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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma escola para o olhar



Diariamente somos expostos a um sem número de imagens e sons. Eles vêm de todos os lados: TVs, computadores, celulares. E câmeras, cada vez mais câmeras. Mas as escolas normalmente não preparam crianças para entender a linguagem audiovisual. Será que estamos aptos a produzir, interagir e refletir sobre esse conteúdo? Tudo indica que não: com referenciais restritos, nos tornamos incapazes de responder à avalanche midiática ao redor.

Fundada no fim do ano passado, com patrocínio do Funcultura, a Escola Engenho procura agir nessa lacuna. É um projeto pioneiro, voltado para alunos do ensino público, com idades entre 6 e 12 anos, e realizado por um grupo de cineastas, fotógrafos e técnicos liderados por Mariana Porto. Não se trata de ensinar a fazer um filme. O objetivo é estimular a criticidade e o senso ético e estético das crianças.

“As imagens têm um poder arrebatador”, diz Mariana. “Procuramos ampliar o repertório dos alunos para que eles não sejam reféns e aprendam a se posicionar diante delas”. Como se trata de algo inédito, a busca é sistematizar a própria metodologia. “Nosso foco não é conteudista. Não tratamos o cinema enquanto discurso ou linguagem pura. As crianças não funcionam mediadas pela razão. Elas vêm aqui para brincar. Se usamos palavras demais, perdem a atenção. É um mundo muito concreto. Nesse primeiro momento, nós aprendemos mais do que eles”.

As oficinas deste primeiro ano foram ministradas por Marcelo Pedroso, Thelmo Cristovam, Tuca Siqueira, Gê Carvalho, Ana Lira, Caio Sales e Val Lima. Outros vêm se aproximando do projeto, como Daniel Bandeira. “O cinema é trabalhado enquanto prática, daí a importância de ter pessoas que de fato tenham vivência profissional”, afirma Mariana. “A necessidade de se concentrar, planejar ações e agir colaborativamente são valores que estão sempre em foco, e que nós julgamos edificantes não somente da vida de cada um, mas como pressuposto de convivência”.

Vivência - Inicialmente, as crianças se aproximaram através de um cineclube. Agora, organizam a própria filmoteca. A convivência entre oficineiros, monitores, convidados e as crianças leva a novas experiências. Ivan Pereira, o caçula da turma, adorou assistir ao curta paraibano Sweet Karolyne, de Ana Bárbara Ramos. Se identificou com a pobre galinha, prestes a ser degolada. Em outra aula, usou a câmera para filmar do ponto de vista de um gato, inspirado em Alice no País das Maravilhas. Na aula de som, um estetoscópio foi utilizado para ouvir os sons do corpo e uma história inteira foi contada somente com áudio.

“Nunca tinha sonhado em entrar num estúdio”, diz Daiane de Oliveira, sobre a visita à base da Cabra Quente Filmes. Otávio Campos aprendeu a identificar personagens através de cores: “se ele é calmo é azul, verde ou rosa; estressado, é amarelo, vermelho ou laranja”. “E se é sério, é branco, preto ou cinza”, completa Ruan Torres.

Entre os desafios enfrentados pelas crianças, está a de suportar o silêncio e até mesmo parar de falar para ouvir o outro. “Não dá pra ensinar a viver uma experiência estética, mas sim, a ampliar a sensibilidade. Procuramos algo que extrapola o audiovisual e vai para o campo da cidadania”, explica Mariana.

Quinta-feira passada foi o último dia de aula da primeira turma, no antigo Centro de Treinamento da Sudene, próximo à UFPE. Prevista para o começo do ano que vem, a segunda turma da Escola Engenho reunirá os alunos veteranos, mo papel de guias dos novatos. Vinte vagas estão disponíveis para alunos do ensino público do Engenho do Meio, Roda de Fogo e Sítio das Palmeiras. Mais informações: 8666-3456 e escolaengenho@gmail.com

Depoimentos

"Não achei que dava para aprender a assistir a um filme.
Fui ficando, principalmente, porque aqui eu uso a imaginação”
João Pedro Carvalho

"Quando passa um filme na TV, agora a gente sabe como ele é feito”
Vivian Guimarães

"Em casa, a gente assiste aos filmes e esquece; aqui, a gente conversa e o filme fica na memória”
Dayane de Oliveira

(Diario de Pernambuco, 26/09/2011)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lilith segundo o cinema



Há dois anos, quando lançou As filhas de Lilith, a escritora Cida Pedrosa não esperava que suas peraltices poéticas poderiam ser recriadas no cinema. Pois em breve, suas 26 insubmissas mulheres que passeiam pelo alfabeto se libertarão sem culpa do papel para ganhar forma visual na mostra Olhares sobre Lilith. De A a Z, 23 cineastas assinam os vídeos, realizados em diferentes formatos, da ficção ao documentário, da animação à foto stop-motion.

