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domingo, 21 de agosto de 2011

Sob o Sol de Glauber


Glauber em Lisboa, 1980. Foto de Paula Gaitán

Há 30 anos, a cultura brasileira perdeu um de seus mais inflamados defensores. Autor de uma obra que conciliou arte e política, Glauber Rocha morreu em 22 de agosto de 1981, mesma época em que a ditadura militar, “o dragão da maldade” que tanto perseguiu seus filmes, dava os últimos suspiros. Na busca de entender o legado de Glauber, o Diario de Pernambuco conversou com críticos e cineastas influenciados por sua obra.

Missivista compulsivo, tornou-se o principal articulador do Cinema Novo, movimento que rompeu com as chanchadas da Atlântida para se aproximar da vanguarda europeia. Em 1970, decepcionado com os caminhos do país e de alguns companheiros de cinema, ele mesmo se encarregou de sentenciar o fim do movimento.

Montador de Terra em transe, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, O leão de sete cabeças e Cabeças cortadas, Eduardo Escorel diz que a duração quase instantânea do Cinema Novo teve razões históricas e de caráter utópico. “Houve um estardalhaço, fruto de uma militância cultural que talvez dê a impressão errada em termos de alcance e repercussão. No Brasil, havia muita oposição a esses filmes. Alguns até chegaram ao circuito de cinema, mas com resultados muito precários”.

Escorel acredita que, três décadas após a morte de Glauber, ele esteja passando por um ciclo de esquecimento. “Possívelmente, em algum momento haverá uma revisão e até a revalorização de alguns filmes dele. Mas o que percebo agora é um desconhecimento de sua obra, inclusive entre estudantes de cinema”.

O professor e crítico Alexandre Figueiroa explica que o cineasta baiano pagou um preço por ser à frente do tempo. “O cinema de vanguarda tem aceitação da crítica mas chega com dificuldade ao público. É o espaço do experimento, onde acontece as grandes mudanças. O Cinema Novo queria quebrar o monopólio e gerar bilheteria, mas se perdeu em certa radicalidade. Até hoje ele encontra dificuldade em ser compreendido”

Mesmo assim, a obra de Glauber irradia influência em realizadores contemporâneos. Um deles é Camilo Cavalcante, cuja produtora, Aurora Cinema, traz na logomarca o Sol estilizado da arte de Deus e diabo na terra do Sol. “É impossível pensar em filmes no Sertão sem se remeter a Glauber. Ele faz parte da forma como procuro tratar desse universo. Inconscientemente, no processo criativo ele está sempre pairando”.

Para Felipe Peres Calheiros, Glauber Rocha é marcante “principalmente para quem faz cinema preocupado em discutir poder e as chagas sociais”. “Não há como falar da crueza como esse país se organiza socialmente sem de alguma forma beber de alguma referência que passe pelo Cinema Novo”.

Camilo acredita que, sem Glauber, o cinema perdeu em criticidade. “Ele contestava, causava polêmica. Acho que hoje em dia está faltando um pouco disso, tudo virou uma pasmaceira, um olhar para o próprio umbigo”.

Tempo Glauber quase de portas fechadas

Fundada dois anos após a morte do cineasta baiano para preservar a sua obra, a organização Tempo Glauber tem vivido em crise nos últimos meses. Desde o começo do ano, com a mudança da equipe do Ministério da Cultura (MinC), não há repasse de verbas para a instituição carioca, administrada pela família de Glauber. Por problemas burocráticos, repasses financeiros previstos em convênio estabelecido com o MinC nunca chegaram.

“Estou em vias de fechar as portas”, diz a filha mais velha de Glauber, Paloma Rocha. “Nos últimos meses, mantive o Tempo Glauber com recursos pessoais, mas tive que demitir seis funcionários da equipe de arquivistas na semana passada”. Também na semana passada, a produção intelectual de Glauber (filmes e programas de TV) foi transferida para a sede Cinemateca Brasileira, em São Paulo. “Uma das últimas coisas que o Juca Ferreira fez como ministro foi comprar esse acervo, o que me deixa mais tranquila”.

