Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Estreia // Brüno, o clichê ambulante



O humor anárquico do grupo Monty Phyton, que brilhou em filmes dos anos 70, faz uma falta e tanto. As provocações de Sacha Baron Cohen não chegam a suprir essa lacuna, mas resiste à sanha politicamente correta que, sem precaução, engessa até o cérebro.

Assim como os Phyton, Cohen é inglês e vem de carreira televisiva, onde criou seus personagens mais famosos. Primeiro, Ali G, o jovem suburbano e mal educado; depois, Borat Sagdiyev, o repórter misógino do Casaquistão; por fim, o homossexual austríaco Brüno, repórter de moda que quer se tornar celebridade a qualquer custo. Dez anos após sua aparição na TV, este último chega ao longa-metragem causando fortes reações.

Assim como Borat, Brüno sai de sua terra natal para conquistar a América, onde pretende se tornar "a maior celebridade austríaca desde Hitler" e a próxima estrela gay "desde Schwarzenegger". O filme leva os clichês do mundo fashion ao extremo. Ao entrevistar Paula Abdul sobre seu trabalho humanitário, Brüno utiliza mexicanos no lugar do sofá; em troca de fama, tenta promover paz no Oriente Médio, mas não sabe a diferença entre o Hamas, facção radical palestina, e homus, o prato típico feito com grão-de-bico; na África, que ele chama de país, troca um menino negro por um iPod modelo U2; por fim, se converte e brada pelo "orgulho hétero", inspirado por Tom Cruise e Kevin Spacey.

Desde julho, quando estreou nos EUA, o filme foi proibido na Ucrânia, sem justificativa das autoridades. Duas versões circulam pela Inglaterra: uma na íntegra, restrito para maiores de 18 anos; outra, provavelmente sem órgãos genitais e vibradores, para o público acima de 15. Em ambas as versões, inclusive a que entra em cartaz por aqui, foi excluída uma cena específica que satiriza a família Jackson.

Não é o caso de acionar entidades de defesa das minorias. O comportamento sexualmente despudorado, preconceituoso e oportunista de Brüno pode até ofender os que vestirem a carapuça. Seu alvo principal, no entanto, é novamente a caretice do norte-americano médio, que confrontados com situações de mau gosto, reage com preocupante seriedade.

(Diario de Pernambuco, 14/08/09)

sábado, 30 de junho de 2007

Tela Grande (estréia): "Quarteto Fantástico e Surfista Prateado"



Adaptação dos quadrinhos para o cinema, o Quarteto Fantástico chega ao segundo longa, bem mais de acordo do que no desastroso debut, em 2005. A estréia nos cinemas brasileiros é neste fim de semana. Assim como o antecessor, "Quarteto Fantástico e Surfista Prateado" (Fantastic Four: the rise of Silver Surfer), é um filme bastante conservador na forma, mas que pode funcionar positivamente para todas as partes envolvidas. Os fãs, que podem curtir os heróis com som e movimento; os neófitos mais jovens em férias escolares, ansiosos por filmes de ação, raios e muita quebradeira; e os bolsos dos produtores – continuações quase sempre são fruto de pesquisas de mercado que apontam lucro certo.

O novo longa dirigido por Tim Story (Táxi) não é tão bom quanto Homem-Aranha e X-Men (outros títulos da Marvel Comics), mas consegue ser melhor do que o antecessor, lançado em 2005. A história ganhou mais ritmo e humor, e os efeitos especiais, bastante melhorados.

Contextualizando: Reed Richards (Ioan Gruffudd), Susan Storm (Jéssica Alba), Johnny Strom (Chris Evans) e Ben Grimm (Michael Chiklis) são quatro cientistas-astronautas que, durante uma missão, acidentalmente receberam uma chuva de raios cósmicos. Com isso, ganharam superpoderes colaterais: Dr. Fantástico se estica como borracha; o Coisa é uma criatura de pedra; o Tocha-Humana pega fogo e voa; e a Mulher-Invisível, bem, fica invisível. Como heróis, salvam a Terra repetidas vezes. O preço é a perda do anonimato e do sossego.

O novo filme começa com o casamento de Richard e Susan, ameaçado por perturbações climáticas geradas por uma forte radiação. Descobrem que a ameaça é o Surfista Prateado, que veio anunciar a chegada de seu mestre Galactus, o devorador de mundos. De forma que entra em cena o Exército americano, a convocar o Quarteto para uma associação com seu maior inimigo, Victor Von Doom (Julian McMahon), o Dr. Destino.

