Mostrando postagens com marcador matheus-nachtergaele. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador matheus-nachtergaele. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Cláudio Assis e a Febre do Rato



Nove anos depois de Amarelo manga, Cláudio Assis volta a filmar em Olinda e Recife. A partir de hoje, a produção de Febre do rato, terceiro longa-metragem do diretor pernambucano, movimenta a cidade com uma equipe de profissionais cariocas e pernambucanos. Durante a semana de ensaios, o elenco formado por Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Mariana Nunes e Juliano Cazarré circulou em eventos e bares. No que diz o burburinho, Nachtergaele já está com o personagem incorporado, o coveiro Pazinha, e assim deve continuar até o começo de outubro, quando terminam as filmagens.

Apesar do momento ao mesmo tempo tenso e delicado que configura a pré-produção de um longa, Cláudio e Júlia Moraes receberam o Diario no casarão utilizado para os ensaios, no Sítio Histórico. Eles celebram a boa fase do cinema feito em Pernambuco, somente em 2010 contabiliza quatro longas em andamento, com distribuição garantida. Febre do rato será rodado em super 35mm, captado em cores para ser vertido em preto e branco na pós-produção. Como em todos os filmes do diretor, a fotografia é de Walter Carvalho, em formato cinemascope.

Contemplado em 2005 pelo fundo holandês Hubert Bals para desenvolvimento de projetos, Febre do rato tem acumulado patrocínios e apoios nacionais e estrangeiros, como a empresa argentina IMPSA. "Empresários entenderam que dá pra investir no cinema de ideias, independente do retorno financeiro", diz Júlia. "Nesse processo, a Fundarpe foi fundamental para a gente poder andar e ganhar os grandes editais, concorrendo com filmes do Brasil inteiro", complementa Cláudio. Com 90% do orçamento captado, falta garantir a finalização. "A Prefeitura do Recife ainda não oficializou, mas garantiu que vai nos apoiar".

Durante a prova de figurino, encontramos um Irandhir febril, possuído pelo poeta Zizo, personagem principal do novo filme. "Se tem algo que resume Zizo, é a atitude", disse o ator, que acaba de participar de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, e a partir de outubro poderá ser visto em Tropa de elite 2. Semana passada, Irandhir conheceu Miró, com quem descobriu afinidades. "O destino trouxe Miró e fiquei com ele enquanto pude. Se eu tiver 1/3 dele no meu personagem estarei muito feliz". Para compor Zizo, Irandhir tem dormido e acordado com João Cabral, Drummond, Pedro Tierra e Murilo Mendes. No entanto, todas as poesias do filme são originais, escritas por Hilton Lacerda.

Boa parte de Febre do rato será rodada na Fábrica Tacaruna, que será morada de um triângulo amoroso vivido por Juliano Cazarré, Mariana Nunes e Vítor Araújo, que estreia como ator. Afora o elenco principal, Jones Melo, Paulina Albuquerque, Sâmara Cipriano, Chiquinho Serra Velho, Hugo Gila e a paulista Tânia Moreno prometem gerar cenas que, como nos demais filmes de Cláudio, ainda vão dar o que falar.

Entre atores, figurantes e participações especiais, serão mais de 400 pessoas. Um churrasco de Páscoa na casa de Zizo reunirá Jommard Muniz de Britto, Gaspar Andrade, Fernando Peres e Irma Brown, Wilma Gomes (ex-miss Pernambuco), Lala K e Carlos Carvalho. "Quero pessoas que na vida real seriam amigos do poeta e reunir a nossa cena cultural, uma metalinguagem a serviço do cinema", diz Rutílio de Oliveira, responsável pelo casting. Miró, Xico Sá, Roger de Renor e João do Morro também serão convidados. Evocados no título, ratazanas comuns nas alamedas da cidade não devem faltar. Mas a "febre do rato" não tem nada a ver com a doença provocada pelos roedores, mas com a expressão pernambucana para determinado estado de espírito. "É como se a pessoa azougada, com atitude para o bem ou para o mal, com vontade de lutar por alguma coisa", diz Cláudio.

Inspiração no avô poeta - Neta de Vinicius, Júlia Moraes busca no avô parte da inspiração para o poeta do novo filme de Cláudio Assis. "Ele viveu pra poesia e me deu condições de entender e viajar no universo do poeta. Com certeza estamos trazendo isso para o filme. Para ele a família, as histórias, a obra é uma só". Júlia tinha apenas seis anos quando Vinicius se foi. A breve convivência deixou nela uma imagem clara de entrega que agora ele transpõe para o filme, que ela descreve como "alto astral, de afirmação", de um personagem que não está preocupado com dinheiro ou sucesso, que "não quer se dar bem, mas ser quem ele é".

