sábado, 30 de abril de 2011

Cine PE faz gol de placa



Cinema e futebol. Sob o signo das duas artes, o 15º Cine PE - Festival do Audiovisual começa hoje, fazendo o que sabe melhor: atrair gente. E o festival das multidões deve manter a fama hoje à noite, ao homenagear Wagner Moura e o Rei Pelé. Imprensa nacional e local engrossam o coro: este ano, o credenciamento aumentou em 30%. Isso inclui cobertura da Globo, ESPN, do CQC e de equipe da Al-Jazira, que realiza documentário sobre os 70 anos do rei do futebol.

Antes das honrarias, será exibido o documentário Cine Pelé, de Evaldo Mocarzel (Do luto à luta), média-metragem de 60 minutos montado a partir de quatro horas de entrevista sobre sua carreira no cinema. O material de arquivo completa a experiência. “Sou um ator razoável. Era jogador de futebol e sempre gostei de interpretar. Essa homenagem me deixa feliz. Amo o povo de Pernambuco”, diz Pelé, no documentário. Em resposta, o diretor do Cine PE Alfredo Bertini diz que deve o festival a Pelé. “Em 1994, foi ele quem me apresentou a Anibal Massaini ao presidente do Festival de Gramado, de onde voltei com a ideia de realizar um festival em Pernambuco”.

O corte que será visto hoje foi feito especialmente para o evento. Mocarzel trabalha outra versão, de 25 minutos, que deve ser exibida em junho no programa Retratos Brasileiros, do Canal Brasil. “Explorei um lado menos conhecido do Pelé, que é sua carreira no cinema. Tem também um pouco da paixão dele pela música e uma palinha sobre futebol, senão seria linchado por 3 mil pessoas no Cine PE”, conta o diretor. “Quis fazer um filme de cinema, fugindo do formato televisivo. Tenho muito carinho pelo festival, o reconhecimento em Do luto a luta (sete prêmios) em 2005 me deu gás pra fazer cinema por mais dez anos”.

Na conversa com Mocarzel, Pelé diz que quando fez Fuga para a vitória estava em crise no casamento e recebeu conselhos de John Houston, que já havia passado por vários. E que teve uma lição de atuação com Max Von Sydow. O veterano ator de Bergman disse que mesmo com toda a tecnologia, o cinema é feito de uma coisa que nunca vai mudar: a luz, com quem o ator tem que contracenar. E que o gol de bicicleta final, feito por Pelé, seria de Sylvester Stallone, mas o astro de Rambo e Rocky não conseguiu realizar o movimento.

Durante a expedição pela memória do Rei, Mocarzel diz que há certa quebra de sua imagem de bom moço. “Ele fala sobre os bastidores da cena de nudez feita em Pedro Mico com Tereza Raquel, mulher do diretor Ipojuca Pontes”. E em Os trombadinhas, no qual co-escreveu o roteiro e foi um dos produtores, há uma cena em que a vigarista Ana Maria pergunta: “Pelé?”, ao que ele responde: “Não, Jô Soares, sua piranha!”. Mais incorreto, impossível.

Rivalidade no boxe

A relação cinema/esporte marca a abertura do Cine PE também na mostra competitiva de curtas. Inédito, o documentário Vou estraçaiá, de Tiago Leitão abre a mostra digital e retoma a rivalidade entre dois pulgilistas do boxe amador: o pernambucano Luciano “Todo Duro” e o baiano Reginaldo “Holyfield”.

Nos fim dos anos 1990, eles se enfrentaram seis vezes no ringue (três vitórias para cada) e também fora dele, em programas de TV. No doc, ambos relembram a rixa. Aos depoimentos, Leitão costura imagens de arquivo. Como a dicção dos dois é terrível, faz falta a legendagem.

Ao estilo dos lutadores, o curta foi feito “na raça”, com orçamento zero. “Sou produtor e sempre quis fazer um projeto meu”, diz Leitão. os fãs, uma informação importante: Todo Duro estará na sessão de hoje. Holyfield, não. A revanche fica para uma próxima.

O também pernambucano Janela molhada, de Marcos Enrique Lopes, terá exibição hoje, na mostra de curtas em 35mm. Ele trata da memória do cinema, no caso, da produção pré-Ciclo do Recife, capitaneada pelo imigrante italiano Ugo Falangola.

A estrela do curta é a filha de Falangola, Dona Didi, que quando criança aparecia nas vinhetas de abertura dos filmes do pai. Hoje com 92 anos - e 86 sem filmar, Dona Didi iria à sessão de hoje, mas teve que cancelar por conta de uma queda que levou. Ironia: agora apenas na tela, Pelé volta a encontrar Didi.

Pelé na tela

Pelé Eterno (2004), de Anibal Massaini Neto
Hotshot (1987), de Rick King
Os Trapalhões e o Rei do futebol (1986), de Carlos Manga
Pedro Mico - uma lição de malandragem (1985), de Ipojuca Pontes
Os trombadinhas (1979), de Anselmo Duarte
Isto é pelé (1974), de Eduardo Escorel e Luís Carlos Barreto
Passe livre (1974), de Oswaldo Caldeira
A marcha (1972), de Oswaldo Sampaio
O Barão Otelo no barato dos bilhões (1971), de Miguel Borges
O Rei Pelé (1962), de Carlos Hugo Cristensen
O preço da Vitória (1959), de Oswaldo Sampaio

Programação

Hoje, 30 de abril

18h30 - Cerimônia de Abertura
Sons da Esperança, de Zelito Viana (exibição promocional com duração de 10 minutos)
Homenagem: Wagner Moura

Média-metragem Especial: Cine Pelé (Brasil, 2011), de Evaldo Mocarzel
Homenagem Especial: Pelé

Curta-metragem Especial: Uma história de futebol (Brasil, 1998), de Paulo Machline

21h - Mostra Competitiva de Curtas-metragens
Vou Estraçaiá (digital, PE), de Tiago Leitão
Muita Calma Nessa Hora (digital, RS), Frederico Ruas
O contador de filmes (35mm, PB), de Elinaldo Rodrigues
Janela Molhada (35mm, PE), de Marcos Enrique Lopes
A Casa das Horas (35mm, CE), Heraldo Cavalcanti

Amanhã, 1º de maio

18h30 - Mostra Competitiva de Curtas-metragens
Céu, inferno e outras partes do corpo (digital, RS), de Rodrigo John
Tempo de criança (digital, RJ), de Wagner Novais
Braxília (35mm, DF), de Danyella Proença
Cachoeira (35mm, AM), de Sérgio José Andrade
Café Aurora (35mm, PE), de Pablo Polo

20h - Lançamento do Cel-U-Cine

Homenagem: Camila Pitanga

Mostra Competitiva de Longas-metragens
Família vende tudo (35 mm, SP), de Allain Fresnot

(Diario de Pernambuco, 30/04/2011)

Pelé e Wagner Moura são homenageados no Cine PE

Fim de semana intenso para quem curte cinema no Recife. Estamos em pleno Cine PE - Festival do Audiovisual, que comemora 15 anos reafirmando a vocação para as multidões. O evento começou quinta com a Mostra Pernambuco, que segue nesta sexta, às 19h, com quatro curtas da recente produção local. Mas a grande noite será no sábado, no Teatro Guararapes, com a abertura oficial que homenageia Wagner Moura e a carreira de Pelé no cinema.

Uma versão promocional de Sons da esperança, documentário sobre a Orquestra dos Meninos do Coque realizado por Zelito Viana abre a programação. Antecede a exibição de Cine Pelé, documentário de Evaldo Mocarzel (Do luto à luta), que refaz a trajetória do craque no cinema. Como no futebol, não são poucos os títulos: entre dois documentários O Rei Pelé (1962) e Pelé eterno (2004), o ex-jogador atua em filmes como Os trombadinhas (1979), de Anselmo Duarte, Pedro Mico (1985), de Ipojuca Pontes, e Fuga para a vitória (1981), de John Houston. Neste último, Pelé contracena com Max Von Sydow e Sylvester Stallone. Depois da homenagem, outro filme trata do campeão: Uma história de futebol (Brasil, 1998), de Paulo Machline.

Ainda no sábado, o curta que abre a mostra competitiva continua as relações entre esporte e cinema: Vou estraçaiá, de Tiago Leitão, que remonta à antológica rivalidade entre os pugilistas Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield. Dentro e fora do ringue. E Janela molhada, de Marcos Enrique Lopes, trata da importância do cinema naturalista feito há 90 anos em Pernambuco pelo italiano Ugo Falangola. Sua filha, Dona Didi, estará na sessão.

No domingo, de volta às estrelas: homenagem à atriz Camila Pitanga e o início da competitiva de longas com Família vende tudo, de Allain Fresnot, com Luana Piovani, Lima Duarte, Vera Holtz e Marisa Orth no elenco. Entre os curtas, destaque para Braxília, de Danyella Proença, três vezes premiado no último Festival de Brasília, no qual concorreu a ficção Café Aurora, do pernambucano Pablo Polo.

(Diario de Pernambuco, 30/04/2011)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Coluna de lançamentos da semana + notas de bastidores + "eu indico"



Reflexões de um liquidificador (Brasil, 2010). De André Klotzel. 80 minutos. Bras Filmes.

Mistério - Com elementos de suspense policial e humor negro, o filme faz leitura bastante particular da máxima do eletrodoméstico como o melhor aliado da dona de casa. Incapaz de tomar uma atitude quando o marido Onofre (Germano Haiut) a trai, Elvira (Ana Lúcia Torre) passa a receber conselhos de um liquidificador (voz de Selton Mello). Cabe ao investigador Fuinha (Aramis Trindade) resolver o sumiço de Onofre.



Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (EUA, 2009). De Woody Allen. 98 minutos. Paris.

Destino - Após décadas juntos, Alfie (Anthony Hopkins) troca Helena (Gemma Jones) por jovem garota de programa. A filha Sally (Naomi Watts) encaminha a mãe à uma vidente, enquanto trai o marido Roy (Josh Brolin) com o patrão Greg (Antonio Banderas). Por sua vez Roy se inspira na vizinha violonista e planeja o livro que o consagrará no mercado editorial. Cada um se agarra em diferentes ilusões. Isso, acredita Allen, é melhor do que pílulas.

Eu indico



“Nós sempre teremos Paris, ele diz. E ela chora em Casablanca (EUA, 1942), de Michael Curtiz. Duas cidades em um filme só, numa cena reproduzida ad infinitum por toda e qualquer referência a despedidas. Diálogos históricos, amores impossíveis, suspenses nervosos. Como esquecer Casablanca? E como Rick esqueceria Ilsa em seu último dia em Paris? Ele lembra muito bem: Os alemães vestiam cinza, você vestia azul. E as cores do coração partido se projetam luminosas nesse grande clássico em preto-e-branco.”

