz fria e azulada do escritório e seus distintivos (semelhante a uma série policial de TV) ao chão ensolarado do Recife, Marshall tem contas a acertar consigo mesmo. Para encontrar a pequena Luíza, filha de Nonato, pede ajuda à primeira pessoa que encontra, no caso, Bia (a paranaense Cristina Lago, de Maré).

Convocado para o papel que seria de Robert Forster (Jackie Brown, de Tarantino), Rasche se mostrou ótima escolha para incorporar Marshall. Conhecido no cinema em papéis menores em A conquista da honra, United 93 e Queime depois de ler e na TV como o violento policial da série oitentista Sledge Hammer. Cristina Lago também convence como Bia, que ao conduzir o “gringo” a seu destino, numa espécia de road-movie, reencontra o passado que não queria no sítio do avô (Everaldo Pontes), no momento mais simbólico do filme.

A interpretação segura e precisa de Irandhir Santos é outro mérito da produção, que custou R$ 2,3 milhões e deve estrear comercialmente somente em março do ano que vem. Requisitado desde que foi premiado em Brasília por Baixio das bestas, o ator peranbucano será será visto até 2010 em pelo menos mais duas produções: A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, livro de Jorge Amado adaptado por Sérgio Machado (diretor de Cidade baixa) e Besouro, filme de João Daniel Tikhomiroff sobre o lendário capoeirista baiano.

Poesia - Na mesma noite, o documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, pegou a platéia de surpresa com a poesia de Manoel de Barros. O filme tem o mérito de ser um dos raros registros audiovisuais do recluso poeta mato-grossense – ele se diz mais “letral” do que biológico. Costurado por depoimentos de familiares, amigos e admiradores, o diretor meio carioca, meio pernambucano que despontou nacionalmente com outro doc, Fábio Fabuloso, apresenta Manoel na mesa onde trabalha em sua casa, escritório batizado de “lugar de ser inútil”.

“Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, afirma o mestre, acerca de sua obra. Ao que garante: “Tudo o que não invento é falso”. De acordo com o diretor, foram dois anos de um processo “artesanal” até trilhar o caminho que leva ao poeta/criança, hoje com 93 anos. Na coletiva, Cezar explicou o porque. “Eu tinha a fantasia de lançar o filme no noventenário de Manoel de Barros. Com o material captado, vi que tinha em mãos um filme extremamente discursivo. Então resolvi buscar seu universo visual. Os versos de Manoel de Barros são muito imageticos. Depois de 11 cortes, o filme encontrou um equilíbrio entre teoria e discurso, palavra e imagem”, diz Pedro Cezar.

Entre revelações de infância, quando, isolado em zona rural, conversava com patos e das inspirações em Padre Vieira (herança de sua formação no Colégio Marista) e Charles Chaplin (de onde tirou a filosofia do vagabundo profissional que diz ser), Manoel brilha em momentos arrebatadores: “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis. É preciso transver o mundo”. Interessado pela “coisificação das pessoas e a humanização das coisas” ele diz que aprendeu ouvindo o filho, que rendeu o livro Poeminhas pescados na fala de João. “Criança erra na gramática, mas acerta na poesia”.

Poesia que define como “a virtude do inútil”. Poeta? “Sujeito com mania de comparecer aos próprios desencontros”. O melhor amigo, Bernardo, já falecido: “era que nem árvore. Seu silêncio era tão grande que os passarinhos ouvem e vinham pousar no seu ombro”. Ao final, palmas não tão estridentes e mais duradouras, certeza de que no Festival de Paulínia o poeta ganhou mais admiradores.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"Anticristo", de Lars Von Trier



CArtaz de Anticristo, de Lars von Trier - nos cinemas dia 28 de agosto.

O "não-filme" de Eduardo Coutinho



Paulínia (SP) - Um "filme-ensaio", quase um "não-filme", ofuscou as demais atrações da noite de segunda-feira no Festival Paulínia de Cinema. "Não sei o que fiz", diz o próprio diretor, Eduardo Coutinho. Aos 77 anos, um dos mais importantes documentaristas em atividade se arrisca em fazer algo novo e sem dúvida, árido para a maioria do público consumidor de cinema. Ao mesmo tempo, Moscou mantém coerência com o que tem desenvolvido nos últimos anos, quando iniciou parceria com a produtora Videofilmes, de João Moreira Salles.

