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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ragu reafirma liberdade editorial


Ilustração de Fernando Perez na nova Ragu

Nos últimos anos, a produção de quadrinhos autorais no Brasil vem crescendo a passos largos. Ainda assim, raras publicações dão vazão a este material. Nem sempre obras de inegável qualidade artística encontram espaço no mercado. A resposta pode estar em projetos como a Ragu, que completa dez anos com o lançamento de sua maior e mais bem cuidada edição. A noite de autógrafos será hoje, às 21h, no Bar Central (Rua Mamede Simões - Boa Vista).

A Ragu nasceu como revista em quadrinhos, para apresentar uma nova geração de artistas pernambucanos. Dez anos depois, reconhecida como uma das melhores antologias de artes gráficas do país, ela chega ao formato livro. O porte da edição, se comparado com o início, é impressionante: 240 páginas, capa dura e tiragem de 1.200 exemplares, viabilizados por recursos do Funcultura / Fundarpe.

Ao reunir 33 colaboradores de seis países,a sétima Ragu se afirma como mapa da atual produção autoral latino-americana. Os brasileiros são Allan Sieber, Andrés Sandoval, Daniel Cabballero, Daniel Bueno, D'Salete, Guazzelli, Gabriel Góes, Walter Vasconcelos, Silvino, Jarbas, Greg, Mascaro, João Lin, Fábio Zimbres, Fernando Almeida, Joana Lira, Fernando Lopes, Fernando Peres, Kleber Sales, Chiquinha, Caio Gomez, Rodrigo Rosa e Samuca. Os estrangeiros são Àngel de la Calle, Alberto Vazquez e Brais Rodriguez (Espanha), Joaquin Cuevas, Alejandro Archondo e Al Azar (Bolívia), Frank Arbelo (Cuba), Jorge Perez e Avril Filomeno (Peru) e Ariel López (Argentina).

De acordo com João Lin e Mascaro, os organizadores, a ideia desta nova fase é lançar uma edição por ano. "Temos material suficiente para a próxima", diz João Lin, que reafirma o caminho de independência após tentativas de estabelecer parceria com editoras do Sudeste. "Assumimos esse caminho para preservar a qualidade e liberdade editorial".


Cartum de João Lin

Lin explica que o atual intercâmbio com os "hermanos" está sendo articulado há dois anos, desde o último Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco. "Queremos criar laços com artistas dos países vizinhos, que guardam características próximas às nossas e refletem sobre seu tempo". Talvez o maior exemplo dessa busca esteja na colaboração do gaúcho Eloar Guazzelli (que também assina a arte da capa), criada após sua visita que fez à Bolívia em junho, quando foi um dos convidados do festival Viñetas Con Altura, em La Paz.

A nova Ragu ainda traz o Recife desenhado por Saul Steinberg (1915-1999), ilustrador romeno famoso por suas colaborações para a revista New Yorker. Praticamente inédito, o material foi encontrado pelo designer gráfico Daniel Bueno, durante seu mestrado sobre a contribuição de Steinberg para o desenvolvimento do cartum e artes gráficas modernos. A viagem de Steinberg pelo Brasil dos anos 50 rendeu três cadernos sobre as cidades que visitou.


Esboço de Steinberg sobre o Recife, de 1956

"A imagem do Recife, até onde eu sei, só foi publicada no livro The Passport e recentemente na Revistada Unicamp, em tamanho pequeno", diz Bueno. A publicação foi autorizada pela Steinberg Foundation de Nova York. "Eles não tinham clareza sobre as imagens, não sabiam que praticamente todos os desenhos dos cadernos eram sobre o Brasil".

Nos próximos 30 dias, a Ragu será lançada na Espanha, durante o festival Viñetas desde o Atlântico, coordenado por Miguelanxo Prado, em São Paulo (dia 24), na sede da livraria HQ Mix e em La Paz (03/09), no espaço cultural C +C.

Durante o lançamento, o livro estará à venda por R$ 30. A partir da próxima segunda-feira, ele pode ser comprado por cerca de R$ 40 na Livraria Cultura e em lojas especializadas. Pedidos também podem ser feitos diretamente, pelo e-mail joaolin@terra.com.br ou telefone (81) 3232-3041.

Serviço
Lançamento da Ragú 7
Quando: Hoje, às 21h
Onde: Bar Central (Rua Mamede Simões - Boa Vista)
Quanto: R$ 30, no lançamento

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

"O Beijo no Asfalto" em quadrinhos: entrevista com Arnaldo Branco



"Tá lá o corpo estendido no chão", assim como diz João Bosco, na música "De frente pro crime". Atropelado no cruzamento da Praça da Bandeira, Rio de Janeiro. Arandir, um dos curiosos, se aproxima do moribundo. Este lhe pede um beijo derradeiro. Arandir atende o último desejo do homem.

