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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estreia // "O Turista": No piloto automático



O turista (The tourist, EUA 2010) surge da mesma matriz responsável pela safra de filmes que misturam romance e espionagem, que ano passado culminou em Salt e Encontro explosivo. Entre os dois, pende para o primeiro, não apenas por Angelina Jolie protagonizar papel parecido, mas pela seriedade com que a trama trata situações inverossímeis. Além disso, o filme do alemão Florian Henckel von Donnersmarck (A vida dos outros, 2006) se diferencia dos demais pela contenção. Com boas imagens de Veneza, direção de arte e figurinos bem cuidados, investe mais na psicologia que na ação vertiginiosa.

O problema é que o filme não convence enquanto obra, talvez pela confiança excessiva na equação Johnny Deep + Angelina Jolie + romance em Veneza = sucesso. Não é o caso, nem mesmo de bilheteria, essa poderosa balizadora que, assim como a justiça, tem olhos vendados. Nem a união de três roteiristas conseguiu evitar o piloto automático, a falta de talento para fugir de lugares comuns e o consequente naufrágio da trama.

A história começa com uma ação em curso, Elise (Jolie) é observada pela polícia. Em poucos minutos, sabe-se que um incógnito Alexander Pierce se apropriou da fortuna de um gângster (Steven Berkoff). Que Elise é sua esposa, orientada a escolher um homem com estatura parecida e assim despistar o inspetor Acheson (Paul Bettany), chefe da investigação.

Isso nos leva ao professor Frank Tupelo (Deep), o mané-pobre-coitado que entra na história aparentemente por acaso. Ponto a favor, Deep está frágil e reticente, longe dos papeis freak ou galanteadores que o tornaram famoso. . E Jolie faz o tipo doce e sedutora - uma sequência faz clara homenagem a Sophia Loren. Mas falta química ao casal, e o filme não decola.

(Diario de Pernambuco, 21/01/2011)

sábado, 31 de julho de 2010

Garota poderosa num filme sem "salt"



Mulheres boas de briga estão em alta em Hollywood. Somente este ano, assistimos as neófitas Scarlett Johansson como a ruiva Natasha Romanov (Homem de ferro 2) e Cameron Diaz como June Heaven (Encontro explosivo). Ainda em cartaz, há as garotas em fúria de Tarantino em À prova de morte. E o que dizer de Chloe Moretz, como a garota prodígio Hit Girl, em Kick Ass?

No thriller de ação Salt, que estreia hoje nos cinemas do país, Angelina Jolie é a durona da vez. Ao contrário das colegas acima, o papel não chega a ser novidade em sua carreira. Basta lembrar que em 2001 ela encarnou a aventureira Lara Croft, em Tomb Rider.

Jolie luta para se manter no primeiro escalão de estrelas de cinema. E consegue. Para isso, apesar da breguice do filme dirigido por Phillip Noyce (Jogos patrióticos, Perigo real e imediato), ela investe na interpretação. Salt traz a atriz como devotada agente da CIA no fim do expediente, cuja maior pretensão é encontrar o marido para jantar. Plano atrapalhado por um espião russo que, interrogado, revela que ela também serve a um resquício da KGB, que planeja uma grande vingança, batizada de Dia X, contra os EUA. Seus companheiros de inteligência, entre eles o empenhado amigo Ted (Liev Schreiber), precisam detê-la, mas Salt foge, aparentemente para salvar o marido, assim como o cachorrinho Yorkshire. Até ali, o roteiro não permite saber se ela é ou não uma ameaça, do tipo From Russia with love.

Se o filme já começa na pancadaria, com Salt sendo torturada pelo governo da Coreia do Norte, ela continua em 90% da história. Isso não impede Jolie de exercer seu charme, mesmo enquanto, sem alterar o penteado, pula entre os tetos de caminhões em movimento e constrói bazucas com canos do sistema da ventilação. O tom sério da produção ressuscita a velha tensão nuclear Oriente x Ocidente e contrasta com as cenas de ação inverossímeis protagonizadas por Salt.

Não chega prejudicar o filme mais do que a trilha sonora redundante, que ou atrapalha ou não faz diferença alguma. E causa certa graça, como quando Salt promove umasérie de acidentes espetaculares de trânsito e sai da cena como se estivesse desfilando numa passarela. Ou então quando um espião russo programado para matar a cúpula de segurança e o presidente norte-americano se identifica como Nicolai... Tarkovski.

(Diario de Pernambuco, 30/07/2010)