Juntos, tentam reverter o poder cósmico do Surfista, sem saber que seu chefe é que é o verdadeiro problema. No meio do quebra-quebra, dá pra entender um pouco de origem do personagem: que seu nome é Norrin Radd, e que deixou-se escravizar por Galactus,
desde que seu planeta natal fosse poupado. Sua concepção visual está impressionante, mais até dos que nos quadrinhos. A altivez de sua postura, por exemplo, comunica bem o espírito do personagem, digno, consciente e quase sempre acima do bem e do mal. Seu olhar, amargurado, solitário, completa a composição com chave de ouro. Um sinal de que seu longa solo, previsto para 2009, deve acertar no ponto.

Os acontecimentos se desenrolam de forma frustrante, tendo em vista a história em quadrinhos original que inspirou o roteiro (The Galactus Trilogy ). Quem leu, sabe do que estou falando. O temido Galactus, por exemplo, não entra em cena uma vez sequer. Dr. Destino, vilão tipicamente soturno e quase sempre estático, não deveria "pilotar" a prancha do surfista.

É importante dizer o que já parece óbvio: o Surfista, uma animação digital, é melhor do que todos os outros atores juntos, mais o roteirista, o diretor, e a equipe toda. Uma pena que o tom filosófico-existencialista, marca registrada de suas histórias, se resumiu à frase: "Sim, nós sempre temos uma escolha". Felizmente, isso vale para o próprio filme.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Incrível Hulk visita o Brasil em setembro

O boletim especializado em cinema Filme B informou que uma equipe de oito pessoas chegou hoje ao Rio de Janeiro para começar a pré-produção de "The Incredible Hulk" no Brasil.

Também conhecido como "Hulk 2", o filme será dirigido por Louis Leterrier (Danny the Dog) e conta com Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth e William Hurt no elenco. A estréia está marcada para 2008.

No Brasil, a produção será wem setembro e outubro, em locações no Rio de Janeiro. De acordo com o jornal O Globo, um dos locais pode ser a favela Tavares Bastos, no Catete. Na história, Bruce Banner (Norton) foge do exército e se esconde em uma favela. É mole?

É bom lembrar que a relação do gigante verde com nosso país não vem de agora. Mike Deodato, desenhista responsável pelo personagem durante um bom tempo, é de Campina Grande, Paraíba.

Alguns blogs especulam que "The Incredible Hulk" não seja exatamente uma sequência do interessante "The Hulk", dirigido por Ang Lee em 2003. Que o novo filme seria mais fiel à série televisiva do começo dos anos 80 e à origem do personagem registrada nos quadrinhos.

sábado, 23 de junho de 2007

"Baixio das Bestas" no topo do Overmundo



Uma crítica de minha autoria sobre "Baixio das Bestas" está gerando uma boa discussão no site cultural Overmundo. Para ler e trocar idéias, clique aqui.

No Recife, o filme continua em cartaz esta semana, no Cinema da Fundação (Derby), em três sessões especiais: segunda e quarta, às 15h30, e quinta, às 18h40.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Tela Grande (estréia): Extermínio 2



O título original, "28 weeks later" (28 semanas depois) é auto-explicativo para a seqüência do filme "Extermínio" (28 days later). O primeiro, dirigido por Danny Boyle, mostra o que aconteceria se fosse disseminado na Inglaterra um vírus com o poder de transformar pessoas em zumbis sanguinários.

"Extermínio 2", a cargo Juan Carlos Fresnadillo (e produzido por Boyle), retoma a narrativa quando a cidade britânica começa a voltar ao normal, ainda que sob a vigilância do exército norte-americano. Os minutos iniciais enfocam no drama de uma família sobrevivente. Os filhos, Tammy e Andy ( Imogen Poots e Mackintosh Muggleton) se alegram em reencontrar o pai (Robert Caryle) e a mãe (Catherine Mccormack).

É através desta mãe portadora, mas imune ao vírus, que a epidemia volta às ruas, mobilizando franco atiradores, seguidos de fogo e bombas de gás, fazendo Londres arder em chamas novamente. Para representar os ataques do ponto de vista dos infectados, a câmera se movimenta de tal maneira que parece ter sido colocada na mão de um Diabo da Tasmânia. Um filme de terror OK.