No entanto, a biblioteca, centenas de desenhos, registros jornalísticos e a produção ligada ao Cinema Novo continuam com destino incerto. “Tudo foi feito com patrocínio da Petrobras e MinC, mas falta continuidade. O custo de manutenção mensal é de R$ 30 mil e este foi ano muito complicado para conseguir outros patrocínios. Já não estamos prestando serviço ao público. Mantemos somente o trabalho interno”, diz Paloma.

Além da desorganização burocrática, a administradora do Tempo Glauber aponta para a ausência de política pública para cultura. “Ampliar o debate, talvez essa seja uma boa maneira de lembrar o aniversário de morte do Glauber”.

Um pouco antes do fechamento desta edição, representantes do MinC procuraram Paloma Rocha para informar a chave de liberação que permite o recadastramento do projeto no sistema. A perspectiva é que o novo convênio seja liberado já em setembro.

(Diario de Pernambuco, 21/08/2011)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Um cine-poema para Glauber Rocha



Para evitar o esquecimento, inventa-se a memória. Diario de Sintra (Brasil, 2009), de Paula Gaitán, transmuta o passado em arte presente. Que o público não espere um documentário. O registro visual e sonoro da última viagem com o marido Glauber Rocha é trampolim para outra jornada, igualmente pessoal, mas distinta. O longa, que entra em cartaz hoje no Cinema da Fundação, evoca mais do que homenageia, versa mais do que explica os derradeiros momentos do cineasta.

Vinte e seis anos separam 1981 de 2007, quando Paula refez o percurso que levou Glauber e família ao autoexílio na pequena cidade lusa de Sintra, onde o cineasta esperava se recuperar da saúde. Tempo suficiente para que lembranças se percam no labirinto da memória. Numa árvore de galhos secos, pendura fotos da época. Entre idas e vindas, ela promove um funeral simbólico em Monsanto, referência imediata ao Monte Santo de Deus e Diabo na terra do sol. A banda sonora tem papel tão importante quando a imagem, fotografada por Paula e Pedro Urano. A montagem provoca sensação afinada com o bucolismo dos caminhos lusos.

"Parto do esquecimento para falar de memória", disse Paula, na pré-estreia de seu filme, terça última. O material recriado dá a entender que, após 26 anos, a autora fez as pazes com o passado fazendo um cinema de libertação, que costura tempo próprio, extraído dos grãos de película, de fotogramas envelhecidos e frames do suporte digital. "Não quero tratar de fatos históricos. Faço percurso de reconhecimento, não linear, fragmentado. É minha tentativa de ver nessas imagens algo mais, de descobrir seu segredo".

Após a sessão, críticos e diretores de cinema dividiram seu entusiasmo. "Eu adoro esse filme. É cinema de risco, ninguém sai incólume. Uma pérola de sensibilidade. As pessoas classificam o cinema brasileiro de um jeito ou de outro e Paula numa contramão absurda, de novas apreensões, como poucos conseguem fazer no Brasil", disse Lírio Ferreira. "É um poema escrito em linguagem audiovisual. O filme é dela,mas ali está o espírito de Glauber. Ele recorre ao espírito épico para abordar uma pessoa que viveu uma espécie de epopeia, mas como um anti-herói ", disse Celso Marconi.

"Ela construiu filme pessoal, plástico, bonito e emocionante. Não é um filme sobre Glauber, mas sobre uma mulher que vai em busca de uma memória perdida. É uma ode à saudade do homem com quem ela viveu", disse Marcelo Gomes, que encontra no filme de Paula paralelos com seu último longa (com Karim Ainouz) Viajo porque preciso, volto porque te amo. "Os dois tratam de viagem e deslocamento, com personagens tentando ressignificar o sentimento que tem por outra pessoa e uma observação do mundo muito particular".

