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domingo, 16 de outubro de 2011

Reinvenção da trupe do Vivencial



Uma base de produção está em pleno vapor no sítio histórico de Olinda. O casarão de número 200 da Rua de São Bento, mais conhecido como a faculdade de direito da Aeso, foi ocupado pela equipe de Tatuagem, uma união de talentos que em breve culminará no primeiro longa de ficção de Hilton Lacerda. Não que a atividade cinematográfica seja novidade na cidade-patrimônio. A Parabólica de Claudio Assis funciona ali, virando a esquina. Na casa vizinha à da base montada pela REC Produtores estão os domínios de Alceu Valença, que esta semana encerrou as filmagens de sua Luneta do tempo. E rumo ao mar, Ladeira de São Francisco, está a Video nas Aldeias, de Vincent Carelli.

O que coloca Tatuagem em patamar diferenciado no cenário de produção local é combinação da estrutura privilegiada, que permite uma melhor organização e sintonia entre diferentes departamentos. No térreo estão o figurino, sala de objetos e a salão de ensaio. No primeiro andar, os departamentos de produção, direção, fotografia, financeiro e arte. De acordo com João Jr., tais condições fazem revelar o potencial da equipe. “Percebo uma evolução na carreira de muitos profissionais, principalmente de produção e arte, que têm atendido muito bem as demandas de produção de um longa-metragem”.

O projeto, de dimensões poético-anarquistas, recria livremente a experiência do grupo de teatro Vivencial, que conta com o cada vez melhor Irandhir Santos no papel de líder da trupe pós-tropicalista. As filmagens de começam no próximo dia 25, em Olinda, Recife, Bonito e Paudalho.

Aprovado pela Ancine para captação de até R$ 2,48 milhões, o longa ainda precisa captar 40% para a finalização e comercialização, mas já conta com a distribuição da Imovision, responsável por Cinema, Aspirinas e urubus e Verônica, de Marcelo Gomes. Apoios culturais como os da Prefeitura do Recife, UFPE e Aeso, diz João, são fundamentais para filmes de baixo orçamento. “Graças a eles, contamos com estagiários e licença para filmar em espaços públicos”.

Um deles é o Nascedouro de Peixinhos, onde uma construção está sendo erguida especialmente para o filme. Lá será a sede da trupe Chão de Estrelas, coletivo artístico ligado à tradição do circo e teatro. No papel do diretor está Irandhir, que descreve seu personagem como alguém que enxerga a beleza no gestos dos atores, para levar ao palco. “Somos desafiados a criar uma cena em poucas horas. Isso é muito estimulante. E Peixinhos será o espaço onde pessoas tolhidas pela ditadura pode ser homens, mulheres, bichos e bichas”, diz o ator, premiado ator por Tropa de Elite 2 e Febre do Rato. Não é de hoje que Irandhir fala em uma volta para o teatro, onde se formou. Curioso que isso venha a acontecer pelo cinema.

Parceira de Hilton desde o curta A visita (2001), Renata Pinheiro conta como a direção de arte expande o conceito do roteiro, que apesar de ambientado em 1978, não pretende reconstituir a época à risca. A ideia é construir um tempo ficcional. “Como espaço simbólico, a sede do grupo Chão de Estrelas revela o contexto político da época. As ruínas representam a destruição de um sistema. Material reciclado surge entre restos de obra, uma exuberância de cores sobre o cinza, seco e mofado do militarismo em decadência. Queremos ocupar aquele espaço de forma orgânica, como um câncer às avessas, que traz de volta à vida”, explica Renata.

A concepção da fotografia, em 16mm, combina a imagem limpa do cinema convencional com a linguagem experimental de aspecto envelhecido do Super 8, que será simulado por uma câmera Bolex e filmes vencidos. Ivo Lopes de Araújo, do coletivo cearense Alumbramento, explica a busca de uma precariedade apropriada para o conceito do filme. “A ideia é trabalhar com o erro próprio do teatro mambembe. Por isso preferimos a luz natural aos refletores. Procuramos a inadequação, algo que aproxime da condição dos personagens”.

Entrevista >> Hilton Lacerda: “Temos um público grande e mal aproveitado”

“A única coisa boa de ser só roteirista é que você pode botar a culpa no diretor. Agora, se algo não der certo, tenho que assumir”, brinca Hilton Lacerda. Roteirista dos mais atuantes do cinema brasileiro, ele é parte fundamental de uma filmografia que passa por Baile perfumado, Amarelo manga, Árido movie e o recente Febre do rato. Como diretor, assina dois curtas - Simião Martiniano, o camelô do cinema (em parceria com Clara Angélica) e A visita - e o longa documental Cartola - Música para os olhos, com Lírio Ferreira. Agora chegou o momento de realizar seu trabalho 100% autoral.

Em Tatuagem, Hilton Lacerda faz um livre retorno ao início de sua vida adulta, momento delicado em que sonhos se projetam. A dez dias do início das filmagens, ele fala ao Diario sobre o que está por trás do filme.

Como surgiu a ideia do filme?
Na década de 1980, li o livro Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan, que faz um apanhado da questão homossexual na cultura brasileira. Nele tem o personagem de Tulio Carela, que sempre me encantou. Em torno de 1995, tive acesso ao livro dele, Orgia, que ainda não tinha sido reeditado. Quando fui morar em São Paulo, em 1998, me tornei vizinho de João Silvério e falei com ele sobre a a vontade de filmar a história de Tulio. Ele me disse que achava mais importante olhar para o grupo Vivencial, que se tornou uma referência muito afetiva para a construção do roteiro. Mas o filme não é sobre o Vivencial, é sobre a influência que exerceu no Recife, o que aquilo tudo gerou, a expectativa de futuro.

Como você adaptou aquela realidade?
Através da história de um grupo de teatro anarquista, com foco no líder desse grupo de 12 atores, o Chão de Estrelas. Estamos há quatro semanas ensaiando as coreografias, direcionadas no sentido do deboche, do exagero. Clécio, vivido por Irandhir, comanda o processo ao lado do braço direito dele, interpretado por Rodrigo Garcia.

Tatuagem guarda certa semelhança com a vocação anárquica de Febre do rato, que também traz Irandhir como protagonista. São filmes-irmãos?
Escrevi os dois roteiros ao mesmo tempo. Ficava com medo da proximidade, mas hoje estou tranquilo. E Irandhir está no projeto antes de entrar em Febre do rato, antes mesmo de Baixio das bestas. Desde o começo do projeto, escrevi o personagem pensando nele.

Como líder da trupe, ele é seu espelho como diretor?
Ele é o homem da ponte, que está lá na frente, responsável pelo olhar teatral, pelo registro burlesco. Eu trabalho com o registro do cotidiano, de conflitos como o do soldado Fininha, que vem de uma cidade pequena e se encontra com Clécio. É quando o núcleo militar e dos artistas se misturam.

Como o filme se relaciona com a sua própria história?
Clécio tem um filho de 13 anos, que é a idade que eu tinha em 1978. Para mim, foi o momento em que comecei a ter vida própria, sair pra festa, o início da vida sexual. Havia o processo de abertura e do milagre econômico, tinha a expectativa do que iria acontecer no país. Era um respiro de sexo livre e pílula anticoncepcional, mas também um momento de certo desencanto, que logo depois levou um golpe grande, da Aids como fator moralizante do discurso. Depois houva a discussão de gênero, mas antes disso toda uma geração pagou um preço muito caro. Toda essa construção de futuro bateu com um fato prático, de que as pessoas estão correndo um risco e a ideia de pecado vinha junto. A discussão do filme gira em torno disso, do futuro sonhado e suas consequências.