"Assim como ele, Zizo é um poeta do amor e da dor. E disso todo mundo entende. Seja parnasiana, romântica, escatológica ou concreta, a poesia é capaz de tocar as pessoas de forma profunda. E Zizo carrega consigo essa liberdade, que as pessoas querem viver mas não têm coragem, são amarradas".

Entrevista // Claudio Assis: "Tudo será mostrado com generosidade"

Após quase uma década, você volta a usar Olinda como cenário. Qual sua relação com a cidade?
Minha produtora funciona há 15 anos em Olinda, onde fizemos muitos curtas. Sempre quis fazer um longa aqui, em Amarelo manga filmamos nos Quatro Cantos, que é muito cinematográfico. E quando tive a ideia, imaginei o poeta como sendo de Olinda. Ia trazer o filme todo pra cá, mas queremos falar do Recife, que é um universo de contradições de cidade grande, que contém um mundo.

Como surgiu Febre do rato?
A ideia veio durante a filmagem de Amarelo manga, em Olinda, quando inventei um personagem com um amigo meu. Ele foi crescendo, chamei Hilton Lacerda e as ideias foram chegando, só naquele momento pensamos em 17 sequências.

Você descreve o filme como romântico, sobre pessoas apaixonadas. Seria uma mudança de rota, depois de dirigir dois filmes que mostram a vida cruel?
Pelo contrário, é a afirmação disso tudo. Se as pessoas não viram amor nos meus outros filmes, precisam ver de novo até encontrar. Tudo que já foi dito será mostrado de outra forma, com poesia, de uma maneira elegante, generosa, para que seja um filme prazeiroso. Mas não mudei nada, o assunto é o mesmo, só que contado de forma diferente.

Recife tem uma tradição de poetas de rua, seu poeta se conecta com esse cenário?
Zizo não é marginal, é revolucionário. Existe o Zizo, que é meu amigo desde os anos 1980, a quem estamos fazendo homenagem, mas não tem nada a ver com a vida dele. No filme, Zizo cria um mundo onde as pessoas são iguais: negros, gordos, magros, brancos, putas, travestis. Se eles transam ou casam, se separam de um grande amor ou ficam nele pra sempre, não importa, temos que respeitar as pessoas do jeito que são. E um poeta pode tudo, tem liberdade pra falar e fazer o que quiser.

Cinema é a sua forma de fazer poesia?
Lógico. E o poeta sou eu. Cinema é minha forma de dizer o que eu acho do mundo.

Por dentro do set

Febre do rato, 3º longa-metragem de Cláudio Assis, é uma co-produção entre a Parabólica Brasil e BelaVista Cinema, em associação com a Pacto Audiovisual e República Pureza Filmes.

Elenco:
Irandhir Santos - Zizo
Nanda Costa - Eneida
Matheus Nachtergaele - Pazinho
Ângela Leal - D. Marieta
Conceição Camarotti - Stellamaris
Maria Gladys - Anja
Mariana Nunes - Rosângela
Juliano Cazarré - Boca Mole
Victor Araújo - Oncinha
Tânia Moreno - Vanessa

Direção: Cláudio Assis

Produção: Julia Moraes e Cláudio Assis

Roteiro: Hilton Lacerda

Produção Executiva: Marcello Maia

Direção de Fotografia: Walter Carvalho

Direção de Arte: Renata Pinheiro

Direção de Produção: Joana Araújo

Coordenação de Produção: Barbara Rocha

Figurino: Joana Gatis

Montagem: Karen Harley

Trilha sonora: Jorge du Peixe

Produtor associado: Malu Viana

Distribuidor: Imovision

Orçamento total: R$ 2, 2 milhões

Patrocinadores e investidores: Petrobras / Fundo Setorial do Audiovisual - Finep / Prêmio Adicional de Renda - Ancine /Imovision / Banco do Nordeste / Chesf / IMPSA / Petra Energia / Copergás / Estaleiro Atlântico Sul / Secretaria de Turismo do Governo de Pernambuco / Empetur / Prefeitura de Olinda

Incentivo: Funcultura / Governo do Estado de Pernambuco

(Diario de Pernambuco, 31/08/2010)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Cinema autoral de Nachtergaele



A festa da menina morta, filme de estreia Matheus Nachtergaele como diretor, teve longa carreira em festivais, onde circulou por quase um ano. Desde que foi exibido pela primeira vez, na sessão Un Certain Regard do Festival de Cannes do ano passado, o longa tem colecionado prêmios e fortes reações. No Festival do Rio, ganhou melhor direção; em Gramado, conquistou seis prêmios, entre eles, o de melhor filme (público e crítica), ator (Daniel de Oliveira) e fotografia (Lula Carvalho). Ao atingir o circuito comercial, neste fim de semana, o público talvez termine por recebê-lo como a seu autor: querido por muitos, rejeitado por outros. No Recife, ele entra em cartaz no próximo dia 26, no Cinema da Fundação, que hoje promove uma sessão especial aberta ao público, às 19h30.