Em tempo: o Cineclube Dissenso aproveita a ocasião e exibe amanhã, às 14h, dois outros filmes de Gaitán: o curta Kogi e o longa Vida. Entrada franca.

(Diario de Pernambuco, 05/02/2010)
* com acréscimos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os últimos dias de Glauber



A cineasta Paula Gaitán está no Recife para conversar sobre seu novo filme, Diário de Sintra. O documentário trata dos últimos dias de Glauber Rocha. Em 1981, eles passaram temporada em Portugal com seus filhos, Eryk e Ava. O longa, que tem pré-estreia hoje, às 20h20, no Cinema da Fundação (Rua Henrique Dias, 609), nasce da mescla de imagens daquela época com o retorno de Paula à Sintra, em 2007. Depois da sessão, a realizadora e o crítico Luiz Joaquim conversam com o público. Diário de Sintra entra em cartaz na próxima sexta-feira.

Sintra serviu de refúgio para o criador de Deus e o diabo na terra do sol, que teve o plano de rodar um novo filme interrompido por uma broncopneumonia, causadora de sua morte. "Em Diário de Sintra, Paula Gaitán recupera as sobras de um passado estilhaçado e consegue outorgar-lhes nova vida. Ela o faz sem um grama de sentimentalismo - e com uma coragem que é raramente vista em filmes nos dias de hoje", escreveu o cineasta Walter Salles, sobre o filme. O documentário se estrutura a partir de uma série de fotos, imagens em Super 8, 16mm e digital, inclusive a última entrevista de Glauber, concedida ao ator Patrick Bauchau.

(Diario de Pernambuco, 02/02/2010)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Recuperação de marcos dos cinema baiano



A Secretaria de Cultura da Bahia está patrocinando a restauração de dois importantes filmes do cinema nacional: Redenção (1959), de Roberto Pires, e O leão de sete cabeças (1970), de Glauber Rocha.

Com 50 anos de idade, Redenção é considerado o marco zero do cinema baiano e deve ser estar pronto para ser novamente exibido em março. Não somente é o primeiro longa rodado no estado como abriu caminho para diretores como Glauber Rocha e Orlando Senna, que trabalharam em outro filme de Pires, Tocaia no asfalto (1962), também contemplado pelo projeto de restauro. O primeiro longa de Glauber, Barravento (também de 62) foi lançado por Pires, que fez a produção executiva.

Criada pelos realizadores, a tecnologia de captação de imagem e som utilizada em Redenção serviu de referência para outros filmes feitos com baixo orçamento. Ele foi feito com sistema de som acoplado à película e lente que simula o cinemascope (tela larga), que para não bater de frente com os direitos autorais hollywoodianos foi batizada de Igluscope (o nome da produtora de Pires é Iglu Filmes).

Redenção está sendo recuperado pela Cinemateca Nacional a partir da única cópia existente, uma película de 16mm da cinemateca particular de Lula Cardoso Ayres Filho. "Quando Petrus Pires, o filho do diretor, soube que eu tenho o filme, ficou alucinado", diz Lula. "Disponibilizei o rolo gratuitamente, pelo tempo que for necessário. Ele está em bom estado, com exceção de algumas emendas que podem ser retiradas com tratamento eletrônico". Há pouco tempo, quatro filmes da Atlântida foram resgatados graças ao acervo de Lula Cardoso: Caçula do barulho, Vamos com calma, E o mundo se diverte e Também somos irmãos.

