sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes com mais adrenalina



Ele voltou, revisto e atualizado para o século 21. Nada mais justo com o pai de Bond, Poirot, Tracy, Batman e Clouseau, que continuam circulando por aí. O remake traz a marca de Guy Ritchie, diretor dos longas Snatch - porcos e diamantes e Rock'n'rolla. O filme é ambientado na Inglaterra vitoriana, mas com recursos de edição que aceleram e retardam o tempo e o movimento dos personagens, quebra com a imagem aristocrática e empolada do universo criado por Sir Arthur Conan Doyle.

O novo Holmes quer se comunicar com plateias jovens e sedentas por cenas de sangue, perigo e senso de humor. Houve algo parecido nos anos 80, com O enigma da pirâmide, que aproveitou a febre Indiana Jones para apresentar um Sherlock Holmes adolescente em ritmo de aventura. A diferença - além do punch dos filmes de Ritchie - é que agora a parcela madura que busca o clima dos livros de Doyle está contemplada.

Sherlock Holmes (EUA, 2009) é mistura de policial com filme de ação, mas entre a atividade cerebral e física, vence a última. Enquanto os herois coletam pistas, procuram passagens secretas e solucionam mistérios em parceria com a Scotland Yard, eles esmurram, atiram, pulam barris, escapam de explosões e armadilhas mirabolantes. Não é de hoje que adrenalina vende mais do que neurônios.

Holmes tem personalidade arrogante, impulsivo e perspicaz e nesse sentido a escolha de Robert Downey Jr. para o papel foi um acerto. Seu recente sucesso como o herói dos quadrinhos Homem de ferro, combinado com o carisma de Jude Law como o detetive associado Dr. John Watson, tem atraído muita gente aos cinemas - nos EUA, em apenas dois fins de semana, o filme arrecadou quase US$ 120 milhões.

Se a baixa estatura de Downey Jr. não alcança a do personagem original (que tem mais de 1,80 de altura), sua personificação evita a armadilha fácil da caricatura eternizada pelo chapéu de duas abas, lupa em punho e cachimbo na boca. Na imagem do novo Holmes, só o cachimbo sobrevive. Também foram mantidas características essenciais comoa astúcia, o poder de dedução, o conhecimento científico e a obsessão pelo violino.

Detetive associado, médico e narrador das aventuras, Watson é o provável alter-ego de Doyle, que também exercia a medicina. Sensato e ponderado, ele faz o contraponto à personalidade hiperativa e propensa ao álcool de Holmes. Discretamente, o filme sugere que a dupla que divide o primeiro andar do 221-B da Baker Street cultivava algo mais do que amizade. Um dos indícios é que, na trama, mulheres ameaçam constantemente o equilíbrio da dupla.

Primeiro num jantar a três, em que Mary Morstan (Kelly Reilly), pretendente a Sra. Watson, tem seu passado dissecado pelo olho clínico de Holmes. Logo depois, quando a agente dupla Irene Adler (Rachel McAdams) surge para confundir seu senso de lógica. Adler foi contratada pelo Templo das Quatro Ordens, organização secreta liderada por Lorde Blackwood (Mark Strong), cuja ambição é maior do que sacrificar garotas inocentes em rituais de ocultismo.

Inicia aí um embate entre razão versus forças sobrenaturais, que no fim da fita será elucidado por Holmes em menos de um minuto. Ele também é pai daquela dupla do desenho animado, mas o mito merecia mais do que um final Scooby Doo.

Saiba mais

Sherlock Holmes foi criado pelo médico e escritor britânico Sir Athur Conan Doyle (1859 - 1930). Ao longo da vida, ele escreveu 60 histórias sobre o detetive.

A popularidade de Holmes sempre foi alta. Tanto que quando Doyle o matou para não se ver obrigado a escrever continuamente, protestos dos leitores o fizeram ressuscitar o personagem.

A antológica frase "Elementar,meu caro Watson" não se encontra na obra original, mas sim nas adaptações para oteatro, cinema e TV.

A primeira adaptação do personagem foi feita pelo diretor e ator de teatro William Gillette, no fim do século 19.

123 filmes para cinema e TV trazem no título o nome do detetive inglês (fonte: IMDB.com). O mais antigo data de 1908. Outros são As aventuras de Sherlock Homes (1939), de Alfred L. Werker, O cão dos Baskerville (Inglaterra, 1959), de Peter Cushing e A vida íntima de Sherlock Holmes (1970), de Billy Wilder.

Sherlock Holmes e Dr. Watson já foram retratados na adolescência no filme O enigma da pirâmide (1985), dirigido por Barry Levinson e produzido por Steven Spielberg.

No Brasil, Sherlock Holmes foi adaptado por Jô Soares no livro O Xangô de Baker Street, que virou filme estrelado por Joaquim de Almeida.

Além de Robert Downey Jr., Peter O'Toole, Roger Moore, John Cleese, Christopher Lee, Christopher Plummer, Charlton Heston, Jonathan Price e Frank Lagella já estiveram no papel de Holmes.

No prédio 221-B da Baker Street, onde na imaginação de Conan Doyle trabalhavam Sherlock Holmes e Doctor Watson, hoje abriga o Sherlock Holmes Museum. O primeiro andar é mantido com decoração vitoriana e objetos que viraram marca registrada do detetive, como o chapéu, a lupa e o cachimbo.

No fim de semana de estreia nos EUA, Sherlock Holmes liderou as bilheterias, antes dominadas por Avatar e Alvin e os esquilos 2.

(Diario de Pernambuco, 08/01/2010)

Um comentário:

Márcio Rogério disse...

Ficou uma merda.Principalmente pra quem gosta do personagem. Li os livros do meu avô e o filme estraga.