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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

São Luiz de Pernambuco



Boa notícia, o Cinema São Luiz foi comprado pelo governo do estado. De imediato, dois benefícios decorrem desse movimento. A partir de agora, um dos últimos palácios do cinema em atividade pertence ao povo pernambucano. E o melhor, com a aquisição, o destino do São Luiz fica “imune” a mudanças políticas advindas da alternância de poder. O que falta resolver diz respeito a ajustes técnicos e estruturais, mas principalmente à crise conceitual de um cinema que ainda não encontrou público.

É notório que o São Luiz voltou à ativa porque foi tratado como prioridade pelo governador Eduardo Campos. Até a efetivação da compra, confirmada pelo secretário da Casa Civil, Tadeu Alencar, não havia como garantir que ele continuasse de portas abertas. Segundo Tadeu, o imóvel, de propriedade do Grupo Severiano Ribeiro, foi adquirido por R$ 2,584 mihões, a serem pagos em 12 parcelas. Durante esse período, o governo ganhará créditos de publicidade a ser veiculada na rede UCI Ribeiro (shoppings Plaza, Recife, Tacaruna e Boa Vista).

Para fechar o negócio, cada uma das partes requisitou avaliações comerciais, que levaram em conta o ponto e o metro quadrado. A proposta inicial da Severiano Ribeiro era de R$ 5 milhões. O valor final foi definido a partir do lance oferecido pelo governo, de R$ 3,83 milhões. “Desse valor, abatemos o que investimos na reforma, que não só restaurou o espaço como também agregou um novo valor. É uma relíquia”, considera o secretário. Avaliado em R$ 500 mil, o mural do artista Lula Cardoso Ayres, localizado no hall do cinema, entrou no pacote como uma doação do grupo.

“Fizemos questão que o painel não constasse em nenhuma das avaliações, assim como não levamos em conta os acabamentos, afrescos, vitrais e a aplicação do mármore”, diz Luís Henrique Severiano Ribeiro, gerente patrimonial do grupo, que veio do Rio de Janeiro ao Recife para participar das negociações. “O governo do estado teve uma atitude exemplar, fez reforma excepcional, demonstrou grande sensibilidade”.

As negociações começaram em 2010, mediadas pelo então secretário da Casa Civil, Ricardo Leitão, e Lula Cardoso Ayres Filho, um dos responsáveis pela restauração do São Luiz e, desde setembro, responsável pelo setor de engenharia e patrimônio do grupo Severiano Ribeiro no Nordeste. “O São Luiz é o único cinema do país preservado exatamente como foi construído”, diz Lula.

Ribeiro conta que o São Luiz foi construído por seu bisavô como forma de retribuição ao Recife, que foi fundamental para a prosperidade do grupo e continua sendo o escritório central da região. Outros dois cinemas São Luiz foram construídos na mesma época, um no Rio e outro em Fortaleza, terra natal de Severiano Ribeiro. “O governo do Ceará está negociando o São Luiz de Fortaleza, mas está vacilante. Uma igreja de lá fez oferta de R$ 10 milhões, mas recusamos. Nada contra as religiões, mas queremos que o local seja um espaço de cultura, que preserve a nossa história”.

Uma casa à espera de reformas - A princípio, a compra do Cine São Luiz pelo governo do estado não se reflete em mudança nas diretrizes de sua gestão. No entanto, para que o cinema funcione plenamente, faltam melhorias técnicas e estruturais, a principal delas, a aquisição de um equipamento de projeção digital.

“Hoje, 20% dos filmes disponíveis no mercado só circulam em suporte digital. É uma produção interessante, mas estamos fora desse circuito”, diz o programador do São Luiz, Geraldo Pinho. Segundo ele, entre setembro e outubro será aberta uma nova licitação para compra do equipamento digital. Enquanto isso, o cinema funciona com um projetor reformado, que data dos anos 1950, e som Dolby Stereo.

O cinema também sofre de problemas estruturais decorrentes da má conservação do Edifício Duarte Coelho. Infiltrações advindas dos andares superiores comprometem o forro de gesso. Esse e outros danos (como os provocados por lixo jogado dos apartamentos, no telhado do cinema) serão resolvidos por outra empresa, que também aguarda licitação. O equipamento de refrigeração, também original da década de 50, é outra deficiência que está sendo solucionada. Das seis máquinas, três estão funcionando e outra será reativada semana que vem.

A programação atual continua disponível de terça a domingo, em três horários. O filme em cartaz, Enfim viúva, pode ser assistido às 15h, 17h e 19h. Aos domingos, a sessão matinê traz Kung Fu Panda 2 (10h e 14h) e é responsável pela maior bilheteria do cinema, uma média de 400 pessoas por sessão. Programas especiais na segunda-feira, festivais e outros eventos culturais continuam na pauta.