Tela Grande (estréia): Zodíaco, de David Fincher



Downey JR. e Jake Gyllenhaal: grandes atuações

Jack o Estripador, o primeiro serial killer a virar celebridade, era inglês. Apesar disso, a fama obtida pelo maníaco naquela época não é nada se comparada com a obsessão norte-americana em torno do tema. Gente maluca que sai matando existe em qualquer lugar, mas é nos EUA que eles alcançam status de efêmeros popstar. Um deles, surgido em San Franscico no fim dos anos 60, se auto-batizou Zodíaco, se comunicava por complexos criptogramas enviados para a imprensa, e acaba de ter sua história recontada com competência no novo filme de David Fincher ("Clube da Luta"), que estréia hoje nos cinemas do Brasil.

Subgênero recorrente na indústria hollywoodiana, os filmes sobre serial killer quase sempre usam a mesma fórmula para produzir tensão no público, e podem ser tão ou mais numerosos do que os casos reais. No suspense "Zodíaco" (Zodiac, 2007), Fincher volta ao tema, já trabalhado em "Seven - Os Sete Pecados Capitais", só que menos apelativo, sem tantos clichês. O diretor fez um filme investigativo, sóbrio e de marcha lenta, ambientado em sua maior parte dentro de uma redação de jornal.

Zodíaco nunca foi capturado, apesar de todas as evidências apontarem Arthur Leigh Allen como o matador. Nesse processo, o jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr., em grande interpretação) e o policial Dave Toschi (Mark Ruffalo) vêem suas carreiras escorrer ralo abaixo. Aos poucos, Zodíaco sai de cena, mas o cartunista político Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o cartunista político fissurado em decifrar códigos obscuros, decidiu continuar a busca de evidências. Autor de sete livros sobre serial killers, ele dedicou dois deles para o Zodíaco. Ele acredita que, usando como precedente o exemplo de um casal de históriadores que decifrou - antes do FBI, CIA ou Nasa - as mensagens do Zodíaco publicadas nos jornais, algum espectador consiga solucionar os códigos em aberto e, quem sabe assim, encerrar o caso.

O encadeamento cerebral e a longa duração (mais de 2h30), características constantes nos trabalhos de Fincher, caem como uma luva como representação do cansaço e frustração decorrentes de um caso nunca resolvido. Sem clímax ou redenção, este quebra-cabeça infinito guarda seu talento na estética estabelecida, atuações instigantes, e uso de uma métrica linear de narração. Fincher aprendeu com mérito a lição de Alan J. Pakula ("Todos os homens do presidente"), Sidney Lumet ("Um Dia de Cão") e do mestre maior, Alfred Hitchcock. A trilha sonora, uma seleção de vigorosos temas de rock'n'roll do período, é outro ponto positivo deste filme nada comum.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

terça-feira, 8 de maio de 2007

Cineclube da Galeria Artes e Cores: programação de maio

Vê aí embaixo a turma que freqüenta a Galeria Artes e Cores. A exibição de filmes está engrenando por lá. Tanto que, pela primeira vez, está definida a programação do mês inteiro. As sessões são gratuitas, e estão marcadas para todas as quartas e sextas, às 20h. Começa amanhã. A qualidade continua o grande atrativo da seleção. Andree Röttig, o programador de lá, está de parabéns. Pra quem ainda não assistiu algum dos filmes abaixo, dou somente um conselho: não perca!

A casa fica à Rua do Amparo 319, Amparo, Olinda (Cidade Alta). Informações: (81) 3424-3366, (81) 9606-5708.



09 de maio: A Malvada (All about Eve), de Joseph L. Mankiewicz, com Bette Davis, Anne Baxter e Marilyn Monroe. Para alcançar suas ambições na indústria do cinema hollywoodiano, uma atriz inescrupulosa manipula a todos os integrantes de produção em que participa.



11 de maio: Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), de Pedro Almodóvar. Com Cecília Roth e Penelope Cruz. Diretamente influenciado pelo "all about" acima, Almodóvar conta a história de uma mãe que vê o filho ser atropelado ao pedir um autógrafo para uma atriz. Depois, procura o pai da criança, um travesti, conhece Rosa, a enfermeira que cuida da atriz que seu filho adorava, e a namorada da atriz (que contracena com ela num filme). Precisa dizer mais?