Sem chegar a ele?
A ideia é abordar o que se sonha agora, e como isso pode reverberar no futuro. Como podemos imaginá-lo, de que forma podemos provocar consequências. Na época, a expectativa era a de um mundo libertário, em que as questões de gênero foram superadas. O filme quer reconstruir um passado em que se faz uma projeção utópica do futuro, que, na prática, é o nosso presente. No grupo tem um personagem, Joubert, que produz um filme de ficção em Super 8, que se passa no futuro. É um viés completamente anarquista, em torno de uma estrutura melodramática. Por um lado, é o Super 8 como uso político do cinema como arma. Por outro, é a estrutura mercadológica, de um cinema mais convencional.

Qual é sua intenção em abordar esse tema?
É a minha forma de tentar fazer as pazes com o presente. Acho o cinema estabelecido uma chatice, uma caretice tão grande, é raro alguém fazer uma desconstrução. O Brasil, quando tem a possibilidade de estar na ponta, fica representando o último estágio de algo esgotado. Em vez de investir na possibilidade de criar um público radical, o cinema brasileiro apela para a linguagem estabelecida, para satisfazer um mercado que está se esgotando. Pode ser uma estratégia boa para os próximos cinco anos, mas depois não fará sentido. Temos um público grande e mal aproveitado. Fazer filme de 150 mil espectadores no Brasil é uma glória, mas podemos dar um passo além.


Ficha técnica

Direção: Hilton Lacerda

Diretor Assistente: Marcelo Caetano

1º Assistente de Direção: Carol Durão

2º Assistente de Direção: Milena Times

Preparação de elenco: Amanda Gabriel

Produtor de elenco: Rutílio de Oliveira

Continuidade: Adelina Pontual

Produtor: João Vieira Jr.

Produtora Executiva: Nara Aragão

Diretora de Produção: Dedete Parente

Platô: Brenda da Mata

Diretora de Arte: Renata Pinheiro

Cenógrafa: Dani Vilela

Figurino: Chris Garrido

Diretor de Fotografia: Ivo Lopes de Araújo

Técnico de Som: Danilo Carvalho

Trilha Sonora: Helder Aragão

Patrocínio: Petrobras / Fundarpe - Funcultura / Chesf - Eletrobrás

(Diario de Pernambuco, 16/10/2011)

sábado, 16 de julho de 2011

Um poeta no cinema



Irandhir Santos se supera a cada papel. Em Febre do rato ele brilha como um poeta em estado convulsivo, que trata os seus com generosidade e olha para o Recife com a indignação de quem não se curva perante a falta de amor que assola a cidade. “Com os poros abertos”, como diz em entrevista exclusiva ao Diario, ele é o grande condutor emocional do filme. Nele, a poesia flui, intensa, primeiro de sua atitude, depois nas palavras, preciosas, caudalosas, escritas pelo roteirista Hilton Lacerda.

Não é a primeira vez que o ator é premiado em Paulínia. Em 2009, Irandhir se destacou pela atuação em Olhos azuis, de José Joffily. Depois disso, projetou-se nacionalmente em Besouro, Quincas Berro D’Água e Tropa de Elite 2. No entanto, depois da experiência à flor da pele vivida em Febre do rato, o ator diz que precisa refletir sobre os próximos projetos. “Quero estar em histórias que façam diferença, que possam tocar”. Um deles é Tatuagem, de Hilton Lacerda, que começa a ser rodado em novembro no Recife.

Em Febre do rato, você está em transe constante. Como foi viver Zizo?
Foi uma experiência arrebatadora e desafiadora. Sempre procurei ser sincero no que faço, mas esse trabalho foi especial. Tenho o máximo de cuidado entre um trabalho e outro, estava acabando o filme de Kleber Mendonça (O som ao redor) e confesso que a entrada do Zizo foi algo inesperado e assustador. Mas depois de ler o roteiro começou o encantamento, a possibilidade de me enxergar de outra maneira. Tinha pouco tempo e queria o máximo de referências. Então determinei: “Irandhir, mergulhe, vá atrás, se deixe envolver”. Quando saí de Olinda para a edícula que Renata Pinheiro construiu, foi um jogo de abertura de poros, de sentimentos e de atenção máxima para procurar o que iria me ajudar em tão pouco tempo. Precisava de segurança, num projeto em que a improvisação é igualmente importante. Ao mesmo tempo, enquanto Zizo construiu o mundo dele, quando ia pra fora, no mundo real, ele precisa transformá-lo.

O filme é baseado em texto de Hilton Lacerda, 100% recitado por você. Como chegou ao domínio da palavra?
Quando vi o grande volume de poesia, quis me apropriar, mas percebi que não conseguiria, porque os poemas não eram meus. Precisei me aproximar do Hilton para compreender. Ele falou da origem de cada poema, foi algo tão generoso e aberto que tive acesso ao sentimento primeiro que o despertou. Peguei isso pra mim, a partir dali me aproximei dos poemas. É interessante porque já fiz um poeta, o Quaderna em A Pedra do Reino. Mas foi diferente, porque ele partia da palavra para o mundo, enquanto o Zizo tem uma postura diante do mundo, para somente então escrever os poemas. Por isso, antes tive que investir na atitude.

Que referências você usou para compor o personagem?
Dos poetas dos anos 1970 e também os atuais: Lirinha, Otto, Miró. E a música do Ave Sangria, que quando ouvi tocando no camarim, fez um “clic”: esse será o meu embalo.

Como foi a experiência de atuar com o corpo nu?
Profissionalmente, nunca fiquei sem roupa a ponto de atuar sem perceber isso. Foi um processo de abertura sincera, até para denunciar o que doía. Não é um exercício fácil, você se expõe. Confesso que sou muito retraído, observador, isso faz parte do trabalho de ator. Mas uma gama de coisas foi acontecendo e me direcionando a favor para a construção de um mundo. Se no quintal da casa de Zizo ficava à vontade sem roupa, na rua, mesmo vestido, me sentia nu.

A impressão que o filme passa é que ele é apenas uma amostra da vivência do elenco e equipe. Que boa parte do que rolou ficou de fora da edição ou nem mesmo foi filmado.
Foi exatamente isso que aconteceu. Uma intimidade foi construída para chegar ao estágio do filme. Na casa de Zizo, reorganizei tudo do meu jeito. Sabia onde estava cada caneta, livro, quadros. Quando ia para a pousada dormir era o momento de refletir, repensar o dia.

E o que ficou do Zizo, depois das filmagens?
Zizo, seus amigos são quem eles são, não existem máscaras ou barreiras. A maneira como ele encara a paixão arrebatadora por Eneida (Nanda Costa), se deixa levar por isso, se atreve. Pessoalmente, isso me reaproximou da minha família. E me fez refletir sobre os próximos projetos, que histórias quero participar como artista. Cláudio Assis tem muito a falar, seu cinema tem muita importância. Isso mexe no senso de julgamento para os próximos.