Linha do tempo

1952 | Cinema São Luiz é inaugurado em 6 de setembro, com o filme O falcão dos mares, de Raoul Walsh.

Década de 1970 | Os filmes dos Trapalhões faziam tanto sucesso que os próprios comediantes subiam no palco do São Luiz para
lançar os filmes.

Década de 1980 | Auge de público do São Luiz, que alcançava a média semanal de 34 mil pessoas.

1997 | O São Luiz sedia a 1ª edição do Cine PE e exibe Baile perfumado, primeiro longa feito em Pernambuco em 20 anos

1998 | Recorde de público, Titanic, de James Cameron, atraiu tanta gente que foi preciso fechar o cinema com tapumes para que as pessoas não o invadissem

2007 | Em 31 de janeiro, o Grupo Severiano Ribeiro encerra as atividades do cinema com o filme Uma noite no museu. No mesmo ano, o Grupo Barros Melo, das Faculdades Barros Melo (Aeso), assumiu o restauro do espaço, para transformá-lo em centro cultural.

2008 | Após desistência da Aeso, Eduardo Campos anuncia, durante o Festival de Cinema de Triunfo, que o restauro e administração do São Luiz será responsabilidade do governo do estado, que investiu R$ 1,2 milhão para a reforma e passa a pagar aluguel mensal de R$ 20 mil ao Grupo Severiano Ribeiro

2009 | Em junho, é tombado como patrimônio artístico e cultural do estado de Pernambuco. Em dezembro, é reinaugurado, com sessão especial de Baile Perfumado.

2010 | Em janeiro, é reaberto para o público com sessões de curtas e longas pernambucanos. Em março, passa a ter curadoria de Lula Cardoso Ayres, que fica na função até outubro.

2011 | Em abril, passa 30 dias fechado para manutenção. Volta em maio, com Geraldo Pinho na função de programador. Em agosto, o governo anuncia a compra do imóvel.

(Diario de Pernambuco, 25/08/2011)

sábado, 26 de setembro de 2009

Revolução que está por vir...


... tem data marcada

Pernambuco conta com oito salas digitais de cinema, incluindo a 3D do Box Guararapes; a digitalização dos espaços exibidores é um processo inevitável

Em breve, o Recife terá uma nova sala de cinema 3D. Ela será inaugurada em dezembro, no Multiplex UCI Ribeiro Recife, em Boa Viagem. Mais precisamente no dia 18 de dezembro, data prevista para a estreia de Avatar, a megaprodução de James Cameron. A novidade é apenas um dos indícios de que o cinema analógico, armazenado em rolos de película 35mm, está com os dias contados no Brasil. Somente nas últimas semanas, a rede Cinemark inaugurou cinco novas salas 3D em São Paulo. Das 412 salas do grupo, 9% contam com o equipamento.

Quem determina a mudança, naturalmente, é o fator econômico. De acordo com o site especializado Filme B, metade do faturamento norte-americano de Up, Força G e Era do gelo 3, três grandes lançamentos do ano, é proveniente das salas 3D, que representam um terço do total dos espaços de exibição de lá. Ainda segundo o Filme B, no Brasil, 54% da renda da animação Up é recolhida das 76 salas 3D.

Um mercado promissor, tendo em vista que há 2.100 salas no país. Até porque, as que não migrarem para o digital, com o tempo fecharão as portas. De acordo com Luiz Gonzaga de Luca, do grupo Severiano Ribeiro, essa conversão não sai por menos de R$ 600 milhões. "Se não houver intervenção do estado, não só os pequenos exibidores irão morrer", diz o executivo, que defende que a conta deve ser financiada pelo governo e paga pelos estúdios, distribuidores e exibidores.

À primeira vista, todos saem ganhando. Após o período de adaptação, o lucro será maior, pois a logística será mais barata que a atual. O público também não terá do que reclamar. Não somente poderão experimentar filmes com maior qualidade de imagem e som. Assim como poderão, graças à convergência de mídias, assistir a shows, espetáculos e eventos esportivos em 3D.

Por enquanto, o Recife conta com oito salas digitais. Uma é a 3D do complexo Box Guararapes, que funciona com a tecnologia XPAND. As demais estão habilitadas a exibir filmes codificados pela Rain Networks, bitola adotada para filmes com distribuição independente. A pioneira funciona no Cinema da Fundação. As outras estão no Box.