Primeiro filme de Glauber rodado no exílio, O leão de sete cabeças nunca foi lançado comercialmente no país. Até hoje não foram encontrados seus negativos originais. Internegativos do filme foram encontrados na Cineteca Nazionalle di Roma, com versão sonora em italiano. Recentemente veio à tona uma cópia em 35 mm, com legendas em português. Estes materiais, aliados a matriz do filme que está sob a guardada Cinemateca Brasileira servirão de base para a restauração do filme. O processo, que conta com direção de Paloma Rocha e curadoria Joel Pizzini, levará 12 meses e vai gerar uma matriz em 35 mm que possibilitará novas cópias para cinema e home video.

Realizado sob o impacto de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968) em Cannes, após recusar propostas para filmar nos EUA, O leão... reafirma a opção de Glauber por um cinema revolucionário. Sem apoio político na terra natal, o diretor passou a produzir filmes no Congo (O leão...), Espanha (Cabeças Cortadas), Itália (Câncer e Claro) e Cuba (História do Brasil). Eles são o foco da segunda fase do projeto de restauro da obra do cineasta baiano, iniciado em 2006 com os longas Barravento, Terra em transe, O dragão da maldade e A idade da Terra.

(Diario de Pernambuco, 03/01/2010)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Para entender o Cinema Novo



Glauber Rocha decretou o fim do Cinema Novo por volta de 1970, quando deixou o país para plantar sementes de sua revolução particular na Itália, Espanha, Cuba e países africanos. Quarenta anos depois, o que podemos aprender com essa experiência, que buscava independência estética e política para o cinema nacional? Respostas prontas, não há. Uma investigação coletiva pode render mais. E é precisamente isso o que propõe o Cineclube Coliseu, que inicia hoje um ciclo especial dedicado ao Cinema Novo.

Durante o mês de maio, a mostra O velho Cinema Novo: Re-visões apresentará 16 filmes realizados por 11 diretores que fizeram, influenciaram ou refletiram esse movimento que parece não esgotar interpretações. O acesso às sessões (veja quadro) é gratuito. Nos sábados haverá a presença de especialistas no assunto: os críticos de cinema Alexandre Figueirôa e Celso Marconi, e o artista Jomard Muniz de Brito, que conheceu e trocava cartas com Glauber.

"São filmes queretratam o povo sem um olhar exotizante, mas dentro de uma perspectiva revolucionária", diz Figueirôa, cuja tese de doutorado estuda a presença do Cinema Novo em revistas francesas como Cahiers du Cinema e Positif. Amanhã, ele instigará debate após exibição dos curtas Aruanda (1960), de Linduarte Noronha e Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cézar Sarraceni e Mário Carneiro, e o longa Porto das caixas (1962), de Sarraceni. "Eles são importantes porque ocorrem quando o grupo começa a se mobilizar em torno da ideia do Cinema Novo. Apontam as opções formais que o movimento irá tomar".

Marco do cinema documental brasileiro, Aruanda chamou atenção ao contrariar a ideia de modernidade propagandeada pelo governo Juscelino Kubitschek, ao expor a vida num quilombo perdido no Sertão da Paraíba. De forma que Glauber encontrou no filme de Noronha o viés social que sentiu falta em O pátio (1959), seu primeiro curta.

Capturada pelo fotógrafo pernambucano Rucker Vieira, a luz atípica de Aruanda também arrebatou o olhar do jovem cineasta, que ali encontrou uma das bases para alcançar a imagem que precisava para sua "estética da fome". Tendo trabalhado nos anos 70 com a geração do Super 8, com diretores como Fernando Monteiro, Fernando Spencer e Jomard Muniz, Vieira morreu em 2001, praticamente no anonimato.

Coliseu - Desde 2008, quando foi criado pelo jornalista Rodrigo Dourado, o Cineclube Coliseu é mantido pelo Sesc Casa Amarela e organizou mostras de animação, cinema francês, alemão, videoarte, festival do minuto e de curtas apresentados no Festival de Brasília. "A próxima etapa será fazer a mostra de outras fases do cinema nacional, como de filmes da Boca do Lixo", revela Dourado. A mostra atual foi elaborada a partir de acervo disponibilizado pela Programadora Brasil, da qual o Sesc é ponto de exibição.