16 de maio: Uma Noite Sobre a Terra, ("Night on Earth), de Jim Jarmusch. Filme menos conhecido de Jarmusch (o senhor de cabelos brancos na foto acima), a história tem estrutura semelhante a Sobre Café e Cigarros. Os atores são, entre outros, Winona Rider, Rosie Perez, Giancarlo Esposito, Isaach De Bankolé e Roberto Benigni. Em vez amigos em torno de uma mesa com cinzeiros e garrafas de café, eles são passageiros e taxistas em cinco diferentes cidades. A Trilha sonora, claro, é de Tom Waits. Para quem quer mais, vale procurar Down by Law, Dead Man e Broken Flowers.



18 de maio: Violência Gratuita (Funny Games), de Michael Haneke. Apesar do título em inglês (Jogos divertidos), não há divertimento algum neste perturbante filme de Haneke, o primeiro de uma série engendrada pelo austríaco (A Professora de Piano e Caché). Seu debut é um rigoroso, hermético e cruel excercício de cinema, com clara inspiração em Laranja Mecânica (Clockwork Orange), de Stanley Kubrick.

Como no clássico de 1971, Haneke estabelece um tempo próprio: brinca de avançar e retroceder, coloca os personagens para conversar com o espectador. Sua estética se espelha no mestre Kubrick desde as imagens milimetricamente construídas ao foco na delinqüência juvenil que banaliza a violência. Uma violência nem tão gratuita, já que assim, o diretor realiza seus caprichos de apaixonado pelo cinema. Na busca de cumplicidade do público, sadicamente faz grudar nossos olhos na tela até o fim.

Filmes para assitir enquanto o Santo Papa visita o Brasil.



Amen (2002), de Konstantinos Costa-Gravas. Com a ajuda de um jovem padre, o oficial da SS tenta avisar o Papa Pio XII sobre o holocausto que matou 10 mil judeus por dia nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Até descobrir quais as relações entre o Vaticano e o Partido Nazista. Precisa dizer: "baseado em fatos reais"? Ou lembrar que, no fim da adolescência, Bento 16 serviu à juventude nazista?



O Poderoso Chefão 3 (Godfather: Part III, 1989), de Francis Ford Coppola. Empenhado em limpar o nome da famiglia Corleone, Michael abandona os negócios ilegais para participar das empresas da imaculada Santa Sé, e obter o perdão papal. Lá, descobre que, para sobreviver, precisa ser tão (ou mais) violento quanto no tráfico de drogas e cassinos que mantinha em Las Vegas. Bem didático é o rito de passagem de poder, do Papa Paulo VI (morto em 1978) para o eleito e morto em seguida João Paulo I, para então assumir o nosso velho conhecido João Paulo II. Quem saberá o que se passou entre uma fumaça e outra na escolha do simpático Ratzinger?

terça-feira, 24 de abril de 2007

Sofia Coppola na Rua do Amparo



O ótimo "Encontros e Desencontros" (Lost In Translation, EUA, 2003), de Sofia Coppola é o filme desta quarta (25), às 20h, na Galeria Artes e Cores. A casa fica à Rua do Amparo 319, Amparo, Olinda (Cidade Alta). A geleria tem promovido sessões semanais há pouco mais de um mês. E, pelo que tudo indica, a boa seleção continuará nas próximas semanas.

Segundo filme da filha de Francis Ford (ela também dirigiu As Virgens Suicidas e Maria Antonieta), "Encontros e Desencontros" tem referências pop, imagens bem construídas, e boas atuações de Bill Murray e Scarlett Johanson.

"Música para os Olhos": um filme à altura do poeta



Uma maravilha assistir a "Cartola - Música para os olhos" no Cinema da Fundação. Sala lotada, prazer compartilhado em silêncio, ou nem tanto: alguns cantaram baixinho as músicas do mestre. Enquanto esperava na fila, me veio a pergunta que fiz desde quando soube da produção, em 2004, enquanto Lírio Ferreira e Hilton Lacerda (também autores de "Baile Perfumado") disseminaram delírio e poesia com "Árido Movie": "um carioca não contaria com mais propriedade a vida de Angenor de Oliveira?"

A dúvida, estendida por três anos, acabou em poucos minutos. Fica claro que este não pretende ser "o" documentário sobre o sambista; será muito melhor aproveitado se entendido como "um" olhar que extrapola o personagem, aqui reconstruído de forma bem subjetiva, em imagens de arquivo, trechos de filmes nacionais, entrevistas para TV e rádio, e na fala dos amigos e familiares. A montagem é um grande mérito: hipertextual, caótica, imprevisível e entrecortada, aos poucos recria o contexto social, político e cultural do período vivido por Cartola (1908-1980).