"A digitalização das salas é um processo inevitável. O que torna as coisas mais difíceis é que aqui no Brasil ainda não temos um modelo de negócios definido. No ano passado quando implantamos as nossas salas 3D, gastamos 500 mil por sala. Hoje o dólar está mais baixo, e o custos dos equipamentos baixaram também, mas ainda custam mais ou menos 5 vezes mais que o 35mm", afirma Rosa Maria Vicente, diretora de programação e marketing da Box Cinemas do Brasil.

A oferta de filmes digitais tem sido tanta que, no Cinema da Fundação, o projetor 35mm estava parado por mais de dois meses. Foi reativado para exibição de Anticristo, de Lars Von Trier. Foi a saída para ocupar uma área maior da tela, pois a versão codificada pela Rain reduziria a dimensão do formato Scope.

Em breve, o Cine Rosa e Silva colocará na cidade mais três salas do sistema Rain. Elas chegam com outras mudanças no complexo, uma reforma que inclui a troca de cadeiras e do sistemade ar condicionado. "Ficou difícil trabalhar com os filmes do circuito alternativo, porque eles lançam um filme com apenas uma cópia em película. O resultado é que quando um filme é muito requisitado, ficamos esperando pelo menos seis meses", diz Carol Ferreira, programadora do Rosa e Silva.

No entanto, a incompatibilidade entre os sistemas de exibição - os grandes estúdios operando no sistema DCI e as pequenas salas independentes no sistema Rain - termina por colocar o dedo na ferida do circuito exibidor nacional, que terá uma divisão ainda mais acirrada. Estaremos às vésperas de oficializar a marginalização do cinema nacional, agora restrito às salas "alternativas"? E quanto ao circuito comercial, resta a ele assumir a função de mero operador da produção hollywoodiana? Como nos filmes de ficção, o futuro pode ser ao mesmo tempo fascinante e assustador.


Convergência sem ingenuidade
O processo de transição para o cinema digital no Brasil pode ser melhor entendido com um livro a ser lançado esta semana, durante o Festival do Rio. A hora do cinema digital (Imprensa Oficial de São Paulo, R$ 15), de Luiz Gonzaga de Luca, é o novo volume da Coleção Aplauso. Para Luca, o cinema, "o último veículo de comunicação analógico, está dando um passo que modificará o seu futuro".

Seu livro é um guia - talvez o único disponível no mercado nacional - para acessar detalhes técnicos, políticos, históricos e econômicos sobre a revolução que está por vir. "A abertura que Glauber tanto falava na verdade chegou com o cinema digital", diz o autor. "Mas para isso precisamos discutir convergência sem ingenuidade. Os padrões técnicos estão adotados, mas isso não resolve questões de mercado, onde TV domina o faturamento no audiovisual. Na Índia, o cinema controla 60% do mercado. O cinema é a TV da Índia".

O assunto está na pauta do próprio Festival do Rio, que promove uma mesa com Joe Peixoto, executivo da Real D (fabricante de projetores 3D) e mediação de Luca, que apresentará as experiências brasileiras na produção de conteúdo tridimensional.

(Diario de Pernambuco, 27/09/09)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cinema é um ótimo negócio


Luiz Severiano Ribeiro ergueu um verdadeiro império de salas de exibição espalhadas pelo país; sua trajetória é contada em livro lançado pela Record
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

São Luiz, Odeon, Moderno, Majestic, Palácio. Por trás das maiores salas de cinema, havia um único homem: Luiz Severiano Ribeiro. Fundador da rede de exibição que por décadas foi a maior do país (hoje perde para o grupo estrangeiro Cinemark), o empresário cearense viveu entre 1885 e 1974. Através de uma terceira geração de descendentes, seu legado empresarial chega aos dias de hoje com mais de 200 salas no país. Elas atingem números surreais, como a marca de 15 milhões de espectadores por ano.

Essa trajetória, que se mistura com a história da própria indústria cinematográfica, está contada no livro O rei do cinema - a extraordinária história de Luiz Severiano Ribeiro (Record, R$ 37), do jornalista Toninho Vaz. Entre seus biografados anteriores estão o poeta paranaense Paulo Leminski (também pela Record) e o compositor piauiense Torquato Neto (Casa Amarela).

Lançado no mês passado, o novo livro de Toninho revela passo-a-passo como Severiano construiu seu império. Cearense de Baturité, ele nunca foi movido pelo ideal romântico de exibir filmes. Quando assumiu sua primeira sala, em 1915, não havia rádio, TV ou internet, o que fazia do cinema muito mais do que a maior diversão: era um ótimo negócio. Ele viu na atividade o grande filão na indústria do entretenimento, que deveria ser explorado com o máximo de competência - e o mínimo de concorrência.