Em breve será lançado o longa O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Como foi trabalhar nesse filme?
Sou fã absoluto de Kleber, mas através de amigos, sempre soube que ele nunca gostou de trabalhar com atores. Mas o encontro aconteceu, foi uma descoberta de ambos. O Kleber é um “ouvido ambulante”, escuta o que você acha do filme, processa e te devolve na medida correta. Ele promove a confiança e é genial porque aquilo faz parte de algo maior, uma coletividade. E ele tem algo em comum com Cláudio, a inspiração pelo Recife, o mote para tratar sobre o crescimento desordenado da cidade.

Fale um pouco sobre Tatuagem, seu próximo trabalho.
Fui convidado no começo do ano e há dois meses recebi o roteiro. Tenho conversado com o DJ Dolores sobre as músicas que serão dançadas e cantadas no filme. Serei o protagonista, Clécio, o cabeça de um grupo de teatro performático, que adora a arte da representação, o transformismo. Apesar dos parcos recursos, ele monta uma companhia e vive disso. Ele vive uma história de amor com outro cara, de mundo supostamente diferente do dele. Tudo se passa na década de 1970, mas o filme fala das condições dos artistas de hoje.

(Diario de Pernambuco, 16/07/2011)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tropa 2 só poupa você



Antes mesmo de ser lançado, ficou claro que Tropa de elite 2 seria não apenas um filme, mas um evento. Até ontem, os números apontavam para quase 3 milhões de espectadores e R$ 22,8 milhões arrecadados. É a maior abertura do cinema nacional desde a retomada, a quinta maior de todos os tempos no circuito brasileiro. O fenômeno levou a rumores de que Spielberg quer comprar os direitos e rodar a própria versão. Elit Squad 2.

Na segunda semana, o longa de José Padilha quebra o próprio recorde e aumenta a ocupação de 636 salas para 40 a mais. Em Pernambuco, o número de salas subiu de 17 para 23. O sucesso inibiu novas estreias comerciais pela primeira vez no ano.

O inquestionável carisma de Capitão Nascimento (Wagner Moura) não é o único motivador. Somente a estratégia de divulgação custou R$ 4 milhões. Não se sabe se o esquema segurança ajudou efetivamente, mas acrescentou notoriedade ao todo. A proteção contra a pirataria funcionou bem até ontem, quando uma versão vazou em sites de compartilhamento. E contra o download, nem o Bope.

Nas mídias sociais, o barulho é grande. Curioso acompanhar a reação de quem assiste no Twitter, assim como nas salas de exibição, onde se torce a favor de Nascimento como se fosse jogo de futebol. De nada adianta seu suposto antagonista e futuro aliado, o deputado Fraga (Irandhir Santos) defender os direitos humanos. Pelo público, ele é hostilizado como fosse do time adversário. E tome gritos, xingamentos e comentários bizarros.

No entanto, na medida em que Nascimento é alçado a níveis mais altos de poder, o silêncio cresce na sala. Durante o processo, ele descobre que o inimigo não são "vagabundos" dos morros ou playboys que consomem maconha, mas um ser sem rosto chamado "sistema". Crítica necessária, mas que evita tocar na parcela de responsabilidade de cada um pela violência em que vivemos. Se o céu é o limite, apontar a arma na cara do espectador pode ser bastante comprometedor.

(Diario de Pernambuco, 15/10/2010)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cláudio Assis e a Febre do Rato



Nove anos depois de Amarelo manga, Cláudio Assis volta a filmar em Olinda e Recife. A partir de hoje, a produção de Febre do rato, terceiro longa-metragem do diretor pernambucano, movimenta a cidade com uma equipe de profissionais cariocas e pernambucanos. Durante a semana de ensaios, o elenco formado por Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Mariana Nunes e Juliano Cazarré circulou em eventos e bares. No que diz o burburinho, Nachtergaele já está com o personagem incorporado, o coveiro Pazinha, e assim deve continuar até o começo de outubro, quando terminam as filmagens.

Apesar do momento ao mesmo tempo tenso e delicado que configura a pré-produção de um longa, Cláudio e Júlia Moraes receberam o Diario no casarão utilizado para os ensaios, no Sítio Histórico. Eles celebram a boa fase do cinema feito em Pernambuco, somente em 2010 contabiliza quatro longas em andamento, com distribuição garantida. Febre do rato será rodado em super 35mm, captado em cores para ser vertido em preto e branco na pós-produção. Como em todos os filmes do diretor, a fotografia é de Walter Carvalho, em formato cinemascope.

Contemplado em 2005 pelo fundo holandês Hubert Bals para desenvolvimento de projetos, Febre do rato tem acumulado patrocínios e apoios nacionais e estrangeiros, como a empresa argentina IMPSA. "Empresários entenderam que dá pra investir no cinema de ideias, independente do retorno financeiro", diz Júlia. "Nesse processo, a Fundarpe foi fundamental para a gente poder andar e ganhar os grandes editais, concorrendo com filmes do Brasil inteiro", complementa Cláudio. Com 90% do orçamento captado, falta garantir a finalização. "A Prefeitura do Recife ainda não oficializou, mas garantiu que vai nos apoiar".

Durante a prova de figurino, encontramos um Irandhir febril, possuído pelo poeta Zizo, personagem principal do novo filme. "Se tem algo que resume Zizo, é a atitude", disse o ator, que acaba de participar de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, e a partir de outubro poderá ser visto em Tropa de elite 2. Semana passada, Irandhir conheceu Miró, com quem descobriu afinidades. "O destino trouxe Miró e fiquei com ele enquanto pude. Se eu tiver 1/3 dele no meu personagem estarei muito feliz". Para compor Zizo, Irandhir tem dormido e acordado com João Cabral, Drummond, Pedro Tierra e Murilo Mendes. No entanto, todas as poesias do filme são originais, escritas por Hilton Lacerda.

Boa parte de Febre do rato será rodada na Fábrica Tacaruna, que será morada de um triângulo amoroso vivido por Juliano Cazarré, Mariana Nunes e Vítor Araújo, que estreia como ator. Afora o elenco principal, Jones Melo, Paulina Albuquerque, Sâmara Cipriano, Chiquinho Serra Velho, Hugo Gila e a paulista Tânia Moreno prometem gerar cenas que, como nos demais filmes de Cláudio, ainda vão dar o que falar.

Entre atores, figurantes e participações especiais, serão mais de 400 pessoas. Um churrasco de Páscoa na casa de Zizo reunirá Jommard Muniz de Britto, Gaspar Andrade, Fernando Peres e Irma Brown, Wilma Gomes (ex-miss Pernambuco), Lala K e Carlos Carvalho. "Quero pessoas que na vida real seriam amigos do poeta e reunir a nossa cena cultural, uma metalinguagem a serviço do cinema", diz Rutílio de Oliveira, responsável pelo casting. Miró, Xico Sá, Roger de Renor e João do Morro também serão convidados. Evocados no título, ratazanas comuns nas alamedas da cidade não devem faltar. Mas a "febre do rato" não tem nada a ver com a doença provocada pelos roedores, mas com a expressão pernambucana para determinado estado de espírito. "É como se a pessoa azougada, com atitude para o bem ou para o mal, com vontade de lutar por alguma coisa", diz Cláudio.

