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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Mimo 2007 traz para Olinda programação gratuita de filmes



É sempre bom quando o cinema volta a Olinda. Afinal, desde 1982, quando o cada vez mais deplorável prédio do Cine Duarte Coelho fechou as portas no bairro do Varadouro, a cidade alta só assiste filmes coletivamente graças a iniciativas como essa.

Trata-se da programação paralela da Mostra Internacional de Música em Olinda - Mimo 2007. São cinco filmes da produção recente, que giram em torno do tema musical.

A mostra começa hoje, e segue até domingo, às 19h, sempre no pátio da Igreja da Sé.

O acesso é gratuito.

Na noite de hoje, será projetado o excelente "Cartola - Música Para os Olhos", documentário dos pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Logo após, haverá concerto de Antonio Meneses e Celina Szrvinsk.

Amanhã, é a vez de "Diário de Naná", um filme de Paschoal Samora. Logo após, no mesmo telão, Naná retorna ao vivo, no grande encontro entre ele e Egberto Gismonti no interior da Igreja.

Sexta-feira, volta à cena "Fabricando Tom Zé", de Décio Matos Jr, até pouco tempo atrás em cartaz no Cinema da Fundação. O filme antecede a apresentação dos Czech Chamber Soloists, da República Tcheca.

No sábado tem "Elifas Andreato, um artista brasileiro", de João Rocha. O documentário reconstrói a trajetória desta artista, com depoimentos de Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Rildo Hora, Sérgio Cabral, Tárik de Souza e Zeca Pagodinho.

Por fim, "Brasileirinho" de Mika Kaurismäki encerra a programação no último dia do evento. O concerto final será de Hamilton de Holanda e Yamandu Costa.

A programação completa está aqui.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Baixio das Bestas, o segundo longa de Cláudio Assis, estréia no Recife



Com fotografia de Walter Carvalho, música original de Pupillo (Nação Zumbi), e atuações de Fernando Teixeira, Mariah Teixeira, Caio Blat, Matheus Nachtergaele, Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Dira Paes, Hermila Guedes e Magdale Alves, Baixio das Bestas estréia hoje no Cinema da Fundação.

Continuando seu tratado sobre o inferno humano, desta vez na Zona da Mata pernambucana, o segundo filme de Cláudio Assis (Amarelo Manga) tem despertado interesse geral em quem procura cinema visceral nesse Brasil varonil.

Horários:
sexta / sábado / domingo: 17h10 – 19h – 20h50
terça / quarta / quinta: 17h10 - 19h - 20h50

Lembrando que outra boa pedida, Cartola - música para os olhos, de Lìrio Ferreira e Hilton Lacerda, continua em cartaz, em horários especiais. A saber: terça e quinta, às 15h40.

terça-feira, 24 de abril de 2007

"Música para os Olhos": um filme à altura do poeta



Uma maravilha assistir a "Cartola - Música para os olhos" no Cinema da Fundação. Sala lotada, prazer compartilhado em silêncio, ou nem tanto: alguns cantaram baixinho as músicas do mestre. Enquanto esperava na fila, me veio a pergunta que fiz desde quando soube da produção, em 2004, enquanto Lírio Ferreira e Hilton Lacerda (também autores de "Baile Perfumado") disseminaram delírio e poesia com "Árido Movie": "um carioca não contaria com mais propriedade a vida de Angenor de Oliveira?"

A dúvida, estendida por três anos, acabou em poucos minutos. Fica claro que este não pretende ser "o" documentário sobre o sambista; será muito melhor aproveitado se entendido como "um" olhar que extrapola o personagem, aqui reconstruído de forma bem subjetiva, em imagens de arquivo, trechos de filmes nacionais, entrevistas para TV e rádio, e na fala dos amigos e familiares. A montagem é um grande mérito: hipertextual, caótica, imprevisível e entrecortada, aos poucos recria o contexto social, político e cultural do período vivido por Cartola (1908-1980).

Verbalmente, não há novidade - e nem precisa. A história de Cartola já está bem contada e recontada, da juventude boêmia para compositor e fundador da Mangueira, os anos de ostracismo, o resgate cult nos anos 60, a importância da família e a lamentada morte por câncer. Por outro lado, o material de arquivo informa mais do que a escrita pode revelar: os modos de falar, vestir e se expressar; os ambientes, as locações onde se deu boa parte da história do samba.

A abordagem é outro caso à parte. O bairro da Mangueira, por exemplo, chega através dos fios de eletricidade, as casas saindo do quadro, fora de foco. Os arcos da Lapa entram em cena pela sombra projetada nas ruas. O próprio Cartola se faz presente assim, sutil e enviezado.

Na primeira parte, ele surge aos poucos, em uma ou outra foto, com falas dispersas, um centro invisível em que giram os demais elementos. O uso de quadros dramáticos para preencher a falta de registro dos primeiros tempos lembra o excelente "The Soul of a Man", onde Wim Wenders faz o mesmo para recuperar trechos da vida de Blind Willie Johnson. Blues, samba, música negra.

"Música para os olhos" é também um diálogo com o cinema brasileiro. Nele, imagens do enterro de Cartola conversam com "Di", de Glauber, proibido no Brasil pela família do pintor. Trechos de "Brás Cubas", a adaptação de Julio Bressane para o clássico machadiano, clama pela liberdade de criação frente à importância de um ícone cultural do samba. Mário Reis arremessando discos no mar e cantando em estúdio foram pinçadas de "O Mandarim", outro filme de Bressane aqui invocado, cujas cenas exibidas ao contrário com certeza inspiraram a sequência de imagens da ditadura militar.

Em meio a tantas referências e documentos antigos, surge um recado maior do que a importância de Cartola: a necessidade de cuidar melhor de nossa memória coletiva. Fitas VHS amassadas, películas deterioradas e depoimentos desmagnetizados são problemas que poderiam pesar contra a qualidade do filme, não fossem usados a seu favor. Solução bem conhecida do cinema periférico, acostumado a transformar limitação técnica em recurso de linguagem.

São essas infinitas citações, aspecto tão instigante aqui quanto a figura de Cartola, o elemento gerador de algumas críticas negativas. Isso porque, neste documentário, o cinema tem uma carga poética tão grande quanto àquela contida em Cartola. Equilíbrio mantido até os últimos quinze minutos, quando a montagem ágil e inteligente cede espaço para a exagerada e quase submissa reverência ao compositor. Um deslize que não tira o brilho deste filme atípico entre as recentes cine-biografias nacionais.

Por fim, é muito bom constatar que, em nenhum momento, a produção pode ser considerada "pernambucana". Seu olhar não tem origem, é simplesmente "estrangeiro". A despeito dos inevitáveis pernambucanismos e carioquismos, "Música para os olhos" é, antes de tudo, brasileiro.