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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Festival de Gramado // Um Balzac para pensar o cinema



Nem Luciano Szafir, nem Paula Lima. A estrela da noite de domingo foi Honoré de Balzac. Não é pouco, para um festival que celebra os famosos do momento, evocar o escritor francês nascido 200 anos atrás. Pois foi através de Balzac e de obras em torno dele que o cineasta baiano Geraldo Sarno encontrou elementos para refletir sobre o processo de criação artística.

Com citações de Paul Valéry ("Nada é mais abstrato do que aquilo que é"), pintura, literatura e música erudita, o viés de O último romance de Balzac é, no mínimo, polêmico. O filme traz à tona a obra O avesso de um Balzac contemporâneo (Editora Lachâtre, R$ 48), análise "arqueológica" feita pelo psicólogo Osmar Ramos Filho sobre uma obra psicografada por Waldo Vieira (parceiro de Chico Xavier) em 1965, pelo espírito de Balzac. Faz também uma livre adaptação em de A pele de Onagro, um dos primeiros romances do escritor. Dentro da estética do cinema mudo, este "filme dentro do filme" é estrelado por José Paes deLira, mais conhecido como o Lirinha do Cordel do Fogo Encantado. Também estão no elenco Simone Spoladore e Ernesto Sollis.

Geraldo e Lirinha se encontraram na predileção de ambos por cantadores da fronteira Pernambuco/Paraíba foi fundamental para que Lirinha topasse entrar no projeto. Nos anos 1960, Geraldo rodou vários documentários sobre o tema. Por sua vez, declamadores como Pinto do Monteiro e Patativa do Assaré foram a primeira referência arrebatadora na formação de Lirinha.

Na manhã seguinte à exibição, durante o debate com a imprensa, o filme deu o que falar. Alguns não resistiram à tentação de taxá-lo de espírita, que estaria engrossando essa tendência que está tomando conta do cinema nacional. Hoje, por exemplo, Sylvio Back exibe em Gramado seu Contestado - restos mortais, documentário de 2h30 em que, através de 30 médiuns, ex-combatentes narram detalhes da guerra que ocorreu há 100 anos entre o Paraná e Santa Catarina. De formação marxista e com outros filmes que abordam questões religiosas como Viramundo, Iaô e Deus é um fogo, ele nega qualquer inclinação espírita do longa. "O filme não tem visão religiosa ou doutrinária. Eu não sou espírita. Respeito a visão do Waldo, que encaro como o processo de criação em que o artista, mesmo não religioso, pode viver. Não são poucos os artistas ou filósofos que se dizem possuídos no momento de criação".

De acordo com Sarno, a interpretação do professor Osmar traz aspectos centrais na obra de Balzac, inéditos na crítica mundial. Que levaram não somente à A pele de Onagro, como ao pasticho de uma pintura de Paul Potter, considerado por Balzac como o Rafael dos animais. O projeto original incluía uma viagem a Paris, para documentar o universo do autor, logo abandonado em prol da releitura de Onagro. Nele, Rafael Valentin (Lirinha) aceita abreviar sua vida, em troca da realização de todos os seus desejos.

Ao Diario, Lirinha disse que antes de aceitar o papel, precisou superar sua resistência com as exigências do cinema. No entanto, no fim da ressaca provocada pela separação do Cordel do Fogo Encantado (seu primeiro disco sem o grupo sai no começo do ano), ele tem motivos para se identificar com Balzac e seu personagem. “A Teoria da Vontade é uma metáfora do trabalho artístico, em que ele encara dificuldades e decepções em busca do reconhecimento. Também me identifico com a ideia do suicídio na arte, a busca pelo recomeço, a morte como o inicio de algo novo. E Rafael vai cada vez para o subterrâneo, até chegar na situação de que ele não pode mais se apaixonar senão morre”. Além de protagonizar Balzac, Lirinha faz uma pequena homenagem a Glauber Rocha no inédito Transeunte, novo filme de Eryk Rocha.

Após a sessão e também no debate, não foram poucas as críticas ao filme de Sarno. O diretor responde que procura filmes de ruptura. E que assume o risco "suicida" de fazer o que não sabe. "Espero não ser aceito por quem busca entretenimento. Quero estar contra a corrente. Talvez não crie uma nova língua, então gaguejo para não falar a língua do cinema dominante".

