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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Coluna de Cinema da semana

Lançamentos



Kurosawa - Volume especial para os admiradores de Akira Kurosawa, as memórias da sua principal assistente, hoje com 83 anos, são um registro íntimo do mestre e seu ofício. Há casos curiosos, como o do incêndio que quase inviabilizou a existência de Rashomon (1950), obra prima que após ser premiada em Veneza projetou o artista para o mundo. O título do livro remete ao hábito de Kurossawa de aguardar a formação de nuvens e, portanto, a luz ideal para rodar as cenas.
À ESPERA DO TEMPO - FILMANDO COM KUROSAWA. DE TERUYO NOGAMI. 320 PÁGINAS. COSACNAIFY.



Blockbusters - O sucesso de Tropa de Elite 2 motivou a nova edição da tradicional revista de cinema brasileiro. Com o tema Arrasa-quarteirão - os filmes brasileiros que todo mundo viu, a publicação traz matérias sobre os filmes-fenômeno de cada época, dos filmes silenciosos (por Luciana Corrêa de Araújo) ao século 21. Entrevistas com especialistas em atrair público como Daniel Filho (sem papas na língua) e um perfil de Roberto Farias são boas atrações. Também disponível em versão online.
FILME CULTURA Nº 52. 98 PÁGINAS. MINC.



Nos cinemas - O novo paradigma de distribuição estabelecido por Tropa 2 não invalida este estudo, que aborda a estratégia de distribuição dos filmes nacionais. Pelo contrário, torna ainda mais oportuno entender suas engrenagens a partir do caso de cinco filmes lançados em 2005. Dois filhos de Francisco, de Breno Silveira; Cabra-cega, de Toni Venturi; Casa de areia, de Andrucha Waddington; Cidade baixa, de Sérgio Machado; e Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes.
O FILME NAS TELAS: A DISTRIBUIÇÃO DO CINEMA NACIONAL. DE HADIJA CHALUPE DA SILVA. 176 PÁGINAS. TERCEIRO NOME.

Bastidores

Popular - Desde que estreou, o curta Do morro?, de Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro, acumula passagem por 19 festivais, três premiações e uma menção honrosa. Nada mal, considerando que este é o primeiro trabalho dos realizadores. A conquista mais recente é no mesmo Recife cantado por João do Morro. O documentário foi selecionado pelo 12º Festival de Vídeo de Pernambuco, que começa dia 29, no Cine São Luiz.

Novo - Outro curta que poderá ser visto no Festival de Vídeo é O homem dela, de Luiz Joaquim. O filme também está selecionado para o 12º Festival de Curtas de Belo Horizonte, de 30 de novembro a 7 de dezembro. Antes, ele será exibido como parte da programação do Cineclube Dissenso (Cinema da Fundação), neste sábado, 14h.

Grátis - O Festival de Vídeo, aliás, oferece duas oficinas gratuitas: ´Realizando em 1 minuto`, com a jornalista Alice Gouveia, e ´O Estilo na Obra Cinematográfica`, com Ana Catarina Galvão. Inscrições até amanhã, via cinemafundarpe@gmail.com.

Festival - O Cine PE abriu inscrições para sua 15ª edição.

Por um bocado de dólares - Sessões lotadas e com aplausos para os dois primeiros filmes da Trilogia do dólar de Sérgio Leone no Janela Internacional já entraram para a história cinéfila da cidade. O terceiro, Por um punhado de dólares, será hoje (quinta), às 18h30, no São Luiz. Para quem perdeu Três homens em conflito, no domingo tem reprise.

Eu indico

Eu indico A face oculta (One-Eyed Jacks, EUA, 1961), o único filme em que Marlon Brando acumulou atuação e direção. Desde sempre me pegou, na veia, sem que eu saiba bem as razões. Mas arrisco: fotografia, a inexperiência de Brando na direção (estreias podem dar nessas brilhantes excentricidades), personagens e ritmo estranhos ao gênero western... e Brando ter tido coragem de substituir Kubrick.

Cristiano Santiago Ramos é jornalista

sábado, 23 de outubro de 2010

Mostra de SP // Visões do paraíso



As infinitas sessões da 34ª Mostra Internacional de Cinema podem ser uma visão do paraíso. No entanto, antes há o purgatório da escolha, que passa por optar entre uma retrospectiva nórdica com presença do diretor norueguês Bent Hammer ou a oportunidade de assistir aos clássicos de John Ford numa sala de cinema. A filosofia do evento é trazer para o país filmes que dificilmente viriam de outra forma. Daí se entende situações insólitas como filas para assistir filmes da Armênia, Sri Lanka, Estônia, Haiti, Eslováquia, Ucrânia, Vietnã e países da antiga União Soviética.

Hoje à noite, o dilema é entre a cópia restaurada de Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, e o novo corte de 280 minutos feito por Wim Wenders para Até o fim do mundo (1993). Convidado de honra do festival, Wenders estará na sessão e também abrirá o evento Os filmes da minha vida.

