sábado, 1 de março de 2008

Que teus olhos sejam atendidos: "Persépolis" em desenho animado



A HQ autobiográfica Persépolis, de Marjane Satrapi, expandiu um pouco mais o alcance dos quadrinhos confessionais e intimistas.

Persépolis também busca reconstituir um passado recente, vivido pelo povo iraniano. Para tanto, faz uso da memória coletiva acerca da "revolução" islâmica, cujo maior representante foi o Aiatolá Khomeini. Curiosamente, nao há sequer menção ao notório lider durante toda a narrativa de Satrapi.

Sua versão animada, dirigida por Vincent Paronnaud e a própria Marjane Satrapi, guarda forte semelhança com a HQ, tanto no eixo verbal quanto visual. O prêmio do júri do Festival de Cannes 2007 não é também um reconhecimento ao potencial dos quadrinhos como expressão audio-visual.

Vale salientar que o desenho fica longe de ser uma transposição doentia, quadro a quadro, da obra original. Pelo contrário, busca definir uma identidade própria, ciente de que faz parte de outra linguagem - a do cinema.

A história de Marjane está toda lá, condensada em certos momentos, estendida em outras passagens. Seqüências inteiras sumiram; outras, inéditas, saltam aos olhos.

O que garante identidade própria ao desenho animado é seu conceito visual, que preserva a proposta original criada pela artista, ao mesmo tempo em que incorpora som e movimento de forma bastante natural.

As vozes originais, entre elas, das atrizes Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, estao naturalmente sincronizadas com a vida e o perfil de cada personagem. Os oportunos momentos musicais levam a questionar quando poderemos ler HQs com soundtrack.

Principalmente a parte em que Marji toca em alto volume uma fita cassete do Iron Maiden, comprada no mercado negro iraniano. A contagiante alegria da menina, desesperada para esquecer toda aquela guerra e preconceito ao redor, é um dos momentos altos do filme.

As cores surpreendem logo nos primeiros minutos. Elas simplesmente não existem na HQ, totalmente desenhada em preto e branco alto contraste, como em xilogravuas.



No desenho, o colorido surge como recurso para separar a vida adulta da protagonista (tempo atual), que hoje mora na França, das lembranças de quando viveu no Irã e na Austria. Além disso, tons de cinza estão em todo o longa, principalmente nos cenários, o que resultou num aspecto menos caricato e mais realista do que os personagens aparentam.

5 comentários:

Valéria disse...

adorei! quero ver, quero ler...
saudades, val

Anizio Carlos da Silva disse...

Adorei o filme!

Tinha baixado aqui em casa, mas assistir no cinema é outra coisa... Bronca é o preço dos HQ's, uns 32 paus cada volume na livraria saraiva do shopping recife.

Mas vi que tem uma edição com todos os volumes, talvez faça um investimento.

Um abraço.

Andre Dib disse...

Oi Val, bom te ver por aqui.

Anizio, é verdade, assistir ao filme é mais barato do que comprar os livros. E volume único (Persépolis Completo, Companhia das Letras) é uma boa opção sim. Custa uns R$ 30, dependendo da loja.

Um abraço!

Vitor Batista disse...

lindo demais mesmo esse filme!

Anaira Mahin disse...

'que seus olhos sejam entendidos'... olhos e sobrancelhas, fluíndo canto, fluíndo luz. turva e lágrima. transparente cristal de jasmim e lilás. que os olhos se encontrem dentro, na experienciação do afeto do eu-outro-eu. que a gente perceba a temperança perto, e promova arco-íris e kurosawas.