sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Estreia // Longa desvenda alma do "Doutor do Baião"



O cinema brasileiro tem prestado um belo serviço ao narrar episódios e biografias do universo da música. O problema é que parte dessa filmografia é servil à temática e fala somente para o público diretamente ligado a um artista, gênero musical ou uma época da MPB.

Nesse contexto, O homem que engarrafava nuvens (Brasil, 2009), novo longa-metragem de Lírio Ferreira, é uma exceção. Obra autônoma, ao mesmo tempo em que satisfaz os seguidores do baião ao contar a história de seu criador, Humberto Teixeira, não depende disso para se afirmar enquanto filme.

Aqui o foco está em Teixeira (1915-1979), advogado cearense, autor de Asa branca, No meu pé de serra, Qui nem jiló, Assum preto, Baião, entre 400 outras composições. Mas com tantas personalidades obscuras na música brasileira, por que motivo o diretor de Baile perfumado (1996) e Árido movie (2005) aponta a câmera para o parceiro de Luiz Gonzaga? A resposta está na atriz Denise Dummont, filha do "doutor do baião". Produtora do longa, ela convidou Lírio para dirigir sua investigação. Este é seu segundo documentário - em 2007, ele codirigiu com Hilton Lacerda Cartola - Música para os olhos.

O homem que engarrafava nuvens segue a mesma linha, que reúne imagens de arquivo e interpretações de gente famosa como David Byrne, Chico Buarque, Maria Bethânia, Gilberto Gil e os pernambucanos Alceu Valença, Lenine, Lirinha e Otto. Muitos cantam num show especialmente produzido para o filme. A estratégia funciona e se desdobra em duas frentes. Numa, a importância do baião é dimensionada e colocada em perspectiva na história da MPB. Em outra, Denise redescobre seu pai em depoimentos de amigos e familiares de Iguatu (cidade natal de Teixeira) a Nova York, onde o encontro com a mãe gera momento decisivo para a identidade do filme.

(Diario de Pernambuco, 15/01/2010)