Inspiração no avô poeta - Neta de Vinicius, Júlia Moraes busca no avô parte da inspiração para o poeta do novo filme de Cláudio Assis. "Ele viveu pra poesia e me deu condições de entender e viajar no universo do poeta. Com certeza estamos trazendo isso para o filme. Para ele a família, as histórias, a obra é uma só". Júlia tinha apenas seis anos quando Vinicius se foi. A breve convivência deixou nela uma imagem clara de entrega que agora ele transpõe para o filme, que ela descreve como "alto astral, de afirmação", de um personagem que não está preocupado com dinheiro ou sucesso, que "não quer se dar bem, mas ser quem ele é".

"Assim como ele, Zizo é um poeta do amor e da dor. E disso todo mundo entende. Seja parnasiana, romântica, escatológica ou concreta, a poesia é capaz de tocar as pessoas de forma profunda. E Zizo carrega consigo essa liberdade, que as pessoas querem viver mas não têm coragem, são amarradas".

Entrevista // Claudio Assis: "Tudo será mostrado com generosidade"

Após quase uma década, você volta a usar Olinda como cenário. Qual sua relação com a cidade?
Minha produtora funciona há 15 anos em Olinda, onde fizemos muitos curtas. Sempre quis fazer um longa aqui, em Amarelo manga filmamos nos Quatro Cantos, que é muito cinematográfico. E quando tive a ideia, imaginei o poeta como sendo de Olinda. Ia trazer o filme todo pra cá, mas queremos falar do Recife, que é um universo de contradições de cidade grande, que contém um mundo.

Como surgiu Febre do rato?
A ideia veio durante a filmagem de Amarelo manga, em Olinda, quando inventei um personagem com um amigo meu. Ele foi crescendo, chamei Hilton Lacerda e as ideias foram chegando, só naquele momento pensamos em 17 sequências.

Você descreve o filme como romântico, sobre pessoas apaixonadas. Seria uma mudança de rota, depois de dirigir dois filmes que mostram a vida cruel?
Pelo contrário, é a afirmação disso tudo. Se as pessoas não viram amor nos meus outros filmes, precisam ver de novo até encontrar. Tudo que já foi dito será mostrado de outra forma, com poesia, de uma maneira elegante, generosa, para que seja um filme prazeiroso. Mas não mudei nada, o assunto é o mesmo, só que contado de forma diferente.

Recife tem uma tradição de poetas de rua, seu poeta se conecta com esse cenário?
Zizo não é marginal, é revolucionário. Existe o Zizo, que é meu amigo desde os anos 1980, a quem estamos fazendo homenagem, mas não tem nada a ver com a vida dele. No filme, Zizo cria um mundo onde as pessoas são iguais: negros, gordos, magros, brancos, putas, travestis. Se eles transam ou casam, se separam de um grande amor ou ficam nele pra sempre, não importa, temos que respeitar as pessoas do jeito que são. E um poeta pode tudo, tem liberdade pra falar e fazer o que quiser.

Cinema é a sua forma de fazer poesia?
Lógico. E o poeta sou eu. Cinema é minha forma de dizer o que eu acho do mundo.

Por dentro do set

Febre do rato, 3º longa-metragem de Cláudio Assis, é uma co-produção entre a Parabólica Brasil e BelaVista Cinema, em associação com a Pacto Audiovisual e República Pureza Filmes.

Elenco:
Irandhir Santos - Zizo
Nanda Costa - Eneida
Matheus Nachtergaele - Pazinho
Ângela Leal - D. Marieta
Conceição Camarotti - Stellamaris
Maria Gladys - Anja
Mariana Nunes - Rosângela
Juliano Cazarré - Boca Mole
Victor Araújo - Oncinha
Tânia Moreno - Vanessa

Direção: Cláudio Assis

Produção: Julia Moraes e Cláudio Assis

Roteiro: Hilton Lacerda

Produção Executiva: Marcello Maia

Direção de Fotografia: Walter Carvalho

Direção de Arte: Renata Pinheiro

Direção de Produção: Joana Araújo

Coordenação de Produção: Barbara Rocha

Figurino: Joana Gatis

Montagem: Karen Harley

Trilha sonora: Jorge du Peixe

Produtor associado: Malu Viana

Distribuidor: Imovision

Orçamento total: R$ 2, 2 milhões

Patrocinadores e investidores: Petrobras / Fundo Setorial do Audiovisual - Finep / Prêmio Adicional de Renda - Ancine /Imovision / Banco do Nordeste / Chesf / IMPSA / Petra Energia / Copergás / Estaleiro Atlântico Sul / Secretaria de Turismo do Governo de Pernambuco / Empetur / Prefeitura de Olinda

Incentivo: Funcultura / Governo do Estado de Pernambuco

(Diario de Pernambuco, 31/08/2010)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Paisagem do abandono



Após estreia no Festival de Veneza, prêmios em Havana, Toulouse, Paris e no Festival do Rio, Viajo porque preciso, volto porque te amo chega ao circuito comercial. O novo filme de Karim Aïnouz (O céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e urubus) é joia rara da contemplação cinematográfica.

Temos aqui não mais uma história, mas "A" história de amor, a que se joga de cabeça, como bem sugere a imagem final. O ponto de vista do filme é 100% subjetivo e emana de um único personagem, o geólogo José Renato (Irandhir Santos). Para quem assiste, o sentimento é o de incorporar sua identidade. Sem nunca aparecer em cena, ouvimos seus pensamentos, olhamos pelos seus olhos.

José Renato está em viagem de trabalho pelo interior nordestino, com a missão de encontrar o melhor caminho para a transposição do Rio São Francisco. Aos poucos, a tarefa cai para o segundo plano. Ele revive seu amor por Joana, que ficou em Fortaleza. Aparentemente à deriva, paisagens, cidadese personagens do Sertão são costuradas pela dor da separação.

As imagens de Aïnouz e Gomes têm forte teor afetivo e documental e ganham sentido ficcional com o roteiro escrito depois da captação, feita em vários suportes (35mm, 16mm, super 8, digital). O resultado tem densidade poética e busca pontes com a cultura popular - há passagens pela feira de Caruaru, Juazeiro do Norte, bares e cabarés de beira de estrada. O próprio nome do filme brinca com a cultura romântica das boleias de caminhões, que transitam neste road-movie existencial para ser assistido sem pressa.

(Diario de Pernambuco, 28/05/2010)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Quincas é o rei da boemia



Da literatura para o cinema, Quincas Berro d'Água estreia amanhã e inaugura uma nova fase na carreira de seu diretor, Sérgio Machado (Cidade alta). É a primeira vez que ele lida com uma produção tão cara, união de forças entre Petrobas, Globo Filmes, Miravista e Videofilmes, com tantos atores em cena e sequências complexas.

É também sua estreia no cinema de fantasia, que apresenta a realidade social com um pé no pastelão e outro nas farsas italianas, de personagens que, apesar de tratados com carinho, beiram o ridículo.

Apesar da novidade estética, Quincas se apresenta coerente com os interesses pessoais do diretor, que desdobra com propriedade temas como o amor, a amizade e a vida dura, suja e invisível de habitantes do underground soteropolitano.

Desta vez, em contraste com o da classe média em busca de ascensão, representada pela família do recém-falecido protagonista, interpretado por Paulo José, grande estrela do longa. No que deve ter sido um dos maiores desafios paraum portador do mal de Parkinson, José utiliza de sutilezas para interpretar o morto. Expressões sutis à parte, ele não move um músculo sequer durante o filme.