Carol Almeida, jornalista

Bastidores

Zabé da Loca virou tema de filme que será exibido amanhã no festival In-Edit, em São Paulo. Com estreia nacional prevista para outubro, O mundo encantado de Zabé da Loca é dirigido por Pedro Paulo Carneiro e registra a cultura popular do Sertão nordestino e a trajetória de Dona Isabel Marques da Silva, a Zabé, que viveu 25 dos seus 87 anos dentro de uma gruta no Cariri paraibano.

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Este ano, Sylvio Back foi o único cineasta brasileiro a receber a insígnia de Oficial da Ordem de Rio Branco pelo conjunto da obra como cineasta e roteirista, constituída por 38 filmes, entre eles, Lance maior e Aleluia Gretchen. O mais recente Universo Graciliano, está em fase de montagem e aborda a memória do escritor alagoano ao trilhar as cidades em que viveu: Buíque, Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios, Maceió e Rio de Janeiro.

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Inscrições abertas para o curso de roteiro e direção para cinema da Hipérion. Os interessados podem se inscrever na própria escola, localizada na Rua Padre Anchieta, 458, Torre. Outras informações pelo fone (81) 3088-5620.

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Rec Produtores informa que o longa KFZ 1348, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso, acaba de ganhar versão em DVD. Será lançado na próxima segunda-feira, às 19h, durante o Cine PE. Depois, estará à venda por R$ 20 na Livraria Cultura (Recife Antigo), Café Castegliani (Fundaj / Derby) e Espaço Muda (Santo Amaro).

quarta-feira, 27 de abril de 2011

15 anos do maior palco do cinema nacional



Às vésperas de completar uma década e meia de vida, o Cine PE - Festival do Audiovisual se afirma, como poucos, como evento capaz de popularizar o cinema. Ele é o maior palco da retomada do cinema nacional, no sentido de que atrai gente que de outra forma jamais iria ao cinema. Democrático talvez seja o adjetivo que melhor o define, pois formou uma plateia que de fato é a maior e a mais heterogênea do país.

Anunciada para o fim do mês, sua 15ª edição pode ser a maior de todas. Em boa parte porque o grande homengeado será o Rei Pelé, cuja presença inesperada em evento de cinema mobilizou TVs internacionais, como a italiana RAI e a árabe Al-Jazira, que prepara documentário sobre os 70 anos do craque do futebol. Além disso, homenagens a Wagner Moura, Camila Pitanga e Chico Diaz devem garantir lotação do Teatro Guararapes.

E o que é o Cine PE senão o Maracanã dos festivais? Tudo nele é superlativo, do jeito que o pernambucano gosta. Desde que começou, foram mais de 750 filmes exibidos, um público de 300 mil pessoas, além de 322 artistas e 536 jornalistas convidados. Quinze anos não são 15 dias.

Segundo o diretor do Cine PE, Alfredo Bertini, a ideia para este ano seria lançar Chatô, o filme-lenda de Guilherme Fontes, em produção desde 1996. ´Nos encontramos duas vezes no Rio. Ele disse que o filme está pronto mas depois que precisa de mais dinheiro para terminar`. Sai Chatô, entra O rochedo e a estrela, de Kátia Mesel. O projeto, que começou a ser desenvolvido em 1998 e rodado em 2004, em quatro países, trata da trajetória dos judeus expulsos de Pernambuco pelos holandeses até a fundação de colônia na futura Nova York. Finalizado em 35mm, ele deve ser o único longa pernambucano a figurar na programação deste ano. Ou na oficial ou na Mostra Pernambuco, dias 28 e 29 no Cinema da Fundação.

O júri oficial de longas já está nomeado. Será composto por Amir Labaki (diretor do festival É Tudo Verdade), o cineasta Joel Zito Araújo, o fotógrafo argentino Hugo Kovensky, o ator Marco Riccae a produtora Cleria Bessa. Quanto ao júri popular, após suspeita de fraude nos votos eletrônicos do festival passado, um novo método será colocado em prática: será formado por cerca de 60 pessoas, escolhidas a partir de uma amostragem de público do festival.

A programação completa será anunciada na próxima terça à noite, em evento no Rio de Janeiro. Sim, o Cine PE deve ser o único festival do Brasil a ser lançado em outro estado. Apesar de no ano passado o evento ter coincidido com a tempestade que arrasou a capital carioca, diz Bertini, a repercussão foi ótima. ´Nossos principais patrocinadores do evento, a Petrobras e o BNDES, estão lá. Além disso, o Rio é a principal referência do audiovisual`.

O ímpeto de internacionalizar o Cine PE, que já rendeu a presença dos diretores Fernando Solanas e Costa Gavras, se materializa este ano numa mesa de co-produção Brasil/Itália. Descendente de italianos, não é de hoje que Bertini quer trazer o diretor Giuseppe Tornatore ao Cine PE e fazer conexões com o Festival deVeneza. ´Não vai ser desta vez, mas haverá produtores e um 'grande artista' vindo aí`.

Um pouco de história - Não deve ser coincidência o fato de Baile perfumado, o início da atual boa fase do cinema pernambucano, completar 15 anos junto com o Cine PE. Agora ele volta ao evento como homenageado, em cerimônia de encerramento, no dia 6 de maio.

´No primeiro ano não teve nem competição, foi uma mostra. A ideia foi fazer pequeno, como tantas outras mostras no Brasil. Fiz a programação sozinho. Não pensei que fosse ter a dimensão que ganhou`, diz Alfredo Bertini. ´O Baile ajudou muito, era o primeiro filme da 'terra' após muitos anos. Quando acabou, deu pra imaginar um festival maior no ano seguinte. Embora tivesse planejado para continuar no Cine São Luiz, tinha vislumbrado um evento maior`.

Anos antes, Bertini havia visitado o Festival de Gramado e teve a ideia de fazer algo semelhante no Recife, que conciliasse cinema, celebridades e turismo, como também fazem os festivais de Cannes e Veneza. ´Fiquei impressionado com Festival de Gramado. Até que uma TV de Porto Alegre me entrevistou e perguntou porque não havia um festival de cinema em Pernambuco. E pensei que a ideia era muito boa`.

A sessão de Central do Brasil, que tinha acabado de chegar premiado do Festival de Berlim, foi decisiva para o evento consolidar a fama de maior do Brasil. A mudança para o longínquo Teatro Guararapes se deu porque, às vésperas do evento, o grupo Severiano Ribeiro disse que não poderia manter as datas no São Luiz para prolongar o tempo de exibição de Titanic. ´Foi uma ação ousada. O desafio foi fazer no Guararapes, que nunca tinha recebido eventos de cinema, porque não era um local adequado, como não é até hoje. Mas conseguimos domina-lo tecnicamente`, conta Bertini. E o resto é história.

Um dos maiores do país - No panorama dos festivais fora do eixo Rio-São Paulo, o Cine PE figura entre os principais do país. No entanto, é comum ouvir críticas à qualidade de sua programação, principalmente, a de longa-metragens.

´Os realizadores independentes querem guardar seus filmes para estrear em Cannes, Berlim e Veneza. Depois não consegue colocar o filme no circuito e fica por isso mesmo. E os distribuidores de filmes comerciais evitam festivais porque temem a má recepção da imprensa`, explica Bertini. ´Digo que isso é uma bobagem, pois em algum momento a imprensa vai assistir aos filmes, mas não adianta. Ano passado só consegui O bem amado por causa de Guel, que não queria ser homenageado sem o filme. E Quincas Berro D'Água foi exibido na véspera de sua estreia`.

O problema não é só do Cine PE. Outros festivais do mesmo porte sofrem sintomas parecidos. Em busca de soluções, representantes de Paulínia (SP), Gramado (RS) e Brasília se reunirão durante o Cine PE. ´A minha sugestão é que os filmes que usam dinheiro público devem ser exibidos pela primeira vez no Brasil. Se a Petrobras e o BNDES patrocinam o festival, porque não posso passar os filmes patrocinados por eles? Hoje estamos baseados na relação que temos com diretores e produtores. Neste ano, um deles contrariou a determinação dos distribuidores e trouxe seu filme para o festival`.

Um festival de elogios e críticas

"Uma 'entidade' como o Cine PE, que existe há 15 anos com a qualidade da programação e a presença de um público expressivo e devoto, merece todo o nosso reconhecimento por seus benefícios prestados à cultura cinematográfica do nosso país. Parabéns pelo exemplar trabalho de toda a equipe. "

Fernanda Montenegro, atriz

"Desejo longa vida ao Cine PE. Tive a felicidade de participar de algumas sessões para o público caloroso que lota a sala de exibição. De fato, é uma experiência única ver tanta gente saboreando nosso cinema. Muita sorte para o Cine PE em seu aniversário de debutante! "

Selton Mello, ator

"Cine PE? Um festival de cinema que parece de rock, tamanha é a empolgação com que o público participa. Um festival que é o carnaval do cinema, um autêntico final de campeonato, um exemplo real de que o cinema brasileiro é uma das paixões nacionais. "

Guel Arraes, diretor de cinema e TV

"É inegável a contribuição do Cine PE para o fortalecimento da cultura cinematográfica no Recife. Tem como pontos positivos a realização de cursos, oficinas e seminários sobre políticas para o audiovisual. E sobretudo é um espaço privilegiado para os curtas. Quanto aos longas, infelizmente, o festival a cada ano vem se revelando um fiasco. Com exceção de um ou outro filme, a maior parte é composta por documentários enfadonhos e filmes de ficção medíocres. Não é novidade entre críticos e cinéfilos o questionamento dos critérios (ou a absoluta falta deles) para a seleção. O público também percebe isto. Tanto que muita gente abandona a projeção e prefere badalar na praça da alimentação."

Alexandre Figueiroa, professor e crítico de cinema

"Esperamos que o Cine PE continue a crescer com maturidade e bases firmes. O cinema pernambucano é reconhecido como um cinema inovador, criativo, de vanguarda. Por isso, talvez chegou a hora de rever o valor da Mostra Pernambuco, que deveria ser vista não só pelo grande público mas também pela imprensa especializada, profissionais de difusão e de festivais nacionais e internacionais. Também acho que a seleção nacional de curtas deveria ser feita a partir de outros critérios além da descentralização regional. Também acho que não deveria haver diferenças entre curtas digitais e 35mm. Eles poderiam se dividir entre ficção, documentário e animação."

