domingo, 3 de janeiro de 2010

A Falecida Restaurada



A Petrobras e a Cinemateca Brasileira acabam de lançar a cópia restaurada de A falecida, longa-metragem de Leon Hirszman rodado em 1965 a partir da obra de Nelson Rodrigues. O DVD faz parte do projeto de restauro digital da obra do cineasta nascido em 1937 e falecido 50 anos depois em decorrência de debilitações provocadas pelo vírus da Aids. Carioca de origem judaica, Hirszman é considerado um dos maiores expoentes do cinema nacional. Seus principais filmes são Eles não usam black-tie (1981), S. Bernardo (1972), ABC da greve (1979/90), A falecida e a trilogia Imagens do inconsciente (1983/86).

Todos já passaram pela recuperação no sistema 2K, menos o último, que será o próximo passo do projeto. O conjunto ainda traz uma coleção e tanto de curtas: Pedreira de São Diogo, Megalópolis, Ecologia, Deixa que eu falo, Maioria absoluta, Cantos de trabalho, Nelson Cavaquinho e Partido alto. O projeto começou dois anos atrás, idealizado por Carlos Augosto Calil e executado pelos irmãos Lauro e Eduardo Escorel. Os filhos de Hirszman, Maria e João Pedro, acompanham tudo de perto. A distribuição é da Videofilmes.


S. Bernardo

"Os filmes de Leon estavam praticamente fora de circulação há bastante tempo, devido ao mau estado das cópias existentes", diz Lauro. Nesse sentido, a parceria com a Cinemateca Brasileira, depositária do acervo, foi fundamental. "Cada filme tem um histórico diferente. Todos apresentam algum tipo de problema, mas ABC da greve, cujo negativo original estava perdido antes mesmo da sua conclusão, e A falecida foram os que se encontravam em pior estado. Muitos trechos do negativo original estavam inutilizados e onde vários fotogramas que faltavam tiveram de ser recriados digitalmente".

A falecida marca não só a estreia de Hirzsman no formato longa-metragem, mas a de Fernanda Montenegro como atriz de cinema. O elenco ainda traz Hugo Carvana e Paulo Gracindo. O roteiro, escrito em parceria com Eduardo Coutinho. O tema musical é de Nelson Cavaquinho, compositor que serve de tema para o curta documentário no mesmo DVD.

O filme conta a história de Zulmira, mulher que sonha com um funeral de luxo como redenção para uma vida perturbada. Alertada por uma cartomante sobre uma loira invejosa em sua vida, ela passa a sofrer dores e mobiliza seu marido para as consequências funestas. Isso é só o começo de uma trama rodrigueana de malandragens e traições.

Apesar de dirigida por um estreante, a produção foi muito bem recebida. Ganhou a Gaivota de Prata no 1º Festival Internacional do Filme, no Rio de Janeiro; participou da Semana Cinematográfica, organizada em Paris pela revista Cahiers du Cinema e representou o cinema brasileiro na Semana da Crítica do Festival de Cannes; Fernanda Montenegro foi eleita melhor atriz na 1ª Semana do Cinema Brasileiro, o embrião do Festival de Brasília.

No livro Brasil em tempo de cinema, Jean Claude-Bernardet a descreve como "consciente e teatral", em oposição ao naturalismo dos demais atores. "É um dos mais sinceros e objetivos filmes do Cinema Novo (...) Hirszman, com seu pulso firme e consciência de cineasta, pode tornar-se o grande cronista da triste classe média brasileira", escreveu Roberto Menezes, em crítica publicada no Diario de Pernambuco.


Eles não usam black-tie

Os Escorel foram colaboradores importantes na obra de Hirszman. Eduardo foi montador e Lauro diretor de fotografia de filmes como S.Bernardo e Eles não usam black-tie. "A tecnologia digital permite devolver aos filmes todo o seu esplendor. Creio que em muitos casos conseguimos resultados espetaculares e os filmes tiveram detalhes que existiam no negativo original revelados pela primeira vez. Antigamente nossas cópias eram muito ruins e não conseguiam reproduzir tudo que o fotógrafo tinha colocado no negativo", diz Lauro.

Além de Hirszman, estão sendo restauradas obras de outros cineastas das décadas passadas. Seriam iniciativas suficientes para preservar a memória do cinema brasileiro? "É um começo. Há muito por fazer. A fila de filmes precisando de restauro é grande. Nossos acervos foram muito mal cuidados durante muito tempo", afirma o fotógrafo.

Serviço
A falecida, de Leon Hirszman (Videofilmes)
Quanto: R$ 54,90

(Diario de Pernambuco, 03/01/2010)

Um comentário:

osmario m disse...

caraca...! isso devia ser lançado num box, com as outras obras... é fernanda que tá noutro filme baseado na obra do nelson, O beijo no asfalto? Nunca vi Eles não usam black-tie, cara o_O...