Serviço
Mostra O velho Cinema Novo: Re-visões

Onde: Cineclube Coliseu (Sesc Casa Amarela - Avenida Professor José dos Anjos, 1109)
Quando: Sextas e sábados, de hoje a 23 de maio
Informações: 3267-4410
Entrada franca

Programação

Hoje (sexta), às 19h
Curta: Pedreira de São Diogo (1962), de Leon Hirszman
Longa: Bahia de Todos os Santos (1960), de Trigueirinho Neto

Amanhã (sábado), às 14h
Curtas: Aruanda (1960), de Linduarte Noronha e Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cézar Sarraceni e Mário Carneiro
Longa: Porto das caixas (1962), de Paulo Cézar Sarraceni
Debatedor: Alexandre Figueirôa


Dia 15 (sexta), às 19h

Curta: A velha a fiar (1964), de Humberto Mauro
Longa: São Paulo S.A (1965), de Luís Sérgio Person

Dia 16 (sábado), às 14h
Curtas: Abry (2003), de Joel Pizzini e Paloma Rocha; A voz do morto (1993), de Sérgio Zeigler e Vitor Ângelo; A degola fatal (2004), de Clóvis Molinari e Ricardo Favilla; e Amazonas, Amazonas (1966), de Glauber Rocha
Longa: Deus e o Diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha.
Debatedor: Jomard Muniz de Britto

Dia 22 (sexta), 19h
A João Guimarães Rosa (1968), de Roberto Santos
Bebel, garota propaganda (1967), de Maurice Capovilla

Dia 23 (Sábado), às 14h
Curta: Brasília, contradições de uma cidade nova (1967),de Joaquim Pedro de Andrade
Longa: Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade
Debatedor: Celso Marconi

*publicado no Diario de Pernambuco

quarta-feira, 11 de março de 2009

Rio de Janeiro comemora 70 anos de Glauber Rocha



Se estivesse vivo, Glauber Rocha completaria 70 anos no próximo sábado (14).

Leia matéria especial sobre o cineasta + extensa entrevista com Ismail Xavier publicada no Diario de Pernambuco e reproduzida aqui, no Quadro Mágico.

Para comemorar a data, a Associação Tempo Glauber apresenta uma semana de programação especial e variada.

A partir da próxima segunda, 16 de março, haverá exibição de filmes e documentários sobre o processo de criação deste diretor vital para o Cinema.

Haverá também a exposição de cartas e textos pertencentes ao acervo Tempo Glauber, além de apresentações musicais e de grupos de teatro, entre outras. A programação, que vai até 20 de março, acontece na sede do Tempo Glauber, com endereço na Rua Sorocaba, 190 - Botafogo, RJ.

Coincidência ou não, dia 27 de março estreia a versão cinematográfica do documentário Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini, que chega às telas dos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

De acordo com os autores, o documentário é um "inventário poético sobre a gênese, a erupção e a ressonância" de A Idade da Terra, derradeira obra de Glauber, lançada em 1980. O título alude ao nome dado pelo autor a uma das versões de seu roteiro.

Programação da Semana Glauber Rocha

2ª feira, dia 16
15h - Leitura do texto Senhor dos Navegantes, de Glauber Rocha, com o grupo Tropa de Palhaços de Quinta

17h - Exibição do filme Barravento Visto Por..., de Paloma Rocha e Joel Pizzini

19h - Exibição do filme Barravento, de Glauber Rocha

21h- Apresentação musical de AVA

3ª feira, dia 17
15h - Exibição do filme Rocha que Voa, de Eryk Rocha

17h- Exibição do filme Diário de Sintra, de Paula Gaitán

4ª feira, dia 18
15h - Leitura do texto A Conquista de Eldorado, de Glauber Rocha, com o grupo Nós do Morro