Cynthia Falcão, documentarista

"Assim como o cinema pernambucano cresce, o Cine PE se consolida como janela de exibição para curtas e longas brasileiros que muitas vezes não chegam às salas de cinema. Mas esta potencialidade se dissolve porque não provoca uma discussão que contemple debates abertos ao público. Há ainda, a falta de premiação em dinheiro e a falta de um mercado de vendas e negociações de filmes. Desta forma ficamos numa eterna festa, que passa sem que fique algo de concreto para a formação audiovisual dos pernambucanos. "

Jura Capela, cineasta

"O Cine PE é muito importante para a cidade e para o mercado cinematográfico nacional. É interessante para o público local assistir a filmes antes deles entrarem em exibição no circuito. Para mim, que programo vários cinemas, serve para ter idéia dos longas que serão oferecidos pelas distribuidoras. Muitos deles foram lançados posteriormente. A presença de profissionais e os debates incentivam todos a participarem intensamente. Cada ano tem uma importância maior que a do anterior. "

Pedro Pinheiro, programador dos Grupo UCI Ribeiro

Linha do tempo do Cine PE

1997 - Baile perfumado, o primeiro longa feito em Pernambuco após 20 anos, marca a estreia do Festival de Cinema do Recife, no Cine São Luiz

1998 - Já no Teatro Guararapes, a maior atração foi a primeira sessão de Central do Brasil, após o filme de Walter Salles ter sido premiado em Berlim. Ao lado do marido Fernando Torres, Fernanda Montenegro foi ovacionada e disse nunca ter visto um público como o do festival; Grande vencedor, o longa A ostra e o vento, de Walter Lima Jr. é até hoje uma das sessões mais emocionantes do festival. O filme ganhou quatro Calungas: melhor filme, direção, fotografia e montagem

1999 - Os destaques deste ano foram os longas Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Massagão (melhor filme), e Ação entre amigos, de Beto Brant (melhor diretor)

2000 - Em sessão memorável, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, encerra o festival

2001 - O ano de Bicho de sete cabeças, de Laís Bodansky, que ganhou oito Calungas e marcou a consolidação de Rodrigo Santoro como ator de cinema

2002 - No elenco de O invasor (oito prêmios), Paulo Miklos e Sabotagem cantam no palco do Teatro Guararapes

2003 - O festival passa a se chamar Cine PE - Festival do Audiovisual; com nove prêmios, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, foi o grande destaque

2004 - O outro lado de rua, de Marcos Bernstein, traz Fernanda Montenegro de volta ao festival; Contra todos, de Roberto Moreira, é outro destaque

2005 - Com imagens inéditas de Chico Science, o curta O mundo é uma cabeça, de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz, foi a sensação; outros curtas locais se destacam: Fuloresta do samba, de Marcelo Pinheiro, Vinil verde, de Kleber Mendonça Filho, e Entre paredes, de Eric Laurence, são premiados; o documentário Do luto à luta, de Evaldo Mocarzel, (sete prêmios) foi o principal vencedor

2006 - Seis prêmios para Árido movie, de Lírio Ferreira, inclusive o de melhor ator para Selton Mello; a animação Wood & Stock, de Otto Guerra, rende prêmio de melhor atriz para Rita Lee

2007 - Cão sem dono, de Beto Brant, é o grande vencedor; Não por acaso marca a estreia de Phelippe Barcinski na direção e a volta de Rodrigo Santoro ao festival

2008 - Nossa vida não cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, é eleito o melhor filme

2009 - Diretor grego Constantin Costa Gavras é convidado de honra; Documentário Alô, alô, Terezinha!, de Nelson Hoineff, e Praça Saens Peña, de Vinícios Reis, dividem os Calungas; Superbarroco, de Renata Pinheiro, e Muro, de Tião, são destaques entre os curtas

2010 - Laís Bodansky repete o feito de 2001 e ganha oito prêmios por As melhores coisas do mundo; os curtas Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, e Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio de Lorena, levantaram o público; o encerramento marca o retorno do festival ao Cine São Luiz, agora restaurado.

(Diario de Pernambuco, 27/04/2011)

Mostra Pernambuco de cinema



Oficialmente, o calendário do Cine PE - Festival do Audiovisual se realiza entre 30 de abril e 6 de maio. Mas na prática, o festival começa amanhã, com a Mostra Pernambuco. Este ano a programação migra do Cinema São Luiz para o Cinema da Fundação, com entrada a R$ 4 e R$ 2 (meia) e consiste em nove curtas-metragens da recente produção local. Os melhores filmes serão eleitos por comissão julgadora formada pelo diretor Guilherme Fiuza (MG), Ivan Melo (diretor do Festival de Paulínia-SP) e pelo produtor e diretor Silvio Da-Rin (RJ).

Este ano não haverá prêmio em dinheiro, ao contrário do que vinha acontecendo há dois anos, em parceria com a Assembleia Legislativa. Isso explica a seleção de 2011 ser menos numerosa do que a de 2010, quando competiram 22 curtas, um média e dois longas-metragens. Não são poucos os profissionais a criticar a mostra, que poderia ser melhor divulgada e até incluída na programação oficial. Assim, mesmo sem o estímulo financeiro, os filmes seriam vistos por um público maior, formado inclusive por convidados de outros estados.

Como forma de protesto, alguns realizadores não selecionados para a mostra oficial preferiram guardar seus filmes para outros festivais. É o caso de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, que após exibir Praça Walt Disney na Mostra de Tiradentes, segundo Oliveira, está selecionado para a competição oficial de “um grande festival mundial”.

Por outro lado, para diretores iniciantes, a Mostra Pernambuco pode ser a oportunidade de mostrar seu trabalho. É o caso dos alunos da Aurora Filmes, que em Solar dos príncipes abordam as dificuldades de jovens negros moradores de favela realizarem documentário sobre a classe média alta. E do estudante de cinema Victor Dreyer, que exibiu Vodka pela primeira vez em novembro passado, no Festival de Vídeo de Pernambuco. O filme é um exercício de metalinguagem, em que um roteirista de cinema vive a história enquanto a escreve e personagens se misturam com membros da equipe de filmagem.

A seleção também inclui curtas de diretores premiados, como Marcelo Pedroso (Pacific), que apresenta Aeroporto, um experimento com fotos e vídeos feitos por viajantes e recriados na ilha de edição. Leo Falcão (TheLastNote.com) apresenta Palavra plástica, que aborda a visão de 20 artistas sobre a obra de Carlos Pena Filho. “Fui convidado pela Atma Promo para interagir com a exposição em memória dos 50 anos da morte do poeta, montada no Santander Cultural. Instituí que ele seria um documentário lírico, que experimenta linguagem. O curta se tornou a 21ª obra”, conta o diretor, que depois da exposição fez uma versão para cinema, selecionada pelo festival É Tudo Verdade.

Carlos Pena também é tema de É lá que eu vejo, de Mateus Sá, um dos artistas que participaram da exposição do Santander. O poeta ressurge na voz de Miró, Malungo, Francisco de Paula (Chicão) e Fernando Chile, que percorrem Olinda recitando o poema de mesmo nome.

Na sexta-feira entra em cena Bob Lester, baseado na história real de dançarino carioca que nos anos 30 integrou grupo de Carmem Miranda, aprendeu a sapatear com Fred Astaire, dançou em shows de Frank Sinatra e Doris Day e hoje, sem o devido reconhecimento, se apresenta nas ruas do Rio de Janeiro. “Para ser Bob Lester convidamos Stênio Garcia, que fez curso de sapateado com o sapateador inglês Steven Haper, que também é seu dublê no filme”, diz Hanna, que resume o curta como um filme sobre a solidão e o esquecimento.

Quinta, 28 de abril, 19h
Cinema americano, de Taciano Valério
Palavra plástica, de Leo Falcão
1:21, de Adriana Câmara
É lá que eu vejo, de Mateus Sá
Solar dos Príncipes, de Bruno Mendes e Henrique Eduardo

Sexta, 29 de abril, 19h
Diário de um Ator, de Cadu Pereiva
Bob Lester, Hanna Godoy e Mariana Penedo
Vodka, Victor Dreyer
Aeroporto, de Marcelo Pedroso

(Diario de Pernambuco, 27/04/2011)

domingo, 24 de abril de 2011

Cuidado que a Monga vem aí



“A Monga é uma consequência do nosso modo capitalista, explorador e consumista de viver”. Assim, direto ao ponto, o diretor Petrônio de Lorena define a personagem de seu novo curta. Selecionada para a mostra competitiva 35mm do Cine PE, Calma, Monga, calma! deve ser uma das sensações do festival. O filme é muito engraçado. E, ao mesmo tempo, bonito de ver. Anote aí: cenas da mulher-macaco atacando desavisados no cinema pornô, no ônibus bacurau e no cabaré ainda vão dar o que falar.

Ano passado, Petrônio já havia chamado atenção no Cine PE com o documentário sobre a cena brega Faço de mim o que quero, do qual é codiretor ao lado de Sérgio Oliveira. Agora ele retorna ao festival com obra que, em suas palavras, transita entre “o trash, o popular e o noir”. O elenco é liderado por Everaldo Pontes (Superbarroco), um policial dedicado a colocar a Monga (Hilda Torres) novamente atrás das grades.

Como bom noir, além do suspense, há a imprensa. No caso, a imprensa pernambucana, representada por Sérgio Dionísio, do programa Ronda Geral e Samir Abou Hana, que promove debate entre especialistas, incluindo um filósofo vivido por Jomard Muniz de Brito.

Enquanto isso, a Monga continua a fazer das suas na madrugada. Uma das vítimas é um emo (Grilowsky) que a confunde com um travesti na traseira de um bacurau. Sobrou para o cobrador (Miró) explicar o crime à polícia, o que gerou um dos melhores momentos do curta-metragem: um poema-desabafo sobre kombeiros acusados de matar duas meninas de classe média-alta.

Mas por que a Monga ataca? “Ela se rebelou contra a exploração sexual que sofreu nos parques de diversão e circos do interior”, conta Petrônio. “Do mesmo jeito, foi explorada nos empregos por onde passou. Ela teve até um momento áureo em Bollywood, fazendo pornôs, mas se viciou em drogas pesadas e adquiriu psicopatia por jovens varões recifenses. Ao mesmo tempo em que sente desejo, rejeita seu corpo peludo. Por isso a raiva”.

O inevitável paralelo com a realidade não demora a surgir. “A violência doméstica crescente e mortes passionais foram a minha inspiração. São surtos em que a gente se desconhece, motivados pelas pressões sociais, a necessidade de consumo, a exploração no trabalho, as frustrações amorosas. Nossa época mostra que de nada serviu todo o conhecimento acumulado pela humanidade”.

O próprio Petrônio já surtou como a Monga. Foi em 2007, durante o Atacadão dos Filmes, no Circo Voador (RJ). “Interpretei a macaca num julgamento de curtas, ao lado de Elke Maravilha e do professor Hernani Heffner. O evento era apresentado por Godô Quincas, que me sugeriu um filme com a Monga e assim começamos o roteiro”.

Calma, Monga, calma! foi rodado em película Super 16mm, ao custo de R$ 174 mil. O patrocínio é da Petrobras e prefeitura do Recife. O filme está quase pronto. Semana passada Petrônio finalizou o desenho de som e a mixagem. “Esta etapa deu cara ao filme”. Agora falta transferir para a bitola 35mm. Ou seja, Monga está quase pronta para soltar urros e rugidos também no Teatro Guararapes.

