sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Estreia // "The lovely bones", de Peter Jackson



Um olhar do paraíso (The lovely bones, EUA, 2009) pode ser visto como um filme espiritualista com uso piegas de cenários gerados por computador, mas esta seria uma leitura um tanto equivocada. Se este novo Peter Jackson (Senhor dos anéis, King Kong) é um império do design gráfico artificialista, ele logo se justifica como função narrativa. O longa (135 minutos) pode derrapar em alguns momentos, mas se afirma enquanto obra sobre os efeitos de uma tragédia sobre uma família fortemente ligada por laços de afeição.

O núcleo em questão são os Salmon, uma família comum que vive no subúrbio da Filadélfia, no início dos anos 1970. O pai, Jack (Mark Whalberg), dedica atenção especial para a filha de 14 anos Susie (Saorise Ronan), que conduz o filme também como narradora. A condição pós-morte de Susie, logo no início da película elucidada por sua narração em off a coloca como observadora junto a nós, que assistimos ao filme.

Ela foi trucidada nas mãos do vizinho psicopata-aparentemente-normal (Stanley Tucci, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante), tipo "o perigo mora ao lado" que Hollywood adora mostrar. Apesar das circunstâncias violentas de sua morte, há sutileza suficiente na abordagem para que a classificação indicativa permanecesse relativamente baixa.

A feliz relação com a personagem (a atriz é realmente linda), que não quer abandonar a família e o pretendente enamorado, faz do filme uma viagem guiada pelo sonho e fantasia, em contraste com a dura realidade dos que precisam enfrentar a ausência de Susie. O talento de Jackson para criar mundos em tela larga continua intacto, desta vez aplicado a cenários coloridos como se própria Susie operasse o photoshop para construir o limbo onde as garotinhas estripadas aguardam passagem para o paraíso. A trilha sonora original de Brian Eno contribui com a atmosfera etérea e irreal.

O ponto de virada na dor dos Salmon está na chegada da avó Jynn (Susan Sarandon), que faz o tipo sessentona desbocada, bêbada que dorme com cigarro entre os dedos. Ela foi chamada para amparar Abigail (Rachel Weisz), que durante um ano deixou o quarto da filha trancado "como um túmulo no meio da casa", nas palavras de Jynn. A sequência etílica em que ela faz a faxina com o netinho é bem bacana.

Dos rótulos disponíveis, filme de serial killer, espírita, drama adolescente - Um olhar do paraíso se impõe como filme de amor. A despeito do final, que nem garotas de 14 anos devem suportar.

(Diario de Pernambuco, 19/02/2010)

Um comentário:

carolinasxavier disse...

eu e minha mae vamos assistir hoje esse filme.