17h - Exibição do filme Depois do Transe, de Paloma Rocha e Joel Pizzini

19h - Exibição do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha

21h - Apresentação musical de Negro Leo Trio (com os músicos Leonardo Campelo, Gabriel Balleste e Daniel Fernandes)

5ª feira, dia 19
15h - Exibição do filme Milagrez, de Paloma Rocha e Joel Pizzini

17h - Exibição do filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

19h- Debate sobre preservação, restauração, difusão e memória da obra de Glauber Rocha com Hernani Heffner, Fábio Fraccarolli, Mônica Paixão, Mauro Domingues e Paloma Rocha

6ª feira, dia 20
14h - Leitura do texto O Destino da Humanidade, de Glauber Rocha, com grupo Teatro de Extremos

16h - Exibição do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha

19h - Cineclube Espaço Utopya, Curadoria Dario Gularte, com exibição dos filmes: Depois das 9, de Allan Ribeiro; e Joanna Francesa, de Cacá Diegues, seguido de debate com os diretores e homenagem a Glauber Rocha

domingo, 1 de março de 2009

Glauber Rocha ainda pulsa



Se estivesse vivo, o cineasta Glauber Rocha completaria 70 de nascimento no dia 14 de março. Criador compulsivo, ele foi o ponta-de-lança do Cinema Novo, movimento que colocou o país na vanguarda do cinema mundial. Desde que morreu, em 1981, sua imagem é comumente ligada a de "gênio" ou "louco", inclusive por gente que nunca assistiu a nenhum de seus dez longas e oito curta-metragens. Muito dessa aura provém da busca pessoal do diretor, motivado por uma urgência artística/política em se expressar. Essa inquietação está traduzida em obras que buscaram uma linguagem própria para o cinema feito nos trópicos.

Por si, a data redonda já é bom motivo para lembrar deste baiano de Vitória da Conquista. No entanto, há mais motivos para comemorar, já que poucos meses atrás foi lançada uma caixa com quatro de seus filmes restaurados em DVDs duplos com extenso material extra como documentários, entrevistas e depoimentos. A caixa, produzida com recursos da Petrobraspelo Grupo Novo de Cinema e TV e distribuída pela Versátil em parceria com a Riofilme, faz parte de um projeto que colocará à disposição toda a filmografia do diretor. Nesta primeira leva, volta à tona o seminal Barravento, Terra em transe (mais o curta Maranhão 66), O dragão da maldade contra o santo guerreiro e A idade da Terra, desafiante epitáfio de quem via o cinema como instrumento de poesia e mudança social.

De acordo com Paloma Rocha, filha de Glauber e coordenadora do projeto que conta com a curadoria de Joel Pizzini, a recuperação digital e distrubuição de cada filme custou em média R$ 1 milhão. A falta de patrocínio para a segunda etapa colocou na fila de espera o essencial Deus e o diabo na terra do sol (remasterizado em 2002 com tecnologia digital standard de 524 linhas, bem diferente de um restauro em HDTV), e filmes menos conhecidos pelos brasileiros por terem sido filmados fora do país: Cabeças Cortadas (Espanha, 1970), O Leão de sete cabeças (Congo, 1971), Câncer (filmado em 1968 no Brasil emontado em 1973, na Itália), o documentário História do Brasil (Cuba / Itália, 1974), e Claro (Itália, 1975).

Paloma Rocha explica que, de todo o trabalho, o momento mais complicado foi o restauro de O dragão da maldade (conhecido fora do país como Antonio das Mortes), que literalmente renasceu das cinzas, pois o original foi destruído num incêndio em 1973, na França.

Para falar sobre vida, obra e legado de Glauber Rocha, o Diario de Pernambuco entrevistou um dos maiores estudiosos de sua obra, o professor Ismail Xavier. Desde 2002, ele coordena a Coleção Glauberiana, dedicada a republicar na íntegra a crítica cinematográfica deste diretor tão combativo com as palavras quanto com as imagens que produziu. Leia mais na entrevista a seguir.