Diario de Pernambuco, 10/08/2010)

sábado, 17 de julho de 2010

Novo longa de Geraldo Sarno estreia em Gramado



O último romance de Balzac, novo longa de Geraldo Sarno, é um dos selecionados para participar do 38º Festival de Cinema de Gramado.

O filme é baseado no livro O Avesso de um Balzac contemporâneo- Arqueologia de um pastiche, resultado de dez anos de estudo do psicólogo Osmar Ramos Filho sobre outro livro, Cristo espera por ti, ditado por Balzac ao médium Valdo Vieira. Em certo ponto do filme, há uma parte ficcional que adapta o romance A pele de Onagro (La peau de chagrin), escrito por Balzac em 1831.

O interesse pelo fazer cinematográfico / literário é o que move o diretor nos últimos anos. Sarno descreve o novo filme como um jogo de espelhos com diferentes níveis de leitura, criação e reinterpretação da obra de Balzac: primeiro, a partir do livro psicografado; depois, da pesquisa do psicólogo; e por fim, do próprio documentário.

Seu último anterior, Tudo isto me parece um sonho (2008), que investiga a "herança" deixada pelo general pernambucano José Ignácio de Abreu e Lima, gira especialmente em torno desse processo de reflexão / criação. Celebrado em Brasília com os prêmios de melhor roteiro e direção, o filme foi considerado pelo cineasta Carlos Reichenbach como "a maturidade política do documentário brasileiro".

Após quase cinco décadas dedicadas à produção e educação, o premiado diretor de Viramundo (1964), Iaô (1973) e Delmiro Gouveia (1978) adota um discurso mais grave, que alerta produtores e patrocinadores do audiovisual para a necessidade de discutir linguagem e criação.

"Quando digo que nós perdemos, é porque essa questão, tão importante, é ao mesmo tempo inteiramente marginal, não comove ninguém, em nenhum país da América do Sul".

A seguir, trechos de uma entrevista que fiz com Sarno em 2009, enquanto rodava O último romance de Balzac.

André Dib - Porque a opção por Balzac e a psicografia no novo filme?
Geraldo Sarno - O que mais me interessa é refletir sobre o processo de criação. Posso considerar o livro de Valdo Vieira como uma leitura de Balzac, uma interpretação da sua obra. O estudo científico de Osmar Ramos é uma segunda interpretação, a partir da análise do "pastiche". Se nós, enquanto cinema, trazemos a figura histórica de Balzac e sua obra, no caso A pele de Onagro, citada no estudo de Osmar, fazemos também uma análise própria. São, no mínimo, três pontos de vista, mais o nosso - o do filme.

A relação entre palavra e imagem parece ser algo constante na sua carreira.
Estou tornando essa relação mais precisa agora. Um possível subtítulo para esse filme seria "a palavra e a imagem". É sabido que o Balzac dava primazia à imagem, inclusive por sua aproximação da pintura. Tanto que o Osmar, a partir do livro psicografado, identifica um quadro do século 17, feito pelo pintor holandês Paul Potter, mais ou menos contemporâneo de Rembrandt. Osmar descobriu que quadro é esse, e faz uma análise entre a pintura e a A pele de Onagro, algo absolutamente original e nunca realizado por nenhum estudioso de Balzac.

Como entender o conceito de "protodocumentário", que você utiliza em seu último filme? O "pastiche" ficcional reservado a Balzac seria algo semelhante?
Penso em A pele de Onagro como um "pastiche" do texto original, uma imagem para cada palavra, em diálogo com o romance. Diferente do filme Tudo isto me parece um sonho, onde existe um documentário dentro do documentário, que poderia ser entendido como um protodocumentário sobre a cana de açúcar. É um série de planos dispostos com elementos mais simples do tema: a plantação, o corte, a usina, uma série de planos com narração de um texto histórico do século 19, de Antonio Pedro Figueredo. Uma sequência básica, embrionária, quase que não manejada. Esteticamente, é a coisa mais linda que eu já fiz.

