segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A arte de sabotar nazistas



Desde maio, quando Bastardos inglórios (Inglorious basterds, EUA, 2009) estreou em Cannes, Quentin Tarantino não parou de viajar. Na China, anunciou (mais uma vez) a terceira parte de Kill Bill. No último domingo, no México, disse que é possível haver um prequel (um filme que mostra o que houve antes) do novo filme, para apresentar a origem de seus "bastardos" e nazistas prediletos.

A única certeza é que a turnê mundial (o filme ainda será lançado no Japão e Coreia do Sul) deixou Tarantino exausto a ponto de cancelar sua primeira visita ao Brasil, marcada para hoje, no Festival do Rio. Tendo em vista a presença do diretor, a Paramount, que distribui o filme no país, antecipou seu lançamento de 24 para 9 de outubro. Apesar da "não-vinda", a data foi mantida e Bastardos inglórios pode ser assistido nos cinemas brasileiros a partir desta sexta-feira.

Dado o grau de provocação e violência explícita (a censura ainda não foi definida, mas deve manter o público abaixo dos 16 ou 18 anos longe das salas), é possível especular algumas reações do público após 153 minutos de projeção. Pois aqui está a oportunidade de vingança contra odiosos nazistas que, após centenas de filmes massacrando judeus, recebem o troco na mesma moeda. Mérito dos "bastardos", grupo de oito soldados que age secretamente, sob a liderança de Aldo Raine (Brad Pitt). A linha de ação dos bastardos é tão complexa quanto sutil: matar nazistas e arrancar seus "escalpos", prática inspirada nos índios Apache, herança que Raine afirma trazer em seu sangue. Os que não morrem, escapam com uma suástica inscrita na testa, à faca.

Fãs entrarão em júbilo, pois o ídolo demonstra estar em forma. Sim, está de volta o Tarantino capaz de prolongar improváveis e criativos diálogos em momentos de tensão e perigo. Que usa referências cinéfilas e bem humoradas do western spaguetti e filmes noir e de horror B. Que parece ser o primeiro - e algumas vezes, o único - a se divertir com as próprias piadas.

A vingança de Tarantino é pessoal e intransferível, mas mexe com desejos reprimidos daquela parte do público que já quis atear fogo num oficial da SS, ou metralhar a todos gritando "porco nazista". O palco para a revanche não poderia ser outro, senão o cinema. Não apenas o cinema-filme, obra que aos poucos se torna irresistível enquanto exercício de humor negro, mas uma pequena sala de cinema em Paris, visada para receber uma premiére nazista planejada por Joseph Goebbles.

Ele quer lançar Orgulho de uma nação, filme que pretende inaugurar uma nova fase do cinema mundial ao representar o fuzilamento de 200 norte-americanos por um único soldado alemão, Fredrick Zoller (Daniel Brühl) que, graças ao feito, se tornou celebridade. É a oportunidade pela qual os bastardos esperam há três anos para colocar em prática o "Kine project", que consiste em detonar dinamites na cúpula nazista.

Embriagado pela fama, Zoller não vê problemas em usar o poder do Reich para forçar Shosanna (Mélanie Laurent) a abrir as portas de seu pequeno cinema para a estreia, que será prestigiada pelo próprio fürher. Apaixonado pela dona do cinema, Zoller não suspeita que, anos antes, a família de Shosanna foi exterminada como ratos pelo coronel Hans Landa (Christoph Waltz), conhecido como "caçador de judeus". Sem que os bastardos saibam, a garota planeja sua própria vingança, o que inclui centenas de rolos de nitrato (material de fácil combustão utilizado em filmes da época).

Caricatural, Aldo "Apache" coleciona as melhores frases dessa comédia, que nem todos vão entender como tal. "É como ir ao cinema", diz, ao assistir um de seus subordinados estourar a cabeça de um soldado alemão com um taco de beisebol. Para quem tem estômago, vale conferir essa divertida inversão de clichês. A violência estetizada de Tarantino pode ser puro entretenimento, mas guarda, ao menos uma frase que precisa ser levada a sério, dita como justificativa para inscrever a suástica na testa da vítima: "se você tirar o uniforme, ninguém saberá que é um nazi".

(Diario de Pernambuco, 06/10/09)

2 comentários:

Cauê Maia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cauê Maia disse...

só pelo trailer já dá pra reconhecer o velho papinho imperialista para legitimar a violência da águia manca.

mais uma requentada no discurso da terra do mickey jackson (michael mouse), que minha geração já viu em rambo contra os vietnamitas e xuxa contra o baixo astral.

para assistir o trailer:
http://link.brightcove.com/services/player/bcpid1714458113?bctid=11899464001