Ficha Técnica

Direção: Petrônio de Lorena
Roteiro: Petrônio de Lorena e Godô Quincas
Produção Executiva: Diana Iliescu
Direção de produção: Marilha Assis
Direção de fotografia e câmera : Ivo Lopes Araújo
Montagem: Çarungaua e Grilo
Som direto: Phillipe Cabeça
Desenho de som: Guga S. Rocha e Guma Farias,
Direção de arte: Diogo Todé e Maria Simonetti
Maquiagem: Gera Cyber
Figurino: Cecília Pessoa
Co-produção: Ginja filmes

Elenco: Godô Quincas, Hilda Torres, Everaldo Pontes, Grilowsky, Adilson Ferreira, Ramilson Gomes, Samir Abou Hana, Sérgio Dionízio, Tomás Nascimento, Jomard Muniz de Brito e Miró da Muribeca

(Diario de Pernambuco, 24/04/2011)

O incansável Chico Diaz



A média é de quase dois filmes por ano: são 55, em 29 anos. “Até agora”, diz o incansável Chico Diaz. Da estreia em As aventuras de um paraíba (1982) a O sol do meio dia (2010), de Eliane Caffé, podemos citar papeis memoráveis, como o açougueiro Wellington Canibal, vítima do assédio de Dunga (Matheus Nachtergaele) em Amarelo manga (2003).

Como o professor Paulo, protagonista de Praça Saenz Peña (2009), ganhou o prêmio de melhor ator no Cine PE - Festival do Audiovisual. Foi a segunda estatueta concedida pelo festival - a primeira foi em 1998, por Múcio, o pistoleiro de Os matadores.

Uma trajetória e tanto, que será reconhecida em homenagem na próxima edição do Cine PE. A aproximação com Pernambuco, aliás, rendeu bons momentos de sua carreira. Começou com o curta Cachaça, de Adelina Pontual, que o levou a Baile perfumado, Amarelo manga e Deserto feliz. Entre os projetos novos está o longa O último animal, do diretor português Leonel Vieira, que deve iniciar as filmagens em agosto, no Rio de Janeiro.

Enquanto isso, Chico cuida de seu monólogo, A Lua vem da Ásia, onde versa sobre razão e loucura através de Astrogildo, um aluno que mata o professor de lógica. A peça, que já passou por Brasília, Rio e São Paulo, rendeu elogios da presidente Dilma. Na entrevista a seguir, é o próprio artista quem conta essa história.

Entrevista // Chico Diaz: "A pátria artística que me fez é nordestina"

Você nasceu no México. Como veio para o Brasil
Sou brasileiro nato, pois minha mãe nos registrou na Embaixada do Brasil. Morei na Costa Rica, Peru, Estados Unidos, com férias em Ribeirão Preto e Assunção, no Paraguai, país de meu pai. Ele trabalhava na OEA, de onde se explica esse périplo pelos países e o fato de meus irmãos terem outras naturalidades. Em 1968 chegamos no Rio de Janeiro, de onde, com exceção de meu pai, nunca mais saímos.

Como foi a sua formação?
Fiz arquitetura, porque naquele tempo ser artista era coisa de maluco. Hoje em dia isso é uma bela credencial, apesar de não querer dizer nada. A não ser que você tenha realmente algo para dizer, e para isso você tem que saber ficar calado. Pode parecer paradoxal mas é assim que vejo.

Por que você decidiu ser ator?
Não sei te dizer ao certo. Naquela época, havia sombras silenciosas, gente apanhando e sumindo, as ideias eram veladas e me parecia que a arte, a alegria, o lúdico e a imaginação poderiam ser mais interessantes na medida que congregava as pesssoas.

Como foi o começo?
Em um colégio, o Souza Leão, apareceu um fiscal de disciplina chamado Carlos Wilson, vulgo Damião, que era ator de O Tablado e desencaretou o fazer teatral na Zona Sul. Fundamos um grupo com pretensões circenses chamado Manhas e Manias, com José Lavigne, Andréa Beltrão, Débora Bloch, Pedro Cardoso. Foi minha verdadeira escola, pois faziamos tudo. Por ali mesmo houve possibilidade de participar de O sonho não acabou, de Sérgio Rezende. Daí o vento foi um só, generoso e cálido.

Baile perfumado completa 15 anos e também será homenageado no Cine PE. Que lembranças você guarda do filme?
Da garra, da inteligência e da vontade de se fazer, independentemente de como. Me lembrou muito os tempos do Manhas e Manias. Me lembro do convite sendo feito e me lembro do Cláudio Assis por ali, assuntando possibilidades futuras. Já havia um embrião do que é o cinema pernambucano hoje, com seu vigor e fúria. Fiquei muito orgulhoso quando vi o Baile ganhando prêmio no Festival de Brasília.

Qual sua opinião sobre o cinema feito em Pernambuco?
Sem dúvida é dos mais interessantes no Brasil. Não só o cinema, mas tudo o que diz respeito às artes. Pena é não poder aprender mais com vocês, pois a vida impede. Mas minha admiração é tremenda. Aliás, dizem que sou mexicano, mas eu digo a pátria artística que me fez é nordestina.

Você tem uma longa história com o Cine PE, onde já foi premiado duas vezes. Que lembranças você guarda?
Foram momentos de reconhecimento e gratidão, porque as pessoas acham que é fácil ter um diagnóstico sobre determinado personagem e, consequentemente, sobre sua gente. Mas, se o personagem não representa ninguém, perde a força. As pessoas dizem que nós, atores, representamos personagens. Mas, se eles não representarem a gente, não há porque fazê-los. O corte tem que ser dado ali na raiz, aonde o personagem se torne representativo.

Certa vez Paulo César Peréio disse que faz filmes por identificação com o cinema, porque dinheiro ele ganha com publicidade e TV. Como você vê essa relação?
Acho importante o ator ter curiosidade e se garantir em todas, pois para cada uma existe demanda. No teatro temos os deuses ali perto, os verdadeiros deuses em frente à plateia, sem rede de proteção. Na TV, os deuses são outros e lidamos com ritmo industrial e visibilidade continental, é o olho do furacão. E o cinema exige um conhecimento técnico profundo, aonde a espera e discussão são grandes, sabe-se lá quando o filme vai ficar pronto. Sou muito agradecido a ele, pois nas horas mais duras ele me pegou e levou para uma locação e fez humildemente reconhecer o caminho e a estrada necessárias que me trazem agora ao Recife.

Como tem sido a experiência com o monólogo?
Não poderia ser melhor, pois é fruto de uma ânsia de liberdade criativa que consegui realizar. Uma espécie de graduação, da qual muito me orgulho. A solidão dos dias que correm, a nossa condição no mundo, o tênue limite entre lucidez e loucura, consciência e inconsciência, liberdade e prisão, presentes no texto tem feito com que as pessoas se identifiquem, questionem e reflitam. Isso para mim é o bom teatro.

Na estreia do espetáculo, você foi recebido por Dilma no Planalto. Depois ela o visitou no camarim. O que foi dito nos encontros?
No Planalto Saudamos o teatro, o cinema, as artes em geral e suas impressões sobre a obra de Campos de Carvalho. No teatro falamos sobre a excelência do texto e adequação aos dias de hoje, apesar de ter sido escrito em 1956. Ela já conhecia o autor e gostou demais do que viu, o que me deixou muito orgulhoso e feliz.

(Diario de Pernambuco, 24/04/2011)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Antes que o mercado ditasse as regras


Crítico e realizador, Celso Marconi é uma das fontes que resgatam a memória cinéfila.
Imagem: BLENDA SOUTO MAIOR/DP/D.A PRESS


São Saruê. Vigilante Cura. Macunaíma. Siri. Projeção 16. Vagalume. Leila Diniz. Jurando Vingar. Revezes. Barravento. Não são poucos os cineclubes que marcaram época em Pernambuco. Apesar da forte tradição e das histórias que se confundem com a do próprio cinema, não há registro suficiente dessa trajetória. Para suprir essa lacuna, está em andamento o projeto Memória do Cineclubismo Pernambucano.

A partir de 32 entrevistas, a atividade será mapeada de 1943, quando o Cine Siri foi fundado, até 2007, um ano antes da criação da Federação Pernambucana de Cineclubes (Fepec), da qual o coordenador do projeto, Gê Carvalho, é presidente. O resultado será editado em formato de e-book, que ficará disponível em site próprio. Tudo está sendo realizado com R$ 25 mil, disponibilizados por edital do Funcultura.

Até o momento, 19 depoimentos foram recolhidos, entre eles, o de Fernando Spencer, Osmar Barbalho, Alexandre Figueirôa, Hugo Caldas, Alex, Nilton Pereira, Geraldo Pinho, Paulo Cunha e Kátia Mesel. Até mês que vem, será a vez de Geneton Moraes Neto, Marcelo Gomes e Cláudio Assis.

Em entrevista ao projeto na última quarta-feira, o crítico e realizador Celso Marconi assim explicou a atração local pelo cineclublismo: “Pernambuco tem uma ligação com o pensamento ideologizado. Isso nos leva a certas modificações, não só nos cineclubes. Nossos filmes demonstram isso por não seguirem as leis do mercado”.

Marconi não chegou a participar de nenhum cineclube, mas acompanhou todos como jornalista e programador da Sessão de Arte ao lado de Fernando Spencer, que ao longo de uma década lotou os cinemas Soledade, Trianon, São Luiz, AIP, Parque e Coliseu. “Nossa filosofia era a mesma dos cineclubes. Exibir filmes que possam provocar discussão”. E diz que, apesar das mudanças de contexto político e ideológico, a função da atividade continua a mesma: a busca da conscientização. “A ditadura acabou com o debate, os cineclubes acabaram por um tempo. E hoje quem manda não são as armas, mas o mercado”.

Gê Carvalho encontrou no depoimento de Celso pistas para seguir em frente na investigação. “Ele citou nomes importantes, como os de Nelson Simas, Pedro Arão, Valdir Coelho e Vital Santos”. Apesar da pesquisa estar em estágio avançado, não foram encontrados dados sobre alguns cineclubes, como o São Saruê e Macunaíma, falta que deve ser resolvida até o fim das entrevistas. Informações a respeito destes e outros cineclubes podem ser enviadas para nanoproducoes@yahoo.com.br.

(Diario de Pernambuco, 22/04/2011)

Cinema São Luiz em manutenção



Sem que muita gente desse falta, há duas semanas o Cinema São Luiz deixou de funcionar. Inicialmente o motivo seria a manutenção do equipamento de som, mas a situação piorou com a falência do sistema de ar-condicionado, o mesmo desde a inauguração da sala, em 1952. A expectativa era que tudo se resolvesse logo, mas a previsão agora aponta para o dia 6 de maio. Até lá, também serão feitos reparos no forro e telhado. Na melhor das hipóteses, são 30 dias com as portas fechadas.

A notícia foi anunciada pela Fundarpe junto com a escalação do novo programador, Geraldo Pinho. Ele substitui Lula Cardoso Ayres Filho, que deixou a função em outubro do ano passado após série de turbulências entre ele e a Fundarpe, responsável pela administração do São Luiz, que chega a 2011 sob a égide da inconstância e improviso. É uma bela sala, talvez a mais bonita do país. Mas para fazer jus à fama, ou seja, voltar a ser cinema, precisa reavivar a relação com o público.