Entrevista completa aqui.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Descobridor de Brasis



Um dos principais nomes da fotografia brasileira está no Recife. Thomaz Farkas, 85 anos, traz à cidade Notas de viagem, coleção de fotos realizadas numa expedição que fez pelo Rio Amazonas com o biólogo Paulo Vanzolini e o documentarista Geraldo Sarno. A exposição abre hoje, somente para convidados, na Galeria Arte Plural, onde permanece até 22 de novembro. Amanhã, às 19h, Farkas participa de um bate papo com o público, mediado por Simonetta Persichetti, curadora da exposição.

Notas de viagem consiste em 22 fotos coloridas, retiradas de um universo de 73 imagens inéditas até pouco tempo, quando a editora CosacNaify decidiu publicá-las em livro. Na Arte Plural, elas estão distribuídas nos dois andares da galeria. No térreo, é possível apreciar a paisagem amazônica e aglomerados urbanos. O uso das cores, recurso raro numa obra marcada pelo preto e branco, empresta sutileza e mistério à embarcação retratada em tons de azul crepuscular. E vivacidade à cesta carregada num cruzamento urbano, de onde saltam aos olhos frutas amarelas e vermelhas.

No primeiro andar, dedicado a retratos do povo, há o encontro com um vaqueiro que bebe água depositada numa planta, um violeiro, um trabalhador segura o machado, um senhor que carrega no mesmo ombro espingarda e varinha de pescar, a beleza de um bebê no colo da mãe, ao lado da filha. Todos demonstram dignidade. Imagens feitas a partir de um profundo respeito e o encanto de quem descobre o país com os próprios olhos.

Em seu encontro com a imprensa, Farkas se mostrou disposto e bem humorado. É a primeira vez que Notas de viagem sai de São Paulo, terra onde Farkas e família se estabeleceram em 1920, quando deixaram a Hungria e fundaram a Fotoptica, empresa fundamental para o desenvolvimento da fotografia brasileira.

O pequeno Thomaz chegou ao Brasil em 1930, aos seis anos. Como fotógrafo, começou cedo. Com nove ou dez anos fotografava os gatos da vizinhança. Graças ao conhecimento da família, aprendeu a revelar imagens naluz do sol. "Fotografei muito bichinhos e amigos. Andávamos de bicicleta, nos chamávamos "Esquadrilha invencível". O resultado era ótimo, só que eu não guardei nenhuma foto". Adulto, fez sucesso pela primeira vez com uma série de fotos de partidas de futebol no Ginásio do Pacaembu. Naquela época, já fazia parte do Foto Clube Bandeirante, formado pelos pioneiros da fotografia. No cinema, começou nos anos 50, em produções da Vera Cruz. "Ele foi um dos que romperam com o pictorialismo e inauguraram a fotografia moderna", diz Simonetta. A construção de Brasília foi outro tema que marcou sua carreira. "Para fotógrafos, deu certo. No mais, não sou antropólogo nem arquiteto para dizer se funciona".

Quando assumiu a administração, herdada do pai Desidério e os tios Adalberto e Ladislau, fundou a primeira galeria de fotografia do país e a revista Fotoptica, que fez circular o trabalho de vários profissionais. Formado em engenharia elétrica e mecânica, Farkas foi responsável pelo projeto de dois laboratórios fotográficos, um da própria Fotoptica e outro da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. "Ele queria estudar cinema, só que estourou a guerra e ele não pode ir à Europa. Então escolheu a engenharia, que era o mais próximo do que ele queria na área técnica", conta Marli, sua companheira. Farkas diz que a engenharia influenciou sua relação com a imagem. "Queria transformar a experiência em cinema. Filmava e depois projetava para os alunos".

Quase três décadas depois da última viagem, Farkas está de volta ao Nordeste que conheceu em expedições hoje conhecidas como Caravanas Farkas, assim batizadas pelo amigo e montador Eduardo Escorel. O resultado foram 33 curta-metragens (que serão exibidos nos próximos dias na Arte Plural) e uma vasta coleção de fotografias. As viagens aconteceram entre 1964 e 1980, anos da ditadura militar. O sentido do projeto não era bater de frente com o poder. "A maior revolução que podemos fazer é mostrar o Brasil aos brasileiros. E essa foi minha trajetória. Geraldo Sarno foi meu maior companheironisso. Depois vieram outros", conta o fotógrafo, que sonha em fazer tudo de novo. "O país mudou, precisa ser redescoberto".

