sexta-feira, 4 de junho de 2010

Obra-prima de mistério e paixão



O segredo dos seus olhos, a melhor estreia da semana, chega ao Recife cercado de merecidos elogios e prêmios, sendo o Oscar de filme estrangeiro o maior deles. Com mão de mestre, o argentino Juan José Campanella (O filho da noiva, Clube da Lua) assina uma história bem escrita e conduzida sobre um misterioso assassinato que por 20 anos se torna a obsessão para um oficial de justiça aposentado (Ricardo Darín). O resultado é uma obra antológica, que se movimenta sem culpa pela linguagem do cinema norte-americano e elementos típicos de Hollywood: bela jovem assassinada por maníaco, bastidores de tribunal, perseguições, diálogos e situações bem-humoradas e, por trás de tudo isso, uma história de amor.

Poderia ser um grande acúmulo de clichês, não fossem eles utilizados e descartados com a pertinência de quem constrói uma poderosa narrativa, de ritmo cadenciado, cujo ápice é um incrível plano-sequência em estádio lotado em Buenos Aires, um gigantesco movimento aéreo que e termina com uma perseguição interna. Outro momento memorável está no interrogatório, em que a promotora (Soledad Villamil) arranca a confissão das entranhas do sujeito, em inusitado jogo de provocações. O que faz a diferença em O segredo de seus olhos está na forma de contar essa história, construída a partir da percepção do protagonista, o investigador. Assim como o viúvo da vítima e seu assassino, ele vive um tempo dilatado pela paixão. É esta quem motiva e governa virtudes e fraquezas. De resto, tome elegância e cosmética.

(Diario de Pernambuco, 04/06/2010)

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