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quinta-feira, 3 de março de 2011

As veias abertas do capitalismo



Não estranha que o Oscar de melhor documentário tenha ido para Trabalho Interno (Inside job, EUA, 2010). Narrado por Matt Damon, o filme de Charles Ferguson é um verdadeiro tratado sobre as raízes da crise econômica de 2008, equivalente contemporâneo da Grande Depressão de 1929, mesmo ano em que a indústria cinematográfica norte-americana se afirmou ao realizar sua primeira cerimônia do Oscar. Pouco antes de anunciar o resultado, a 83ª Cerimônia do Oscar fez questão de relembrar o ano em que nasceu.

O filme que desbancou Lixo extraordinário, co-produção Brasil / Inglaterra que supostamente traria um Oscar enviezado para o Brasil e Exit through a gift shop, manifesto anarquista do artista inglês Banksy (subversivo demais para a Academia) radiografa desde o princípio as relações escusas entre instituições financeiras, acadêmicas, políticos e a grande mídia. É notória a inclinação de Hollywood aos governos democratas como os de Obama e Clinton e Trabalho interno não poupa munição contra representantes do partido republicano. Essas ligações remontam aos anos 1980, durante o governo Ronald Reagan e claro, alcança seu auge nos dois mandatos de George W. Bush.

Desprovido do cinismo manipulatório de Michael Moore (Tiros em Columbine), Ferguson coloca na parede os responsáveis pelo cataclisma mundial que quebrou bancos e despejou executivos de Wall Street para a rua da amargura. A conta foi paga por milhões de pessoas, que perderam empregos e até suas casas. “É estranho mas nenhum executivo de finanças foi preso depois do filme. Isso é um erro”, disse Ferguson, ao receber a estatueta.

Através de um excelente trabalho investigativo, os melhores momentos de Trabalho interno surgem quando o diretor aponta sua câmera afiada para figurões que normalmente aparecem sorridentes nas capas de publicações do jornalismo econômico e os faz suar frio ao confrontá-los com números e informações privilegiadas. No Brasil, Trabalho interno estreou há pouco tempo mas ainda não chegou nos circuito local. Que a premiação sirva para o filme circule mais.

Hollywood coroa O Discurso do Rei

Premiado em quatro categorias principais, O discurso do Rei é o grande vencedor do 83º Academy Awards, consagração máxima concedida por Hollywood às produções e profissionais que se destacaram no último ano. A cerimônia de entrega do Oscar foi transmitida ontem à noite, ao vivo do Kodak Theatre, em Los Angeles. Desde o início, o clima foi de nostalgia. Grandes produções do cinema norte-americano foram evocados: E o vento levou, Casablanca (cuja trilha, As time goes by, foi lembrada em vídeo por Barak Obama) e Titanic. Durante pouco mais de três horas (a cerimônia terminou à 1h40) outros clássicos musicais ressurgiram, entre eles Somewhere over the rainbown, tema de O Mágico de Oz e Ain’t misbehavin’, um dos mais tradicionais standards do jazz, utilizado para lembrar a primeira edição do Oscar, em 1929.

Nada mais coerente que O Discurso do Rei, filme mais convencional impossível, tenha vencido nas principais categorias. Por outro lado, há o impulso para a inovação tecnológica, traduzido em quatro prêmios técnicos para o vazio perfeito de A origem, de Christopher Nolan.

Durante as três horas de duração, o que se viu foi um evento solene demais, quase sempre morno e previsível, mérito dos apresentadores James Franco e Anne Hataway, que deram à festa um ar bem comportado. Os melhores momentos foram logo no começo, graças a presença de Kirk Douglas, que anunciou Melissa Leo (O vencedor) a melhor atriz coadjuvante. “Me tiraram da caverna”, disse o bem humorado ator de 94 anos, lançando elogios a todas as beldades a seu redor. Logo depois, o cantor Justin Timberlake, que em A rede social interpreta o fundador do Napster, Sean Parker, brinca com a ausência do diretor do documentário indicado Exit through a gift shop, proibido de entrar disfarçado na festa para proteger sua identidade: “Eu sou Banksy”.

Ao anunciar o grande vencedor, Steven Spielberg lembrou que grandes filmes ficaram sem o Oscar, como Cidadão Kane e Touro indomável. O tempo ainda dará conta de dizer se A rede social e seu diretor, David Fincher, será um deles.

Aos 50 anos, o inglês Colin Firth foi coroado com justiça por Hollywood. Desde 2009, sua notável performance em Direito de amar (A single man) o gabaritou à estatueta, então concedida a Jeff Bridges por ter vivido o embriagado compositor country em Coração louco. Um ano depois, chegou a vez de Firth, que fez questão de agradecer ao estilista Tom Ford, diretor de Direito de amar, pela conquista.