Se hoje imagens do povo parecem algo normal, mas até pouco tempo era algo banido da mídia. "Queríamos mostrar a vida do brasileiro. Íamos às feiras gravar com o microfone escondido. Achava coisas tão maravilhosas. Pensei que, mostrando para as pessoas, a fotografia poderia contribuir para o desenvolvimento". Quando prontos, os filmes não puderam ser exibidos nem mesmo na TV Cultura. "Apresentei ao chefe de lá, que era meu amigo, e ele disse que a censura não deixaria". Da mesma forma, suas convicções o levaram a ser dispensado como fotógrafo da Folha de São Paulo.

"O jornal hoje tem um significado social muito maior do que antes. Na parte escrita e gráfica. No fotojornalismo, há uma preocupação artística e social. No meu tempo, fotografia de gente pobre não saía em jornal. Hoje existe uma consciência social que vai além da fotografia de moda e outras coisas".

Mesmo com todas as facilidades, Farkas ainda não fotografa com câmera digital. Trabalha com as clássicas Leica e Rolleiflex. Mas vê a proliferação de câmeras digitais como algo positivo. "Do ponto de vista artístico, não acho o resultado excepcional. É algo quantitativo. Qualquer lugar com 20 pessoas, 15 têm máquina digital. Então o digital mudou a fotografia. A qualidade é um outro passo. Daí vai sair coisa".

Serviço
Notas de Viagem, por Thomaz Farkas
Quando: de 14 de outubro a 22 de novembro - de terça a sexta, das 13h às 19h; sábados e domingos, das 16h às 20h
Onde: Arte Plural (R. da Moeda, 140 - Recife Antigo)
Informações: 3424-4431

(Diario de Pernambuco, 13/10/2009)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Thomas Farkas no Recife





O fotógrafo Thomas Farkas, 85 anos, estará no Recife na próxima semana para a abertura da exposição Notas de viagem .

Trata-se de uma série de imagens realizadas nos anos 70, durante viagem que fez nos anos 70 ao longo do Rio Negro, na Amazônia, com o compositor paulista Paulo Vanzolini e o cineasta baiano Geraldo Sarno. Coloridas, as fotos são uma exceção em sua obra, marcada pela imagem em preto e branco.

Nascido em Budapeste, Hungria, Farkas se mudou para o Brasil com a família, ainda criança. Por volta dos 20 anos passou a se dedicar à fotografia, através da qual registrou a construção de Brasília e, mais tarde, as expressões da cultura nordestina em expedições que depois ficaram conhecidas como Caravanas Farkas.

A exposição abre na próxima terça-feira, na Galeria Arte Plural, em evento somente para convidados. A partir da quarta, estará aberta para visitação.

A idade avançada não impedirá Farkas de receber o público na quarta à noite, onde faz uma palestra gratuita às 19h.

A Arte Plural fica na Rua da Moeda, 140, Recife Antigo. Informações: 3424-4431

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Minissérie "Abreu e Lima - General de Bolívar" estreia na TV Brasil



Amigos, faço uma pausa no meu feriado para um convite: hoje, às 20h30, na TV Brasil, estreia Abreu e Lima - General de Bolívar, de Geraldo Sarno, mini-série da qual tive o privilégio de participar como pesquisador e produtor.

Nosso trabalho, realizado em 2008, rendeu um documentário longa-metragem premiado em Brasília (melhor direção e melhor roteiro), chamado Tudo isto me parece um sonho.

O filme foi considerado pelo cineasta Carlos Reichenbach, em seu blog, como "a maturidade política do documentário brasileiro".

"Uma generosa aula de história que não subestima o espectador, na tradição mais avançada do materialismo dialético e da inspiração visionária de Antônio Gramsci e Palmiro Togliatti. Sarno fez um filme que celebra o exercício do pensamento ("todos os homens são filósofos" - Gramsci). Para poucos sim; mas ninguém me convence que o cinema precise eternamente bajular o grande público e ficar subserviente à ditadura do borderô e da preguiça que faz evitar a reflexão. TUDO ISSO ME PARECE UM SONHO pressupõe cultura política, fina informação, fé na liberdade e o prazer do debate (nunca do discurso e do proselitismo). Um troféu audiovisual à inteligência e ao amor à América Latina", escreve Reichenbach.