O trabalho é delicado e foi assumido por Pinho como um desafio e uma honra. Paulista de Santos, sua história se cruzou com a do São Luiz pela primeira vez em 1962. O filme em cartaz era La violetera (Espanha, 1958). “Na época ele tinha um bebedouro de mármore. É um cinema ímpar, pois foi projetado para ser isso, em vez de ser adaptado, como outros foram. Nunca deixei de frequentá-lo, mesmo durante a decadência”.

Gestor do Museu da Imagem e do Som, Pinho acumula cargos e diz que vai se empenhar para que o São Luiz volte a ser um cinema de referência. Para tanto, pretende voltar em maio com um filme inédito na cidade: Um lugar qualquer (Somewhere, EUA, 2010), de Sofia Coppola. “O São Luiz não é uma praça com chafariz, onde as pessoas se encontram para tirar fotos. Ele é um cinema e precisa se afirmar como tal, ter programação constante, som e imagem de qualidade, bom atendimento”.

É pena, mas os 30 dias de “molho” não serão usados para incrementar a potência da luz, limitada a três mil watts. “Quando o São Luiz fechou, a lâmpada era de dois mil watts. Quando assumiu, a Fundarpe passou para três mil, que é o máximo que o projetor aguenta”, explica Pinho. “Quatro mil seria a potência ideal para o espaço, mas para isso é preciso modificar a lanterna”.

Por enquanto, a prioridade será investir na programação diária e infantil, reservada para as manhãs de domingo. Quando estas estiverem fortalecidas, haverá tempo para clássicos, mostras e eventos como a extensão recifense do Festival Mix Brasil, sucesso de público nos anos 1990, quando Pinho era responsável pelo Cineteatro do Parque. “Quero exibir trailers dos filmes que vão entrar em cartaz. Cinema tem que anunciar os filmes que entram ‘a seguir’, para fidelizar o público”, diz o programador.

Diretrizes estabelecidas pela Fundarpe serão contempladas, como a exibição de filmes nacionais e a agenda de festivais e eventos formativos. No entanto, Pinho que isso não pode engessar o cinema. “Vou atender a demanda da melhor maneira, mas é preciso entender que o São Luiz é um cinema, e que portanto, precisa funcionar todos os dias. Um evento de três dias, por exemplo, pode matar o filme em cartaz”.

E que tipo de filmes podemos esperar? “De todo o tipo. Só não trabalho com lixo, norte-americano ou de qualquer outro país. Cinema público tem o dever de formar plateias. De passar filme experimental, que pode não atrair muito público, mas que faça as pessoas assistir algo diferente”. Após o filme de Coppola, a intenção é exibir o inédito (e indicado ao Oscar) Inverno da alma (Winter’s bone, EUA, 2010), de Debra Granik.

À procura de seu público, Pinho assim o define: “uma mistura de cinéfilo com ‘cinemeiro’, sem preconceito, que arrisca assistir filmes desconhecidos, mesmo que não goste do que viu. Esse público existe e precisa ser reunido”. E convoca a população para que volte a frequentar o palácio do cinema. “Para que o São Luiz possa retomar sua grandeza e volte a ser um cinema que nos dê orgulho”.

(Diario de Pernambuco, 22/04/2011)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Livros... minha vida!: Literatura em quadrinhos Domínio Público

Livros... minha vida!: Literatura em quadrinhos Domínio Público: "Parabenizo todos os que participaram desse projeto!!!
Os contos literários e os poemas adaptados para Histórias em Quadrinhos foi uma excelente forma de expressão, de intertextualidade, de inovação...
Trabalhei com "A Cartomante" de Machado de Assis por Kleber Sales e André Dib e os alunos adoraram. Além disso, incentivou aqueles alunos que gostam de desenhar a ler outros contos e adaptá-los também para HQ."

Coluna de lançamentos, bastidores e "eu indico" da semana

Lançamentos



O garoto de Liverpool (Nowhere boy, Inglaterra, 2010). De Sam Taylor Wood. 98 minutos. Imagem.

Bela reconstituição da juventude e formação artística de John Lennon, vivido por Aaron Johnson (Kick-ass). Na adolescência, o futuro astro vive entre duas mulheres: a severa Tia Mimi (Kristin Scott Thomas) e a mãe afeita à boemia Julia (Anne-Marie Duff), a quem redescobre aos poucos, após ter sido abandonado quando criança. O longa também mostra momentos-chave para a formação dos Beatles, como o encontro com Paul e George.



O pior trabalho do mundo (Get him to the Greek, EUA, 2010). 109 minutos. Universal.

Russel Brand é Aldous Snow, rockstar retirado de ostracismo por Aaron Green (Jonah Hill), fã careta, confesso e feliz por ter sido escalado pela gravadora onde trabalha para escoltar o ex-astro da Inglaterra para Los Angeles. Entre festas, drogas, quartos de hotel destruídos e voos atrasados, a relação entre eles é tensa até que o produtor também entra no embalo. O filme acerta no tom de comédia fofinha, sem mais pretensões.



Um homem misterioso (The american, EUA, 2010). De Anton Corbijn. 105 minutos. Universal.

Diretor de videoclipes, o holandês Corbijn já havia feito a ficção Control (2007), sobre Ian Curtis, o mítico vocalista do Joy Division. Agora ele sai do universo musical para suposto “thriller europeu” estrelado por George Clooney. Em boa atuação, ele interpreta especialista em armas norte-americano, que se apaixona por garota local enquanto aguarda instruções da próxima missão em vilarejo na Itália.

Eu indico



Recomendo o documentário Pasolini, um delito italiano (Italia, 1995), de Marco Tullio Giordana. É muito interessante porque é um dos raros documentários que podem causar fascínio para além do seu tema, ou seja, pelo tratamento a ele dado – além de ser uma ótima reconstituição da morte de Píer Paolo Pasolini e dos tortuosos jogos de interesse que se relacionam a esta morte, que marcou toda uma geração.

Josias Teófilo, fotógrafo

Bastidores

Panorama - Sérgio Dantas, gerente de audiovisual da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (FCCR), voltou do É Tudo Verdade com novidades. Ele e o diretor do festival, Amir Labaki, conversaram sobre possível parceria para o Panorama Recife de Documentários, que neste ano deve retomar as atividades.

Cine PE 1 - Matéria publicada neste caderno sobre os 15 anos do Cine PE (domingo, 10 de abril) causou polêmica em evento na Faculdade Maurício de Nassau. Na última sexta-feira, um aluno de cinema leu em voz alta depoimento em que Alexandre Figueiroa questiona os critérios para a escolha dos longas. Presente no debate, Sandra Bertini respondeu que o festival fica à mercê da safra anual de filmes nacionais.

Cine PE 2 - A BPE Produções começou a vender ingressos para as mostras competitivas e especiais do 15º Cine PE - Festival do Audiovisual. Pontos de venda: Disk Ingressos (3222-8699) e Castigliani Cafés Especiais (Fundaj/Derby). Os preços: R$ 8 e R$ 4 (meia).

Cururu - Enquanto isso, a Mostra Sapo Cururu prepara exibição de Os Sertões, versão filmada da peça de Zé Celso Martinez Corrêa. Os shows serão de Johnny Hooker e Má Companhia.

Pêsames - Morreu na última terça a figurinista Carminha Tabosa, vítima de ataque cardíaco, esposa do chefe eletricista João Sagatio. Segundo amigos, ela foi o motivo para Sagatio sair de São Paulo para o Recife. A ele, nossos pêsames.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lilith segundo o cinema



Há dois anos, quando lançou As filhas de Lilith, a escritora Cida Pedrosa não esperava que suas peraltices poéticas poderiam ser recriadas no cinema. Pois em breve, suas 26 insubmissas mulheres que passeiam pelo alfabeto se libertarão sem culpa do papel para ganhar forma visual na mostra Olhares sobre Lilith. De A a Z, 23 cineastas assinam os vídeos, realizados em diferentes formatos, da ficção ao documentário, da animação à foto stop-motion.

Mas há tantas mulheres assim fazendo cinema em Pernambuco? A pergunta, dizem as coordenadoras artísticas do projeto, Alice Gouveia e Tuca Siqueira, é recorrente. Sim, há mais mulheres filmando no estado do que letras no alfabeto. Oito delas, diz Tuca, lamentavelmente ficaram de fora por imposições de agenda, entre elas, Renata Pinheiro, Isabela Cribari, Adelina Pontual, Germana Pereira e Taciana Oliveira.

Alice diz não há amarras estéticas ou conceituais impostas às diretoras. "O que há é a tentativa de construção de um olhar feminino no cinema pernambucano, um cinema que é mais conhecido por ser feito por homens". Em exercício de desprendimento, Cida disse que liberou as meninas para fazerem o que quiserem com suas personagens: "se colocar limite, a criatividade vai pro brejo". Tuca revela que, mesmo assim, Cida é procurada o tempotodo pelas diretoras e tem sido parceira para buscar novos apoios e parcerias para o projeto, que por enquanto conta com recursos do edital do Funcultura.

A mais recente é a do escritor Marcelino Freire, que vai assinar um dos textos da exposição, marcada para agosto. Em novembro,o projeto vai a São Paulo, onde participa da Balada Literária. "Adorei o convite, me senti instigado em ser o único homem, me senti acolhido num grande ventre. Sempre gostei do livro, que é muito bonito, tem sexualidade e erotismo. Então imagine várias mulheres fazendo isso no cinema. Estou curioso pra ver o resultado".

Na exposição, cada vídeo terá de um a três minutos de duração e serão vistos em múltiplas telas com fones de ouvido. Mas Alice pensa também numa edição posterior, que podegerar um longa-metragem. O formato final do projeto, no entanto, será o de DVD, que servirá de catálogo. "Isso permite que ele seja exibido em salas de aula e associações", diz Tuca. "E percorrer cidades do interior do estado", completa Cida.

De forma independente, cada diretora está livre para inscrever seus trabalhos em mostras e festivais. Mariana Porto, por exemplo, planeja fazer um corte de 15 minutos para Zenaide, define ela, um documentário que "constroi uma mulher fictícia, que é todas e nenhuma". No poema, Zenaide se casa aos 20 anos, como quem compra uma bicicleta, em 1964. Mariana entrevistou então sete mulheres que tinham essa idade naquela época. "Procurei conectar o casamento e sexualidade, o corpo feminino e suas relações com o poder e a ditadura. Minha hipótese é a de que a subjetividadeda mulher tem sido definida a partir do olhar do homem e isso é algo que aflige as mulheres de todas as épocas".

