domingo, 3 de janeiro de 2010

Recuperação de marcos dos cinema baiano



A Secretaria de Cultura da Bahia está patrocinando a restauração de dois importantes filmes do cinema nacional: Redenção (1959), de Roberto Pires, e O leão de sete cabeças (1970), de Glauber Rocha.

Com 50 anos de idade, Redenção é considerado o marco zero do cinema baiano e deve ser estar pronto para ser novamente exibido em março. Não somente é o primeiro longa rodado no estado como abriu caminho para diretores como Glauber Rocha e Orlando Senna, que trabalharam em outro filme de Pires, Tocaia no asfalto (1962), também contemplado pelo projeto de restauro. O primeiro longa de Glauber, Barravento (também de 62) foi lançado por Pires, que fez a produção executiva.

Criada pelos realizadores, a tecnologia de captação de imagem e som utilizada em Redenção serviu de referência para outros filmes feitos com baixo orçamento. Ele foi feito com sistema de som acoplado à película e lente que simula o cinemascope (tela larga), que para não bater de frente com os direitos autorais hollywoodianos foi batizada de Igluscope (o nome da produtora de Pires é Iglu Filmes).

Redenção está sendo recuperado pela Cinemateca Nacional a partir da única cópia existente, uma película de 16mm da cinemateca particular de Lula Cardoso Ayres Filho. "Quando Petrus Pires, o filho do diretor, soube que eu tenho o filme, ficou alucinado", diz Lula. "Disponibilizei o rolo gratuitamente, pelo tempo que for necessário. Ele está em bom estado, com exceção de algumas emendas que podem ser retiradas com tratamento eletrônico". Há pouco tempo, quatro filmes da Atlântida foram resgatados graças ao acervo de Lula Cardoso: Caçula do barulho, Vamos com calma, E o mundo se diverte e Também somos irmãos.

Primeiro filme de Glauber rodado no exílio, O leão de sete cabeças nunca foi lançado comercialmente no país. Até hoje não foram encontrados seus negativos originais. Internegativos do filme foram encontrados na Cineteca Nazionalle di Roma, com versão sonora em italiano. Recentemente veio à tona uma cópia em 35 mm, com legendas em português. Estes materiais, aliados a matriz do filme que está sob a guardada Cinemateca Brasileira servirão de base para a restauração do filme. O processo, que conta com direção de Paloma Rocha e curadoria Joel Pizzini, levará 12 meses e vai gerar uma matriz em 35 mm que possibilitará novas cópias para cinema e home video.

Realizado sob o impacto de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968) em Cannes, após recusar propostas para filmar nos EUA, O leão... reafirma a opção de Glauber por um cinema revolucionário. Sem apoio político na terra natal, o diretor passou a produzir filmes no Congo (O leão...), Espanha (Cabeças Cortadas), Itália (Câncer e Claro) e Cuba (História do Brasil). Eles são o foco da segunda fase do projeto de restauro da obra do cineasta baiano, iniciado em 2006 com os longas Barravento, Terra em transe, O dragão da maldade e A idade da Terra.

(Diario de Pernambuco, 03/01/2010)