Agora, o diretor volta ao tema no formato série de 4 episódios, voltados para a TV. Abreu e Lima - General de Bolívar é inspirado na vida do militar, político, jornalista e escritor. Aborda o período desde a Revolução de 1817, em Pernambuco, onde o pai de Abreu e Lima, Padre Roma, foi um dos líderes, até sua morte, em 1869. Nesse período, Abreu e Lima participou das lutas de libertação das colônias espanholas na América, sob comando de Simon Bolívar, e da Revolução Praieira de 1848, no Recife.

Há diversas locações na Venezuela e Brasil (Recife, Salvador, Brasília e Rio de Janeiro). E participações especiais do núcleo de artistas populares de Chã de Camará (município de Aliança, Zona da Mata Norte Pernambucana): Biu do Coco, Mestre Zé Duda e Pai Mário, todos do Maracatu Estrela de Ouro.

Dividida em quatro capítulos de 24 minutos, a série conta com a participação dos professores de história, Vamireh Chacon, da Universidade de Brasília e biógrafo do general Abreu e Lima; e Pedro Sosa, da Universidade Central de Venezuela. Eles revivem os fatos históricos referentes às duas revoluções pernambucanas e à saga bolivariana, nos locais onde eles ocorreram.

O primeiro capítulo trata das motivações políticas, sociais e culturais da Revolução de 1817, em Pernambuco, estendendo-se até a morte do Padre Roma e a fuga de Abreu e Lima para o exterior. O capítulo seguinte está inteiramente dedicado à sua participação nos embates políticos e ideológicos e nas batalhas militares, sob o comando de Bolívar, pela libertação das colônias espanholas. Após a morte do líder, Abreu e Lima volta ao Brasil e participa da Revolução Praieira de 1848, em Pernambuco.

O passado de lutas, a defesa do direito dos protestantes distribuírem suas bíblias e a morte de Abreu e Lima são assuntos do último capítulo da série. Seu retrato o imortaliza ao lado de Bolívar e dos próceres que libertaram as colônias espanholas e instituíram as atuais nações: Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Bolívia.

Atualmente, Sarno produz um longa sobre Honoré de Balzac, a partir de uma obra transcrita por um espírita brasileiro e do conto do próprio Balzac, A pele de Onagro. Detalhes aqui, em matéria escrita para o Diario de Pernambuco. Entrevista com Geraldo Sarno, aqui.

domingo, 12 de julho de 2009

Dois mestres da criação cinematográfica



Os cineastas baianos Geraldo Sarno e Edgard Navarro estão às voltas com novos projetos. O primeiro está em campo com o documentário O último romance de Balzac, que debruça sobre a análise de um livro psicografado por Valdo Vieira e atribuído ao escritor francês.

Já Navarro acaba de rodar O homem que não dormia, ficção sobre o fantasma que assombra aqueles que procuram um tesouro por ele enterrado. É o segundo filme de longa duração de um diretor consagrado nos formatos curta e média metragem, como Super Outro (1989). Cada qual à sua maneira, os dois diretores vivem momentos importantes, para não dizer cruciais, de suas carreiras.

Rodado em maio na antiga vila de Igatu, na Chapada Diamantina, O homem que não dormia apresenta uma série de situações corriqueiras de uma pequena cidade do interior baiano. "É uma cidade pobre e de mentalidade estreita, que precisa sobreviver depois do ciclo do diamante, mas continua mantida sob um coronelismo que dita relações de dominação", conta Navarro.

Prestes a completar 70 anos, é ele quem interpreta o Barão, que cem anos atrás, foi traído pela mulher e se perde na vida. "Os moradores de lá são assombrados pelo fantasma desse barão, que enterrou uma botija de ouro por ser avarento e mau. Agora ele sofre por isso e aparece no sonho das pessoas que querem desenterrar o tesouro".

Orçado em R$ 4 milhões (60% captado), o longa tem direção de arte de Moacyr Gramacho (Deserto feliz e Eu me lembro, filme anterior de Navarro) e montagem do próprio diretor. A escolha por Igatu como locação tem a ver com seu aspecto inóspito e um tanto fantasmagórico.