Foi de Salles, aliás, a ideia de convidar o Galpão, grupo de teatro mineiro, para servir de laboratório para um experimento um tanto incomum: ensaiar durante 18 dias, exclusivamente para o documentário, a peça As três irmãs, de Anton Tchekhov, a quem agradeceu da seguinte forma: "ele não tem culpa do que eu fiz", disse Coutinho, ao apresentar o filme ao público do Theatro Municipal, em demonstração física de incômodo e tensão.

O que interessa a Coutinho, como sabem todos aqueles que acompanham sua obra, é o processo. Para ele, não importa o que entra em cena, tudo é apresentação e representação, verdade e mentira, imaginário e real. Moscou mantém tais premissas, só que de maneira um tanto sofrida. Tanto que, após 70 horas de gravações e um primeiro corte de 4h40 com o texto do dramaturgo russo na íntegra, o cineasta quase desistiu do projeto. "Não tem filme", teria dito Coutinho a Salles, que ofereceu a saída com um corte final de 80 minutos, completamente fragmentado e sem a mínima intenção de fazer sentido. A solução coloca em primeiro plano um elemento de criação menos recorrente a seus filmes: a montagem. "Saí do inferno", disse Coutinho, em intrigante coletiva de imprensa na manhã de ontem. "Quero escapar do purgatório também".

Segundo o próprio, as perspectivas não são as melhores. "É um filme difícil. Quase ninguém sabe quem é Tchekcov no Brasil. Até uma analfabeta vê e se interessa por Jogo de cena. Já Moscou é limitante pra quem não temnoção de teatro. De qualquer forma, o público que assiste documentário é louco. Quem vai a teatro também é, então quero juntar esse público".

Diferente de Edifício Master e O fim e o princípio, em que procura estabelecer relação íntima com o entrevistado, Coutinho dirige o olhar sobre um grupo de atores regidos por Enrique Diaz, um dos diretores do Galpão. Para ele, este foi um processo penoso, pois teve de abrir mão do controle geralmente atribuído ao condutor de um filme. "O crédito do filme devia ser do Henrique", chegou a dizer o realizador. "Eu me perguntava o que estava fazendo ali. Minha única preocupação era acreditar no que os atores dizem, observar o diretor que observa o grupo. Não sabia o que seria o filme, ou o que acabou se tornando".


Os diretores Enrique Diaz e Evaldo Coutinho apresentam as regras do jogo

Lampejos de uma peça que nunca será vista integralmente, as imagens de Moscou foram feitas sem pensar em iluminação ou cenário. Entre leituras dramáticas e encenações, tudo entra em cena: camarins, caixas de papelão, extintores de incêndio, conversas paralelas, umespaço cênico esquemático e com pouquíssima luz. Há inclusive um momento de completa escuridão, rompido por fósforos riscados pelos atores.

"Tudo era válido, e ao mesmo tempo tudo era palco", explica Coutinho, que aparece em cena uma única vez, em reunião que estabelece as regras do jogo: uma dinâmica de construção de personagens que utiliza memórias reais e inventadas, do passado e também do futuro. "Queria trabalhar com atores, que são pagos para representar a paixão dos outros. Toda memória é mentira e verdade. Da mesma forma, não dá para separar o personagem da pessoa que o representa".

No texto original, a cidade de Moscou é compartilhada pelos personagens como destino redentor e de distinção social. No ensaio / filme, nada mais é do que uma abstração, por vezes materializada em fotografias de infância ou em desenhos de giz nas paredes. "São elementos misturados com o real, para fazer chegar a Tchekhov da única maneira possível no tempo disponível. Moscou é um ponto de partida do imaginário. As pessoassonham com um Moscou da infância, ou que vai chegar. Assim, todo mundo pode participar", disse o diretor.

Mais adiante, Coutinho confessa que esse é um filme sobre si mesmo, definição quase que redentora para os críticos mais inquietos. "Não me interesso por filmes temáticos, sobre hospícios ou presídios. Cada vez mais quero saber o que acontece na frente de uma câmera. O que tem de verdade ou mentira nisso, não tem a menor importância".

*publicado no Diario de Pernambuco

O bom do blues na edição de 2009



Olhando para trás, nem parece, mas lá se vão sete anos desde que surgiu o festival Oi Blues By Night. De lá para cá, quase toda a cena do blues nacional passou pelo evento, além de Magic Slim, Deacon Jones, Stanley Jordan, Kenny Brown e várias outras atrações internacionais e shows memoráveis. E este ano não será diferente.