A ação se dá em menos de 24 horas, do momento em que a família recebe a notícia de que Quincas falecera, até morrer pela segunda vez, no mar. Em vida, Quincas foi funcionário público exemplar e levava monótona vida de pai de família, até que decidiu chutar o balde e cair na gandaia. Agora morto, parentes esperam não só restituir a imagem do patriarca, como ganhar dividendos sociais com o episódio. Para a sociedade baiana, Quincas era comendador na Itália, não o notório bebum pendurado em bordéis.

Durante o funeral, em que amigos sujos e bêbados se revezam para as condolências, ocorre o primeiro choque de realidade. Sob troca de olhares fervorosos, a relação promíscua entre casa-grande e senzala precisa continuar, no caso, através da filha de Quincas, Vanda (Mariana Ximenes), em busca do corpo do pai, raptado (ou salvo, dependendo do ponto de vista) porum destacamento de vagabundos.

Liderados pelo Cabo Martim (Irandhir Santos), o grupo está determinado a dar ao amigo um cortejo fúnebre digno do rei da boemia. O auge dessa aventura se dá num salão de dança em que prostitutas chefiadas por Manuela (Marieta Severo) se despedem do fiel amante.

O trabalho com atores inclui outras boas performances, como a de Milton Gonçalves (Delegado Morais), Othon Bastos (Alonso) e o pernambucano Germano Haiut (Tio Eduardo). Com maracatus e toques de rabeca interpretados por Siba, a música tem papel fundamental e na condução dessa narrativa bêbada e vigorosa, à altura dos anti-heróis de Jorge Amado.

Entrevista // Paulo José: "Faço um morto flexível, com sarcasmo"

Como foi interpretar um morto?
Eu trabalhei muito com interiorização, com impressões. Não quis ser expressão do filme, quis ser um elemento do filme. No cinema, o fundamental para o ator está no olho e estou de olho fechado o filme inteiro. Senti uma coisa estranhíssima, uma vida latente, de estar vivo olhando para dentro. No caixão eu não ficava distraído, mas atento a tudo em volta. Fiz um morto atento.

É verdade que você dispensou o uso de bonecos para cenas mais difíceis?
Curioso isso. Passei quatro dias fazendo modelagem do rosto para dois bonecos, muito bem feitos, mas Sérgio não gostou, porque boneco é um cadáver. E não tem nenhum sentido em filme com cadáver. Eu faço um morto flexível, que tem sarcasmo, que às vezes dá um sorriso.

Foi difícil fazer Quincas tendo que lidar com o mal de Parkinson? Como você lida com a doença?
Me vi aperreado, mas me saí bem apesar de fazer um esforço maior. Uso um marcapasso com eletrodo no cérebro, que emite sinal que tira os efeitos provocados pela medicação. Agora sou biônico. Isso dá uma certa estabilidade. Antes, eu nem sabia o que estava fazendo. No Roda Viva, passei a entrevista toda tremendo. O cara que faz a charge me desenhou com cinco, seis mãos. O mal de Parkinson tira a voz, reduz o movimento, tira a expressão facial. Fico com cara de jogador de pôquer. Então toco piano, faço bionergética, aula de voz, hidroginástica. É um trabalho quase diário pra retardar ao máximo o avanço da doença, que é degenerativa e irreversível. Mas todos nós, depois dos 30, entramos nesse processo.

E a experiência de trabalhar com Sérgio Machado?
No cinema é importante ser auto-exigente, não confiar na bossa achando que o público não vai reparar. Um filme se desarcerta por causa disso. Tem filmes que acabam saindo mal por negligência, por achar que defeito vira efeito. Sérgio é um obstinado, faz e desfaz, refaz. Isso é importante. Por trás de um filme satisfatório há um set rigoroso, atento a pequenos detalhes, ao tom de voz, à velocidade, um ouvido muto atento, sentidos aguçadospara não escapar nada e ao mesmo tempo ficar a salvo dos palpites da equipe.

(Diario de Pernambuco, 20/05/2010)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Ator pernambucano em ascensão



Premiado como melhor ator coadjuvante pelo trabalho no filme Olhos azuis, de José Joffily, o ator Irandhir Santos foi um dos destaques do 2º Festival Paulínia de Cinema. Na festa de encerramento do evento, na última quinta-feira, os aplausos e sorrisos são a prova de que o evidente talento deste pernambucano de 30 anos conquistou mais adeptos. Desta vez, não como o Maninho de Baixio das bestas ou o Quaderna, de A pedra do reino, apenas para citar dois de seus grandes momentos. E sim como Nonato, o brasileiro que há dez anos mora nos EUA, mas amarga o pão que o diabo amassou na mão de Marshall, chefe do departamento de imigração do aeroporto JFK.

Em entrevista ao Diario, Irandhir conta como construiu esse novo personagem e os desafios da interpretação em outra língua e as três novas produções em que participa: A morte e a morte de Quincas Berro D'água, de Sérgio Machado sobre livro de Jorge Amado; Besouro, de João Daniel Tikhomiroff; e A hora e vez de Augusto Matraga, de Vinícius Coimbra, que será rodado em Minas Gerais, com João Miguel no papel principal. De quebra, aproveita para contar sobre os novos planos para a carreira.

Entrevista // Irandhir Santos: "Os filmes têm me ensinado lições importantes"

Qual sua visão do filme de Joffily?
É um filme que trata da questão da diferença. E deixa claro que ela existe porque impomos isso de alguma maneira, como fator externo. Quando Nonato vê a filha com olhos azuis, me pergunto o porquê de Marshall se sentir tão superior, se ele é tão igual a mim.

Como Nonato foi construído?
Li muito o roteiro, sempre desconstruindo e cortando, rasgando o personagem. A partir das orientações do diretor, acrescentei a minha parte. No roteiro há muito o Nonato empreendedor, que sai do país para ganhar a vida. Quis imaginar outras situações, trazer mais humanidade para ele.

Foi difícil interpretar em inglês?
Tive que estudar, pois não tinha muito domínio do inglês. Também fui para a cultura americana, procurei saber o que existe lá que moveria alguém a sair de seu país. Comecei a contatar brasileiros que moravam lá, fiz entrevistas, procurei imagens.

Que imagens?
Os olhos foram imagens que mais captei. Gosto muito de olhos azuis e o desafio era olhar para eles e sentir o inverso. Adoro minha avó materna, a lembrança de carinho ligada a olhos azuis vem dela. Sentir o contrário foi um desafio.

Como foi a iniciação no teatro e a formação de ator profissional?
Minha recordação mais antiga está ligada à escola em que estudei em Limoeiro. É um lugar tradicional, administrado por freiras que trabalhavam teatro e arte-educação com os alunos. Quando fui estudar o segundo grau no Recife, também queria um colégio que tivesse teatro, mas fui para o Colégio Militar, pois meus pais me convenceram que era bom para passar no vestibular. Por sorte, um dos alunos de lá se formou e retornou para dar aulas de teatro.

Quem era ele?
André Cavendish. Foi meu primeiro professor de teatro. Lá eu tive a certeza de que queria continuar no palco. Então juntei a necessidade dos meus pais de ter que fazer universidade com a minha, de fazer teatro.