Na última terça-feira, o diretor alemão inaugurou exposição de fotografias Lugares, estranhos e quietos, que ocupa o primeiro andar do Masp. Ao longo dos anos, Wenders lançou seu olhar de viajante ao redor do planeta e o resultado está nessa mostra inédita. As imagens variam entre landscapes como a que mostra enorme cratera provocada por um meteoro na Austrália ou recortes da realidade, que como em seus filmes, revelam o que há de insólito ou fantasmagórico numa casual esquina urbana. O cruzamento de ruas, aliás, simboliza bem o espírito da busca de Wenders. Não se sabe muito bem o que iremos encontrar ao tomar um dos caminhos e isso é um estímulo e tanto para a imaginação.

Wenders também esteve na cerimônia de abertura, na noite de quinta-feira, em que a atração principal foi o novo longa de Manoel de Oliveira, O estranho caso de Angélica. Como o diretor português (introduzido no país pela própria Mostra, em 1979) não pode vir, mandou um vídeo pela internet, onde se diz desolado pelo impedimento de seu médico, que o fez trocar de marcapasso antes de viajar para a mostra. Por isso, ainda há a expectativa de que o mestre de 102 anos ainda possa estar entre nós.

O estranho caso de Angélica é de uma poesia sem fim. Sem a preocupação de parecer moderno ou de honrar suas várias décadas de experiência, Oliveira faz um cinema sem pressa, de tempo próprio. No filme, coprodução Brasil-Portugal, ele assume como alterego um fotógrafo (Ricardo Trêpa), um coletor de imagens munido de câmera mecânica. A história começa quando uma família importante o chama para fazer a última foto de Angélica, bela filha que morreu, mas mantém misterioso sorriso nos lábios. Há um quê de Blow Up de Antonioni quando, através do dispositivo ótico da câmera fotográfica, a falecida volta à vida, tamanho é o mistério das imagens.

Outro momento especial da abertura foi a presença de Teruyo Nogami, que trabalhou por mais de 50 anos ao lado de Kurosawa e trouxe para o Brasil exposição de desenhos (storyboards), lançados em livro pela CosacNaify. Ela disse emocionada que imaginou um encontro centenário entre Kurosawa e Oliveira, e saber que o diretor português estaria no país a motivou a fazer a viagem aos 83 anos de idade.

(Diario de Pernambuco, 23/10/2010)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um festival, 400 filmes


O estranho caso de Angélica, de Manoel Oliveira, abre a Mostra hoje à noite

Com mais de 400 filmes na programação, a 34ª Mostra Internacional de São Paulo começa hoje à noite, com a exibição de O estranho caso de Angélica, novo filme de Manoel de Oliveira. O centenário diretor português viria para a abertura, mas precisou fazer uma operação de emergência para troca de marcapasso. De acordo com Leon Cakoff, organizador da mostra e coprodutor do filme, o cineasta está bem e deve comparecer para a cerimônia de encerramento.

A partir de hoje, o Diario estará no evento cuja grandiosidade só é superada pela qualidade da programação. A começar pelos clássicos, Metropolis (1927) de Friz Lang será projetado em parede externa do auditório do Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer. Será a primeira exibição clássico restaurado com cenas inéditas e musicado ao vivo pela Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo.

Presente no evento, Wim Wenders inaugura exposição inédita de fotos, também publicadas em livro editado pela Mostra e terá retrospectiva de filmes emblemáticos como O filme de Nick, Asas do desejo, Paris Texas e Até o fim do mundo, este em nova edição de 240 minutos. O cinema alemão também está representado pela presença de atriz Hanna Schygulla, a preferida de Fassbinder. Outro convidado especial é Alan Parker, que preside o júri e terá mostra com O expresso da meia-noite (1978), Pink Floyd The Wall (1982) e Mississippi em chamas (1988).

Os 100 anos de Akira Kurosawa são lembrados com exibição de Rashomon (1950), Madadayo (1993) e exposição de 80 desenhos originais do mestre, organizada em parceria com o Instituto Tomie Ohtake. É a primeira vez que a coleção será exposta fora do Japão.

A grandiosidade da mostra que mobiliza equipe de 500 pessoas e custa R$ 6,2 milhões só é superada pela qualidade da programação de filmes aplaudidos em Cannes, Berlim, Veneza e produzidos em países díspares como Tailândia, Haiti, Coreia do Sul, Palestina e Noruega.

A capacidade de se renovar permite que nomes consagrados como Woody Allen, Sofia Copolla, Zhang Yimou e Jean Luc Godard convivam com novos realizadores como o pernambucano Gabriel Mascaro, que já participou da Mostra com KFZ -1348 (dele e Marcelo Pedroso) e agora volta com o desafiante Avenida Brasília Formosa.

"Não tem megalomania, é amor ao cinema", diz Cakoff, por telefone. Para marinheiros de primeira viagem na Mostra, como este repórter, a dica é simples: "Sabe nadar? Mergulha".

(Diario de Pernambuco, 21/10/2010)