sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Estreia // "Anticristo": Lars Von Trier em requintes de crueldade



Sexo explícito, tortura e mutilação genital. Esta seria uma síntese fria e direta para descrever as cenas mais chocantes de Anticristo (Antichrist, Dinamarca, 2009), a nova obra de Lars Von Trier.

Em termos de gênero cinematográfico, trata-se de um filme de horror, daqueles que exploram o que há de estranho e imprevisível no comportamento humano. A carne está lá, profanada, mas não como nas produções caça-níqueis do cinema comercial. Pois aqui, nada é gratuito. Teologia, misoginia e psicologia formam a base pela qual os conceitos do filme se desdobram.

Anticristo chega ao Recife com certo atraso (a estreia nacional foi em agosto), em duas salas: o Cinema da Fundação e o Multiplex Recife. A presença deste filme radical no cardápio do shopping é no mínimo curiosa e merecedora de uma placa na porta de entrada: proibido pipoca neste local, algo como "deixai toda esperança, ó vós que entrais". É preciso estômago para enfrentar os 104 minutos de projeção.

Apesar de há tempos ter abandonado o Dogma, doutrina audiovisual que nos anos 90 projetou Trier e seus colegas dinamarqueses para o mundo, Anticristo guarda vários pontos em comum com o cinema esquemático que o diretor vem praticando neste milênio. A estrutura em capítulos é um deles. Aqui são quatro, mais um prólogo e epílogo em preto e branco, uma homenagem ao cineasta russo Andrei Tarkovisky.

Arquetípicos, os protagonistas não são chamados pelo nome em momento algum, sendo descritos nos créditos apenas como "Ele" (Willem Dafoe) e "Ela" (Charlotte Gainsbourg). O cenário principal é o Éden, uma floresta nórdica úmida e escura, é um elemento vivo, que aos poucos assume a função de externar o estado de espírito da mulher. Seus habitantes, um cervo, uma raposa e um corvo, são chamados pela mulher de "os três mendigos", e representam "a dor", "o luto" e "o desespero", lugares por onde os personagens passam gradativamente, entre sentimentos de culpa e desejo sexual.

Inicialmente, o sofrimento surge após uma perda irreparável e é combatido com remédios. Convicto de que as pílulas a impedem de encarar a dor e assim superá-la, o marido (ele é psicanalista) se empenha em curar a esposa. Sua postura arrogante e superior travestida de benevolência remete a Dogville, onde outro personagem masculino e "bem intencionado" vira alvo do revide feminino. Só que, em Anticristo, o nível de crueldade é maior do que as possibilidades de uma metralhadora em punho. Principalmente quando é aberta a caixa de ferramentas.

Muita gente pode não gostar do que vem na sequência. No entanto, o mesmo choque que convida a levantar da cadeira e dar as costas pode ser a oportunidade de se entregar a uma narrativa que instiga reflexões sobre lugares obscuros da natureza humana. E isso inclui um dos atos sexuais mais mórbidos da história do cinema.

Como de praxe na filmografia de Trier, cada elemento visual e sonoro, cada centímetro da tela se submete a uma obsessão manipulatória incomum e doentia. É difícil saber que espíritos o assombram, mas é certo que sãotenebrosos e estão longe de ser exorcizados.

(Diario de Pernambuco, 18/09/09)

4 comentários:

karollyna disse...

"um dos atos sexuais mais mórbidos da história do cinema" Certos comentários por si só já nos fazem ter uma visão bem diferenciada do longa antes de entrar na sala do cinema.

Anônimo disse...

Poxa Dib, sempre que tento escrever alguma coisa sobre cultura lembro dos nossos bate-papos pós filmes em Maringá, geralmente com um x-salada (e maionese) atrapalhando a conversa. Lendo tuas resenhas aqui no blog, putz, essa é sem dúvida a melhor que li do Anticristo. Agora só falta eu assistir ...
Giuliano

Andre Dib disse...

Giuliano, amigo velho, sempre bom te receber aqui no blog. Você é leitor exigente, espero continuar merecedor dos teus comentários. Grande abraço, mestre.

Analu disse...

Gostaria de informar que o personagem masculino não é um psicanalista, é um psicoterapeuta, provavelmente de alguma linha cognitiva e comportamental. Ela mesma diz que Freud está morto como que remetendo a uma fala dele mesmo. Imagino que se houvesse uma continuacão ele iria sim, procurar um psicanalista e entregar-se a Freud.