Verbalmente, não há novidade - e nem precisa. A história de Cartola já está bem contada e recontada, da juventude boêmia para compositor e fundador da Mangueira, os anos de ostracismo, o resgate cult nos anos 60, a importância da família e a lamentada morte por câncer. Por outro lado, o material de arquivo informa mais do que a escrita pode revelar: os modos de falar, vestir e se expressar; os ambientes, as locações onde se deu boa parte da história do samba.

A abordagem é outro caso à parte. O bairro da Mangueira, por exemplo, chega através dos fios de eletricidade, as casas saindo do quadro, fora de foco. Os arcos da Lapa entram em cena pela sombra projetada nas ruas. O próprio Cartola se faz presente assim, sutil e enviezado.

Na primeira parte, ele surge aos poucos, em uma ou outra foto, com falas dispersas, um centro invisível em que giram os demais elementos. O uso de quadros dramáticos para preencher a falta de registro dos primeiros tempos lembra o excelente "The Soul of a Man", onde Wim Wenders faz o mesmo para recuperar trechos da vida de Blind Willie Johnson. Blues, samba, música negra.

"Música para os olhos" é também um diálogo com o cinema brasileiro. Nele, imagens do enterro de Cartola conversam com "Di", de Glauber, proibido no Brasil pela família do pintor. Trechos de "Brás Cubas", a adaptação de Julio Bressane para o clássico machadiano, clama pela liberdade de criação frente à importância de um ícone cultural do samba. Mário Reis arremessando discos no mar e cantando em estúdio foram pinçadas de "O Mandarim", outro filme de Bressane aqui invocado, cujas cenas exibidas ao contrário com certeza inspiraram a sequência de imagens da ditadura militar.

Em meio a tantas referências e documentos antigos, surge um recado maior do que a importância de Cartola: a necessidade de cuidar melhor de nossa memória coletiva. Fitas VHS amassadas, películas deterioradas e depoimentos desmagnetizados são problemas que poderiam pesar contra a qualidade do filme, não fossem usados a seu favor. Solução bem conhecida do cinema periférico, acostumado a transformar limitação técnica em recurso de linguagem.

São essas infinitas citações, aspecto tão instigante aqui quanto a figura de Cartola, o elemento gerador de algumas críticas negativas. Isso porque, neste documentário, o cinema tem uma carga poética tão grande quanto àquela contida em Cartola. Equilíbrio mantido até os últimos quinze minutos, quando a montagem ágil e inteligente cede espaço para a exagerada e quase submissa reverência ao compositor. Um deslize que não tira o brilho deste filme atípico entre as recentes cine-biografias nacionais.

Por fim, é muito bom constatar que, em nenhum momento, a produção pode ser considerada "pernambucana". Seu olhar não tem origem, é simplesmente "estrangeiro". A despeito dos inevitáveis pernambucanismos e carioquismos, "Música para os olhos" é, antes de tudo, brasileiro.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Cartola - Música para os Olhos



Pernambuco (também) é samba.

Estréia nesta sexta (19), no Recife, o filme Cartola - Música para os olhos, documentário da dupla pernambucana Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Muita expectativa em torno do projeto, que levou quase dez anos para ser concluido.

Horários e demais informações no post abaixo.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

CinEscola em nova temporada



A periferia mostra sua garra.

Sexta-feira (20), às 19h, começa a nova temporada do CinEscola. O projeto itinerante desta vez exibirá “Uma Onda no Ar”, de Helvécio Ratton. A primeira sessão será na Escola Municipal Diná de Oliveira, bairro da Iputinga, comunidade do Detran. A entrada é franca.

Antes, será exibido “Lixo no Lixo” (2005), animação de sete minutos, resultado de uma oficina comunitária realizada no bairro do Ibura, e selecionado para a Mostra Infantil do Cine PE 2006.

Baseada em fatos reais, "Uma Onda No Ar" conta a experiência dos criadores da Rádio Favela, fundada nos anos 80, em Belo Horizonte (MG).

Dentro da proposta de inserção e interação promovida pelo projeto, escolas com experiência em rádio comunitária vão transmitir a abertura do evento.