Qual era seu foco de estudo na universidade?
Na UFPE eu trabalhava com o corpo como expressão. Já na universidade procurava essa linha. Tive como professor Roberto Lúcio, que desenvolveu um trabalho muito bom. Foi também quando me aproximei de amigos como Kléber Lourenço e Jorge de Paula. Em Olhos azuis, dez minutos antes de rodar a sequência da arma, utilizei exercícios que aprendi na universidade, de respiração e exaustão física pra abrir o canal para as emoções.

Qual o papel mais difícil que já fez?
Gosto quando tenho tempo para a preparação. Para mim, é primordial. No teatro é possível, geralmente tenho seis meses para isso. No cinema não é assim, mas tive sorte de pegar papéis no qual existiam esse tempo disponível. De todos, o Quaderna foi o mais difícil, pela própria complexidade do personagem. O próprio Ariano (Suassuna) o define como quatro personagens: o palhaço, o rei, o contador e o sertanejo. E o Luiz (Fernando Carvalho, diretor de A pedra do reino) me deu um Quaderna velho, amadurecido. O momento em que cada um deveria aparecer foi um desafio grande, dividido com profissionais que me deram suporte.

O que faz sua profissão valer a pena?
Ultimamente, é o fato de poder exercê-la, de poder viver isso. Só por isso, já me sinto premiado. Quando esteve em Taperoá, Fernanda Montenegro disse: "nosso prêmio é o nosso ofício". Pois temos que enfrentar uma batalha diária, com quase todas as dificuldade e ainda lidar com o lado criativo. Equilibrar isso é a grande questão. Fico feliz quando penso no que já fiz e no que ainda tenho para fazer.

Quando você voltará ao teatro?
Ainda este ano. Estou ensaiando semanalmente com o Grupo Visível (Visível Núcleo de Criação), que Kléber Lourenço montou para retomar o ator como criador da história. O nome do projeto é Daquilo que move o mundo. Ele trabalha a dramaturgia com exercícios cênicos coordenados pelo dramaturgo Felipe Botelho. A ideia é iniciar o trabalho no Recife e no fim do ano vir pra Campinas para a preparadora Tiche Vianna, que tem um excelente trabalho com a comédia dell'arte, lapidar e fazer o que quiser com nossos corpos. Pra mim será uma retomada. Há três anos não faço teatro e esse é um grupo que gosto muito, ligado à universidade, com um senso de pesquisa e continuidade que me interessa.

Fale sobre o personagem que você faz em Besouro. Ele é um vilão?
É. Seu nome é Noca de Antonia. Para fazê-lo, tive que trabalhar com sombras. A preparadora de elenco, Fátima Toledo, disse que os capoeiristas são a luz e nós precisamos das sombras, que sou eu e o coronel. Então tive que ativar o que há de pior em mim. Sou muito recatado, mas em um dos exercícios ela me "destampou" e tudo que estava reprimido saltou com a raiva. Para ativar minha sombra falei todos os palavrões e coisas sujas.

Como foi a experiência de filmar A morte e a morte de Quincas Berro D'água, com atores veteranos como Paulo José e Marieta Severo?
Também foi com Fátima, só que o filme é uma comédia. Eu faço o Cabo Martin, um dos quatro amigos de Quincas. A grande questão foi trabalhar o tema morte de um grande amigo, uma grande perda. Apesar de ser comédia, tive que trabalhar de maneira muito séria. Ver Paulo José morto é algo bem doloroso, então parti daí. A ideia do Sérgio (Machado, o diretor do filme) é que o cômico não estivesse nos personagens, mas sim nas situações absurdas. Os filmes dos irmãos Cohen foram referências.

Ultimamente, você tem recebido muitos convites. O que te faz escolher um projeto?
Sempre escolho a partir do que me toca naquele momento da vida. Os filmes que faço têm me ensinado lições importantes. Trabalhar com Luís Fernando Carvalho e Cláudio Assis me fez redescobrir o lugar onde nasci. Naquele momento estava em dúvida se ficava lá ou ia para o Recife. Meu olhar para aquela região mudou muito. No caso de Olhos azuis, senti que deveria fazer pelo roteiro, uma história fantástica, por Joffily, diretor que já admirava e pelo desafio, pois a maioria das cenas são em inglês, língua em que não tenho tanta prática.

O que te atraiu na refilmagem de A hora e a vez de Augusto Matraga?
Guimarães Rosa foi primeiro autor que entrou lá em casa, período que lembro muito do meu pai. Ele lia muito e conversava sobre a obra, tinha olhar peculiar. Ele achava que Guimarães mostrava um sertão cru, forte, seco. E minha mãe via o contrário, via poesia. Então sempre havia discussão. Quando fiz A pedra do reino, me debati com o Sertão de Ariano, colorido e alegre de pessoas que se encantam com sua raiz. Agora sinto a necessidade de viver o sertão duro, seco, para haver um diálogo.

sábado, 18 de julho de 2009

Festival de Paulínia // A noite de premiação


Crédito das fotos: Aline Arruda / Divulgação

Paulínia (SP) – A festa de premiação do 2º Festival Paulínia de Cinema, na noite da última quinta-feira, foi uma grande confusão em que ninguém sabia exatamente o que fazer. Estrutura havia de sobra, mas faltou logística na organização do palco. Nem mesmo o casal de apresentadores Murilo Benício / Guilhermina Guinle, perdidos e dependentes de um equivocado teleprompter, conseguiram manter o controle da situação, quando uma dezena de premiados foram de uma só vez chamados ao palco. Representantes da administração municipal, a dona do evento, transpareciam desconforto no papel de anfitriões do mundo do audiovisual, reunido anteontem para a entrega dos troféus Menina de Ouro. Possível reflexo do escândalo que afastou do cargo o prefeito da cidade, sob suspeita de compra de votos.

Paulínia quer ser vista como um festival democrático, capaz de transitar entre filmes “cabeça” e populares. Nesse sentido, a distribuição de troféus, feita de forma equânime, pode ser consequência dessa política. Olhos azuis venceu em seis categorias, inclusive o prêmio principal, no valor de R$ 60 mil. “Ninguém pediu para que esse filme fosse feito. Dedico esse prêmio ao voluntarismo de todos os artistas”, discursou José Joffily, o diretor. Eleito melhor ator coadjuvante pelo papel de Nonato, o imigrante brasileiro em solo norte-americano, o pernambucano Irandhir Santos foi simples e direto: “já me sinto agraciado por exercer a função de ator neste país. Agora, volto pra casa acompanhado por uma bela ‘menina’”.


Irandhir Santos contracena com David Rasche...



... e recebe o prêmio de melhor ator coadjuvante


Romance de formação sobre duas rodas, Antes que o mundo acabe, de Ana Luiza Azevedo foi um dos grandes destaques do festival. Nada mais justo do que receber o prêmio da crítica e ter sido escolhido em cinco categorias pelo júri oficial (formado por Zuenir Ventura, Adhemar de Oliveira, João Jardim, a roteirista Elena Soarez e a diretora de programação da HBO, Ângela de Jesus).


Antes que o mundo acabe, de Ana Luíza Azevedo levou cinco troféus

No momento máximo de generosidade do Júri, três atores e três atrizes principais receberam troféus: Silvia Lourenço e a transexual Maria Clara Spinelli, de Quanto dura o amor?, e Cristina Lago (atriz-revelação de Olhos Azuis); e Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, pelo papel do contador de histórias Roberto Carlos Ramos nas fases criança, jovem e adulto. “Quando eu era criança, sempre quis ter uma boneca mas nunca me deram. Agora tenho uma Menina de Ouro!”, provocou Spinelli.