A programação 2009 do festival itinerante contempla seis estados do Nordeste e está repleta de convidados especiais, não tão conhecidos do grande público, é verdade, mas que, se observados mais de perto, podem agradar - e muito.

"Este será o ano com mais artistas internacionais no evento", diz o produtor Giovanni Papaléo. Para abrir o festival com o pé direito, escalou Willie "Big Eyes" Smith, emblemático representante do blues elétrico de Chicago, nos EUA, estilo fundado por gente como Willie Dixon, Muddy Waters, Bo Didley, Buddy Guy e Howlin' Wolf. Como baterista e gaitista, Smith tocou com todos eles. Principalmente com Waters, com quem conviveu de 1961 até o fim da carreira.

Em entrevista ao Diario, ele fala sobre sua formação e curiosidades como sua participação nos filmes The Last Waltz, de Martin Scorsese, e The Blues Brothers, onde toca ao lado de John Lee Hooker.

Na noite de hoje, Smith sobe ao palco para cantar e tocar gaita. Ele terá como banda de apoio a Uptown, de Papaléo, e deve ser convidado para tocar bateria, num momento de importância histórica, que pode se tornar o auge da apresentação, que ainda conta com a participação especial dos gaitistas Jefferson Gonçalves (RJ) e Val Tomato (SP). A programação ainda traz as bandas Street Jazz Band, de Garanhuns, e a recifense Jambalaya Blues Band.

Pelo evento, Smith faz apresentação única, no Recife. Mas daqui para o fim do ano, outros filhos de Chicago circularão pelo Nordeste. Em setembro, o guitarrista John Primer fará shows na capital pernambucana, Natal e Fortaleza. E em novembro, encerrando o festival, o gaitista Billy Branch e seu parceiro Carlos Johnson estarão no Recife e Fortaleza.

Completam a programação do Oi Blues 2009 o cantor André Matos (ex-Shaman e Viper) e Vasco Faé, que em agosto tocam no Recife, Teresina, Fortaleza e João Pessoa, e a dupla Lancaster e Marcelo Naves, que fazem o circuito Recife, Teresina, Fortaleza e Maceió. Para tocar com as atrações principais, Papaléo diz que procura novos talentos em cada capital. "Esse é o grande mote, promover a interação das bandas locais com artistas internacionais". Para se candidatar, as bandas devem escrever para uptownband@gmail.com.

Serviço
Oi Blues By Night
Quando: hoje, às 22h.
Onde: Audrey Dining Club (R. Tenente João Cícero, 202 - Boa Viagem)
Quanto: R$ 30 (R$ 15 meia)
Informações e reservas: 3207-0006

Entrevista // Willie "Big Eyes" Smith: "Muddy Waters foi a minha escola"



De onde surgiu seu apelido?
Quem colocou foi Muddy Waters, pois todos da banda tinham um apelido, menos eu. Um dia, no meio de um show, durante a apresentação dos membros da banda ele olhou para mim e disse, de repente, sem explicação: na bateria, Willie Big Eyes Smith!!!

O que você pode falar sobre sua infância em Helena, Arkansas?
Vim de uma famíla muito pobre, num lugar que a vida era difícil. Minha infância foi como a de qualquer criança. Eu queria tocar, mas não tinha condições financeiras de comprar instrumentos musicais.

E como você aprendeu a tocar o blues?
Desde que nasci convivo com o blues. Na minha infância, minha avó tinha deixado para minha mãe muitos discos de Tampa Red, Robert Johnson etc. Quando cheguei em Chicago, após um mês na cidade, arrumei um trabalho e pude comprar meu primeiro instrumento. Cheguei com 17 anos e Muddy Waters foi a minha escola: toquei com ele por mais de 18 anos.

Como você pode descrever os melhores momentos com Muddy Waters?
Muddy foi como um pai para mim. O melhor cara do mundo para trabalhar. Se não fosse assim, não teria passado tantos anos com ele.

Como aconteceu sua participação no filme The Blues Brothers, ao lado de John Lee Hooker?
Estava de férias quando me convidaram e eu voltei para esse filme. Muddy Waters estava doente nessa época e não pôde participar. Eu também toquei outras vezes com John Lee.