Até 11 de maio, sempre às 19h, "Uma Onda No Ar" será exibido em mais cinco pontos do Recife. Abaixo, o roteiro completo. Mais informações com Andréa Mota, coordenadora do CinEscola: (81) 3463.6662/ 9924.3318.

20/04 (6ª feira): Escola Municipal Diná de Oliveira, Detran. Escolas Municipais Convidadas: João Pernambuco, Arraial, Iputinga, João XXIII e Rodolfo Aureliano.

26/04 (5ª feira): Escola Municipal São Cristóvão, Guabiraba. Escolas Convidadas: Escola Municipal da Guabiraba.

03/05 (5ª feira): Escola Municipal Dom Bosco, Jardim São Paulo. Escolas Municipais Convidadas: Balbino Menelau, Manoel Rolim, Valdemar Valente e Maria da Paz Brandão.

04/05 (6ª feira): Escola Municipal Antônio Heráclio do Rego, Água Fria. Escolas Municipais Convidadas: Mário Melo, Olindina Montenegro e Paulo VI.

10/05 (5ª feira): Escola Municipal Pedro Augusto, Soledade.

11/05 (6ª feira): Escola Municipal Oswaldo Lima Filho, Pina. Escolas Municipais convidadas: Novo Pina.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Jim Jarmusch na estréia da nova cafeteria do Cinema da Fundação


Sobre Café e Cigarros , o excêntrico longa de Jim Jarmusch ("Flores Partidas", "Dead Man", "Down By Law"), está de volta ao Recife, em exibição única nesta quinta (12), no Cinema da Fundação. Mais que conveniente, o motivo é celebrativo: a reinauguração da cafeteria do cinema, batizada sugestivamente "Café Castigliani". Era o que estava faltando desde que o local foi inteiramente reformado, no começo do ano passado.

Os novos responsáveis pelo estabelecimento são o cineasta Leonardo Lacca e sua parceira, Nara Oliveira. O que antes era uma lanchonete um tanto limitada, agora parece que vai combinar bem com a tradicionalmente elogiada programação de filmes. É verdade, não é comum um cineasta ser dono do café de cinema. Lacca, no entanto, foi além: ele e Oliveira se especializaram no assunto fazendo um curso de barista no Centro de Preparação de Café de São Paulo.

A exibição está marcada para às 20h20. No fim da projeção, Lacca e Oliveira fazem discotecagem. Com a programação especial, a Fundaj informa que a sessão de O Homem Duplo, marcada para esta data e horário, está cancelada. Abaixo, uma sinopse feita pela Fundaj para o filme de Jarmusch, que conta com a participação de seus atores prediletos: Tom Waits (contracenando com Iggy Pop), Roberto Benigni, Bill Murray, Alfred Molina, e mais os irmãos Jack e Meg White (da banda White Stripes).

Antes, uma suposição sobre o nome do bistrô: Castigliani é o sobrenome da família de mafiosos que perseguem um personagem de David Lynch no intrigante "Cidade dos Sonhos". No filme, um dos irmãos experimenta um 'espresso' curto, mas, exigente que é, cospe o líquido preto num guardanapo de pano...

----------------------------------------------------------------

Sobre Cafés e Cigarros
Quinta-Feira, 20h20, dia 12. Ingresso: R$ 6,00 e R$ 3,00 (meia)

Reunindo uma série de 11 curtas-metragens, o filme apresenta diversos personagens que, bebendo café e fumando cigarros, discutem os mais variados temas, tais como picolés com cafeína, Abbott & Costello, a ressurreição de Elvis Presley, a forma correta de se preparar um chá inglês, as invenções de Nikola Tesla, desentendimentos familiares, Paris nos anos 1920, rock, hip hop e o uso da nicotina como inseticida.
Filmes do Estação / Tela Plana / Projeção Digital / 96 min. / Dolby Digital / 14 anos.

"Wood & Stock" adiado para domingo

Poderia ser um plano dos membros da TFP - Tradição, Família e Propriedade, mas foram só alguns problemas de percalço.

A estréia recifense do longa de animação "Wood & Stock - sexo, orégano e rock'n'roll", de Otto Guerra, não ocorreu, pois o rolo do filme foi mandado para outro destino, que não o Recife. Por isso, se você for ao cinema hoje (quarta), na ânsia de curtir os personagens dos quadrinhos de Angeli na tela grande, esqueça e vá fazer outra coisa. A estréia foi transferida para o domingo (dia 15).

