Até ontem, os seminários foram a principal atração do 44º Festival de Brasília. Como a programação trouxe filmes já vistos em outros festivais, prevaleceu a discussão e troca de ideias sobre passado, presente e futuro do cinema nacional. Anteontem, o produtor Luiz Carlos Barreto, que desde os anos 1960 atua no ramo e ocupa lugar privilegiado na política para o setor, disse que, quando se fala em cultura no Brasil, ainda se pensa em termos de gorjeta. “O governo dá um milhãozinho aqui, outro ali, mas arte e entretenimento precisam ser vistas como uma questão estratégica, que move a economia mundial”. E aproveitou o microfone aberto para criticar diretores de carreira internacional. “Fernando Meirelles e Walter Salles só pensam nas carreiras, nunca colocam o prestigio a serviço do cinema brasileiro”.
Barretão falou na mesma mesa em que estaria o ex-ministro da Casa Civil, Zé Dirceu, que faltou ao encontro porque não chegou a tempo em Brasília. À noite, Dirceu lançou seu livro de memórias, Tempo de planície. Ontem, compareceu ao seminário ladeado pelo novo coordenador do festival, Nilson Rodrigues. Foi uma aparição relâmpago, inversamente proporcional às acusações de partidarismo (o atual governo do Distrito Federal, que produz o evento, é do PT), quando seu nome foi anunciado, na semana passada. “Comecei minha vida política como cineclubista”, disse. Depois, ressaltou a importância cultural do maio de 68. Sobre a política atual, Dirceu elogiou a presidenta Dilma e disse que as mudanças precisam chegar mais rápido à cultura. “O PAC precisa chegar ao cinema”.
(Diario de Pernambuco, 30/09/2011)
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Entrevista // Luiz Carlos Barreto: "O cinema nacional precisa de autonomia"

Crédito da foto: Daniela Nader
Este não é um filme político. Este não é um filme político. Este não é um filme político. Ao longo do ano, a equipe de Lula - o filho do Brasil, repetiu esta frase como um mantra, enquanto a mídia nacional esquadrinhou cada milímetro da produção em busca de evidências. Agora que ele entra em cartaz, o assunto parece ter se esgotado e quem sabe o filme passe a ser avaliado por critérios intrínsecos, como atributos estéticos e poder de se comunicar com o público.
Em entrevista ao Diario, Luiz Carlos Barreto, 81 anos, produtor e idealizador do projeto, diz que o maior inimigo de Lula é não é a oposição política, mas Avatar, o blockbuster de James Cameron que domina o circuitão e impediu o plano original do filme de seu filho Fábio, entrar em cartaz em 500 salas - agora são "apenas" 354 cópias (para se ter uma ideia, o maior lançamento nacional de 2009, Se eu fosse você 2, entrou com 197 cópias). Leia mais a seguir.
Lula - o filho do Brasil entra em cartaz hoje em 354 salas. Qual é a expectativa?
É muito grande, sobretudo no Nordeste. O filme deve chegar a 3 milhões de espectadores, ou mais.
O plano original era de entrar em 500 ou 600 salas. Qual foi o impedimento?
Este é apenas o ponto de partida. Dependendo da performance vamos ampliar. Somos cautelosos pois estamos numa temporada de muitos filmes. Somente Avatar ocupa quase 600 salas. Enquanto não existir um parque de exibição maior, precisamos regulamentar a ocupação, que está sendo feita de forma irracional.
Em Pernambuco, terra natal do presidente, o filme entra em onze salas. Serão suficientes?
Em Pernambuco, a gente queria quatro salas no Shopping Recife, quatro no Guararapes e as duas de Garanhuns. Em Caruaru, uma das maiores cidades do interior nordestino, não tem cinema. Disse para os administradores de lá que poderíamos interferir para reabrir os cinemas que fecharam, mas eles não demonstrassem interesse.
Haverá estratégias de exibição alternativa?