Antes de proferir seu discurso, Firth cumprimentou Geofrey Rush, que no filme de Tom Hooper interpreta o terapeuta que dá confiança ao Rei George VI. Ao microfone, o ator foi polido e confessou estar com frio na barriga. “Acho que pode ser problemático se isso chegar às minhas pernas”.

Bridges pode ter perdido o Oscar para Firth, mas teve seu momento na noite de ontem ao entregar o Oscar para Natalie Portman, a bailarina atormentada de Cisne negro. O xerife decadente de Bravura Indômita teceu observações sobre a performance de cada uma das candidatas. Grávida de Benjamin Millepied, coreógrafo e ator do filme, Natalie agradeceu a vários nomes, chamou Daren Aronofsky de “visionário” e a Millepied por propiciar a ela a maternidade. “É o papel mais importante de minha vida”.

A academia também consagrou Trent Reznor (melhor trilha sonora orginal), que de fato fez um belo trabalho em A rede social. Desde 1997, o fundador do Nine Inch Nails já feito história ao produzir a estranha música de A estrada perdida, de David Lynch.

OS VENCEDORES

Melhor filme
O discurso do rei

Melhor diretor
Tom Hooper – O discurso do rei

Melhor ator
Colin Firth – O discurso do rei

Melhor atriz
Natalie Portman – Cisne negro

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale – O vencedor

Melhor atriz coadjuvante
Melissa Leo (O vencedor)

Melhor roteiro original
David Seidler (O discurso do rei)

Melhor roteiro adaptado
Aaron Sorkin (A rede social)

Melhor longa-metragem de animação
Toy Story 3

Melhor direção de arte
Alice no País das Maravilhas

Melhor fotografia
Wally Pfister (A origem)

Melhor figurino
Alice no País das Maravilhas

Melhor montagem
A rede social

Melhores efeitos visuais
A Origem

Melhor maquiagem
O Lobisomem

Melhor documentário (longa-metragem)
Trabalho interno

Melhor documentário (curta-metragem)
Strangers no more

Melhor filme de língua estrangeira
Em um mundo melhor (Dinamarca)

Melhor trilha sonora original
Trent Reznor e Atticus Ross (A rede social)

Melhor canção original
We belong together, de Toy Story 3

Melhor curta-metragem
God of love

Melhor curta-metragem de animação
The lost thing

Melhor edição de som
A origem

Melhor mixagem de som
A origem

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A grande noite do cinema



Hoje se realiza mais uma cerimônia do Oscar, a 63ª desde que Hollywood a instituiu como estratégia oficial para promover o próprio umbigo. Como se sabe, nem sempre as estatuetas vão para as melhores produções e profissionais, mas para aqueles que, de acordo com a política interna e o momento econômico, convém receber a condecoração. Ano passado, a escolha de Guerra ao terror em detrimento de Avatar foi um claro recado a favor de produções ´pequenas` (US$ 15 milhões contra o meio bilhão de Avatar) e com os pés fincados na atualidade.

Confira o hotsite do Oscar 2011

Dentro deste padrão, A rede social se torna o favorito deste ano. Apesar dos méritos de O discurso do Rei - e da força de seus produtores, Harvey e Bob Weinstein - e do maior número de indicações (são doze contra oito), há tempos que David Fincher está cotado para a estatueta. Em 2008, O curioso caso de Benjamin Button quase chegou lá, mas perdeu para Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen.

A boa recepção de público e crítica de A rede social se reflete nos mais de 50 prêmios acumulados desde o começo do ano, entre eles o de roteiro adaptado, fotografia e trilha sonora original de Trent Reznor (Nine Inch Nails). Cisne negro, O vencedor, 127 horas e Bravura indômita têm suas chances - em comum, há o fato de serem histórias de superação - mas não será surpresa se o grande vencedor for o filme de Fincher. Muito menos será decisão injusta, pois é um filme e tanto.

Do outro lado lado do ringue, com a licença de usar vocabulário de O vencedor, está O discurso do Rei, premiado pelo sindicato dos produtores de Hollywood (considerado prévia do Oscar) e grande vencedor do Bafta (o Oscar inglês) e de outros 20 títulos. Entre os filmes falados em língua estrangeira, o favorito é Biutiful, de Alejandro González Iñárritu (de Babel, indicado a sete Oscar em 2007). Ano passado, a produção mexicana sobre morte, espiritualidade e imigração ilegal emocionou no Festival de Cannes.