Qual será o repertório para hoje à noite?
Vou decidir na hora. Tudo pode acontecer. Nunca planejo um um show. O blues é assim!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Festival de Paulínia ganha fôlego


Marina (Sílvia Lourenço) descobre a capital paulista através do amor e perda de ilusões

Paulínia (SP) - Dois filmes exibidos no último domingo renovaram o fôlego da mostra competitiva de longa-metragens do 2º Festival Paulínia de Cinema. Em hábil demonstração de domínio de linguagem, Quanto dura o amor?, segundo longa de Roberto Moreira (é dele o premiado Contra todos), é potencial concorrente ao troféu de melhor ficção. Entre várias qualidades, a obra tem o mérito de reinventar poeticamente o caos sonoro e visual do centro de São Paulo, um belo trabalho em parceria com o fotógrafo Marcelo Trotta.

De forma articulada, o roteiro concatena histórias geograficamente situadas no mesmo quadrante da Av. Paulista. São três narrativas paralelas, interligadas por implicações trágicas e arroubos de delicadeza das histórias de amor. Marina (Sílvia Lourenço), atriz recém-chegada à capital paulista, que descobre a cidade através da performer tatuada Justine (Danni Carlos, mezzo Amy Winehouse, mezzo musa de Guido Crepax), que se apresenta num inferninho da Rua Augusta.

Marina divide apartamento com Suzana (Maria Clara Spinelli), advogada de feições andróginas que se envolve com um colega do fórum. Elas moram no edifício Anchieta (na Consolação) e têm como vizinho Jay (Fábio Herford), escritor frustrado que se coloca em situações ridículas por estar apaixonado por uma garota de programa (Leilah Moreno).


Danni Carlos é Justine e Paulo Vilhena faz o namorado / dono da boate

Ontem, na coletiva de imprensa, o diretor disse que o projeto inicial se chamava Edifício Jaqueline, "multiplot" com 60 personagens que vivem naquele condomínio. Para manter a unidade narrativa, optou por três histórias. De forma que o filme centra foco principalmente no drama de Marina e Suzana, não somente por morarem sob o mesmo teto, mas pela crença de que, no auge de suas paixões, possam atingir seus grandes objetivos na vida.

Assim como a cidade, a trilha sonora é elemento básico para a compreensão do filme. High and dry, do Radiohead, é apenas uma das canções a conferir densidade dramática ao todo. "Depois de muita discussão, descobrimos que a banda que todos mais gostavam era Radiohead. As outras poderiam ser de PJ Harvey, mas preferimos algo um pouco mais cabaré. Tudo sai da personagem Justine, do contexto das boates de São Paulo", explica o diretor.

Um momento que promete abalar o público do circuito comercial (estreia prevista para setembro) é a revelação próxima a de Traídos pelo destino (1992), só que bem menos apelativa, pois não monopoliza a atenção ou ofusca as demais virtudes do filme.

A notícia, que a esta altura deve estar repercutindo imprensa afora, diz respeito a Spinelli, atriz escalada para interpretar Suzana. Na coletiva, ela assumiu a transexualidade (e havia sinceras dúvidas a esse respeito), assunto no qual todos queriam tocar, mas não sabiam exatamente como. Ela disse que com isso não pretende se promover ou levantar bandeiras. "Faço esse filme não por militância, mas porque quero ser atriz. Quando represento, sinto que tenho uma função no mundo. Aceitei o papel porque me trataram com dignidade e quiseram contar essa história de maneira original".

O documentário Sentidos à flor da pele, de Evaldo Mocarzel, deu "voz"a deficientes visuais, entre eles, o pai do montador Marcelo Moraes. O filme chamou atenção por adentrar na filosofia da imagem e, por um viés menos quase acidental, clamar pelos direitos dessas pessoas. Não por acaso, Seu Antônio Moraes foi o primeiro entre cinco entrevistados a falar sobre reminiscências de imagem e como é possível "enxergar" mesmo sem o privilégio da visão.

Experiências foram feitas no sentido de projetar fotografias em seu rosto, enquanto ele descreve a cena guardada na memória. Em outra situação, um advogado cego manipula uma câmera de vídeo, e faz referência ao fotógrafo cego apresentado pelo filme Janela da alma. "Continuamos a enxergar, pois o homem vê o mundo com cinco sentidos". Uma mulher de 20 anos e lindos olhos verdes conta que não gostaria de voltar a enxergar, para não "quebrar a imagem" que fez do mundo ao longo da vida. "Minha mãe é mais bonita do que como os outros a devem enxergar", disse a garota.