Estou planejando um sistema de exibição volante para daqui a umas dez semanas. Estou vendo com Alfredo Bertini o que pode ser feito em Pernambuco, em cidades como Limoeiro e Pesqueira, que não têm cinema. A Índia tem milhares de cinemas desse tipo, itinerante.
Como está a recuperação de Fábio?
As notícias são boas. O perigo já passou e lá pelo fim de janeiro espera-se que ele tenha alta. Se haverá sequelas, é algo imprevisível. O Brasil é quase campeão deste tipo de acidente e pessoas em situação parecida se recuperaram. Essa tragédia está acontecendo num momento tão especial para ele. Vamos guardar as informações e repassar para ele assim que for possível.
Você estava com Lula na exibição em São Bernardo. O que ele achou do filme?
Primeiro ele ficou impactado, depois feliz. Ele não conseguia falar, foi muita emoção. É muito difícil assistir a própria vida na tela, é uma sessão de psicanálise pesada. Ele demonstrou surpresa e disse que não esperava que sua vida fosse dar um filme tão bom. Foi modéstia.
O projeto vai gerar outros produtos além do longa?
Pensamos numa minissérie para daqui a dois ou três anos.
O presidente Obama pediu uma sessão na Casa Branca?
Soube que havia uma intenção dele em ver o filme, mas não há nada oficial. Antes de vir ao Brasil, Jimmy Carter pediu para assistir Dona Flor e seus dois maridos (de Bruno Barreto) para conhecer melhor o país. Talvez Obama use a mesma estratégia.
No último Festival de Brasília você anunciou que iria se aposentar da carreira de produtor. E daqui pra frente, como será?
Vou me dedicar a política cultural, para que o cinema possa evoluir para a autossustentação, para geração de empregos. Para isso, só tendo um mercado forte. Não dá para ter um cinema subjugado pelo tacão do Estado. O cinema nacional precisa de autonomia artística e econômica.
(Diario de Pernambuco, 01/01/2010)
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
A saga dos Silva do Brasil

Da pacata Caetés, seguindo o fluxo migratórioi para o Sudeste, saiu uma mãe acompanhada de sete filhos, um deles se tornaria mais tarde o presidente do país
André Dib // Enviado Especial
Garanhuns - O ano é 1952. Na estrada de chão batido, o motorista do pau-de-arara aguarda os passageiros se acomodarem na boléia de madeira. A lotação se faz rapidamente, com homens em busca de trabalho, uma mulher grávida e o marido, e uma mãe acompanhada de sete filhos, um deles ainda no colo. Lobo, o cão, quer se juntar ao grupo, mas acaba deixado para trás, se misturando com a poeira. A bela cena contrasta com a dureza da viagem, uma das tantas daquela época marcada pelo fluxo migratório para o Sudeste. O que ninguém poderia imaginar é que naquele grupo que enfrentou 13 dias de estrada e amargou a morte de uma menina estaria o futuro Presidente da República.
Esse é o mote de Lula - filho do Brasil, longa-metragem de Fábio Barreto que começou a ser rodado na última terça-feira, nos arredores do município de Caetés, no Agreste pernambucano, onde a equipe permanece até a tarde de hoje. Anteontem, a reportagem do Diario visitou o set da produção, montado na zona rural de Capoeiras. Frei Chico, irmão mais velho do presidente, que acompanhou as filmagens sentado ao lado do diretor, e estava visivelmente tocado pela dramatização daquele difícil momento vivido na própria pele. "Foi muito forte", disse, enquanto observava o caminhão partir. Terminada a gravação, ele fez questão de ajudar os figurantes a descer precária estrutura.
A atriz global Gloria Pires, que aqui incorpora Dona Lindú, se disse totalmente envolvida com a personagem. "Reconheço a responsabilidade que é interpretar a mãe de um presidente, mas a história de Dona Lindú simboliza as milhares de mães heroínas, que criam seus filhos mesmo com todas as dificuldades. Ao mesmo tempo, ela oferece uma ideia de vida, um exemplo de estrutura familiar muito raro, que não tem a ver com dinheiro, mas com caráter", comentou a atriz, que no dia anterior contracenava com Milhem Cortaz, que interpreta Aristides, o pai do pequeno Luiz Inácio.