Seus primeiros passos em Fortaleza, décadas antes de se consolidar na Cinelândia carioca, já indicavam que ele não levaria muito tempo para Severiano Ribeiro se tornar o grande nome por trás de um fenômeno de massa movido a luz, sombras e gigantescas salas, suntuosas em cada detalhe. Antes mesmo de mergulhar de cabeça na atividade, o empresário já tinha seu nome vinculado a atividades díspares como hotéis, cafés, e a Casa Ribeiro, com filial no Recife. Além disso, era revendedor exclusivo da Antarctica para o Nordeste, comércio que prosperou atrelado à venda de gelo, produto ainda mais precioso naquela época.

Por essa voraz propensão ao monopólio, ao passo em que o império se consolidava nos anos 30 e 40, crescia a antipatia das pessoas. A associação da Atlântida Cinematográfica, conduzida pelo filho Ribeiro Júnior, com a poderosa cadeia de exibição foi o próximo passo. Para se ter uma ideia, lembra o biógrafo, "O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, com Oscarito, teve 15 milhões de espectadores em 1959, época em que o Brasil tinha 60 milhões de habitantes". De acordo com o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (em trecho pinçado pela pesquisa de Toninho Vaz), "uma nova fase de harmonia para o cinema comercial no Brasil, que determinou a solidificação da chanchada e sua proliferação por mais de quinze anos. O fenômeno repugnou críticos e estudiosos".

Na entrevista a seguir, exclusiva para o Diario, Vaz conta como foi o processo de pesquisa, e sua visão sobre o empresário por trás de um mito.

Entrevista // Toninho Vaz: "Poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele"

Leminski, Torquato e Severiano ostentam personalidades distintas entre si. Para reconstruir essas trajetórias você adotou diferentes abordagens ou um método único?
O método é único: pesquisar. Saber o máximo do personagem e jogar luzes sobre sua obra, mostrando a intenção e a ação. Os três eram notáveis pela tenacidade e dedicação exclusiva ao seu ofício. Assim, na narrativa, é preciso aliar as informações colhidas em várias fontes e demonstrar a capacidade de acomodá-las nas personalidades sem criar ficção.

O que os leitores podem aprender com a história de Luiz Severiano Ribeiro?
Essa é a história de como um homem arrojado pode se atirar de cabeça num projeto pioneiro, movido apenas pela intuição de um sucesso improvável. Quando o Severiano conheceu o cinema, em 1910, este ainda era chamado de cinematógrafo, e o tempo perdido com complicações técnicas durante as projeções eram maiores do que os momentos de exibição. Por outro lado, poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele, quando funcionava como operador de finanças. Ele comprava com preço fixo em longo prazo, prevendo a inflação, e vendia em curto prazo. Foi pioneiro também na prática do overnight, operando com o dinheiro vivo que saia das bilheterias dos cinemas.

A biografia nasceu de um interesse espontâneo pelo personagem ou foi encomenda da família?
Eu fui contratado para escrever um livro chamado 90 anos de cinema, um álbum de luxo que não foi comercializado. Foi distribuído como brinde do Grupo Severiano Ribeiro para amigos e clientes numa festa oferecida no Rio de Janeiro. O texto era secundário, pois o magnífico trabalho gráfico mostrava dezenas de fotos inéditas do acervo da Atlântida (empresa criada pelo filho, Severiano Ribeiro Jr.) e tinha acabamento de livro de arte. A iniciativa de prosseguir nas pesquisas e fazer um novo livro, com mais investigação e pesquisa, foi minha, em parceria com a editora Record.

Como se deu o processo de busca de imagens, depoimentos e demais informações? Quais foram as dificuldades?
Nenhum sofrimento. As pesquisas foram desenvolvidas por um especialista, Vinicius Braga, que teve acesso ao fantástico acervo de 2 mil fotos da Atlântida e documentos da família Severiano Ribeiro, que ajudou bastante. Meu empenho foi entrevistar cerca de vinte pessoas ligadas a Luis Severiano Ribeiro, sobretudo, ex-funcionários da empresa e atores das chanchadas da Atlântida: Norma Bengel, John Herbert, Agildo Ribeiro, Anselmo Duarte...

Apesar de ter construído um império cinematográfico, a trajetória da família Severiano Ribeiro é pouco conhecida. Como isso se explica?
Eles tinham uma briga crônica com a imprensa carioca. Durante anos as iniciativas de instalações de cinemas na cidade foram muito criticadas, enquanto salas de exibição. Quando o filho, Ribeiro Jr, passou a produzir as chanchadas, a crítica que vinha de setores da esquerda exigia nacionalismo e seriedade temática e técnica nas produções. Mas as chanchadas, mesmo ingênuas e com muitos defeitos técnicos, foram importantes para a implantação e formação de uma platéia brasileira.