Saiba Mais

Os poemas, as diretoras

Angélica / Débora Brennand
Berenice / Cynthia Falcão
Cecília / Manuela Piame
Diana / Camila Nascimento
Elisa / Alice Gouveia
Fátima / Mariana Lacerda
Grace / Geórgia Alves
Hilda / Mariane Biggio
Ívis / Tuca Siqueira
Juanita / Andréa Ferraz
Khady / Hanna Godoy e Márcia Mansur
Luísa / Alice Chitunda
Melissa / Silvia Macedo
Nely / Tuca Siqueira
Ofélia / Mannu Costa
Patrícia / Clara Angélica
Quima / Paula de Melo
Rosana / Kátia Mesel
Sihem / Séphora Silva
Tereza / Alice Gouveia
Úrsula / Luci Alcântara
Verônica / Cecília Araújo
Wilma / Eva Jofilsan
Xênia / Maria Pessoa
Yara / Sandra Ribeiro
Zenaide / Mariana Porto

domingo, 17 de abril de 2011

Na vanguarda da arte gráfica



Samuca Andrade, da equipe de arte do Diario, foi um dos destaques do World Press Cartoon 2011, realizado em Sintra, Portugal, no último 8 de abril. Trata-se do mais importante salão editorial do mundo, que premiou Samuca com o primeiro lugar na categoria desenho de humor. A obra, publicada em março de 2010 na página Opinião, é intitulada Pedofilia e faz referência à série de escândalos envolvendo líderes da Igreja Católica, acusados de abusar sexualmente de crianças e adolescentes. O prêmio máximo foi concedido ao australiano David Rowe, pela arte editorial Wikileaks and Uncle Sam, publicado em dezembro no jornal The Sun-Herald, que mostra Julian Assange descortinando o Tio Sam para o mundo.

“É um dos salões mais organizados de que eu já participei. Desde o corpo de jurados, formado por cartunistas consagrados, à cerimônia rigorosa, que só revela a colocação do artista na hora da premiação”, diz Samuca. Sobre sua charge, ele conta que fez no auge da cobrança internacional para que o papa se posicionasse sobre o assunto.

“Fiz os padres como se fossem suspeitos aguardando identificação durante inquérito policial, por isso todos estão de frente e o criminoso se denuncia com a chupeta no lugar do crucifixo. Outros detalhes foram pensados, por exemplo, o fundo foi concebido como um cálice, que faz um degradê que vai do vinho para o sangue, símbolos caros para o catolicismo”.

Escolhidos entre 822 inscrições, de 462 autores de 70 países, todos os trabalhos de artistas do Diario foram selecionados pelo WPC 2011: três de Samuca; três de Jarbas, premiado em 2010 com o segundo lugar na categoria editorial e este ano com menção honrosa por desenho sobre a fome; uma caricatura de Greg sobre Maradona e uma arte editorial de Christiano Mascaro sobre o Twitter.

Clique aqui e confira galeria

Eles participam de exposição, aberta até 30 de junho, no Museu de Arte Moderna de Sintra e depois em outras cidades de Portugal e da Espanha. E também podem ser vistos em catálogo com 401 obras destacadas pelo salão, que pode ser encomendado pelo site www.mediabooks.com.

Pelo quinto ano consecutivo sendo contemplado pelo WPC, evento criado para prestigiar o desenho de humor na imprensa, o Diario se reafirma enquanto veículo capaz de unir a urgência da notícia com a vanguarda das artes gráficas. Isso o coloca no nível de publicações como Le Monde, El País, Financial Times e The Independent.

A valorização do humor gráfico na mídia é vista por Samuca como rara e digna de respeito. “No Brasil temos o Salão de Desenho para Imprensa do Rio Grande do Sul e o Salão Carioca de Humor, que tem uma categoria para desenhos já publicados. Mas a regra para os salões é o ineditismo e isso pode ser um problema para a charge, que tem tempo de validade. Sem falar que eventos para trabalhos publicados incentivam tanto o profissional quanto a publicação”.

(Diario de Pernambuco, 07/04/2011)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A noite carioca do Cine PE

A organização do Cine PE – Festival do Audiovisual anunciou sua programação principal na sede do Oi Futuro Ipanema, na última terça-feira. Alguns famosos renderam certo interesse para a mídia de celebridades, como Ney Latorraca, Bruno Garcia e Marcos Palmeira. Para os pernambucanos, no entanto, o lançamento não acrescentou muitas novidades, a não ser uma programação de longas que, com uma ou outra exceção, não corresponde à grandiosidade do evento. As demais informações, como a programação de curtas e as homenagens a Pelé, Wagner Moura, Chico Diaz, Vânia Debs, Camila Pitanga, Zelito Viana, a Revista de Cinema e ao governador Eduardo Campos, já haviam sido noticiadas.

A cerimônia no Rio também incluiu o lançamento do vídeo publicitário, onde, sob trilha sonora que remete a 2001 – Uma odisseia no espaço, um ovo se quebra no ar e, com música baseada em Pulp fiction, 007, Easy rider e Titanic, é preparado um bolo de debutante. São 15 anos de Cine PE, assim como do longa Baile perfumado, símbolo maior da retomada do cinema pernambucano, que será lembrado em homenagem, na noite de encerramento. A morte recente do diretor de fotografia do filme, o mineiro Paulo Jacinto dos Reis (mais conhecido como Feijão) foi lembrada por Bertini e lamentada por Lírio Ferreira, que, apesar do luto pela perda do amigo, compareceu ao evento. “Quando me mudei para o Rio, morei com ele em seu apartamento. Depois veio Paulo Caldas, que ficou lá até se casar”, lembra o cineasta. Feijão fotografou todos os filmes de Caldas: O rap do pequeno príncipe, Deserto feliz e o inédito País do desejo.

Dos sete longas da programação, todos inéditos, cinco disputam o Calunga: a comédia paulista Família vende tudo, de Allain Fresnot, com Luana Piovanni, Caco Ciocler e Lima Duarte; o documentário carioca Casa 9, de Luiz Carlos Lacerda, sobre a mitológica residência que recebeu vários artistas nos anos 1970, entre eles Lenine; o doc pernambucano JMB, o famigerado, de Luci Alcântara; a ficção paulista Estamos juntos, de Toni Venturi, com Leandra Leal e Cauã Reymond; Casamento brasileiro, de Fauzi Mansur; e a ficção carioca Vamos fazer um brinde, de Cavi Borges e Sabrina Rosa. Fora de competição serão exibidos O teatro de Augusto Boal (RJ), de Zelito Viana, e O rochedo e a estrela (PE), de Kátia Mesel.

Marcada para 28 e 29 de abril, no Cinema da Fundação, a Mostra Pernambuco este ano está reduzida a nove filmes: Cinema americano, de Taciano Valério; Palavra plástica, de Leo Falcão; 1:21, de Adriana Câmara; É lá que eu vejo, de Mateus Sá; Solar dos príncipes (PE), de Bruno Mendes e Henrique Edurado; Diário de um ator, de Cadu Pereiva; Bob Lester, de Hanna Godoy e Mariana Penedo; Vodka, de Victor Dreyer; e Aeroporto, de Marcelo Pedroso.

Sediados no Recife Palace, o hotel do festival, os seminários serão entre 3 e 5 de maio. O principal discutirá coprodução internacional Em conversa com Bertini, a reportagem do Diario apurou que a Mostra Pernambuco voltou para o Cinema da Fundação porque o “estado do Cinema São Luiz voltou a ser crítico”, ou seja não tem condições técnicas de receber o evento. E que, após o festival, os filmes vencedores serão exibidos no teatro do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem.

(Diario de Pernambuco, 14/04/2011)

Coluna de lançamentos da semana + notas de bastidores + "eu indico"



O coco, a roda, o farol e o pneu (Brasil, 2009). De Mariana Fortes. 80 minutos. Videofilmes.

Batuque - Uma vez por ano, moradores do bairro do Amaro Branco, em Olinda, se reúnem para festa que ficou conhecida como o Coco do Pneu. O documentário apresenta este como o ponto culminante de uma tradição secular, a partir do dia a dia de seus protagonistas, músicos, donas-de-casa e pescadores. Depoimentos de mestres como Ana Lúcia, Ferrugem, Pombo Roxo e Beth de Oxum dão legitimidade ao projeto.



Machete (EUA, 2010). De Robert Rodriguez. 108 minutos. Sony.

Chicano - Danny Trejo, ator-fetiche de Rodriguez (Planeta terror) é o heroi desta cômica e absurda vingança contra o xenofobismo dos EUA. Na fronteira do México, ex-policial é contratado para matar senador extrema-direita (Robert De Niro). Antes, precisa enfrentar líder do tráfico (Steven Seagal) e escapar de policial honesta (Jessica Alba). Lindsay Lohan em cena lésbica e vestida de freira enquanto atira são apenas uma amostra do espírito zombeteiro que baixou no diretor.

Eu indico



Depois de Horas (After hours, EUA, 1985), de Martin Scorsese. Por tudo. O começo despretensioso que não deixa vislumbrar o que vem depois e... o que vem depois: um louco turbilhão onde tudo acontece e ninguém sabe o que de mais bizarro pode acontecer ao protagonista. O final é ótimo, Rosanna Arquette é o que é e Scorsese é maluco. Só vendo.

Samuca Santos, poeta

Bastidores

Oscar brasileiro - Pernambucanos em peso na lista do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, foi indicado a melhor filme, diretor e roteiro; O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira, a documentário; Irandhir Santos, a coadjuvante por Tropa de Elite 2; Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, a curta de ficção; Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante, e Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio de Lorena, a curta documentário. Cerimônia de entrega será em 31 de maio.

Papa tudo - Rio, de Carlos Saldanha é a melhor abertura do ano nos cinemas brasileiros, onde estreou em 1013 salas. A animação atraiu 1,1 milhão de pessoas aos cinemas, o que gerou receita de R$ 13,7 milhões. No mundo, Rio estreou em 11,6 mil salas de 72 países. Somente neste fim de semana, o faturamento foi de US$ 55 milhões. Isso porque a Fox ainda não lançou o produto no mercado norte-americano, onde estreia amanhã.

Lígua mãe - Na próxima segunda, no Cinema da Fundação, será lançado o longa documentário Língua mãe, de Leo Falcão e Fernando Weller. O filme é baseado em espetáculos e oficinas de Naná Vasconcelos para crianças brasileiras, angolanas e portuguesas. Durante o evento, além de conversa entre público e realizadores da D7 Filmes, haverá pocket show com Naná.

Luto - Uma lágrima para a estudante Nanda Mateus, brutalmente assassinada na tarde da última terça. Seu talento merece ser conferido no curta-metragem Júlia e o porco, um experimento ousado e bem-humorado que recebeu menção honrosa no último Festival de Vídeo de Pernambuco. Fica a dica para uma homenagem nas próximas mostras de cinema.

sábado, 9 de abril de 2011

Scott Pilgrim como forma de ver o mundo



Não muito tempo atrás, no misterioso território de Toronto, Canadá, Scott Pilgrim encontra Ramona Flowers. Ela é durona e bonita. Ele a quer mais do que tudo e para isso precisa derrotar sete ex-namorados da garota. Eis o argumento de Scott Pilgrim contra o mundo (Scott Pilgrim vs. the world, EUA, 2010), de Edgar Wright, um poderoso tratado sobre ter 20 e poucos anos no século 21.