Mais conhecido como o Capitão Fábio, o "número 2" do filme Tropa de Elite, Cortaz disse que impôs a si o desafio de mostrar um outro lado do pai que abandona a família em prol de outra mulher. "Estou criando o meu próprio Aristides. Tenho distanciamento para perceber que ele foi aquela pessoa dura, que abandonou a mulher e filhos, mas que também era pacato, e sentia amor pela família. Se eu for capaz de mostrar uma parte desconhecida deste pai, a ponto de criar dúvidas na própria família Silva, terei meu papel cumprido", disse o ator, que ressalta o caráter decisivo do pai para definir alguns traços de caráter de Lula, assim como seu futuro não no Agreste pernambucano, mas nas indústrias do ABC paulista.
Para entrar em contato com essas origens, o ator Rui Ricardo Dias, que será Lula na idade adulta, esteve presente nas locações. Com barba cheia e oito quilos a mais, ele disse que para compor seu personagem, ele buscou referência em filmes que retratam Lula em diferentes momentos, como ABC da greve, de Leon Hirzman, Peões, de Eduardo Coutinho e Entreatos, de João Moreira Salles.
"Não estamos preocupados em reproduzir como Lula fala ou anda, mas em como ele se sentia, quais são suas dores e alegrias. Quero me dedicar às questões emocionais, subjetivas, que acaba por revelar as atitudes objetivas. São das questões internas que nasce a verdade entre ator e personagem", revela o preparador de elenco Sérgio Penna, que com isso dá pistas de qual será a essência do longa-metragem.
Família unida nos bastidores
Matéria de capa // Clã Barreto participa de várias funções na produção de Lula o Filho do Brasil, filme orçado em R$ 12 milhões e que não terá recursos públicos
"Tem um cara de branco atrapalhando o quadro!", bradou o contra-regra. Os olhares se voltaram para o intruso, ninguém menos do que Luiz Carlos Barreto. A brincadeira com o produtor, que circulava no set como se estivesse em casa, descontraiu a equipe por alguns segundos. É possível compreender sua postura, ao mesmo tempo profissional e afetiva, pelo fato de que Lula – o filho do Brasil é basicamente um projeto tocado em família: os filhos Paula e Fábio assinam, respectivamente, produção e direção; e Lucy, a esposa, divide a produção geral com o próprio "Barretão", como é mais conhecido o patriarca.
Há também o fotógrafo Gustavo Hadba, que não tem ligações sanguineas com os Barreto, mas trabalhou em vários filmes produzidos pelo clã. Sua experiência como cinegrafista de Miguel Arraes, com quem viajou todo o estado nos anos 1980, dá segurança para a aposta na dura luz do meio-dia, com sombras e sem truques de embelezamento. "Busco a luz como ela é aqui, cruel, não-cosmética", revela.
Atenta a cada movimento estava Denise Paraná, co-roteirista e autora do livro que originou o filme. "Esta é a realização de um sonho de 18 anos. Quando comecei a pesquisa, as histórias que Lula me contava nas entrevistas com uma plasticidade tão grande que parecia um filme", contou a jornalista. Ela disse que o objetivo é reproduzir a realidade, mas com algumas licenças poéticas. "Nós queremos mostrar a formação do personagem, para que as pessoas entendam suas motivações". Durante a conversa com o Diario, ela revelou que sua próxima biografia será de Luiz Carlos Barreto, projeto em que já está trabalhando.
As filmagens em São Paulo começam neste domingo, e seguem até o fim de março, com locações na Igreja Matriz de São Bernardo no antigo Estádio da Vila Euclides, local do antológico discurso para milhares de operários. O objetivo é que o longa fique pronto em setembro, a tempo de ser exibido em pelo menos cinco países, a convite dos festivais de Toronto, San Sebastian, Roma, Latino LA (EUA) e Internacional Lima, no Peru.