Da ficção aos documentário (ainda precisamos promover esse apartheid?), os holofotes iluminaram Só dez por cento é mentira, um elogio ao poeta Manoel de Barros e Hebert de perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz. Diretor de vários clipes dos Paralamas do Sucesso, Berliner conversa com família e amigos de Hebert Vianna, faz uso das próprias imagens de arquivo e da proximidade que tem com o compositor para mostrá-lo na intimidade, como no depoimento que Hebert dá entre o closet e o banheiro da suíte onde dorme.

Coube à crítica lembrar o valor de Moscou, doc em que Eduardo Coutinho expande a investigação que apaga as fronteiras entre real e fictício, memória e invenção. “Não sei o que fiz nesse filme”, disse, angustiado, ao apresentar o filme no dia da exibição. Frase que seria muito mais adequada à atriz / produtora Lucélia Santos com relação ao sofrível Destino, filme que sequer deveria existir, quando mais figurar entre as produções escolhidas para o festival, que ali atingiu seu momento mais lamentável.

O prêmio do público para Caro Francis demonstra o talento de Nelson Hoineff em se comunicar com grandes platéias. Fazem pouco mais de dois meses que Alô Alô Terezinha!, também de sua autoria, foi eleito pelo júri popular como o melhor do Cine PE. “Faço filmes para serem vistos. É um erro pensar que há falta de preparo no público. Ele é muito mais sábio do que se imagina”, disse o diretor.

Os curtas Timing, de Amir Admoni, e Spectaculum, de Juliano Luccas, foram os melhores de suas categorias. O primeiro usa efeitos especiais para prender o ator Caco Ciocler (que contracena com o pai, Jackson) no painel de uma estação de metrô. O segundo apresenta a vida de um palhaço fora do picadeiro, como fosse um documentário de inclinação artística, coroado pelo depoimento de que, “para ser palhaço, precisa ser muito intelgente”.


Stulbach - boa atuação

Elogio ao teatro – Antes da premiação, foi exibido Tempos de paz, sétimo longa de Daniel Filho, com presença dos atores principais, Tony Ramos e Dan Stulbach. Baseado no livro Novas diretrizes para tempos de paz, de Bosco Brasil, o filme é algo mais teatral do que televisivo, o que conta pontos a favor do diretor de Se eu fosse você. Em bem-vindo viés autoral, Filho conta a história de Clausewitz (Stulbach), ator polonês que, com o fim da 2ª Guerra é impedido de entrar no Brasil ao esbarrar na burocracia ressentida do oficial de imigração Segismundo (Ramos). A homenagem aos imigrantes Anatol Rosenfeld, Nydia Lícia, Otto Maria Carpeaux e Zbigniew Ziembrinski faz de Tempos de paz um elogio ao teatro e ao ofício do ator foram arrebatadoras e responsáveis pelo ponto alto e de maior comoção do encerramento do 2º Festival de Paulínia.

* o repórter viajou a convite do evento.

(Diario de Pernambuco, 18/07/09)

Mais impressões sobre Paulínia (escritas de um aeroporto)


Tony Ramos e Dan Stulbach em Tempos de paz: bom momento

O segundo Festival de Paulínia terminou ontem à noite. Daqui a pouco sai a matéria que fiz para o Diario (post acima).

Enquanto aguardo o avião para o Recife, nada como um blog para divagar sem preocupações com os limites de tempo / espaço de um jornal impresso.

Penso em como foi cobrir este festival. Ao mesmo tempo, um trabalho difícil e gratificante.

Primeiro, os obstáculos. Diferente do ano passado, a organização hospedou a imprensa no Hotel Royal de Campinas. Ou seja, todos os dias eram entre duas a quatro viagens de van para Paulínia, cada trecho com 30 a 40 minutos. Na ponta do lápis, em oito dias, foram em média 16 horas dentro de uma van.

Por tudo isso, foram dias bastante cansativos. À noite, havia os filmes em competição - dois curtas e dois longas, somados a um interminável desfile de vinhetas e logomarcas. Após a sessão, janta. Hotel entre 1h e 2h da manhã. No dia seguinte, as coletivas começavam às 10h, na prefeitura de Paulínia. Após o almoço, corrida para entregar as matérias dentro do prazo.

Problemas de translado à parte, há que destacar a vontade do evento em dar conta de todas as frentes que fazem um bom festival de cinema. Do começo ao fim, tivemos projeções com ótima qualidade técnica, mostras paralelas, exibições nos bairros, debates, seminários de todos os tipos. Não bastasse, duas festas bacanas – uma no sábado, promovida pela Quanta, e outra ontem, de despedida.

Quanto à programação da mostra competitiva, houve maus momentos, sim. Mas a maioria dos filmes e coletivas fizeram a vida de maratonista valer a pena.

É o caso do doc de Eduardo Coutinho, Moscou. A exibição foi um choque. Nos que permanceram, pois há quem não suporte algo tão fora do padrão. No dia seguinte, rendeu uma das melhores coletivas, se não, a melhor. Pena que Coutinho não esteve na noite de encerramento para receber o prêmio da crítica. A informação é que ele estaria no MoMa, em Nova York, onde sua obra está sendo exibida.

Eleito melhor filme pelo júri especial Olhos azuis, de José Joffily, foi alvo de críticas por trazer uma história muito esquemática e fatalista.


Joffily, melhor longa de ficção em Paulínia: 13 anos de projeto

Pode ser, mas isso não chega a ser um problema. O roteiro de Paulo Halm (cujos pais são de Pernambuco) tem seus méritos; a trilha de Jacques Morelembaum, com músicas de Siba Veloso e participação de Arlindo dos Oito Baixos é de uma beleza monumental; e o elenco deu um show de interpretação. Mais do que merecidos os prêmios de melhor coadjuvante para Irandhir Santos e melhor atriz para Cristina Lago.

Na noite de segunda-feira, Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira, rendeu ótimos comentários no caminho de volta para o hotel. “Finalmente, um filme”, disseram alguns, escaldados pela traumática experiência de assistir Destino, uma peça de duas horas e R$ 10 milhões que não funciona como cinema, novela, ou mesmo catálogo turístico de paisagens do Brasil e leste asiático. Pode até ser que dê certo lá na China - na coletiva, a produtora Lucélia Santos disse que a ideia é atingir os 900 milhões de espectadores da TV de lá. No Brasil, não tem a mínima chance. Quem sabe como série de 35 capítulos, formato para que o roteiro foi pensado, há 13 anos.

Antes que o mundo acabe é um caso curioso. Não tem vocação se enquadra exatamente como filme de festival (chegou a ser questionado se ele deveria ou não ir direto para o circuitão). Ao mesmo tempo, foi um dos mais votados (prêmio da crítica mais cinco do júri oficial). De qualquer forma, graças a ele, tivemos outro momento bom.

Só dez por cento é mentira é um caso à parte. Impossível não se entregar a poesia de Manoel de Barros. Dá até pra encarar vacilos como a voz em off do diretor Pedro Cezar e excessos cometidos pela pretensão de “traduzir” o espírito do poeta para a linguagem audiovisual.