Ao incorporar elementos de videogame, séries de TV e histórias em quadrinhos, o filme olha de igual para igual para essa juventude. Quase não há referências de gerações anteriores, com exceção dos nomes dos colegas de Scott, Young Neil e Stephen Stills, tributo aos veteranos músicos canadenses e um trecho da música Teenage dream, do grupo glitter setentista T.Rex.

Coisa rara em filmes que adaptam quadrinhos, a narrativa flui entre brigas estilo Street Fighter e atrapalhadas declarações de amor. A montagem é fabulosa, no sentido de costurar diferentes situações e cenários como parte da mesma ação, de acordo com o desalento temporal do personagem. A escolha dos atores é mais do que acertada, principalmente Michael Cera (Juno) no papel principal.

Ao mesmo tempo em que entra no circuito Sessão de Arte dos cinemas UCI Ribeiro (sessão amanhã, 12h, no Plaza, segunda, às 19h, no Tacaruna e quinta às 20h30 no Multiplex Boa Vista), Scott Pilgrim acaba de chegar ao mercado de DVD e Blu-ray pela Universal, que entra na brincadeira ao iniciar o filme com versão pixelizada e som midi da sua clássica abertura. Logo depois, os créditos iniciais com abstrações coloridas fazem do filme uma viagem sem volta. Diversão garantida.



Adaptação - Criado pelo canadense Brian Lee O'Malley, a ´preciosa vidinha` de Scott Pilgrim veio ao mundo em 2004, inspirado em canção da girlband canadense Plumtree. Rendeu série de seis volumes, lançados até o ano passado. No Brasil, a HQ foi editada pelo selo especializado da Companhia das Letras, a Quadrinhos na Cia., que na próxima sexta-feira encerra a série ao lançar os dois últimos tomos compilados no mesmo livro.

Nos quadrinhos há passagens e personagens que não existem no filme, como o surpreendente pai da adolescente Knives Chau e a via crucis de Scott à procura de emprego. O traço que mistura quadrinhos ocidentais e orientais de O'Maley se explica pelo ´Lee` de seu nome. Descendente de japoneses, ele é aficcionado por mangá. Assim como por música, não por acaso, o eixo pelo qual gira o universo de Scott e da sua banda indie, a Sex Bomb-Omb. A internet não poderia ficar de fora e referências a ela estão em detalhes como tarjetas que apresentam a idade e ´status` de Scott e seus amigos e inimigos.

Scott Pilgrim contra o mundo é talvez a obra que melhor represente os comportamentos desencanados social e sexual da juventude contemporânea - desconectada do mundo ´adulto`, com déficit de atenção e desajustada emocionalmente. Sintomas que confrontam Scott mais do que qualquer ex-namorado do mal que sua amada Ramona possa trazer do passado. Enquanto ele próprio for seu maior inimigo, não há como ganhar vida extra e continuar jogando.

(Diario de Pernambuco, 09/04/2011)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Nem tudo são flores no Rio de Carlos Saldanha



Chega hoje aos cinemas a aguardada animação Rio, dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha. A produção é da norte-americana Fox, que preparou o maior lançamento do país, onde estreia em nada menos que mil salas. No Recife, são 23 cópias dubladas e legendadas, seis delas em 3D.

Saldanha teve a ideia de realizar o projeto em 2002, mas somente após o sucesso obtido com A era do gelo 2 e 3 que se credenciou para viabilizar seu longa mais pessoal. Ao mesmo tempo, trata-se de potente produto comercial, capaz de lucrar tanto em bilheteria quanto em merchandising.

O personagem principal é uma ararinha azul em extinção (voz original de Jesse Eisenberg), a quem encontramos ainda filhote, na exuberante Mata Atlântica. Capturada por traficantes de animais, ela se perde em algum quadrante do Minnesota, onde é salva pela garota Linda (Leslie Mann), que a batiza de Blu (não por acaso, Saldanha trabalha no Blue Sky Studios).

Domesticado a ponto de não saber voar, Blu é convocado a voltar para o Brasil para se acasalar com uma das últimas espécimes femininas de sua raça, a briguenta Jade (Anne Hataway) e assim garantir o futuro da espécie. Acompanhados pelo brasileiro Tulio (Rodrigo Santoro), Blu e sua dona chegam no Rio durante o Carnaval. Na "cidade maravilhosa", estranham e se fascinam com tudo, até que contrabandistas de quinta categoria roubam o pássaro novamente.

Os cenários são realmente lindos, mas apesar da beleza obtida pela técnica de animação digital e dos efeitos 3D, estamos no Rio de Janeiro que os norte-americanos esperam ver. Nem a nacionalidade do diretor ou a trilha assinada por Sérgio Mendes garantiram o mínimo de veracidade ao todo. O filme patina em clichês turísticos que vão da favela ao Cristo Redentor. Há a figura do malandro. A do sambista. E um buldogue que dança com chapéu de Carmem Miranda. Sem falar na trama pseudo-ecológica sustentada no politicamente correto. Tudo isso torna Rio difícil de engolir.

E nos leva a perguntar quantas vezes esta cidade - e o país - se reduzirá ao estereótipo do samba, cachaça, futebol e mulher. É assim que o desenho nos trata, e assim voltaremos a ser vistos nos 27 países em que o longa estreia, de hoje ao dia 21.

Vale citar duas ´pérolas`: a primeira, o cientista responsável pelo acasalamento das araras aconselha a dona de Blu a não confiar em 'menino pobre', logo adotado pelo casal para integrar ONG de proteção aos animais. Mais à frente, ao som do funk, um bando de saguis assalta turistas desavisados. Nem tudo são flores no país tropical.

(Diario de Pernambuco, 08/04/2011)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Coluna de lançamentos, bastidores e "eu indico" da semana



Dois irmãos (Dos hermanos, Argentina, 2010). De Daniel Burman. 105 min. Imovision.

Hermano 1 - Um dos filmes argentinos mais interessantes do ano passado enfoca a relação conturbada entre irmão e irmã na terceira idade. Após a morte da mãe, Susana (Graciela Borges) vende o imóvel da família e transfere sem dó o irmão Marcos (Antonio Gasalla) para o Uruguai. Pacato e sensível, ele cuidou da mãe até o fim e agora suporta os desmandos da irmã. Até quando, eis a questão.



Abutres (Carancho, Argentina, 2010). De Pablo Trapero. 107 min. Paris Filmes.

Hermano 2 - Um filme e tanto sobre paixão, cobiça e muito sangue. O pano de fundo é a violenta máfia de médicos, advogados e a força policial que controla lucrativo sistema de indenização a vítimas de trânsito em Buenos Aires. Ricardo Darín interpreta o ´abutre` que localiza e seduz parentes de atropelados, para então explorá-los. Quando ele se apaixona por enfermeira idealista, que o convence a sair dessa vida, o sistema se volta contra ele.

Eu indico



"Tenho pesquisado filmes silenciosos/mudos, e recomendo Berlim, uma sinfonia das grandes cidades (Berlin, die Symphonie der Grosstadt, 1927), de Walter Ruttmann, cineasta e artista experimental alemão atuante nas décadas de 1920 a 1940. E também sua contraparte, Fim de semana (Wochende, 1930), filme sonoro sem imagens, registrado e montado em película sem a parte ótica. Ambos versam sobre Berlim mas são contos não narrativos, imagéticos e sonoros sobre outras grandes cidades da época, e em grande parte, sobre as atuais também".

Thelmo Cristovam, músico, artista sonoro e designer de som

Bastidores

O outro lado - Projecionista de um cinema da cidade reagiu à reportagem sobre a qualidade dos cinemas do Recife, publicada em 27 de março neste Diario. Ele não quis se identificar mas autorizou a publicação deste trecho, mais direto, impossível. ´É importante os clientes exigirem qualidade na projeção dos filmes e reclamarem. Pois só assim meus patrões vão se mexer pra consertar algo. É difícil sugerir uma melhoria técnica e ser ouvido, pois nós, projecionistas, só temos o gerente local para dar sugestões, para que eles repassem para a diretoria que, no fundo, só liga para o lucro da venda dos combos de pipoca`.

Estreia póstuma - Grande perda, Lula Côrtes morreu às vésperas da estreia de Nas paredes da pedra encantada, de Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim. O filme conta a história do disco Paêbirú - Caminho da montanha do Sol, parceria de Lula com Zé Ramalho, e será exibido na virada do mês no 3º In-Edit - Festival do Documentário Musical, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Tudo verdade - O Cinema da Fundação retoma parceria com o Festival É Tudo Verdade e exibirá na próxima quarta, às 20h, o longa vencedor do prêmio Janela para o Contemporâneo.

O melhor - Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, foi eleito o melhor filme de 2010 pelo Festival Sesc Melhores Filmes 2011, que começou ontem, em São Paulo.

Minas - Abertas inscrições para a 6ª Mostra de Cinema de Ouro Preto e a 5ª Mostra CineBH. Até 25 de abril, pelo site www.cineop.com.br.

(Diario de Pernambuco, 07/04/2011)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Cine Pelé



O rei Pelé será a grande atração da 15ª edição do Cine PE - Festival do Audiovisual. O craque em pessoa estará na abertura do evento, no próximo dia 30. A homenagem já estava confirmada há mais de um mês e seria anunciada na terça-feira que vem, durante o lançamento do festival em evento no Rio de Janeiro, mas desde ontem a notícia corre solta na internet. A BPE, produtora do evento, acredita que a informação ´vazou` através da imprensa esportiva, que tem acesso à agenda do rei do futebol, que em outubro passado completou 70 anos.

Por sua vez, o Cine PE comemora 15 anos e, em depoimento, Pelé brinca com o nome do festival, ao qual se refere como ´o Maracanã dos cinemas`. E brinca com o nome: ´Cine Pelé`. Na ocasião, além do depoimento será exibido documentário inédito dirigido por Evaldo Mocarzel (Do luto à luta), que aborda o lado artístico de Pelé, como músico e no cinema, onde atuou em filmes de Anselmo Duarte (Os trombadinhas, 1979), Ipojuca Pontes (Pedro Mico, 1985)e John Huston (Fuga para a vitória, 1981). Neste último, contracenou com Sylvester Stallone, Michael Caine e Max von Sydow. De Sydow, aliás, Pelá disse a Mocarzel ter recebido aulas de atuação.

Afeito ao mundo futebolístico, Alfredo Bertini comemora a homenagem - e o filme - como fosse gol. ´Foi uma tarde excepcional`, diz o produtor, sobre a entrevista de mais de quatro horas que também renderá documentário a ser exibido na abertura do Cine PE e um programa de 25 minutos para o Canal Brasil. ´Pensei que seria uma conversa rápida, mas Evaldo assistiu a todos os filmes e fez um trabalho espetacular, que provocou a memória de Pelé. Tem coisas que ele revela que nunca comentou com ninguém`.

