segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cinema é um ótimo negócio


Luiz Severiano Ribeiro ergueu um verdadeiro império de salas de exibição espalhadas pelo país; sua trajetória é contada em livro lançado pela Record
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

São Luiz, Odeon, Moderno, Majestic, Palácio. Por trás das maiores salas de cinema, havia um único homem: Luiz Severiano Ribeiro. Fundador da rede de exibição que por décadas foi a maior do país (hoje perde para o grupo estrangeiro Cinemark), o empresário cearense viveu entre 1885 e 1974. Através de uma terceira geração de descendentes, seu legado empresarial chega aos dias de hoje com mais de 200 salas no país. Elas atingem números surreais, como a marca de 15 milhões de espectadores por ano.

Essa trajetória, que se mistura com a história da própria indústria cinematográfica, está contada no livro O rei do cinema - a extraordinária história de Luiz Severiano Ribeiro (Record, R$ 37), do jornalista Toninho Vaz. Entre seus biografados anteriores estão o poeta paranaense Paulo Leminski (também pela Record) e o compositor piauiense Torquato Neto (Casa Amarela).

Lançado no mês passado, o novo livro de Toninho revela passo-a-passo como Severiano construiu seu império. Cearense de Baturité, ele nunca foi movido pelo ideal romântico de exibir filmes. Quando assumiu sua primeira sala, em 1915, não havia rádio, TV ou internet, o que fazia do cinema muito mais do que a maior diversão: era um ótimo negócio. Ele viu na atividade o grande filão na indústria do entretenimento, que deveria ser explorado com o máximo de competência - e o mínimo de concorrência.

Seus primeiros passos em Fortaleza, décadas antes de se consolidar na Cinelândia carioca, já indicavam que ele não levaria muito tempo para Severiano Ribeiro se tornar o grande nome por trás de um fenômeno de massa movido a luz, sombras e gigantescas salas, suntuosas em cada detalhe. Antes mesmo de mergulhar de cabeça na atividade, o empresário já tinha seu nome vinculado a atividades díspares como hotéis, cafés, e a Casa Ribeiro, com filial no Recife. Além disso, era revendedor exclusivo da Antarctica para o Nordeste, comércio que prosperou atrelado à venda de gelo, produto ainda mais precioso naquela época.

Por essa voraz propensão ao monopólio, ao passo em que o império se consolidava nos anos 30 e 40, crescia a antipatia das pessoas. A associação da Atlântida Cinematográfica, conduzida pelo filho Ribeiro Júnior, com a poderosa cadeia de exibição foi o próximo passo. Para se ter uma ideia, lembra o biógrafo, "O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, com Oscarito, teve 15 milhões de espectadores em 1959, época em que o Brasil tinha 60 milhões de habitantes". De acordo com o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (em trecho pinçado pela pesquisa de Toninho Vaz), "uma nova fase de harmonia para o cinema comercial no Brasil, que determinou a solidificação da chanchada e sua proliferação por mais de quinze anos. O fenômeno repugnou críticos e estudiosos".

Na entrevista a seguir, exclusiva para o Diario, Vaz conta como foi o processo de pesquisa, e sua visão sobre o empresário por trás de um mito.

Entrevista // Toninho Vaz: "Poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele"

Leminski, Torquato e Severiano ostentam personalidades distintas entre si. Para reconstruir essas trajetórias você adotou diferentes abordagens ou um método único?
O método é único: pesquisar. Saber o máximo do personagem e jogar luzes sobre sua obra, mostrando a intenção e a ação. Os três eram notáveis pela tenacidade e dedicação exclusiva ao seu ofício. Assim, na narrativa, é preciso aliar as informações colhidas em várias fontes e demonstrar a capacidade de acomodá-las nas personalidades sem criar ficção.

O que os leitores podem aprender com a história de Luiz Severiano Ribeiro?
Essa é a história de como um homem arrojado pode se atirar de cabeça num projeto pioneiro, movido apenas pela intuição de um sucesso improvável. Quando o Severiano conheceu o cinema, em 1910, este ainda era chamado de cinematógrafo, e o tempo perdido com complicações técnicas durante as projeções eram maiores do que os momentos de exibição. Por outro lado, poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele, quando funcionava como operador de finanças. Ele comprava com preço fixo em longo prazo, prevendo a inflação, e vendia em curto prazo. Foi pioneiro também na prática do overnight, operando com o dinheiro vivo que saia das bilheterias dos cinemas.

A biografia nasceu de um interesse espontâneo pelo personagem ou foi encomenda da família?
Eu fui contratado para escrever um livro chamado 90 anos de cinema, um álbum de luxo que não foi comercializado. Foi distribuído como brinde do Grupo Severiano Ribeiro para amigos e clientes numa festa oferecida no Rio de Janeiro. O texto era secundário, pois o magnífico trabalho gráfico mostrava dezenas de fotos inéditas do acervo da Atlântida (empresa criada pelo filho, Severiano Ribeiro Jr.) e tinha acabamento de livro de arte. A iniciativa de prosseguir nas pesquisas e fazer um novo livro, com mais investigação e pesquisa, foi minha, em parceria com a editora Record.

Como se deu o processo de busca de imagens, depoimentos e demais informações? Quais foram as dificuldades?
Nenhum sofrimento. As pesquisas foram desenvolvidas por um especialista, Vinicius Braga, que teve acesso ao fantástico acervo de 2 mil fotos da Atlântida e documentos da família Severiano Ribeiro, que ajudou bastante. Meu empenho foi entrevistar cerca de vinte pessoas ligadas a Luis Severiano Ribeiro, sobretudo, ex-funcionários da empresa e atores das chanchadas da Atlântida: Norma Bengel, John Herbert, Agildo Ribeiro, Anselmo Duarte...

Apesar de ter construído um império cinematográfico, a trajetória da família Severiano Ribeiro é pouco conhecida. Como isso se explica?
Eles tinham uma briga crônica com a imprensa carioca. Durante anos as iniciativas de instalações de cinemas na cidade foram muito criticadas, enquanto salas de exibição. Quando o filho, Ribeiro Jr, passou a produzir as chanchadas, a crítica que vinha de setores da esquerda exigia nacionalismo e seriedade temática e técnica nas produções. Mas as chanchadas, mesmo ingênuas e com muitos defeitos técnicos, foram importantes para a implantação e formação de uma platéia brasileira.

Um comentário:

Lidianne Andrade disse...

parabéns pela matéria! sucesso!