"É um lugar que parou no tempo, com a cor, as pedras, as marcas do tempo preservadas. Uma cidade fantasma que convive com uma outra viva, com um povo que ignora completamente os fantasmas do passado. Aquilo me impressionou e vi que encontrei o lugar ideal para contar essa história", diz Navarro.

Encontrado o cenário, entram em cena os personagens. O mais fofoqueiro se chama Pereba. "Ele quem faz o comentário burlesco, maldizente, dessa sociedade", apresenta Navarro. "Outro personagem foi vítima da repressão militar e se tornou o louco da cidade, que consegue traduzir signos inconscientes. Seu nome é Pra Frente Brasil". Outra figura importante é o filho do barão, rapaz sequelado e epilético, que vive no mato comendo insetos, lagartixas e "fala por solilóquios, vive acorrentado na cama pra não ficar aprontando". "À exceção de Madalena, que é uma mulher feliz, que transa com quem gosta, que tem uma mente saudável, todos os outros são tarja preta".

Com O homem que não dormia praticamente pronto, Navarro sente que se livrou de um peso que carregou por 30 anos. "A cruz agora é de isopor. Só vou curtir".

Balzac - O novo doc de Sarno talvez seja o primeiro filme nacional a abordar de forma plena a obra de Honoré de Balzac (1799 - 1850), conhecido por ter escrito A comédia humana e A mulher de trinta anos.

O último romance de Balzac é baseado no livro O Avesso de um Balzac contemporâneo- Arqueologia de um pastiche, resultado de dez anos de estudo do psicólogo Osmar Ramos Filho sobre Cristo espera por ti, ditado ao médium Valdo Vieira pelo espírito de Balzac. As filmagens devem encerrar em setembro. Em certo ponto do filme, haverá uma parte ficcional, adaptação do romance A pele de Onagro (La peau de chagrin), escrito por Balzac em 1831.

Sarno descreve o novo filme como um jogo de espelhos com diferentes níveis de leitura, criação e reinterpretação da obra de Balzac: primeiro, a partir do livro psicografado; depois, da pesquisa do psicólogo; e por fim, do próprio documentário. O interesse pelo fazer cinematográfico / literário parece ser o que move o diretor nos últimos anos.

Tanto que seu último longa, Tudo isto me parece um sonho (2008), que investiga a "herança" deixada pelo general pernambucano José Ignácio de Abreu e Lima, gira especialmente em torno desse processo de reflexão / criação. Celebrado em Brasília com os prêmios de melhor roteiro e direção, o filme foi considerado pelo cineasta Carlos Reichenbach como "a maturidade política do documentário brasileiro".

"Sarno fez um filme que celebra o exercício do pensamento. Para poucos sim, mas ninguém me convence que o cinema precise eternamente bajular o grande público e ficar subserviente à ditadura do borderô e da preguiça que faz evitar a reflexão. Tudo isso me parece um sonho pressupõe cultura política, fina informação, fé na liberdade e o prazer do debate (nunca do discurso e do proselitismo)", depôs Reichenbach, em seu blog.

Diferente de Navarro, que afirma entrar numa fase artística mais amena, Sarno se mostra pessimista quanto aos caminhos do cinema praticado atualmente. Após quase cinco décadas dedicadas à produção e educação, o premiado diretor de Viramundo (1964), Iaô (1973) e Delmiro Gouveia (1978) adota um discurso mais grave, que alerta produtores e patrocinadores do audiovisual para a necessidade de discutir linguagem e criação.

"Quando digo que nós perdemos, é porque essa questão, tão importante, é ao mesmo tempo inteiramente marginal, não comove ninguém, em nenhum país da América do Sul. Os partidos políticos não estão interessados, políticas públicas idem".

Para falar sobre seus novos filmes, suas inquietações e processos criativos, o Diario convidou Sarno e Navarro para as entrevistas a seguir. Com a palavra, dois mestres do cinema brasileiro.

* publicado no Diario de Pernambuco

Entrevista // Geraldo Sarno: "A questão é ousar a ponto de arriscar a não fazer mais nada depois disso"



Porque a opção por Balzac e a psicografia no novo filme?