Uma delas é o fato de que o gol de bicicleta que faz no final de Fuga para a vitória foi encenado para substituir Stallone, que não teve os fundamentos para lidar com a bola. ´Ele também citou várias vezes os atores Paulo Goulart, Nicete Bruno, Tereza Raquel e Milton Gonçalves, que precisou dublou a voz dele em Pedro Mico. E se refere a Houston como um conselheiro sentimental, pois na época estava se separando da primeira mulher e o diretor já estava no sétimo casamento`, conta Bertini.

Apesar do ´furo`, Bertini guarda na manga outras novidades que serão reveladas na coletiva da terça-feira que vem, no Rio. Entre elas estão os demais homenageados (um deles internacional, que deve compor uma mesa de co-produção Brasil / Itália) e a programação de longas, todos inéditos, entre eles um pernambucano.

(Diario de Pernambuco, 06/04/2011)

domingo, 3 de abril de 2011

A morte não lhe cai bem


Ruim que doi

Aos 30 minutos de Fúria sobre rodas (Drive angry, EUA, 2011), um Nicolas Cage loiro faz sexo com uma garçonete. Ele vestido, ela nua, enquanto atira em satanistas e entorna uma garrafa de Jack Daniel's. A música de fundo é thrash metal e espirra sangue para todo lado. Poderia um bom programa para fãs de filmes B, mas nem a isso chega o novo longa de Patrick Lussier. Ele, que já havia feito o remake de Dia dos namorados macabro, oferece agora essa mistura indigesta de Motoqueiro fantasma e Velozes e furiosos.

A história começa sem muita explicação e esclarece durante o filme, com gente morrendo a rodo, a cada novo cenário. Há John Milton (Cage), criminoso que sumiu do mapa e agora corre atrás da neta, um bebê raptado por satanistas liderados pelo assassino de sua filha. Há o Contador (William Fichtner), ser sobrenatural, mensageiro do inferno, que corre atrás de Milton. Lúcifer não gosta de criancinhas sacrificadas em seu nome e o Contador vai fazer de tudo para que o chefe não se irrite. No caminho Milton encontra Piper (Amber Heard), que se torna parceira disposta e boa de briga.

A perseguição de carros, de onde deriva o título (de olho no potencial lucrativo de Velozes e furiosos 5, que estreia em 29 de abril), é a única diversão que se salva. São coreografias e tanto, com troca de tiros entre veículos em queda livre e uma pirueta slow motion feita por caminhão de gás hidrogênio. O 3D cumpre a missão de disparar balas e vidro para todos os lados, carne moída inclusa. E para não atrapalhar armas apontadas para fora da tela, a legenda muda de lugar numa boa.

Norte-americanos adoram filmes com carrões, violência, seitas, sexo e rock. À prova de morte, de Quentin Tarantino, já nos lembrou disso de maneira exemplar. Nicolas Cage é afeito à temática. Seu histórico de filmes de ação é imenso e irregular. E Fúria sobre rodas arrisca ser o pior. Ele pode. Já fez pérolas como Coração selvagem (1990), A outra face (1997) e Vício frenético (2009). Como bem ensina o filme, não importa o que aconteça, pé na tábua.

* no Recife, Fúria sobre rodas está em cartaz nos cinemas Box Guararapes, Multiplex Boa Vista e UCI Casa Forte, Recife e Tacaruna.

(Diario de Pernambuco, 04/04/2011)

Passado do cinema baiano pronto para o futuro


Vadiação (1954), de Robatto, é o mais antigo da coleção

Há pouco mais de um século, Diomedes Gramacho e Dias da Costa rodaram Regatas da Bahia, a primeira obra audiovisual que se tem registro por lá. No entanto, diferentemente da produção naturalista pernambucana, como Veneza americana (1924), esse material se perdeu completamente. Foi lançado ao mar, pelo receio de que os rolos de acetato provocassem um incêndio.

Mesmo com essa irremediável lacuna, uma caixa de 12 DVDs foi lançada pelo Governo da Bahia que, em parceria com a Cinemateca Brasileira, coloca à disposição a coleção de 30 títulos Bahia 100 anos de Cinema. Palmas para o projeto, que reúne produção inestimável, agora preservada e acessível em prensagem de duas mil unidades, distribuídas gratuitamente para cineclubes e instituições públicas.

Em Pernambuco, a Fundação Joaquim Nabuco, Fundarpe, prefeituras municipais e pontos de exibição da rede Cine + Cultura receberam ou receberão o material. Pedidos podem ser feitos via dimas.diretoria@funceb.ba.gov.br.

Nele estão preciosidades como o primeiro curta de Glauber Rocha, Pátio (1956), e o representante da produção marginal Caveira my friend (1970), de Alvaro Guimarães, vistos pela primeira vez em formato digital. De Glauber, ainda há o seminal Barravento (1962).


Pátio, o primeiro curta de Glauber Rocha


O mitológico e anárquico Caveira my friend, de Alvaro Guimarães, pela primeira vez em DVD

Algumas obras, como Diamente bruto (1977), de Orlando Senna, precisaram sofrer intervenções na matriz, e O mágico e o delegado (1983), de Fernando Coni Campos, passou por um novo telecine. O filme mais antigo é o documentário Vadiação, de 1954. Seu diretor, Alexandre Robatto Filho, já produzia desde os anos 1930, mas esse material estava em má condição. ´Oito curtas dele, inclusive Vadiação, estão em processo de restauro`, diz Sofia Federico, diretora de audiovisual da Fundação de Cultura do Estado da Bahia, responsável pelo projeto.

Outros filmes essenciais são os de Roberto Pires, realizador de A grande feira (1961) e Redenção (1958), este, o primeiro longa baiano. Restaurado a partir da única cópia existente, uma película do acervo do pernambucano Lula Cardoso Ayres Filho, Redenção serviu de modelo de produção para a geração do Cinema Novo. Títulos que já disponíveis, mas nem por isso menos importantes, são os anárquicos Meteorango Kid - Herói intergalático (1969), de André Luiz Oliveira, e Superoutro (1988), de Edgard Navarro.



´Sem o investimento da Cinemateca, que cuidou da parte técnica e financiou a prensagem, não poderiamos fazer esse trabalho`, diz Sofia, que defende a preservação como política pública. ´Não dá pra investir somente em produção. É preciso inserir a preservação audiovisual de forma permanente`.

Em Pernambuco, falta estrutura para acervos - Faz falta uma caixa semelhante, que reúna títulos essenciais da produção pernambucana. Costumamos nos orgulhar de nosso cinema, mas são poucas as iniciativas para torná-lo acessível. Não é preciso voltar muito no tempo. Filmes feitos ainda nesta década acumulam poeira em alguma estante.

O único acervo público organizado do estado talvez esteja no Fundaj de Apipucos, que reúne em ambiente climatizado mais de 40 mil documentos, entre títulos do Ciclo do Recife (1925-30) restaurados, em película e DVD.

Gerido pelo estado, o Museu da Imagem e do Som (Mispe) não tem previsão de volta à sede na Rua da Aurora, interditada há cinco anos. Quando começar, a reforma levará no mínimo doze meses. Enquanto isso, os 170 filmes de 16mm e 35mm sob sua responsabilidade continuam disponíveis na Casa da Cultura (Santo Antônio), Raio Norte, 1º andar, de segunda a sexta, das 8h às 14h. Gestor do Mispe, Geraldo Pinho diz que o secretário de Cultura Fernando Duarte quer priorizar a reforma da sede, mas de acordo com o diretor de gestão de equipamento, Célio Pontes, não há data marcada para iniciar as obras.

Geraldo Pinho ainda critica as condições a que esse e outros acervos estão submetidos e recorre à ideia já apresentada de reuni-los em local adequado, uma cinemateca pernambucana que nunca saiu do papel. ´Contamos com uma produção muito grande. Recife é uma cidade úmida e esse material deveria estar em local apropriado`.

Outra coleção de cópias raras do século passado e curtas recentes está de portas fechadas. Criada em 1975 por decreto da Prefeitura do Recife, a filmoteca Alberto Cavalcanti deve ser inaugurada em 2012, após a reforma do Cineteatro do Parque. Semana que vem, o gerente de audiovisual Sérgio Dantas retomará contatos para parceria com a Cinemateca Brasileira, onde pretendem pleitear capacitação.

(Diario de Pernambuco, 03/04/2011)

sábado, 2 de abril de 2011

A carne fresca do hermano



Não é novidade que o cinema argentino vive ótima fase e o ator Ricardo Darín é seu principal rosto. Antes mesmo da consagração de O segredo dos seus olhos, ele já vinha fazendo um trabalho notável em filmes como Kamchatka, Clube da lua e XXY. Portanto, nada de novo. Em Abutres (Carrancho, 2010), em cartaz no Cinema da Fundação, no Derby, temos um Darín em modo áspero.

Dirigido Pablo Trapero (Família rodante), o filme reafirma argumentos a favor de uma cinematografia que muito tem a nos ensinar. O principal, o de que é possível fazer cinema ´de gênero` derivado da matriz norte-americana, sem que o resultado seja um subproduto de Hollywood. Não é a toa que o longa foi o candidato oficial da Argentina para concorrer ao Oscar.

Mesmo que se movimente em clichês bem definidos, este tour de force noturno sobre a exploração de acidentados no trânsito de Buenos Aires transpira verdade. Primeiro, a de filme-denúncia, que desvenda a engrenagem de um sistema criminoso formado por médicos, advogados e policiais. Tudo é explicado passo a passo, enquanto os casos acontecem. Do atropelamento ao hospital, da abordagem hipócrita de impostores supostamente bem intencionados à briga pela fatia maior da indenização.

Depois, o filme assume a forma de ´plantão médico`, em que a câmera gruda na ambulância, recolhe atropelados e se movimenta com maestria para a sala de emergência. No meio dessa adrenalina, Luján (Martina Gusman) conhece Sosa (Darín).

Ela é médica idealista em hospital público equivalente ao nosso SAMU, onde trabalha com devoção insone. Ele é um ´abutre`, como são conhecidos os advogados que se aproveitam da ignorância das vítimas ou seus parentes sobre o quanto podem ganhar de indenização pelos acidentes.

São condições adversas para começar um romance e é exatamente isso o que fazem. Sosa está apaixonado e cansado da vida de trapaceiro, mas seu chefe se recusa a liberar alguém com sua capacidade de convencimento. A tensão libera uma nova e definitiva identidade para a narrativa, que se assume como filme de gângster. O sangue vem de todos os lados e ainda assim o casal planeja escapar do jugo dos chefões da máfia e seus capangas sebosos.

O visual regado a luzes artificiais de escritórios e ambientes sujos ajudam a construir a dura realidade de um mundo cão, que se resolve na porrada. Se as coisas são como o filme mostra, muita gente deveria estar presa. Enquanto cinema, a experiência é de tirar o fôlego.

*no Recife, Abutres está em cartaz desde sexta no Cinema da Fundação

(Diario de Pernambuco, 02/04/2011)