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quinta-feira, 3 de março de 2011

Hollywood coroa O Discurso do Rei

Premiado em quatro categorias principais, O discurso do Rei é o grande vencedor do 83º Academy Awards, consagração máxima concedida por Hollywood às produções e profissionais que se destacaram no último ano. A cerimônia de entrega do Oscar foi transmitida ontem à noite, ao vivo do Kodak Theatre, em Los Angeles. Desde o início, o clima foi de nostalgia. Grandes produções do cinema norte-americano foram evocados: E o vento levou, Casablanca (cuja trilha, As time goes by, foi lembrada em vídeo por Barak Obama) e Titanic. Durante pouco mais de três horas (a cerimônia terminou à 1h40) outros clássicos musicais ressurgiram, entre eles Somewhere over the rainbown, tema de O Mágico de Oz e Ain’t misbehavin’, um dos mais tradicionais standards do jazz, utilizado para lembrar a primeira edição do Oscar, em 1929.

Nada mais coerente que O Discurso do Rei, filme mais convencional impossível, tenha vencido nas principais categorias. Por outro lado, há o impulso para a inovação tecnológica, traduzido em quatro prêmios técnicos para o vazio perfeito de A origem, de Christopher Nolan.

Durante as três horas de duração, o que se viu foi um evento solene demais, quase sempre morno e previsível, mérito dos apresentadores James Franco e Anne Hataway, que deram à festa um ar bem comportado. Os melhores momentos foram logo no começo, graças a presença de Kirk Douglas, que anunciou Melissa Leo (O vencedor) a melhor atriz coadjuvante. “Me tiraram da caverna”, disse o bem humorado ator de 94 anos, lançando elogios a todas as beldades a seu redor. Logo depois, o cantor Justin Timberlake, que em A rede social interpreta o fundador do Napster, Sean Parker, brinca com a ausência do diretor do documentário indicado Exit through a gift shop, proibido de entrar disfarçado na festa para proteger sua identidade: “Eu sou Banksy”.

Ao anunciar o grande vencedor, Steven Spielberg lembrou que grandes filmes ficaram sem o Oscar, como Cidadão Kane e Touro indomável. O tempo ainda dará conta de dizer se A rede social e seu diretor, David Fincher, será um deles.

Aos 50 anos, o inglês Colin Firth foi coroado com justiça por Hollywood. Desde 2009, sua notável performance em Direito de amar (A single man) o gabaritou à estatueta, então concedida a Jeff Bridges por ter vivido o embriagado compositor country em Coração louco. Um ano depois, chegou a vez de Firth, que fez questão de agradecer ao estilista Tom Ford, diretor de Direito de amar, pela conquista.

Antes de proferir seu discurso, Firth cumprimentou Geofrey Rush, que no filme de Tom Hooper interpreta o terapeuta que dá confiança ao Rei George VI. Ao microfone, o ator foi polido e confessou estar com frio na barriga. “Acho que pode ser problemático se isso chegar às minhas pernas”.

Bridges pode ter perdido o Oscar para Firth, mas teve seu momento na noite de ontem ao entregar o Oscar para Natalie Portman, a bailarina atormentada de Cisne negro. O xerife decadente de Bravura Indômita teceu observações sobre a performance de cada uma das candidatas. Grávida de Benjamin Millepied, coreógrafo e ator do filme, Natalie agradeceu a vários nomes, chamou Daren Aronofsky de “visionário” e a Millepied por propiciar a ela a maternidade. “É o papel mais importante de minha vida”.

A academia também consagrou Trent Reznor (melhor trilha sonora orginal), que de fato fez um belo trabalho em A rede social. Desde 1997, o fundador do Nine Inch Nails já feito história ao produzir a estranha música de A estrada perdida, de David Lynch.

OS VENCEDORES

Melhor filme
O discurso do rei

Melhor diretor
Tom Hooper – O discurso do rei

Melhor ator
Colin Firth – O discurso do rei

Melhor atriz
Natalie Portman – Cisne negro

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale – O vencedor

Melhor atriz coadjuvante
Melissa Leo (O vencedor)

Melhor roteiro original
David Seidler (O discurso do rei)

Melhor roteiro adaptado
Aaron Sorkin (A rede social)

Melhor longa-metragem de animação
Toy Story 3

Melhor direção de arte
Alice no País das Maravilhas

Melhor fotografia
Wally Pfister (A origem)

Melhor figurino
Alice no País das Maravilhas

Melhor montagem
A rede social

Melhores efeitos visuais
A Origem

Melhor maquiagem
O Lobisomem

Melhor documentário (longa-metragem)
Trabalho interno

Melhor documentário (curta-metragem)
Strangers no more

Melhor filme de língua estrangeira
Em um mundo melhor (Dinamarca)

Melhor trilha sonora original
Trent Reznor e Atticus Ross (A rede social)

Melhor canção original
We belong together, de Toy Story 3

Melhor curta-metragem
God of love

Melhor curta-metragem de animação
The lost thing

Melhor edição de som
A origem

Melhor mixagem de som
A origem

sábado, 3 de abril de 2010

Cinema entre o luto e a moda



Uma história de amor forjada com imagens impecáveis marca a estreia do estilista Tom Ford no cinema. Pois antes de tudo, Direito de amar (A single man, EUA, 2009) seduz pela plástica, capaz de reconstruir os anos 1960 em termos de moda e design.

Em cores que oscilam entre o "lavado" (quase preto-e-branco) e a saturação over, que torna a pele um pigmento cor-de-rosa. Nada é gratuito ou fora de propósito, já que assim o filme assume a subjetividade do personagem principal, George (Colin Firth), professor de literatura acima da média que, segundo a melhor amiga, Charley (Juliane Moore) poderia lecionar em Berkerley, mas prefere a vida discreta em Los Angeles, onde há 15 anos vive com o namorado Jim (Matthew Goode).

Destino cruel, Jim morre subitamente, em acidente de carro. Por telefone, George é informado da tragédia e pior, de que seria melhor não comparecer ao enterro, a pedido da família. Se emocionalmente a condição de George está no limite do colapso, externamente ele mantém a aparência organizada, correta e afável com alunos e colegas de trabalho. Reserva a dura sinceridade para Charley, frívola bonequinha de meia-idade, com quem na juventude viveu um affair.

Ao mesmo tempo em que elabora luto em suspense de mórbida precisão (há uma sequência na frente de painel de Psicose, bela homenagem a Hitchcock), George procura em vão o amor perdido. Parte de seu olhar transtornado se reserva à beleza das mulheres ao redor. Outra não resiste a garotos com cheiro de fralda, que parecem ter saído de um ensaio erótico. Eles se oferecem mais de uma vez, todos recusados. Distante da promiscuidade sexual, George representa a parcela de gays intelectuais românticos, que preferem o casamento à vida profana.

Indicado ao Oscar, Colin Firth é a alma de um filme visualmente artificial. E o contraste entre ele e a família "normal" da casa ao lado é um dos bons caminhos abertos por Ford. De outra forma, Direito de amar estaria mais para luxuoso catálogo de moda do que para cinema.

(Diario de Pernambuco, 03/04/2010)