sábado, 25 de julho de 2009

Grito do cinema alternativo



O circuito alternativo de cinema vive dias de tormenta. Momento mais do que oportuno para entrar na pauta nacional. Enquanto quase dois terços das salas comerciais estão alegremente monopolizadas por apenas dois filmes, Harry Potter 6 e A Era do Gelo 3, as nanicas agonizam entre restrições econômicas e tecnológicas. Capitaneada por texto de Walter Salles, a edição de ontem da Folha de São Paulo dedicou amplo espaço para uma série de matérias a sugerir que o buraco é mais embaixo: diminuem não só os espaços de exibição, mas também novas produções e o público interessado em filmes "de arte", "alternativos" ou "independentes".

É nesse contexto que a Fundação Joaqum Nabuco promoveu o primeiro encontro nacional de programadores de salas alternativas. Após dois dias de atividades, o evento aponta para a formação de uma rede capaz de atrair mais pessoas e obter respaldo político e econômico para barganhar com as majors, grandes distribuidoras com poder suficiente para ditar as regras.

"A ideia principal é organizar o setor para garantir nossa sobrevivência e a diversidade dos filmes em cartaz", diz Marcus Mello, da sala gaúcha P.F. Gastal e idealizador do encontro. Ele percebeu que os problemas que enfrenta são os mesmos em todo o Brasil: a migração para o suporte digital e aluguéis exorbitantes dos rolos em 35mm.

Kleber Mendonça, que coordena o encontro, diz que tais dificuldades existem também para os "primos ricos", como define as salas mantidas por grandes instituições bancárias como o Unibanco e Santander. "Nós alugamos um filme por 50% da bilheteria. Para eles, é cobrada a quantia fixa de R$ 1.500 semanais".

Roberto Nunes, que mantém o projeto Cinecult em 15 cidades e 21 complexos da rede Cinemark, aponta para a necessidade de viabilizar cópias extras através de incentivos da Lei Rouanet. Por estar vinculado a um sistema blockbuster, Nunes foi meio que um "estranho no ninho", inclusive questionado por utilizar dessa retaguarda e poder de barganha para obter a preferência das distribuidoras, como no caso de Gomorra, que teria sido "desperdiçado" em sessões únicas às 14h. "A espera seria a mesma se eu abrisse mão do filme", diz Nunes.

Para Marcos Sampaio, que coordena o Cine Sesi Pajuçara, em Maceió, é preciso enfrentar a "miopia das distribuidoras", que oferecem uma ou duas cópias de filmes que supostamente farão pouca bilheteria. Assim, filmes relevantes como Valsa com Bashir demoram até dois anos para encontrar seu público, que a esta altura pode até ter assistido - legalmente - a obra em DVD. Parece incrível, mas o filme peruano La teta asustada, melhor filme no último Festival de Berlim, será lançado no Brasil com apenas uma cópia. "Por que não fazer mais duas?", diz o exibidor.

Sistema de baixo custo

Na busca de saídas políticas, tecnológicas e financeiras para os impasses dos pequenos exibidores, uma resposta incrivelmente simples para a tempestade de problemas enumerados nos últimos dois dias: a projeção de filmes a partir de um media player conectado a um projetor full HD HW10, da Sony. O sistema atinge resolução satisfatória em telas de até 10m, conta com audio digital 5.1 surround e custa pouco mais de US$ 3 mil.

A solução foi apresentada por Daniel Leite, que ainda este ano inaugura o Cine Rio Carioca, conjunto de três salas em Laranjeiras, tradicional bairro do Rio de Janeiro, que terá uma sala equipada com projetor 35mm e duas para filmes em suporte digital.

Responsável pela finalização e "transfer" (processo de conversão de filmes captados digitalmente para a película) de mais de 50 curtas e dos longas O engenho de Zé Lins, Amigo de risco e Tudo isto me parece um sonho, Leite levou dois anos de pesquisa até encontrar um sistema eficiente e de baixo custo. "Ele é mais econômico e tem a vantagem de não restringir filmes digitais em outros formatos de distribuição".

Questionado sobre como obter filmes desprovidos do sistema Rain (que protege a cópia contra a pirataria), Leite disse que pretende negociar diretamente e conseguir a confiança das distribuidoras para exibir filmes que ainda não foram lançados em DVD. E que acredita que, aos poucos, o jogo de poder com as distribuidoras vai acabar. "Me interesso na internet como canal para ter acesso a cinematografia de diferentes lugares do mundo".

(Diario de Pernambuco, 25/07/2009)

3 comentários:

CINE VÍDEO E EDUCAÇÃO disse...

"Caro André, o Cine Cult não desperdiça a cópia do Gomorra, temos muito mais público em nossas sessões das 14 horas do que algumas "ditas salas alternativas" com 3 sessões diárias, fui bem claro quando questionado a respeito no encontro , quem deve ser cobrado pela existência de apenas uma cópia em 35 mm do filme é o distribuidor e não nós. Sofremos também esperando pelos filmes, algumas instituições públicas pagam com recursos públicos de R 1500,00 a 3.000,00 pela locação de uma cópia por uma semana, talvez seja o ingresso mais caro de cinema do mundo se você dividir esse valor pela quantidade de pessoas que efetivamente verão esse filme. Tenho certeza de que com a nossa experiência e com nossas relações no mercado possamos colaborar com todo este segmento.
Abs, Roberto Nunes
Idealizador e Coordenandor do Projeto Cine Cut

Andre Dib disse...

Oi Roberto.

Não quis dizer que o problema está no Cine Cult... só registrei o questionamento levantado na reunião. O número limitado de cópias realmente parece ser o problema. Assim como o relacionamento com as distribuidoras, como você mesmo colocou.

Vi sua presença na reunião como algo positivo. É algo fantástico você administrar mais de 150 sessões especiais por semana. Talvez em projetos como o Cine Cult esteja um modelo de sobrevivência para filmes sem apelo comercial, mas que ainda assim precisam chegar a seu público.

Para isso, no entanto, poderia ser revisto o horário das 14h. Uma sessão às 19h não seria mais proveitosa?

Outro ponto é o patrocínio, questão levantada por alguém na platéia: em vez de viabilizar as sessões com dinheiro de lei de incentivo, não seria nada mal o Cinemark manter o Cine Cult com uma pequena parte do lucro dos filmes-pipoca.

De forma a Harry Potter viabilizar um festival de filmes do leste europeu. Como isso pegaria bem para a "imagem" do Cinemark !

Um abraço,

André

CINE VÍDEO E EDUCAÇÃO disse...

Caro André, em primeiro lugar é muito importante esse espaço para debatermos, o Cine Cult não se beneficia da lei Rouanet,hoje ele acontece somente por o Cinemark acreditar na sua importância,nossa intenção em recorrer a Lei Rouanet é por exemplo podemos oferecer a um produtor a possibilidade de termos mais uma cópia do filme dele, de preferencia de um filme nacional como " O Fim da Picada " ou de filmes importantes que não possuem mais cópias.
Acredito que esse encontro do Recife possa vir a trazer beneficio para todos a medida em que saibamos antes de mais nada que é importante nossa organização para pressionar o setor distribuidor a dar um tratamento melhor a todos.
Vamos nos Falando.

Grande Abraço.

Roberto Nunes
Cine Cult