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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Recife entra na era do 3D



A expectativa em torno da estreia de Alice no país das maravilhas no Recife acaba de ganhar contorno especial. Após meses de especulações, o filme de Tim Burton é o pivô da inauguração da primeira sala de cinema 3D da capital. Até então, a única opção de cinema 3D era o complexo Box Cinemas, em Jaboatão dos Guararapes. O Recife entra na era do cinema tridimensional via UCI Severiano Ribeiro, que há duas semanas vem equipando a sala 3 do complexo Recife (Boa Viagem) com aparato tecnológico próprio para esse tipo de projeção.

O novo equipamento será utilizado na próxima segunda-feira, durante sessão de pré-estreia de Alice, promovida pela Disney, para convidados. Antes disso, há fortes chances de entrar em funcionamento ainda neste fim de semana, com a animação Como treinar seu dragão, da Dreamworks. Prevendo a grande procura, ingressos para Alice estão sendo vendidos antecipadamente. Os ingressos (aluguel do óculos incluído) variam entre R$ R$ 23 e R$ 11,50 (meia) nos fins desemana e R$ 19 e R$ 9,50 (meia) nas quartas-feiras.

Por várias semanas, sessões lotadas de Avatar no Box Guararapes deram a entender que a demanda pelo 3D é bem maior que a oferta. Por isso, até o fim do ano, a UCI confirma mais duas salas na cidade: uma no Tacaruna e outra no Plaza Casa Forte. A esperada reforma nos complexos Recife e Tacaruna também estão na pauta de prioridades.

Com 376 lugares, a sala Recife 3 funcionará com projetor Christie, que permite exibir imagens com resolução de 2.048 x 1.080 pixels, padrão DCI. A estrutura da sala teve poucas mudanças. A principal é a mudança da tela, com maior poder de reflexão, pois um dos ônus do uso de óculos especiais é a perda de luminosidade da projeção. Uma janela a mais foi construída na cabine de projeção, para comportar tanto a exibição digital quanto em película. "Não seria necessário trocar a tela, mas fizemos isso para garantir maior qualidade", diz Mônica Portella, gerente de marketing da UCI Ribeiro.

Investimento - Com a inauguração, a UCI passa a contar com salas 3D em doze de seus 16 complexos no Brasil. A sala do Recife é a quarta unidade no Nordeste - há duas em Salvador e uma em Fortaleza, inaugurada semana passada. Somente o projetor, sem contar os custos com a reforma, custou R$ 600 mil. O investimento é garantido. "Pesquisas indicam que a taxa de ocupação em salas 3D é 30% maior que a das demais", diz Mônica.

Outro fator que pesa na equação é o número crescente de produções realizadas para o formato. Até o fim de 2010, o calendário aponta para mais 17 filmes, entre eles, Fúria de Titãs, Toy Story e Shrek. Em novembro, Harry Potter promete dominar o circuito. Em 2011, vêm aí mais de 25 produções. "Os complexos têm apenas uma sala 3D e o acordo entre exibidores e distribuidores é que se tenha no mínimo quatro semanas para cada filme. Dependendo do sucesso, ele pode continuar por mais tempo", diz Mônica. A partir dessa regra, é possivel entender o motivo da mudança de data para a estreia de Alice, do feriado de 21 de abril para a sexta, 23.Além do acordo das quatro semanas, o Brasil é uma das maiores bilheterias estrangeiras de Como treinar seu dragão.

E as novidades não param por aí. Caso a UCI feche parceria com a Rede Globo, em junho poderemos assistir aos jogos da Copa do Mundo em 3D. Caso ocorra, mais que nunca, cinema será a maior diversão.

(Diario de Pernambuco, 15/04/2010)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Estreia // "Anticristo": Lars Von Trier em requintes de crueldade



Sexo explícito, tortura e mutilação genital. Esta seria uma síntese fria e direta para descrever as cenas mais chocantes de Anticristo (Antichrist, Dinamarca, 2009), a nova obra de Lars Von Trier.

Em termos de gênero cinematográfico, trata-se de um filme de horror, daqueles que exploram o que há de estranho e imprevisível no comportamento humano. A carne está lá, profanada, mas não como nas produções caça-níqueis do cinema comercial. Pois aqui, nada é gratuito. Teologia, misoginia e psicologia formam a base pela qual os conceitos do filme se desdobram.

Anticristo chega ao Recife com certo atraso (a estreia nacional foi em agosto), em duas salas: o Cinema da Fundação e o Multiplex Recife. A presença deste filme radical no cardápio do shopping é no mínimo curiosa e merecedora de uma placa na porta de entrada: proibido pipoca neste local, algo como "deixai toda esperança, ó vós que entrais". É preciso estômago para enfrentar os 104 minutos de projeção.

Apesar de há tempos ter abandonado o Dogma, doutrina audiovisual que nos anos 90 projetou Trier e seus colegas dinamarqueses para o mundo, Anticristo guarda vários pontos em comum com o cinema esquemático que o diretor vem praticando neste milênio. A estrutura em capítulos é um deles. Aqui são quatro, mais um prólogo e epílogo em preto e branco, uma homenagem ao cineasta russo Andrei Tarkovisky.

Arquetípicos, os protagonistas não são chamados pelo nome em momento algum, sendo descritos nos créditos apenas como "Ele" (Willem Dafoe) e "Ela" (Charlotte Gainsbourg). O cenário principal é o Éden, uma floresta nórdica úmida e escura, é um elemento vivo, que aos poucos assume a função de externar o estado de espírito da mulher. Seus habitantes, um cervo, uma raposa e um corvo, são chamados pela mulher de "os três mendigos", e representam "a dor", "o luto" e "o desespero", lugares por onde os personagens passam gradativamente, entre sentimentos de culpa e desejo sexual.

Inicialmente, o sofrimento surge após uma perda irreparável e é combatido com remédios. Convicto de que as pílulas a impedem de encarar a dor e assim superá-la, o marido (ele é psicanalista) se empenha em curar a esposa. Sua postura arrogante e superior travestida de benevolência remete a Dogville, onde outro personagem masculino e "bem intencionado" vira alvo do revide feminino. Só que, em Anticristo, o nível de crueldade é maior do que as possibilidades de uma metralhadora em punho. Principalmente quando é aberta a caixa de ferramentas.

Muita gente pode não gostar do que vem na sequência. No entanto, o mesmo choque que convida a levantar da cadeira e dar as costas pode ser a oportunidade de se entregar a uma narrativa que instiga reflexões sobre lugares obscuros da natureza humana. E isso inclui um dos atos sexuais mais mórbidos da história do cinema.

Como de praxe na filmografia de Trier, cada elemento visual e sonoro, cada centímetro da tela se submete a uma obsessão manipulatória incomum e doentia. É difícil saber que espíritos o assombram, mas é certo que sãotenebrosos e estão longe de ser exorcizados.

(Diario de Pernambuco, 18/09/09)