Mostrando postagens com marcador carreto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador carreto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Festival de Gramado premia Bróder



Bróder é o grande vencedor do 38º Festival de Cinema de Gramado. Pela primeira vez em nove dias de evento, o Palácio dos Festivais estava com lotação máxima. A cerimônia foi ágil e tomou cerca de uma hora e meia da noite de sábado, talvez para não prejudicar a transmissão ao vivo, pelo Canal Brasil. Apesar do ritmo acelerado, o resultado foi positivo, principalmente por ter evitado os usuais discursos e agradecimentos intermináveis dos premiados.

Baseado em ótima performance dos atores e roteiro preciso nos diálogos, situações e consequências, o longa de estreia do diretor Jeferson De aposta na crítica social sem abrir mão do drama particular que narra o reencontro de três amigos do Capão Redondo, periferia de São Paulo. O filme deve estrear comercialmente em novembro, logo após Tropa de elite 2. De barba, Caio Blat esteve no festival especialmente para receber o Kikito. Ele cultiva outra aparência para gravar o longa Xingu, de Cao Hamburguer. "Esse é o presente mais brilhante que recebi na minha carreira", disse Blat. Em Bróder, ele interpreta Macu, um "mano" que no dia do aniversário se envolve em perigosa aventura com os amigos Jaime (Jonathan Haagensen), estrela do futebol mundial e Pibe, que após cursar universidade, se casa e sai do Capão. Em seu discurso, Blat afirmou se sentir apto a "encher a boca e dizer que é negão". E agradeceu às famílias da comunidade que abriram as portas e o ajudaram a compor o personagem. "Cada família de lá tem um Macu em suas casas. Dedico esse prêmio a eles, para que possam mudar suas histórias". Aplausos para ele.

Por sua vez, Jeferson De levantou a "galera" ao subir para o prêmio máximo vestindo a camiseta do Internacional, que perdeu para o Fluminense na última quinta. Criador do Dogma feijoada, ele deve muito aos gaúchos, que o incentivam desde o primeiro curta, rejeitado na Bahia e premiado em Gramado. E sabe retribuir. Da mesma forma, o primeiro longa, sobre "manos" com um ator branco classe média como protagonista, se equilibra em contradições. Assumindo essa lógica, com os Kikitos na mão, Jeferson agradeceu a Mano Brown "o maior líder das periferias do Brasil" e Daniel Filho, um dos produtores do filme.

Entre os longas estrangeiros, premiar Mi vida com Carlos foi decisão acertada. Em busca do pai que não pode conviver, o chileno German Berger fez um rico panorama da ditadura Pinochet. Ao lado da filha Greta, que o inspirou a realizar seu filme, declarou que "um país sem documentários é como uma família sem fotografias". Gramado 2010 deu o prêmio especial a ficção La Yuma, apelidado de "Menina de Ouro da Nicarágua", em que a bailarina Alma Blanco interpreta uma boxeadora. O filme tem sido celebrado inclusive por ser o primeiro longa produzido pelo país em 20 anos. O júri oficial ainda cometeu a ousadia de premiar o mexicano Nicola Pereda, jovem diretor de Perpetuum mobile, filme que embaralha o tempo da narrativa e estende à exaustão a duração de seus planos. O único lamento é pela ausência da premiação oficial do colombiano El vuelco del cangrejo. cuja abordagem entre atores e moradores de uma comunidade perdida no tempo criou um filme indefinível e, talvez por isso, tido como o melhor pela crítica.

Premiado em cinco categorias, Haruo Ohara consagra o diretor Rodrigo Grota. Ele teve outros filmes (Satori Uso, Booker Pittman) premiados em Gramado e outros festivais, mas nunca havia ganhado o prêmio de melhor direção. Encerrada a "Trilogia do Esquecimento", sobre a Londrina dos anos 1950, Grota parte para realizar o primeiro longa, o policial Pé de veludo, história real de uma espécie de "Robin Hood", que morreu após tiroteio de mais de três horas no centro de Marília, interior de São Paulo. "No mesmo dia, Che Guevara fez o famoso discurso na ONU, John Coltrane gravou A love supreme e o jogador Eusébio fez o melhor gol de sua carreira", conta o diretor. Já o baiano Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hugues, ganha o devido reconhecimento ao dividir o prêmio de melhor curta com Haruo Ohara. Veterano em festivais, o filme é de uma poesia simples e direta, algo nada fácil de se alcançar.

Fora de competição, os filmes da Mostra Panorama muitas vezes foram tidos como melhores do que os que disputaram os Kikitos: Os inquilinos, de Sérgio Bianchi, Chantal Ackerman, de cá, de Gustavo Beck e Leonardo Ferreira (plano único de 61 minutos onde a diretora belga reflete sobre sua obra), Terra deu terra come, de Rodrigo Siqueira (vencedor do festival É Tudo Verdade 2010), Elvis e Madona, de Marcelo Lafitte (que atraiu um dos maiores públicos do festival) e o argentino Dois Irmãos, de Daniel Burman. Estes, mais a premiére de Ex-Isto, de Cao Guimarães, causaram a boa impressão de que, este ano, Gramado acertou em cheio.