O que mais me interessa é refletir sobre o processo de criação. Posso considerar o livro de Valdo Vieira como uma leitura de Balzac, uma interpretação da sua obra. O estudo científico de Osmar Ramos é uma segunda interpretação, a partir da análise do "pastiche". Se nós, enquanto cinema, trazemos a figura histórica de Balzac e sua obra, no caso A pele de Onagro, citada no estudo de Osmar, fazemos também uma análise própria. São, no mínimo, três pontos de vista, mais o nosso - o do filme.

A relação entre palavra e imagem parece ser algo constante na sua carreira.

Estou tornando essa relação mais precisa agora. Um possível subtítulo para esse filme seria "a palavra e a imagem". É sabido que o Balzac dava primazia à imagem, inclusive por sua aproximação da pintura. Tanto que o Osmar, a partir do livro psicografado, identifica um quadro do século 17, feito pelo pintor holandês Paul Potter, mais ou menos contemporâneo de Rembrandt. Osmar descobriu que quadro é esse, e faz uma análise entre a pintura e a A pele de Onagro, algo absolutamente original e nunca realizado por nenhum estudioso de Balzac.

Como entender o conceito de "protodocumentário", que você utiliza em seu último filme? O "pastiche" ficcional reservado a Balzac seria algo semelhante?

Penso em A pele de Onagro como um "pastiche" do texto original, uma imagem para cada palavra, em diálogo com o romance. Diferente do filme Tudo isto me parece um sonho, onde existe um documentário dentro do documentário, que poderia ser entendido como um protodocumentário sobre a cana de açúcar. É um série de planos dispostos com elementos mais simples do tema: a plantação, o corte, a usina, uma série de planos com narração de um texto histórico do século 19, de Antonio Pedro Figueredo. Uma sequência básica, embrionária, quase que não manejada. Esteticamente, é a coisa mais linda que eu já fiz.

Você classifica seus últimos filmes como "suicidas". O que isso significa?

Essas coisas me vieram depois que fiz Tudo isto me parece um sonho. Eu o chamo de suicida por dois motivos. Primeiro, porque é um documentário com duas horas e meia de duração - o primeiro corte tinha quatro horas. Segundo, eu não sabia o que estava fazendo. Então o "suicídio" diz respeito a assumir riscos, de buscar formas diferentes de fazer filmes. Eu não sei me repetir, tenho que fazer algo que não sei fazer. Se eu não sei fazer, isso me instiga. Se eu soubesse o que é, eu não faria. Não é algo meramente estético, porque penso que certos parâmetros de criação são necessários. Digo isso dado o momento do audiovisual contemporâneo, pois tento trabalhar a partir de um marco social e histórico. A questão é ousar a ponto de arriscar não fazer nada mais depois disso. Pode dar certo, ou não, mas se não for assim, você vai fazer a mesma coisa que todo mundo está fazendo. O que termina por ser outra forma de suicídio.

Nos anos 60, você fez parte de um grupo que propôs um projeto de pensar o país através do cinema. Qual o balanço, cinquenta anos depois?

Se você pensar na obra de Glauber Rocha, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, que se realizam em universos de criação próprios, cada um à sua maneira, abordaram exatamente as mesmas grandes questões do Brasil. No mais, nunca houve esse projeto. Glauber Rocha disse que evitamos o debate estético por questões políticas. Agora, que passamos por uma grande pobreza estética, não temos mais embasamento para construir uma visão de mundo. E para isso não basta a mera visão política. Ela te leva para o tema, faz a análise correta, mas automaticamente não faz uma obra. Pois o que faz a obra é a linguagem, a maneira de fazer.

Eisenstein colocou isso de maneira extraordinária quase um século atrás. A esquerda, que está em ascensão no Brasil e na América Latina, deveria refletir sobre aquele momento, e voltar a ler a Escola de Frankfurt, Giles Deleuze, Michel Foucault. Agora, que os sindicatos estão fazendo TV, que o MST se interessa em filmes e temos estruturas de comunicação de esquerda como a Telesur, precisamos colocar a questão do que fazer, de como manejar a linguagem audiovisual. Fazemos cinema documentário como se não ainda não existisse a antropologia de Levi-Strauss.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