Entrevista // Ismail Xavier: "Glauber viveu a tensão de quem batalha pela consolidação e se instala do lado da invenção estética"

Glauber propôs uma linguagem própria para o cinema brasileiro, desvinculada da narrativa dos países dominantes. Onde podemos encontrar traços dessa estética nos filmes de hoje?
Alguns traços, como o uso da câmera na mão, nos filmes de ficção, e a montagem que privilegia o salto e a descontinuidade permanecem como uma escolha frequente em filmes de autor em todo o mundo. A ruptura com os princípios do cinema clássico, em termos da construção do espaço e do tempo no cinema, gerou uma liberdade de estilo que tem sido explorada, claro que não mais com aquele sabor de ruptura, por muitos cineastas brasileiros, europeus e mesmo norte-americanos. A mudança de regime na lida com a imagem em movimento tornou a mistura de estilos quase que um novo código, como se vê na atual combinação, no mesmo filme, do que antes era visto como próprio à ficção ou ao documentário que não podem ser vistos como gêneros claramente distintos. Isto é uma herança dos anos 1960 que teve em Glauber um dos seus artífices.

Glauber foi melhor compreendido no exterior do que no Brasil?
Ele foi tão bem recebido no Brasil como no exterior. Desde o início, teve aqui uma parcela da crítica a seu lado, tal como no exterior, ressalvado que a questão do compreender é mais complexa do que a boa recepção e a adesão. Aqui, houve mais polêmica, porque foi o mundo em que ele atuou de imediato, mas houve em todos estes anos um movimento de adesão e de busca de compreensão que se traduz na enorme quantidade de textos sobre ele, e na posição privilegiada em que ele é sempre colocado. Na Europa, o Cinema Novo emergiu como o "bom objeto" que reunia a paixão do cinéfilo e a paixão política de uma forma original, dado que encantou, por exemplo, italianos e franceses. Mas não se pode dizer que o compreenderam melhor.

Em 1971, Glauber declarou que o Cinema Novo estaria extinto. Sendo assim, como podemos entender ou classificar sua produção posterior?
Conforme o ponto de vista, pode-se dizer que o Cinema Novo, considerada sua proposta original, se dissolveu ou setornou algo distinto em 1964, em 1968 ou nos anos 70. Em cada fase, permaneceu o sentido de uma política de grupo e a defesa do cinema de autor, mas se alterou a estética e o modo de se entender a relação com o público e com a política, já que o contexto era outro. Neste sentido, os filmes que ele fez a partir de 1970 mostram tais alterações, sempre dentro de uma proposta radical de um cineasta que, embora tenha encontrado a oportunidade, recusou-se a adaptar o seu cinema ao gosto do "cinema de arte" internacional de consumo. Seu cinema permaneceu um desafio, um desconcerto, uma provocação, dentro da sua idéia de uma estética da violência, ou da crueldade se quisermos usar os termos do teatrólogo francês Antonin Artaud.

É impossível dissociar engajamento político e a dimensão poética nos filmes de Glauber. Em que fontes ele bebeu? Há quem assuma essa herança?
Glauber fez avançar o espírito do modernismo, dos insatisfeitos com os termos em que se deu a modernização e que expressaram de modo crítico, na forma de sua arte, a relação tensa com o mundo em que vivemos. Suas referências vão do modernismo brasileiro dos anos 20 a Buñuel, Eisenstein, Rossellini,Visconti e Godard. Em termos dramáticos, ele misturou Bertold Brecht e Artaud, poetas radicais, cada qual a seu modo. Quanto à herança, há algo do Glauber-Visconti em Luiz Fernando Carvalho, do Glauber-estética-da-violência em Cláudio Assis, do Glauber-cinema-de-invenção em seu filho Erik Rocha, para citar apenas alguns casos. Na confluência do político e do poético, lembrei muito de Glauber, e também do Teatro Oficina, quando assisti em janeiro ao excelente Canção de Baal, de Helena Ignez, que parte de Brecht, mas também convoca Artaud.

