
"Tá lá o corpo estendido no chão", assim como diz João Bosco, na música "
De frente pro crime". Atropelado no cruzamento da Praça da Bandeira, Rio de Janeiro. Arandir, um dos curiosos, se aproxima do moribundo. Este lhe pede um beijo derradeiro. Arandir atende o último desejo do homem.
Escrita por Nelson Rodrigues em 1961, após insistência de Fernanda Montenegro (que queria uma peça para seu grupo teatral), "
O Beijo no Asfalto" acaba de ganhar uma ótima versão em quadrinhos. Os artistas
Arnaldo Branco e
Gabriel Góes assinam a recriação, a convite da editora Nova Fronteira.
Esta narrativa tipicamente Rodrigueana parte do fatídico beijo, percebido por um repórter do jornal "A Última Hora". Na busca de audiência, ele tratou de resenhar o ocorrido em tom de novela: havia um caso entre eles há mais de um ano, as esposas traídas nunca perceberam, a sociedade indignada com tudo – e lendo jornal. E a viúva, o que tem a dizer? Fofocas e olhares maldosos correm soltos, neste retrato trágico dos costumes e vícios sociais.

A adaptação é de primeira. Capta o clima do texto original com equilíbrio texto-imagem; a arte de Gabriel Góes (que já havia adaptado literatura em quadrinhos no volume 2 de “
Domínio Público”) instiga de tal forma que os olhos só desgrudam do papel quando o livro chega ao fim.
O
Quadro Mágico conversou por email com Arnaldo Branco, que adaptou o texto original de "
O Beijo no Asfalto" para a linguagem dos quadrinhos.
Entre outros trabalhos, Arnaldo Branco assina a tira "
Joe Pimp" e a seção de humor "
O Sexysta" para a revista
Sexy; a tira "
Mundinho Animal", no portal da Globo, o G1; é colunista da revista
Zé Pereira (RJ); e tem três propostas de livro em andamento: um de cartuns do Joe Pimp, outro da tira "
Entrevistas em quadrinhos", que saía na revista “
F.” e, o segundo episódio de seu maior sucesso, "
As Aventuras do Capitão Presença”.
ENTREVISTA ARNALDO BRANCO // Beijo no Asfalto: "Respeitamos até quase a obsessão o texto original"Como foi o processo de transformação do texto de Rodrigues para os quadrinhos?Como adaptamos um texto de teatro - que é mesmo uma obra em aberto, esperando uma interpretação, achamos totalmente natural o processo. "
O Beijo no Asfalto" já teve adaptações para outros meios que não o teatro - para o cinema, para a TV - e quadrinhos é só uma forma de transcrição para outro meio audiovisual - um meio menos cotado, é verdade, mas nem por isso necessariamente de menor valor artístico. Soube de uma montagem teatral de "
O Beijo" com a Fernanda Rodrigues interpretando a Dália - aposto contigo que o bonequinho desenhado pelo Gabriel para o personagem é mais expressivo.
É o teu primeiro trabalho nesse sentido?Nesse sentido (texto de outro autor, peça de teatro, cânone da literatura brasileira) é o primeiro.
Foi um trabalho de iniciativa própria ou você foi convidado para fazê-lo?Fui convidado pela Nova Fronteira - não sei como chegaram ao meu nome, mas acertaram em cheio: li tudo o que publicaram em livro do Nelson, peças, romances - assinados ou sob pseudônimos - , crônicas... minha monografia foi sobre ele.
O filme te influenciou de alguma forma?"
O Beijo no Asfalto" teve duas adaptações para o cinema: uma do Tambellini de 66, "
O Beijo" e outra de 81, creio, com o Tarcísio Meira e Nei Latorraca. Bem, as duas são um tanto irregulares, mas o Gabriel curtiu fazer o Dália tão mignon que parece uma criança, provavelmente inspirado pela Lídia Brondi no filme de 81. A fotografia do filme de 66 é impressionante, mas não consegui uma cópia para mostrar para o Gabriel.
Qual tem sido a reação dos leitores?Muito boa. Acho sensacional quando me dizem que adoraram a história - pessoas que não conheciam o texto se sentem como se tivessem assistido a uma montagem (uma boa, espero); todos se sentem conduzidos pela trama até o final surpreendente bolado pelo Nelson. Isso é gratificante, porque respeitamos até quase a obsessão o texto original, só aparando mínimas arestas de diálogo que não levavam a história para frente, que funcionam bem no palco, mas não em HQ. Segui o conselho que dava para os diretores de suas peças: "seja burro!". Inventei o mínimo possível.