Parece ter sido dificil a disputa pelo troféu de melhor atriz principal. Todas mereciam. A opção do júri pelo prêmio coletivo foi conciliadora, mas meio covarde. Paulínia parece ainda não ter maturidade para o embate saudável que pode surgir em um festival.


Spinelli...


... e Lago

Fica o protesto pelo completo abandono da portuguesa Maria de Medeiros, que acertou no papel da professora Marguerit na produção mineira O contador de histórias.

Quanto aos curtas, bem, com exceção dos vencedores, estão abaixo de qualquer comentário. Fica a esperança que no ano que vem a curadoria seja um pouco mais seletiva. Opção não falta.

Foi uma festa de premiação das mais estranhas que assisti na minha curta carreira de coberturas. Como apresentador, Murilo Benício se mostrou um bom troglodita. Trocou nomes, improvisou piadas de mau gosto e transpareceu um desânimo quase burocrático.

A sessão de Tempos de paz, novo longa de Daniel Filho, foi o ponto alto da noite. Longe do trabalho que fez em Se eu fosse você 1 e 2, o diretor mostrou verve criativa ao adaptar para o cinema o texto que há meses está em cartaz nos teatros com os mesmos atores: Tony Ramos e Dan Stulbach.

Após o filme, até Benício virou gente.


Tempos de paz, de Daniel Filho, estreia em agosto no circuitão

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pernambuco na tela do Festival de Paulínia


Marshall (Rasche) e Bia (Cristina Lago) no sertão pernambucano
Crédito: Helder Tavares

Paulínia (SP) - Olhos azuis, de José Joffily, colocou Pernambuco na tela do 2º Festival de Paulínia na noite de terça, a penúltima da mostra competitiva de longas e curta-metragens. A ficção trata do que parece ser o assunto da vez no cinema mundial: a truculência com que habitantes de países periféricos são tratados quando migram para nações ricas. Apenas para citar casos recentes, há À oeste do eden, de Costa Gavras, exibido no último Cine PE; Jean Charles, história real do brasileiro assassinato em Londres; Bem-vindo, que deu o que falar na França por tocar na polêmica lei que penaliza imigrantes ilegais; e de forma leve em A proposta, comédia romântica em que Sandra Bullock será deportada se não resolver seus papéis na imigração. Coincidência ou não, Tempo de Paz, novo filme de Daniel Filho hoje à noite encerra o festival (hors concours, após a cerimônia de premiação) aborda tema parecido, em situação inversa: após a segunda guerra, um ator polonês tenta em vão adentrar o Brasil.

Com locações entre o Recife e Petrolina, Olhos azuis tem Heloísa Resende na produção, Pedro Bronz na montagem e Jacques Morelembaum na trilha sonora, que ainda conta com músicas de Siba, Petrúcio Amorim e Alceu Valença. O roteiro, contemplado em 1998 pelo Sundance Festival, foi construído a partir da experiência de Joffily em abrigar em sua casa, no Rio, um amigo deportado dos Estados Unidos. “Ele me contou detalhadamente o que tinha acontecido. Desde então passei a ouvir depoimentos de tantas pessoas que passaram por maus tratos na imigração”, disse o diretor, na coletiva para a imprensa, ontem.

De forma não-linear, o filme apresenta o último dia de trabalho do oficial do departamento de imigração Marshall (David Rashe). Forjado no moralismo do americano médio, ele não vê muito sentido em abandonar o trabalho onde, justificado pela paranóia terrorista, pode exercer livremente seus preconceitos contra chicanos, cubanos e outros cucarachas como Nonato (Irandhir Santos), ao lado de dois subalternos de descendência terceiro-mundista que brigam pelo seu posto. A trágica situação limite, insinuada desde o primeiro plano, chega após bons goles de uísque.

Da luz fria e azulada do escritório e seus distintivos (semelhante a uma série policial de TV) ao chão ensolarado do Recife, Marshall tem contas a acertar consigo mesmo. Para encontrar a pequena Luíza, filha de Nonato, pede ajuda à primeira pessoa que encontra, no caso, Bia (a paranaense Cristina Lago, de Maré).

Convocado para o papel que seria de Robert Forster (Jackie Brown, de Tarantino), Rasche se mostrou ótima escolha para incorporar Marshall. Conhecido no cinema em papéis menores em A conquista da honra, United 93 e Queime depois de ler e na TV como o violento policial da série oitentista Sledge Hammer. Cristina Lago também convence como Bia, que ao conduzir o “gringo” a seu destino, numa espécia de road-movie, reencontra o passado que não queria no sítio do avô (Everaldo Pontes), no momento mais simbólico do filme.

A interpretação segura e precisa de Irandhir Santos é outro mérito da produção, que custou R$ 2,3 milhões e deve estrear comercialmente somente em março do ano que vem. Requisitado desde que foi premiado em Brasília por Baixio das bestas, o ator peranbucano será será visto até 2010 em pelo menos mais duas produções: A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, livro de Jorge Amado adaptado por Sérgio Machado (diretor de Cidade baixa) e Besouro, filme de João Daniel Tikhomiroff sobre o lendário capoeirista baiano.

Poesia - Na mesma noite, o documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, pegou a platéia de surpresa com a poesia de Manoel de Barros. O filme tem o mérito de ser um dos raros registros audiovisuais do recluso poeta mato-grossense – ele se diz mais “letral” do que biológico. Costurado por depoimentos de familiares, amigos e admiradores, o diretor meio carioca, meio pernambucano que despontou nacionalmente com outro doc, Fábio Fabuloso, apresenta Manoel na mesa onde trabalha em sua casa, escritório batizado de “lugar de ser inútil”.

“Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, afirma o mestre, acerca de sua obra. Ao que garante: “Tudo o que não invento é falso”. De acordo com o diretor, foram dois anos de um processo “artesanal” até trilhar o caminho que leva ao poeta/criança, hoje com 93 anos. Na coletiva, Cezar explicou o porque. “Eu tinha a fantasia de lançar o filme no noventenário de Manoel de Barros. Com o material captado, vi que tinha em mãos um filme extremamente discursivo. Então resolvi buscar seu universo visual. Os versos de Manoel de Barros são muito imageticos. Depois de 11 cortes, o filme encontrou um equilíbrio entre teoria e discurso, palavra e imagem”, diz Pedro Cezar.

Entre revelações de infância, quando, isolado em zona rural, conversava com patos e das inspirações em Padre Vieira (herança de sua formação no Colégio Marista) e Charles Chaplin (de onde tirou a filosofia do vagabundo profissional que diz ser), Manoel brilha em momentos arrebatadores: “As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis. É preciso transver o mundo”. Interessado pela “coisificação das pessoas e a humanização das coisas” ele diz que aprendeu ouvindo o filho, que rendeu o livro Poeminhas pescados na fala de João. “Criança erra na gramática, mas acerta na poesia”.

Poesia que define como “a virtude do inútil”. Poeta? “Sujeito com mania de comparecer aos próprios desencontros”. O melhor amigo, Bernardo, já falecido: “era que nem árvore. Seu silêncio era tão grande que os passarinhos ouvem e vinham pousar no seu ombro”. Ao final, palmas não tão estridentes e mais duradouras, certeza de que no Festival de Paulínia o poeta ganhou mais admiradores.