Escrita por Nelson Rodrigues em 1961, após insistência de Fernanda Montenegro (que queria uma peça para seu grupo teatral), "O Beijo no Asfalto" acaba de ganhar uma ótima versão em quadrinhos. Os artistas Arnaldo Branco e Gabriel Góes assinam a recriação, a convite da editora Nova Fronteira.

Esta narrativa tipicamente Rodrigueana parte do fatídico beijo, percebido por um repórter do jornal "A Última Hora". Na busca de audiência, ele tratou de resenhar o ocorrido em tom de novela: havia um caso entre eles há mais de um ano, as esposas traídas nunca perceberam, a sociedade indignada com tudo – e lendo jornal. E a viúva, o que tem a dizer? Fofocas e olhares maldosos correm soltos, neste retrato trágico dos costumes e vícios sociais.



A adaptação é de primeira. Capta o clima do texto original com equilíbrio texto-imagem; a arte de Gabriel Góes (que já havia adaptado literatura em quadrinhos no volume 2 de “Domínio Público”) instiga de tal forma que os olhos só desgrudam do papel quando o livro chega ao fim.

O Quadro Mágico conversou por email com Arnaldo Branco, que adaptou o texto original de "O Beijo no Asfalto" para a linguagem dos quadrinhos.

Entre outros trabalhos, Arnaldo Branco assina a tira "Joe Pimp" e a seção de humor "O Sexysta" para a revista Sexy; a tira "Mundinho Animal", no portal da Globo, o G1; é colunista da revista Zé Pereira (RJ); e tem três propostas de livro em andamento: um de cartuns do Joe Pimp, outro da tira "Entrevistas em quadrinhos", que saía na revista “F.” e, o segundo episódio de seu maior sucesso, "As Aventuras do Capitão Presença”.

ENTREVISTA ARNALDO BRANCO // Beijo no Asfalto: "Respeitamos até quase a obsessão o texto original"

Como foi o processo de transformação do texto de Rodrigues para os quadrinhos?
Como adaptamos um texto de teatro - que é mesmo uma obra em aberto, esperando uma interpretação, achamos totalmente natural o processo. "O Beijo no Asfalto" já teve adaptações para outros meios que não o teatro - para o cinema, para a TV - e quadrinhos é só uma forma de transcrição para outro meio audiovisual - um meio menos cotado, é verdade, mas nem por isso necessariamente de menor valor artístico. Soube de uma montagem teatral de "O Beijo" com a Fernanda Rodrigues interpretando a Dália - aposto contigo que o bonequinho desenhado pelo Gabriel para o personagem é mais expressivo.

É o teu primeiro trabalho nesse sentido?
Nesse sentido (texto de outro autor, peça de teatro, cânone da literatura brasileira) é o primeiro.

Foi um trabalho de iniciativa própria ou você foi convidado para fazê-lo?
Fui convidado pela Nova Fronteira - não sei como chegaram ao meu nome, mas acertaram em cheio: li tudo o que publicaram em livro do Nelson, peças, romances - assinados ou sob pseudônimos - , crônicas... minha monografia foi sobre ele.

O filme te influenciou de alguma forma?
"O Beijo no Asfalto" teve duas adaptações para o cinema: uma do Tambellini de 66, "O Beijo" e outra de 81, creio, com o Tarcísio Meira e Nei Latorraca. Bem, as duas são um tanto irregulares, mas o Gabriel curtiu fazer o Dália tão mignon que parece uma criança, provavelmente inspirado pela Lídia Brondi no filme de 81. A fotografia do filme de 66 é impressionante, mas não consegui uma cópia para mostrar para o Gabriel.

Qual tem sido a reação dos leitores?
Muito boa. Acho sensacional quando me dizem que adoraram a história - pessoas que não conheciam o texto se sentem como se tivessem assistido a uma montagem (uma boa, espero); todos se sentem conduzidos pela trama até o final surpreendente bolado pelo Nelson. Isso é gratificante, porque respeitamos até quase a obsessão o texto original, só aparando mínimas arestas de diálogo que não levavam a história para frente, que funcionam bem no palco, mas não em HQ. Segui o conselho que dava para os diretores de suas peças: "seja burro!". Inventei o mínimo possível.