Segundo a assessoria de imprensa da LC Barreto, ainda não foram divulgados os patrocinadores do filme, orçado em R$ 12 milhões, porque a captação ainda não está completa. O único consenso é que não haverá dinheiro público para que não acusem o filme de chapa branca. No entanto, inevitáveis comentários surgiram pelo o fato do lançamento no circuito comercial estar marcado para janeiro de 2010, ano de eleição presidencial.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
A vida íntima do presidente
Trajetória da família Silva será filmada sob o ponto de vista de Dona Lindu, a matriarca que migrou com os filhos de Capoeira, no interior de Pernambuco, para São Paulo

André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com
"Se for para me puxar o saco, eu não quero não. Mas se for pra me ajudar a me entender, faça", teria dito o presidente Lula a Denise Paraná, autora do livro Lula - O filho do Brasil. A orientação, acatada à risca pela jornalista, parece ter sido igualmente adotada pela equipe que daqui a duas semanas começa a rodar, nos arredores de Garanhuns, a versão cinematográfica da história de uma das maiores lideranças populares do país.
O conselho do presidente foi resgatado por Luiz Carlos Barreto, o homem forte por trás da LC Produções, empresa dona do projeto. Em conversa exclusiva com o Diario, ele antecipou detalhes da produção, a ser dirigida por seu filho, Fábio Barreto (O quatrilho). De acordo com Barretão (como é conhecido no meio), em momento algum da película serão usadas imagens reais de Lula. Muito menos haverá conotação político-partidária.
O roteiro, escrito por Paraná em parceria com Daniel Tendler e o próprio diretor, se restringe a contar a trajetória da família Silva, sempre sob o ponto de vista da matriaca Dona Lindu (a ser vivida por Glória Pires), da vida simples em Capoeiras (zona rural de Caetés), à sua morte, em 1980. "Você conhece o homem, mas não a sua história", diz o slogan do filme, orçado em R$ 12,7 milhões, e que deve ser lançado simultaneamente em todas as capitais da América Latina, ainda este ano.
Até ontem, Barreto e sua esposa Lucy estiveram no Recife para articular, com a ajuda do produtor Alfredo Bertini, parcerias com o governo do estado e Prefeitura de Garanhuns. "Apoios não financeiros", ressalta o produtor, que não usou dos sistemas de lei de incentivo para evitar qualquer suspeita de que o filme seria "chapa-branca".
Em Pernambuco, serão dez dias de filmagens em Capoeiras e na Serra do Tará, onde será reconstituída a casa onde nasceu Luiz Inácio. A segunda etapa começa em fevereiro e durará oito semanas, com locações em Santos e na periferia de São Paulo, cenário em que se formou o operário e líder sindical.
O elenco ainda não foi oficialmente anunciado, mas é praticamente certa a escalação dos pernambucanos Tay Lopes e Sóstenes Vidal, que farão, respectivamente, Lula (Lopes engordou dez quilos para viver o personagem) e seu irmão Ziza, mais conhecido como Frei Chico. Juliana Baroni será a primeira-dama, Dona Marisa Lima. Cleo Pires, filha de Glória, fará a primeira esposa de Lula.
Quem assina a produção geral é a irmã de Fábio, Paula Barreto. Já a equipe técnica está muito bem definida, com profissionais recorrentes nas produções da família Barreto. A fotografia será de Gustavo Hadba; a arte, de Clóvis Bueno; a montagem, de Letícia Giffoni.
Barreto disse que cinco atores interpretarão Lula, em diferentes momentos de sua vida. Ele não confirmou a escolha, mas deixou a entender que Tay Lopes teria sido escolhido após um teste com mais de 70 atores, selecionados entre 500 candidatos. "Fábio irá bater o martelo ainda esta semana". Leia mais a seguir.
Entrevista // Luiz Carlos Barreto: "O objetivo não é exaltar nada"
Qual o maior apelo da história de Lula, em termos cinematográficos?