Mistura de ficção e elementos autobiográficos, o roteiro escrito por Nachtergaele e Hilton Lacerda rendeu uma narrativa visceral, ambientada numa comunidade ribeirinha em plena selva amazônica. Naquela região isolada, a equipe entrou numa imersão que durou meses, e o resultado dessa vivência transborda na tela. Isolamento mais do que necessário para materializar o que há de subjetivo em Santinho (Oliveira, em interpretação que poderia ser do diretor), um jovem tirânico e de personalidade afetada, tratado a pão-de-ló por toda a comunidade, inclusive pelo pai de atitudes incestuosas, desde que um cachorro trouxe até ele o vestido de uma menina morta em circunstâncias misteriosas.

O comportamento afeminado de Santinho se justifica na ausência da mãe, a qual tenta obsessiva e muitas vezes violentamente substituir no contexto familiar. O que torna a história algo bastante particular se revela durante o clímax: na cerimônia religiosa, a menina morta é chamada de Maria Cecília, nome da mãe do diretor.

Em termos estéticos, no entanto, é inevitável uma comparação com filmes de Cláudio Assis, em que, não por acaso, Nachtergaele tem sido presença constante. Aqui há a mesma imagem de tons carregados; atuações marcadas pelo excesso (não só de Oliveira, mas de Jackson Antunes, Conceição Camarotti, Dira Paes e Cássia Kiss); direção de arte de Renata Pinheiro (ela trabalhou em Amarelo manga e Baixio das bestas); fotografia escura e granulada de Carvalho (filho de Walter); e situações escatológicas, como um porco sendo abatido por longos minutos.

Nada disso chega a ameaçar a autonomia do projeto. A festa da menina morta e sua densidade que envolve e sufoca, exala a personalidade do criador. E aponta, assim como outros filmes conduzidos por atores (Selton Mello, Marco Ricca), para uma nova safra autoral do cinema brasileiro.

*publicado no Diario de Pernambuco

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O bem amado reencarna em Marechal Deodoro

Começaram ontem as filmagens de O bem amado, novo longa de Guel Arraes. O município escolhido como cenário é Marechal Deodoro, no interior de Alagoas. A equipe, que conta com os atores Caio Blat, Mateus Nachtergaele, Tonico Pereira e Maria Flor, chegou anteontem na histórica cidade. Antes, eles concederam coletiva de imprensa com a presença do governador do estado, Teotônio Vilela Filho. O ator Marco Nanini, que interpretará o lendário coronel Odorico Paraguaçu, tem chegada prevista para o sábado.

Escrita por Dias Gomes, com Paulo Gracindo no papel principal, a telenovela O bem amado bateu recordes de audiência na TV brasileira nos anos 1970, se tornando uma referência na teledramaturgia. O longa-metragem é produzido por Paula Lavigne (Natasha Filmes), em parceria com a Globo Filmes e a Buena Vista Internacional. O roteiro é Claudio Paiva e do próprio Guel Arraes, que já produziu outros filmesfortemente ligados à TV e teatro, como O auto da compadecida, Lisbela e o prisioneiro e A grande família.

Segundo Paula Lavigne, a versão cinematográfica não vai ser influenciada pela famosa adaptação televisiva. "Como as duas versões são baseadas na mema peça original, é natural que surjam diversos pontos em comum, mas vamos acrescentar, por exemplo, cenas narradas sob o ponto de vista do antagonista, intepretado por Tonico Pereira", prevê a produtora.

No mês passado, Guel e Lavigne estiveram em Pernambuco, e consideraram o Sítio Histórico de Olinda como forte candidato a locação. "Desistimos por causa da proximidade com o período carnavalesco. Seria inviável. As filmagens são uma verdadeira operação de guerra. Teríamos que interromper as ruas e pedir silêncio. Não queríamos atrapalhar a festa", justifica Paula.

O bem amado será um filme de época, pois Guel Arraes optou por manter o contexto histórico do texto original, ambientado na década de 1920, um pouco antes da Revolução de 30. As filmagens em MarechalDeodoro devem durar duas semanas. Logo após, a equipe vai ao Rio de Janeiro, rodar em cidades do interior e em estúdios, durante mais um mês de trabalho. Recentemente, Nanini intepretou o mesmo personagem no teatro, mas, de acordo com Paula, apesar da coincidência, os dois projetos não têm relação entre si.