20 Curtas da Caravana Farkas no 17º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema



VIRAMUNDO, de Geraldo Sarno, é um dos documentários da mostra especial

A assessoria de imprensa do Cine Ceará divulgou ontem uma programação especial de 20 curtas produzidos por Thomas Farkas entre os anos de 1968 a 1972. Farkas, grande homenageado da edição 2007 do festival, estará presente para falar deste projeto intitulado Caravana Farkas, que percorreu o interior do país na busca de um novo olhar documental para o cinema brasileiro. Geraldo Sarno, diretor do seminal Viramundo, foi um dos jovens diretores que encamparam na missão. Junto de Farkas e Paulo Rufino, percorreram um itinerário de sertões, da Bahia ao Ceará. Abaixo, texto de divulgação da mostra:

Em quatro anos de trabalho em imersão pelo “Brasil Verdade”, de 1968 a 1972, o produtor de filmes e fotógrafo Thomaz Farkas empreendeu uma das mais ousadas façanhas do audiovisual brasileiro, que ficou conhecida como Caravana Farkas. Ao todo, quase 40 filmes compõem o acervo da Caravana, que se caracterizou pela forma inovadora e independente de registrar nuances da vida do povo brasileiro não captadas pelo cinema clássico. No intuito de revelar a essência das pessoas, Farkas enviava jovens cineastas, em pequenas equipes, a todas as regiões brasileiras em busca dessas imagens. Marco na produção documental, a Caravana Farkas consagrou documentaristas como Geraldo Sarno (Viramundo), Maurice Capovilla (Subterrâneos do Futebol), Paulo Gil Soares (Memória do Cangaço), Sérgio Muniz (Rastejador), Guido Araújo (Feira da Banana) e Eduardo Escorel (Visão de Juazeiro).

Mantendo a sua essência itinerante, a Caravana Farkas viaja novamente e chega a Fortaleza (CE), a convite do 17º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, que acontece de 1 a 8 de junho. O próprio Thomaz Farkas estará à frente da Caravana, uma vez que será o grande homenageado do Festival, quando receberá o Troféu Eusélio Oliveira. Além do reconhecimento pela produção pioneira desse gênero de documentários no Brasil, o Festival chama atenção para a nova linguagem que Farkas trouxe para a produção audiovisual. Thomas Farkas nasceu na Hungria em outubro de 1924 e veio para o Brasil ainda criança, aos cinco anos. Naturalizado brasileiro, iniciou seu trabalho com fotografia em meados da década de 40, e é um dos pioneiros da fotografia moderna brasileira. A partir de 1968 produziu e co-produziu mais de 30 filmes documentários de curta e média-metragem e 8 longas-metragens. Foi professor de fotojornalismo na Universidade de São Paulo (USP) por quase 20 anos, área na qual fez seu doutorado, sobre a produção de documentários no Brasil. Em 2003, foi alvo de um curta-metragem de Walter Lima Júnior, chamado “Thomaz Farkas, brasileiro”.

Confira os filmes que a Caravana Farkas exibirá durante o 17º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema:

1. Hermeto, Campeão, de Thomaz Farkas
2. Vitalino Lampião, de Geraldo Sarno
3. A Cuíca, de Sérgio Muniz
4. O Berimbau, de Sérgio Muniz
5. Todo Mundo, de Thomaz Farkas
6. Viramundo, de Geraldo Sarno
7. De Raízes e Rezas, entre outros; de Sérgio Muniz
8. A Cantoria, de Geraldo Sarno
9. Jaramataia, de Paulo Gil Soares
10. Erva Bruxa, de Paulo Gil Soares
11. Frei Damião – Trombeta dos Aflitos,Martelo dos Hereges, de Paulo Gil Soares
12. Nossa Escola de Samba, de Manoel Horacio Gimenez
13. Os Imaginários, de Geraldo Sarno
14. Visão de Juazeiro, de Eduardo Escorel
15. A Vaquejada, de Paulo Gil Soares
16. Paraíso Juarez, de Thomaz Farkas
17. Jornal do Sertão, de Geraldo Sarno
18. Rastejador, de Sérgio Muniz
19. Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares
20. Viva Cariri, de Geraldo Sarno


• 17º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema

Local: Fortaleza (CE)

Data: De 1 a 8 de Junho de 2007

Site oficial: www.cineceara.cm.br