Mas há tantas mulheres assim fazendo cinema em Pernambuco? A pergunta, dizem as coordenadoras artísticas do projeto, Alice Gouveia e Tuca Siqueira, é recorrente. Sim, há mais mulheres filmando no estado do que letras no alfabeto. Oito delas, diz Tuca, lamentavelmente ficaram de fora por imposições de agenda, entre elas, Renata Pinheiro, Isabela Cribari, Adelina Pontual, Germana Pereira e Taciana Oliveira.

Alice diz não há amarras estéticas ou conceituais impostas às diretoras. "O que há é a tentativa de construção de um olhar feminino no cinema pernambucano, um cinema que é mais conhecido por ser feito por homens". Em exercício de desprendimento, Cida disse que liberou as meninas para fazerem o que quiserem com suas personagens: "se colocar limite, a criatividade vai pro brejo". Tuca revela que, mesmo assim, Cida é procurada o tempotodo pelas diretoras e tem sido parceira para buscar novos apoios e parcerias para o projeto, que por enquanto conta com recursos do edital do Funcultura.

A mais recente é a do escritor Marcelino Freire, que vai assinar um dos textos da exposição, marcada para agosto. Em novembro,o projeto vai a São Paulo, onde participa da Balada Literária. "Adorei o convite, me senti instigado em ser o único homem, me senti acolhido num grande ventre. Sempre gostei do livro, que é muito bonito, tem sexualidade e erotismo. Então imagine várias mulheres fazendo isso no cinema. Estou curioso pra ver o resultado".

Na exposição, cada vídeo terá de um a três minutos de duração e serão vistos em múltiplas telas com fones de ouvido. Mas Alice pensa também numa edição posterior, que podegerar um longa-metragem. O formato final do projeto, no entanto, será o de DVD, que servirá de catálogo. "Isso permite que ele seja exibido em salas de aula e associações", diz Tuca. "E percorrer cidades do interior do estado", completa Cida.

De forma independente, cada diretora está livre para inscrever seus trabalhos em mostras e festivais. Mariana Porto, por exemplo, planeja fazer um corte de 15 minutos para Zenaide, define ela, um documentário que "constroi uma mulher fictícia, que é todas e nenhuma". No poema, Zenaide se casa aos 20 anos, como quem compra uma bicicleta, em 1964. Mariana entrevistou então sete mulheres que tinham essa idade naquela época. "Procurei conectar o casamento e sexualidade, o corpo feminino e suas relações com o poder e a ditadura. Minha hipótese é a de que a subjetividadeda mulher tem sido definida a partir do olhar do homem e isso é algo que aflige as mulheres de todas as épocas".

Saiba Mais

Os poemas, as diretoras

Angélica / Débora Brennand
Berenice / Cynthia Falcão
Cecília / Manuela Piame
Diana / Camila Nascimento
Elisa / Alice Gouveia
Fátima / Mariana Lacerda
Grace / Geórgia Alves
Hilda / Mariane Biggio
Ívis / Tuca Siqueira
Juanita / Andréa Ferraz
Khady / Hanna Godoy e Márcia Mansur
Luísa / Alice Chitunda
Melissa / Silvia Macedo
Nely / Tuca Siqueira
Ofélia / Mannu Costa
Patrícia / Clara Angélica
Quima / Paula de Melo
Rosana / Kátia Mesel
Sihem / Séphora Silva
Tereza / Alice Gouveia
Úrsula / Luci Alcântara
Verônica / Cecília Araújo
Wilma / Eva Jofilsan
Xênia / Maria Pessoa
Yara / Sandra Ribeiro
Zenaide / Mariana Porto