Toy Story 3, que também concorre como melhor filme, deve ser eleito o melhor longa de animação. Importante a presença de O mágico, de Sylvain Chomet, legítimo representante da técnica artesanal que deu vida ao último roteiro de Jacques Tati. Ele, assim como outros indicados ao Oscar, estão em cartaz nos cinemas do Recife (consulte roteiro).

Sediada no Kodak Theatre, em Hollywood, a 63ª cerimônia do Oscar será apresentada por Anne Hathaway e James Franco. No Brasil, a cerimônia será transmitida a partir das 22h no canal pago TNT (com som original) e, após o Big Brother 11, também pela TV Globo, com comentários de José Wilker.

(Diario de Pernambuco, 27/02/2010)

Um Oscar para Tião

Os brasileiros torcem a favor, mas se Lixo extraordinário ganhar o Oscar, a estatueta vai para a Inglaterra. A polêmica foi levantada assim que o longa, uma coprodução entre a O2 Filmes, de Fernando Meirelles e a britânica Almega Projects, de Angus Aynsley, foi indicado pela Academia. O fato é que, mesmo tendo sido rodado no Rio de Janeiro, com equipe 99% brasileira e parte do dinheiro obtido em editais nacionais, o filme é considerado um projeto inglês.

"A ideia original é de Aynsley. Ele queria fazer um filme sobre o Vik Muniz, convidou Lucy Walker e a O2". disse a pernambucana Karen Harley, por telefone, antes de embarcar para Los Angeles. Karen participará da cerimônia ao lado de Aynsley, João Jardim, Lucy, Vik e Tião, ou melhor, Sebastião dos Santos, líder dos catadores de lixo do aterro do Gramacho, principal locação utilizada pelo filme.

Questionada sobre quem deveria ficar com a estatueta no caso de Lixo extraordinário ganhar o Oscar, Karen foi categórica: "adoraria se o Oscar fosse para o Tião".

Leia aqui matéria sobre Lixo extraordinário.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma pernambucana no Oscar



Não é megalomania: Karen Harley é a primeira diretora pernambucana a ter um filme indicado ao Oscar. Ao lado da inglesa Lucy Walker e do carioca João Jardim (Pro dia nascer feliz), ela assina Lixo extraordinário, documentário sobre as intervenções do artista plástico Vik Muniz no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Para quem não assistiu ao filme, ele fez um trabalho parecido na abertura da novela Passione. A direção compartilhada não diminui a importância da Karen no processo de criação do longa. Lucy deixou o projeto após dez dias de filmagem para se dedicar a Countdown, seu projeto pessoal. Após certo ponto, João também teve que sair, o que levou Karen a assumir o leme da produção.

"Isso gerou muitos caminhos e muito material", diz Karen, por telefone, do Rio de Janeiro. "Lucy esteve bem no começo das filmagens, depois mandamos o corte final para a Inglaterra, onde ela retrabalhou os primeiros 30 minutos".

Lixo extraordinário é uma co-produção entre a O2 Filmes (de Fernando Meirelles) e Almega Projects, do inglês Miel de Botton Aynsley, de quem partiu a ideia do filme. Por questões contratuais, Lucy assina a direção e Karen e Jardim a codireção. "Mas o filme é dos três. Na verdade, Lucy foi quem menos trabalhou no projeto", revela a diretora.

Mais conhecida como montadora para cinema e TV, este é o primeiro longa dirigido por Karen. Filha de estrangeiros (pai norte-americano e mãe alemã), ela nasceu no Recife, terra pela qual o pai se apaixonou, mas vive no Sudeste desde 1985. "Saí pra ver o Rock in Rio e nunca mais voltei", conta.

Quando começou a trabalhar com edição não havia o método não-linear, apenas o método do corte seco. "Fui aprendendo na prática, com grandes montadores, como João Paulo de Carvalho e Mair Tavares, que foram meus mestres". Com Mair, Karen montou seu primeiro filme em película, Veja essa canção, do Cacá Diegues. Depois vieram O quatrilho, de Fábio Barreto (derrotado no Oscar para A excêntrica família de Antonia).

A relação com a terra natal foi retomada profissionalmente quando Karen assumiu a montagem dos longas de Claudio Assis e Marcelo Gomes. Seu último trabalho foi em A febre do rato, de Assis, e semana passada ela começou novo processo em Era uma vez Verônica, de Gomes. Outro trabalho recente foi com o finlandês Mika Kaurismäki, o documentário para a TV Mama Africa, sobre a cantora Miriam Makeba.