A história de Lula é a mesma de milhares de famílias pobres. Ela representa as famílias Silva do Brasil, sobretudo entre os anos 20 e 60, em que houve o deslocamento de populações pobres em busca de sobrevivência. As estradas eram coalhadas de cruzes, de adultos e crianças que morriam no caminho. Só que essa família soube superar as dificuldades e melhorar de vida. Lula e seus irmãos tinham tudo para cair na marginalidade, e essa é a história que ninguém conhece: a da família Silva, que segue para Santos e emerge, contrariando todas as possibilidades.
Como nasceu o projeto?
Em 2003, a pergunta que mais ouvia nos festivais em torno do mundo era: e o Lula? Antes era Pelé, Garrincha, Ronaldinho, mas de uma hora pra outra, era o Lula, e a gente não sabia responder muita coisa. Um dia, conversando com Gilberto Carvalho, que é secretário dele, coloquei essa situação e ele me entregou uma cópia do livro de Denise Paraná. Quando li, pensei: aqui tem um filme. Inicialmente, ele seria um docudrama, com narração de Fernanda Montenegro. Mas como tínhamos outros projetos em marcha, encostamos o projeto. Quando retomamos, a ideia já era fazer um filme de ficção, baseado em fatos reais.
Assim como Lula, o senhor é um nordestino que migrou para o Sudeste. Existe aí alguma identificação pessoal com a história do presidente?
Sim, pois meu pai também sumiu do mundo, e deixou minha mãe com 11 filhos. Fui para o Rio de Janeiro em 1947, não de caminhão, mas de pau-de-arara aéreo, o avião dos Correios, porque eu era do partido comunista do Ceará, e tive que me afastar de lá por causa da perseguição. Lá, sempre recebi muito convite para me tornar político, mas nunca quis. Dizia que o meu partido era o PCB, partido do cinema brasileiro.
O filme será um tipo de cinebiografia?
Não me interessa uma cinebiografia, pois todo mundo sabe quem é o Lula presidente. O que ninguém sabe é quem foi esse personagem, cuja trajetória guarda coisas verdadeiramente surpreendentes. O objetivo não é exaltar nada, nem de culto à personalidade. Por exemplo, todo mundo pensa que Lula tem uma ideologia política, mas a visão de mundo de Lula é a visão de Dona Lindu, uma mulher analfabeta que tem como princípio de vida uma visão da leitura direta e concreta da vida.

André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com
"Se for para me puxar o saco, eu não quero não. Mas se for pra me ajudar a me entender, faça", teria dito o presidente Lula a Denise Paraná, autora do livro Lula - O filho do Brasil. A orientação, acatada à risca pela jornalista, parece ter sido igualmente adotada pela equipe que daqui a duas semanas começa a rodar, nos arredores de Garanhuns, a versão cinematográfica da história de uma das maiores lideranças populares do país.
O conselho do presidente foi resgatado por Luiz Carlos Barreto, o homem forte por trás da LC Produções, empresa dona do projeto. Em conversa exclusiva com o Diario, ele antecipou detalhes da produção, a ser dirigida por seu filho, Fábio Barreto (O quatrilho). De acordo com Barretão (como é conhecido no meio), em momento algum da película serão usadas imagens reais de Lula. Muito menos haverá conotação político-partidária.
O roteiro, escrito por Paraná em parceria com Daniel Tendler e o próprio diretor, se restringe a contar a trajetória da família Silva, sempre sob o ponto de vista da matriaca Dona Lindu (a ser vivida por Glória Pires), da vida simples em Capoeiras (zona rural de Caetés), à sua morte, em 1980. "Você conhece o homem, mas não a sua história", diz o slogan do filme, orçado em R$ 12,7 milhões, e que deve ser lançado simultaneamente em todas as capitais da América Latina, ainda este ano.
Até ontem, Barreto e sua esposa Lucy estiveram no Recife para articular, com a ajuda do produtor Alfredo Bertini, parcerias com o governo do estado e Prefeitura de Garanhuns. "Apoios não financeiros", ressalta o produtor, que não usou dos sistemas de lei de incentivo para evitar qualquer suspeita de que o filme seria "chapa-branca".
