sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu, o outro



Em Moi, un noir (Eu, um negro, 1958) Rouch opera no frescor de uma linguagem recém-criada. Em 73 minutos, o filme representa a vida de um povo com imagens objetivas, interpretadas pelas próprias pessoas por ele filmadas. Sua intenção, acompanhar a juventude desempregada que migra de pequenas vilas para Abidjan (a maior cidade da Costa do Marfim), é revelada junto com a metodologia adotada para realizar o filme. Enquanto comem, trabalham e se divertem no bairro pobre de Treichville, a "Chicago da África Negra", os garotos fazem o que quiser para as câmeras. E falam também, em narração off que ressignifica as imagens coletadas por Rouch.

Esse diálogo revela um imaginário dividido entre a tradição africana e culturas estrangeiras impostas pelo colonialismo. Ao bel prazer, os próprios protagonistas se autoficcionam com nomes de atores e personagens de filmes norte-americanos. O mais desenvolto, considerado por Rouch como o herói do filme, se apresenta como Edward G. Robinson, que se descreve como ex-combatente na Indochina. Seu colega é o galã Eddie Constantine, "agente federal americano designado para visitar garotas". O diretor diz que este levou tão o papel tão a sério que obteve três meses de prisão.

Entre etnógrafo e cineasta, Rouch foi os dois. No desenrolar das histórias, entre acessos de realidade e fantasia dos garotos, saltam aos ouvidos um francês pronunciado com forte sotaque, uma música vigorosa e aos olhos imagens da dança, roupas, rituais religiosos e hábitos únicos. Em textura granulada e colorida dos filmes da época, Rouch inventou o outro. E, de portador de pretensas verdades, o cinema documentário se tornou livre para buscar a própria linguagem.

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