38º Festival de Cinema de Gramado

Júri Oficial - Longa Nacional

Filme: Bróder, de Jeferson De
Prêmio especial do júri: O último romance de Balzac, de Geraldo Sarno
Diretor: Jeferson De (Bróder)
Ator: Caio Blat (Bróder)
Atriz: Simone Spoladore (Não se pode viver sem amor)
Roteiro: Dani Patarra e Jorge Durán (Não se pode viver sem amor)
Fotografia: Luis Abramo (Não se pode viver sem amor)

Júri Oficial - Longa Estrangeiro

Filme: Mi vida com Carlos, de Germán Berger-Hertz
Prêmio especial do júri: La yuma, de Florence Jaugey
Diretor: Nicolas Pereda (Perpetuum mobile)
Ator: Gabino Rodriguez (Perpetuum mobile) e Martin Piroyansky (La vieja de atrás)
Atriz: Alma Blanco (La yuma)
Roteiro: Pablo Meza (La vieja de atrás)
Fotografia: Miguel Littin Filho (Mi vida con Carlos)

Juri Oficial - Curta Nacional
Filme: Haruo Ohara, de Rodrigo Grota e Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hughes
Direção: Rodrigo Grota (Haruo Ohara)
Prêmio especial do júri: Os anjos do meio da praça, de Alê Camargo e Camila Carrossine
Ator: Flávio Bauraqui (Ninjas)
Atriz: Elisa Volpatto (Um animal menor)
Roteiro: Cláudio Marques e Marilia Hughes (Carreto)
Fotografia: Carlos Ebert (Haruo Ohara)

Prêmio da Crítica
Longa nacional: Diário de uma busca, de Flávia Castro
Longa latino: El vuelco de cangrejo, de Oscar Ruiz Navia
Curta nacional: Babás, de Consuelo Lins

Prêmio aquisição Canal Brasil: Haruo Ohara, de Rodrigo Grota

Júri Popular
Longa nacional: 180º, de Eduardo Vaisman
Longa estrangeiro: Mi vida con Carlos, de Germán Berger-Hertz
Curta nacional: Ratão, de Santiago Dellape

(Diario de Pernambuco, 16/08/2010)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gramado // Bons curtas na noite de terça

Os curtas mostraram força na noite de terça-feira em Gramado. Vento (SP), de Marcio Salem, o mais estilizado de todos, é sobre a fantasia de um menino em ser super-heroi e salvar a mãe numa cidade em que o vento acabou. Com participação de Otto e figurino de Joana Gatis, o filme tem cenários artificiais e objetos à moda antiga, que lembram Tim Burton, e personagens tão estranhos quanto os dos irmãos Coen. E isso pode ser tão bacana quanto um problema. Outro paulista, Pimenta, de Eduardo Mattos, trata da importância do pai para o filho, um menino maltratado pelo irmão mais velho. Bonito.

Os outros dois curtas são veteranos no circuito de festivais. Conto singelo sobre a liberdade que surge da união, o baiano Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hughes foi bem recebido em Gramado. Pela primeira vez em casa, o gaúcho Amigos bizarros do Ricardinho (melhor ator e montagem no Cine PE) se passa numa agência de publicidade, onde o estagiário entretém os colegas com casos estranhos e engraçados e com isso quase perde o emprego. Personagem da vida real, Ricardo Lilja esteve na sessão e disse ao Diario que tudo o que está no filme é verdade. O diretor, Augusto Canani, foi um dos que receberam um e-mail com histórias do Ricardinho. Hoje, elas também são contadas no Twitter: @amigosbizarros.

Os longas em competição foram Historia de um dia (Venezuela), de Rosana Matecki e Contestado – restos mortais, de Sylvio Back. Documentário “sensorial”, sem palavras, o primeiro tenta extrair poesia ao registrar os costumes de um povoado rural, dividido entre os afazeres do dia e a religiosidade. Quarenta anos após filmar a ficção A guerra dos pelados, Sylvio Back volta ao tema e desafia a platéia com um filme de duas horas e meia com depoimentos de especialistas e moradores da região onde aconteceu o massacre do Contestado, de acordo com o diretor, “um conflito submerso que está sumindo de nossa historiografia”.

Entrevistas com médiuns que incorporam caboclos, jagunços e soldados mortos em combate podem ser questionáveis enquanto documento, mas dão ao filme um necessário contraponto emocional à grande quantidade de informações levantadas e ao importante levantamento de imagens de arquivo.