Expectativa - Lixo extraordinário foi indicado ao Oscar após vencer o prêmio do público em Sundance, Berlim e Paulínia (SP). Karen acredita que isto, somado à importância artística e social do filme, convenceram aos membros da Academia a incluir Waste Land (nome internacional do filme, em referência a poema de T.S. Eliot) entre os favoritos. Falado em inglês e português, com trilha sonora de Moby, o filme centra na interação de Vik Muniz, que vive nos Estados Unidos, com os catadores de lixo de Jardim Gramacho.

"A gente quer muito que Tião (Santos), o presidente da associação dos catadores, esteja na cerimônia do dia 27. Caso o filme vença, é ele quem merece receber a estatueta. Mais ainda porque o Jardim Gramacho vai fechar em 2012 e tem uma questão social pra ser resolvida aí", diz Karen. Com admiração, ela diz que Tião cita Nietschze e também O príncipe, de Maquiavel, no filme, comparando os textos à situação do Rio de Janeiro. "A alma do filme está nos catadores, que são pessoas bonitas, dignas, carismáticas, inteligentes e bem humoradas".

Karen não assistiu aos filmes que concorrem com Lixo extraordinário, mas ouviu falar bem de Exit trough a gift shop, do grafiteiro britânico Banksy. Com uma abordagem bem diferente, ele questiona os mecanismos que regem a arte contemporânea. Não deixa de ser a lógica pela qual Hollywood tem se reinventado ao longo dos anos.

(Diario de Pernambuco, 28/01/2011)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Sai lista dos indicados ao Oscar



A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou ontem a lista dos indicados à 83ª edição do Oscar, principal prêmio do cinema mundial. O discurso do rei concorre em doze categorias, mas nem por isso pode ser considerado o favorito. Basta lembrar que na cerimônia do ano passado Avatar ficou de fora das principais categorias e que este ano a disputa está pesada, com novos filmes dos irmãos Coen (Bravura indômita, dez indicações) e Danny Boyle (127 horas, seis indicações), oscarizados por Onde os fracos não têm vez e Quem quer ser um milinário?.

Há o fator A rede social (oito indicações), forte concorrente que tem o tempo a seu favor (mais contemporâneo impossível). Bem que merecem a estatueta a direção segura de David Fincher, a montagem que traduz o estado de espírito da geração 2.0 e a trilha de Trent Reznor (Nine Inch Nails).

Quem será o melhor ator? Eisenberg, que traduz o poderoso dono do Facebook em um pós-adolescente inseguro e vingativo? Ou Colin Firth, na pele do mitológico Rei George? James Franco, que amarga o drama real de Aron Ralston, montanhista que sobrevive em local inóspito? Ou Jeff Bridges, que refaz papel reservado a John Wayne em Bravura indômita? Se Bridges acaba de ser agraciado por Coração louco (2009), basta considerar que Biutiful, de Alejandro Iñárritu, que concorre entre os filmes em língua estrangeira, traz o astro espanhol Javier Bardem, melhor coadjuvante em 2008 por Onde os fracos não têm vez.

Assim como foi com Up - altas aventuras ano passado, Toy Story 3 concorre como melhor filme e melhor animação. Na mesma categoria, O mágico, de Sylvain Chomet, sob roteiro de Jacques Tati, trata do mesmo tema, a dificuldade de envelhecer com dignidade em tempos de ditadura do novo. Mas O mágico é 100% analógico/artesanal, enquanto Toy Story é 100% digital/industrial. Fácil crer na vitória deste último, mas importante ver a outra pequena e melancólica obra de arte reconhecida por Hollywood.

Boa surpresa para os brasileiros, que se achavam fora do páreo após Lula - o filho do Brasil ter sido recusado pela academia, será representado por Lixo extraordinário. Notícia especial para os pernambucanos, pois uma das diretoras (Karen Harley), nasceu e cresceu no Recife antes de mudar para o Rio, em 1990, onde fez carreira como montadora.

Lixo extraordinário, ou melhor, Waste land, trata das intervenções do artista plástico Vik Muniz em aterro sanitário carioca e disputa o Oscar com dois fortes candidatos: Inside job, onde Matt Damon narra o que há por trás da crise mundial de 2008, e Exit trough the gift shop, subversiva visão do britânico Banksy sobre o mercado da arte contemporânea. Com apresentação dos atores James Franco e Anne Hathaway, a entrega do Oscar será no dia 27 de fevereiro no Teatro Kodak, em Los Angeles.

Veja lista aqui a completa dos indicados.

(Diario de Pernambuco, 26/01/2011)