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quinta-feira, 4 de março de 2010

Otimismo quase contagiante



Lançado diretamente em DVD, Por uma vida melhor (Away we go, EUA, 2009) é o mais otimista dos filmes de Sam Mendes (Beleza americana, Foi apenas um sonho).

A fauna típica de americanos freak, superficiais e neuróticos está lá, como zumbis de uma civilização movida a McLanche Feliz. Eles estão ao redor, mas não chegam a comprometer a sanidade dos protagonistas, o jovem casal Burt (John Krasinski) e Verona (Maya Rudolph), prestes a ter o primeiro filho. Primeiramente, eles querem que a criança seja criada perto dos avós paternos, desejo que se desmancha assim que os mesmos revelam planos de mudar para a Europa.

A situação os empurra para a estrada, onde viajam à procura de referências e modelos de vida conjugal ao visitar parentes e amigos. Eles cruzam por paisagens belas e grandiosas, como as landscapes de filmes antigos, o que empresta ao filme ares de road movie. Só que diferente de uma rota libertadora, a peregrinação do casal se torna cada vez mais sofrida. O que se segue é um desfile de relacionamentos e tipos estranhos, melancólicos ou fadados ao fracasso. Um deles, um quarentão casado com a irmã de Verona, parece não ter mais nenhuma ilusão de felicidade. "Se os EUA é uma merda, os outros países são moscas girando em volta dela".

Apaixonados que estão, nossos herois não se deixam abater e continuam a procurar o lugar ideal para construir um ninho que parece ser cada vez mais raro e isolado de todo o resto. O roteiro de Dave Eggers (Onde vivem os monstros) investe na estrutura episódica e despida de excessos. Já a trilha sonora com música original de Alexi Murdoch, aliada a clássicos de George Harrison e Velvet Underground fazem da busca de Burt e Verona uma aprazível viagem a favor da vida.

(Diario de Pernambuco, 04/02/2010)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Estilhaços no sonho americano



Adaptação do livro homônimo de Richard Yates, o drama conjugal Foi apenas um sonho (Revolutionary road, 2008) marca a volta do diretor Sam Mendes a um tema já introduzido em Beleza Americana (1999): o questionamento das normas e convenções sociais baseadas no american way of life. É emblemático que o tempo-espaço estabelecido seja o subúrbio de Nova York dos anos 1950, época em que o império se afirmava a partir de estereótipos como o da família feliz, mesmo que às custas de alguns amantes e um emprego medíocre.

Tudo isso se materializa na história dos Wheller (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), jovem casal tido pelos vizinhos como modelo de família feliz. Exceto pelo fato de April, a esposa, não reconhecer mais no marido Frank, que galga carreira de vendedor para sustentar os filhos, a pessoa brilhante com quem se casou anos atrás.

Decidida a reavivar a relação, ela propõe uma fuga definitiva para Paris, o que gera curiosas reações nos vizinhos e colegas de trabalho. A mais interessante vem da figura louca(ou enlouquecida por pais alienados e ultraconservadores) e sincera de John Givings, interpretado por Michael Sannon, não por acaso indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

Não deixa de ser irônico que o longa seja estrelado pela dupla DiCaprio e Winslett, eternizada como o casal apaixonado de Titanic. Onze anos depois, essa imagem é finalmente estilhaçada por Mendes, numa produção que reduz o sonho americano a uma fuga confortável, vazia e sem esperança.