Quem explica tudo é a Downtown Filmes, a distribuidora responsável pelo título. De acordo com Aguinaldo Silva, o programador de lá, a trapalhada foi da empresa responsável pelo transporte dos filmes, que mandou "Wood & Stock" para sua terra natal, Porto Alegre. Para o Recife veio mais uma cópia de "O Céu de Suely", de Karim Aïnouz (que já está em cartaz no Teatro do Parque).

Ou seja, alguma sala lá em Poa deve estar amargando a mesma situação que o Cinema Apolo, administrado por Marcos Enrique Lopes. Ontem estava ele próprio na frente do cinema explicando o cancelamento da sessão pra todos que se deslocaram ao cinema, provavelmente pilhados pela convocação geral alardeada pela imprensa. As matérias foram generosas nos jornais. O Diario de Pernambuco deu contra-capa com uma foto enorme, e o Jornal do Commercio convidou o experiente Ernesto Barros pra fazer uma crítica ao filme. Estranhamente, muitos veículos informaram que "Wood & Stock" estaria relegado a apenas duas sessões, informação corrigida por Lopes: ele pretende que o desenho dos dois velhos hippies fique por um bom tempo no Apolo. Que assim seja.

Já faz um bom tempo que "Wood & Stock" estreou comercialmente no Rio, São Paulo e Porto Alegre (outubro de 2006) e, apesar da boa recepção por aqui durante o Cine PE 2006, só agora chega ao circuito local. Em fevereiro passado ele ameaçou entrar no mesmo Apolo, que já exibia o trailer e anunciou o filme na agenda cultural da cidade.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Não perca: O Homem Duplo (A Scanner Darkly), em cartaz na Fundaj



"A Scanner Darkly" continua em cartaz no Cinema da Fundação (horários abaixo). Com certeza ele figura entre os melhores filmes produzidos em 2006. A técnica de rotoscopia, também utilizada pelo diretor Linklater em "Waking Life" (2002), transformou os atores, objetos e locações em um desenho animado psicodélico e por vezes nauseante, ambiente ideal para o desenrolar da trama em que um policial (Keanu Reeves) infiltrado numa turma de junkies (Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Winona Rider) tenta descobrir conexões criminosas no tráfico do "D", uma droga extraída de flores azuis, e com o poder de queimar os neurônios um por um.

O roteiro impressiona pela condução inteligente (inclusive o timing) ao revelar as informações cruciais. Adaptação da obra de Philipp K. Dick (famoso por ter inspirado "Blade Runner" e "Total Recall"), a frieza e amoralismo ao tratar do vício por drogas alteradoras da percepção fazem do filme mais do que um ousado exercício de forma. Em duas palavras: não perca.

sábado, 31 de março de 2007

300 de Esparta: divagações sobre a suposta "fidelidade" do cinema aos quadrinhos




"Fidelidade" é uma palavra que tem sido repetida orgulhosa e infinitamente por Zack Snyder, diretor do filme "300", inspirada na graphic novel homônima de Frank Miller. Muito bem divulgado pela imprensa, "300" está à disposição do público desde ontem, em 550 salas brasileiras. Por um lado, vitória para os quadrinhos, arte geralmente diminuída, aqui enobrecida pelo tratamento de luxo e evidência nunca desfrutada em sua centenária trajetória.

Por outro, problemas no tocante ao processo de adaptação me saltam aos olhos. Nas cenas acima, não resta dúvida. "Igualzinho", não é?

Não é bem o caso da pintura abaixo, veja bem como os espartanos foram retratados:



Nada tão "macho" quanto os guerreiros de Miller.

Enquanto escrevia uma crítica de "300" para o site da Continente Multicultural, me questionei bastante sobre a utilização da linguagem dos quadrinhos no cinema. Naturalmente não cheguei a muitas conclusões. Como explicar a artificialidade e falta de fluidez de filmes como "300", meu caro Watson? Foi inevitável, enquanto assistia ao filme, fiquei o tempo todo comparando: "nossa, é igualzinho mesmo!".

Bom, tenho que admitir que a cópia transposta por Snyder é muito bem feita. Realmente, o filme conseguiu manter intacta a estética original. Não tão obsessivamente quanto Robert Rodriguez e o próprio Frank Miller fizeram em "Sin City", clonagem quadro-a-quadro que chega a dar náuseas após duas horas de projeção. "300" utiliza mais recursos de cinema, graças a Zeus.