Em Pernambuco, serão dez dias de filmagens em Capoeiras e na Serra do Tará, onde será reconstituída a casa onde nasceu Luiz Inácio. A segunda etapa começa em fevereiro e durará oito semanas, com locações em Santos e na periferia de São Paulo, cenário em que se formou o operário e líder sindical.
O elenco ainda não foi oficialmente anunciado, mas é praticamente certa a escalação dos pernambucanos Tay Lopes e Sóstenes Vidal, que farão, respectivamente, Lula (Lopes engordou dez quilos para viver o personagem) e seu irmão Ziza, mais conhecido como Frei Chico. Juliana Baroni será a primeira-dama, Dona Marisa Lima. Cleo Pires, filha de Glória, fará a primeira esposa de Lula.
Quem assina a produção geral é a irmã de Fábio, Paula Barreto. Já a equipe técnica está muito bem definida, com profissionais recorrentes nas produções da família Barreto. A fotografia será de Gustavo Hadba; a arte, de Clóvis Bueno; a montagem, de Letícia Giffoni.
Barreto disse que cinco atores interpretarão Lula, em diferentes momentos de sua vida. Ele não confirmou a escolha, mas deixou a entender que Tay Lopes teria sido escolhido após um teste com mais de 70 atores, selecionados entre 500 candidatos. "Fábio irá bater o martelo ainda esta semana". Leia mais a seguir.
Entrevista // Luiz Carlos Barreto: "O objetivo não é exaltar nada"
Qual o maior apelo da história de Lula, em termos cinematográficos?
A história de Lula é a mesma de milhares de famílias pobres. Ela representa as famílias Silva do Brasil, sobretudo entre os anos 20 e 60, em que houve o deslocamento de populações pobres em busca de sobrevivência. As estradas eram coalhadas de cruzes, de adultos e crianças que morriam no caminho. Só que essa família soube superar as dificuldades e melhorar de vida. Lula e seus irmãos tinham tudo para cair na marginalidade, e essa é a história que ninguém conhece: a da família Silva, que segue para Santos e emerge, contrariando todas as possibilidades.
Como nasceu o projeto?
Em 2003, a pergunta que mais ouvia nos festivais em torno do mundo era: e o Lula? Antes era Pelé, Garrincha, Ronaldinho, mas de uma hora pra outra, era o Lula, e a gente não sabia responder muita coisa. Um dia, conversando com Gilberto Carvalho, que é secretário dele, coloquei essa situação e ele me entregou uma cópia do livro de Denise Paraná. Quando li, pensei: aqui tem um filme. Inicialmente, ele seria um docudrama, com narração de Fernanda Montenegro. Mas como tínhamos outros projetos em marcha, encostamos o projeto. Quando retomamos, a ideia já era fazer um filme de ficção, baseado em fatos reais.
Assim como Lula, o senhor é um nordestino que migrou para o Sudeste. Existe aí alguma identificação pessoal com a história do presidente?
Sim, pois meu pai também sumiu do mundo, e deixou minha mãe com 11 filhos. Fui para o Rio de Janeiro em 1947, não de caminhão, mas de pau-de-arara aéreo, o avião dos Correios, porque eu era do partido comunista do Ceará, e tive que me afastar de lá por causa da perseguição. Lá, sempre recebi muito convite para me tornar político, mas nunca quis. Dizia que o meu partido era o PCB, partido do cinema brasileiro.
O filme será um tipo de cinebiografia?
Não me interessa uma cinebiografia, pois todo mundo sabe quem é o Lula presidente. O que ninguém sabe é quem foi esse personagem, cuja trajetória guarda coisas verdadeiramente surpreendentes. O objetivo não é exaltar nada, nem de culto à personalidade. Por exemplo, todo mundo pensa que Lula tem uma ideologia política, mas a visão de mundo de Lula é a visão de Dona Lindu, uma mulher analfabeta que tem como princípio de vida uma visão da leitura direta e concreta da vida.
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