Glauber buscou pensar o país através do cinema. Qual a relevância desse movimento hoje?
O cinema contemporâneo continua a pensar o país. Sua alteração maior face ao Cinema Novo se dá na forma, pois há uma tendência a se procurar a dramaturgia clássica, a se inserir os filmes nos códigos mais usuais do filme-de-ação espetacular. Um exemplo é a presença, no cinema, da questão da violência social, da crise das instituições do Estado-nação, temas que compõem os espetáculos mais convencionais, mas que ganham maior densidade nos documentários que, a meu ver, dialogam de maneira mais intensa com o legado de Glauber, apesar das diferenças estéticas.

Como entender a troca de elogios entre Glauber e o General Golbery, ideólogo da ditadura?
Foi uma peça da Realpolitik de Glauber que, a partir de 1974, configurou um teatro político em que era preciso apostar num redirecionamento do projeto nacional que passava pelo diálogo com os generais que administravam a lenta abertura. De forma discreta e sem proclamações simbólicas, houve um acordo político não assinado, que definiu a forte presença do pessoal do Cinema Novo na gestão da Embrafilme a partir de 1974. Exemplo de um pragmatismo muito recorrente na política brasileira, na política da cultura e na do Congresso, tal como se pode ver hoje no jogo do poder.

Enquanto obras como Tropa de Elite e Cidade de Deus se comunicam com milhões, a obra de Glauber permanece restrita a um círculo de intelectuais e cinéfilos. Seria um sintoma de que Glauber falhou na luta por um cinema independente e popular?
A luta de Glauber, e de outros cineastas, seja em 1960, seja hoje, supõe a defesa de um cinema sustentável que mantenha o diálogo com grandes audiências e, dentro dele, a defesa de um lugar para a invenção estética e para a visão crítica da experiência social. Uma cinematografia precisa desses vários segmentos para respirar e ser conseqüente. Glauber viveu a tensão de quem batalha pela consolidação e se instala do lado da invenção estética. O seu cinema foi de poucos, a curto prazo, mas atingiu uma enorme audiência ao longo dos anos, porque cinema de qualidade. A noção do popular é sempre relativa, pois um sucesso de hoje pode ser um filme esquecido amanhã.

Nos idos dos anos 1970, Glauber desenvolveu sua escrita de forma divergente inclusive da gramáticaconvencional. Como o senhor analisa esse lado escritor do cineasta?
O lado escritor de Glauber ganhou expressão muito cedo, na agilidade dos textos do jovem crítico e composição das palavras em seus filmes, quando certos traços de estilo foram associados, no caso de Deus e o Diabo, com a tradição literária que culmina em Guimarães Rosa. Ao escrever seu romance, Riverão Sussuarana (1978), Glauber buscou de maneira mais explícita a aproximação com Rosa nessa vontade de experimentar com a linguagem. Este detalhe da grafia deriva disto, mas não é a sua expressão mais interessante, embora seja a que se fez mais visível como estranhamento, singularidade provocativa.

Em março Glauber completaria 70 anos de vida. Considerando o desenrolar de sua trajetória, e o destino de seus companheiros de Cinema Novo, há como imaginar no que estaria envolvido hoje?
É difícil dizer, e não gostaria de especular a partir de sua ausência. Certamente não seria o Glauber dos anos 60, nem o dos anos 70, pois vimos o quanto se transformou até 1981, como é próprio de seres exasperados, com um senso forte de urgência no confronto com o social, que não isolam uma pequena parte do mundo para fazer o seu jogo, mas abraçam tudo e vivem no próprio corpo as asperezas de cada conjuntura.

publicado no Diario de Pernambuco