terça-feira, 12 de outubro de 2010

A lógica no liquidificador



Suspense com fortes doses de humor negro, Reflexões de um liquidificador (Brasil, 2010), de André Klotzel, faz uma leitura bastante particular da máxima do eletrodoméstico como o melhor aliado da dona de casa. A história está longe da estratégia marqueteira para vender tais objetos, assim como do senso comum machista que diz que lugar mulher é na cozinha.

Ao contrário, o objeto fetiche do filme (voz de Selton Mello) representa a improvável função de cúmplice de um crime passional, praticado por Elvira (Ana Lúcia Torre), senhora que suspeita ser traída pelo marido (Germano Haiut). O longa de Klotzel (Marvada carne, Memórias póstumas) estreia nesta sexta-feira no Cinema da Fundação. Hoje, às 20h20, ele tem pré-estreia especial com a presença do diretor e dos atores Haiut e Aramis Trindade.

O filme observa quase tudo do ponto de vista do liquidificador, manifestação inconsciente da culpa de Elvira e cujo desenho industrial retrô é explorado com sabor. A fantasia gera graça diametralmente oposta à sequência final. Por sua vez, este é antecipado pela narrativa estruturada em retrospectiva. O filme começa na delegacia, com Elvira dando queixa do sumiço do marido. O caso é investigado pelo detetive Fuinha, tipo cafajeste interpretado por Aramis Trindade.

A trilha sonora à moda antiga e personagens pitorescos geram leveza necessária para encarar o sangrento desenrolar dos acontecimentos. Além de Fuinha, sabujo farejador e catalizador do suspense, há a vizinha Milena (Fabíula Nascimento) e o carteiro bisbilhoteiro (Marcos Cesana, em seu último papel).

Este é o primeiro papel principal de Ana Lúcia Torre, nome respeitado no teatro, rosto conhecido nas novelas com carreira de doze longas. Mas o astro do filme é mesmo o liquidificador, que desenvolve visão peculiar da natureza humana e suas contradições. Para ele, pensar é moer. "O sentimento humano é uma hélice de dois gumes. Uma lâmina alisa a tua vaidade. A outra corta fundo o teu orgulho", dispara o eletrodoméstico, afiado.

Quando a lanchonete em que dedicou a vida é fechada, Elvira não sabe bem o que fazer com o tempo livre e passa a confidenciar com o liquidificador. O marido arruma emprego de vigia e ela fica em casa empalhando animais para passar o tempo e completar o orçamento. O tempo de sobra abre brecha para o ciúme, sentimento capaz de alterar radicalmente as percepções da realidade. São eles, o ciúme e o delírio, que fazem girar o aparelho - e o filme - de forma eficiente.

Entrevista // Aramis Trindade: "Precisamos refletir não só sobre a exibição"

A partir de sexta-feira Aramis Trindade poderá ser visto em dois filmes em cartaz nos cinemas: Reflexões de um liquidificador e Nosso lar. Elvis e Madonna, de Marcelo Lafite, Casamento brasileiro, de Fausi Mansur e Uma professora muito maluquinha, de André Alves Pinto e César Rodrigues, são outras produções que entram ainda este ano com o ator pernambucano no elenco. Na TV, ele participa da série As cariocas, baseada em contos de Stanislaw Ponte Preta. Ele está no sexto episódio, A desinibida do Grajaú, ao lado de Marcelo D2 e Grazi Massafera.

Ao Diario, o ator fala sobre o detetive Fuinha, o "bicho tinhoso" que o diretor André Klotzel o convidou para interpretar em seu novo filme, e que acrescenta mais um à sua galeria de 35 personagens. E aproveita para fazer sua crítica ao suposto bom momento do cinema nacional. (André Dib)

Este não é o primeiro agente da lei que você interpreta no cinema.
Não. Em Baile perfumado fiz um tenente da volante, no Auto da Compadecida fiz o Cabo Setenta. Meu pai, Bóris Trindade, era do mundo das artes, mas também era advogado criminalista. Antes da anistia, me lembro de jipes do exército lá em casa, de militares peitando meu pai, que trabalhava no escritório que ficava num oitão. Ele tinha muitos clientes que almoçavam lá, então respirei muito essa atmosfera, da jurisprudência.

No que Fuinha difere de outros personagens que você já fez?
Para ele procurei usar um sotaque mais neutro, pois ele é um policial contemporâneo. O método de ator que eu uso é o mesmo, um sentimento de ator que eu empresto para o personagem. É um pouco sofrido, mas depois de pronto, o personagem te retribui com alegria.

Dois filmes brasileiros (Nosso lar e Tropa de elite 2) ocupam quase metade do circuito exibidor. Isso reflete o bom momento para o cinema nacional?
Acho que não. Precisamos refletir não só a exibição maso acesso a recursos para realizar um filme. Temos vários editais para captação mas não temos o caminho das pedras, de chegar nas pessoas certas. Não adianta ter o bônus se o projeto não vai conseguir captar um dinheiro que é público, mas que fica na mão do marketing das empresas. No caso da exibição é a mesma coisa, o espaço precisa ser melhor dividido. Veja o caso do filme de Klotzel poético, elogiado na imprensa, tem dificuldade de encontrar espaço para ser exibido. Não sei qual é o problema, mas alguma coisa está errada.

(Diario de Pernambuco, 12/10/2010)

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