Talvez as melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema sejam as assumidamente traduzidas para a linguagem audiovisual, ou seja, são cinema antes de tudo. Tomem, por exemplo, os filmes de super-heróis. Eles parecem bem resolvidos quanto a isso. Neles, a fidelidade está em, durante o processo de tradução estética entre uma linguagem (HQ) para outra (cinema), preservar as características dos personagens, o contexto em que foram criados, enfim, sua essência. Filmes como "Ghost World", "Hulk", "Homem-Aranha", "X-Men" e "Quarteto Fantástico" vem fazendo isso muito bem.

Claro que não é o caso de invalidar experiências como "300" e "Sin City". Elas não são meros subprodutos das HQs. Pelo contrário, apontam para um diálogo de linguagens onde só o equilíbrio pode gerar bons frutos. Quando este for alcançado, teremos filmes bem mais interessantes de se assistir. Um bom exemplo neste sentido é o não tão recente "American Splendor" (Robert Pulcini), que conta a história do roteirista de quadrinhos Harvey Pekar.



Júlio Bressane, em seu ótimo livro-ensaio "Cinemancia", trata do processo de tradução de uma forma mais livre e essencial. De uma língua para outra, analisando o caso de São Jerônimo, que converteu a Bíblia do Sânscrito para o grego. E da literatura para o cinema, exemplificando com sua então recém lançada adaptação de Machado de Assis, "Brás Cubas". Quem assistiu ao filme, sabe que ele é uma viagem de sons e luzes ao universo machadiano. Nem de longe passa por uma transposição literal de diálogos e descrições de ambiente contidos no romance original. O sentido e a maneira machadiana de olhar para a realidade, no entanto, brilha no filme inteiro.

Isso porque para Bressane, a recriação é imprescindível no processo de tradução. Tanto que seu Brás Cubas reinventado para o cinema é diametralmente oposto (e infinitamente superior) ao interpretado por Reginaldo Faria no filme de André Klotzel, que se dispôs a adaptar "fielmente" o livro de Assis. O máximo que uma obra assim pode atingir é o da reverência ao original. Um culto que termina em si, que não extrapola como arte.

De volta aos espartanos, o "fiel" (como um escravo?) diretor Snyder demonstra com orgulho ter reproduzido a luz, a textura, os diálogos, enquadramentos, exatamente como na HQ original, esta servindo como o mais perfeito storyboard do planeta. Um sinal de respeito e tributo, mas também de engessada submissão, característica limitante do potencial que um bom filme pode atingir.

Caro Watson, onde está Wally (Snyder)? Cadê o seu olhar como tradutor?

Por fim, como bem provou Mary Shelley, ao criar seu Frankenstein há quase dois séculos, encerro com a máxima nada matemática: a soma das partes nunca é igual ao todo.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Os 300 de Esparta invadem o Jornal do Commercio



O Caderno C do Jornal do Commercio (Recife) trouxe ontem, dia 25 (domingo), duas matérias sobre Os 300 de Esparta, que já foi assunto deste blog em janeiro. Para ter acesso às matérias, é necessário ser assinante do jornal, ou do portal UOL.

Em "Heróis vestem vermelho", a repórter Carol Almeida trata do relançamento da série em quadrinhos em formato livro (capa acima), num belo trabalho da Devir Livraria. Na segunda, ela revela como foi o papo (no Rio de Janeiro) com o diretor da adaptação cinematográfica, Jack Snyder, e com Rodrigo Santoro, o único brasileiro a atuar na produção que estréia no Brasil neste dia 30 de março (sexta). Eles estarão no Brasil durante a semana toda, para promover a esperada adaptação da obra de Frank Miller.



Pra quem ainda não sabe, Rodrigo Santoro está quase irreconhecível interpretando Xerxes, o rei dos Persas, que em 480 a.C. invade a Grécia para ampliar seu império. Apesar de algumas interpretações enxergarem em Os 300 de Esparta uma crítica ao imperialismo norte-americano, o governo do Irã (país que fazia parte da Pérsia) condenou duramente a maneira como os persas são retratados, considerando o filme como um ataque à cultura iraniana, e atribuindo a ele "comportamento hostil, resultado de uma guerra psicológica e cultural". Ao que parece, um filme nunca é só um filme, até para os iranianos...