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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O retorno à essência



Indicado a dez Oscar, O artista, produção francesa rodada nos EUA, remete a um tema crucial no cinema: a rapidez da evolução tecnológica e sua interferência na sintaxe fílmica. Antes de tudo, como bom filme, é uma história de amor. De todas as artes, o cinema é talvez a que mais expande fronteiras sem escrúpulos, de costas para o próprio passado. Foi assim com o advento da cor, do digital que “matou” a película e agora com 3D. De todas, a primeira transição foi do cinema mudo para o sonoro. Em busca de novos rostos para os novos tempos, Hollywood tornou os primeiros galãs em artigos de museu.

É o caso de George Valentin (Jean Dujardin), ator que forjou seu sucesso amparado por um bigodinho, meia dúzia de expressões faciais (do destemido ao galante) e um cachorro, seu fiel escudeiro. A referência é direta a Rodolfo Valentino, o primeiro símbolo sexual do cinema, morto precocemente em 1926. No filme, estamos em 1927, auge de Valentin, que abre caminho para a aspirante a estrela Peppy Miller (Bérénice Bejo), sem saber que em pouco tempo viveria a ruína profissional. É a vez de Peppy, apaixonada, salvar seu herói.

Mas O artista é mais do que o drama dos personagens. Ao incorporar a estrutura narrativa dos filmes silenciosos, o filme de Michel Hazanavicius é uma bela e ousada homenagem aos primórdios do cinema. Em momento algum se ouve a voz de Valentin e demais personagens. A não ser por risadas de jovens figurantes e de ruídos captados no seu camarim no momento em que o ator se dá conta de que a captação de som direto o tornou ultrapassado, toda a banda sonora do filme se resume a uma emocionante trilha sonora. Quase todos os diálogos se dão em cartelas de fundo preto e a “janela” do filme é o 4:3, próximo ao quadrado. A simulação é tão precisa que, a cada troca de rolo, os tons de cinza mudam de tonalidade.

É fascinante assistir a um filme assim em um complexo de shopping de cores gritantes e tomado por produções em 3D. Teóricos e realizadores defendem que as bases do cinema se desenvolveram justamente nessa época, os anos 1910-20. Ao emocionar com o mínimo de recursos, O artista é o retorno a essa essência.

(Diario de Pernambuco, 10/02/2012)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cineclube Dissenso promove mostra Yasujiro Ozu no Recife



"Se em nosso século algo sagrado ainda existe… e se há algo como o tesouro sagrado do cinema, para mim deve ser o trabalho do diretor japonês Yasujiro Ozu". A colocação foi feita em 1985 pelo cineasta alemão Wim Wenders, no início de seu documentário Tokyo-Ga, em que busca na capital japonesa a cidade que conheceu pelos filmes de Ozu. O diretor de Asas do desejo continua: "japoneses, esses filmes são ao mesmo tempo, universais. Neles, fui capaz de reconhecer famílias de todos os países do mundo, assim como meus pais, meu irmão e eu. Para mim, nunca antes o cinema chegou tão perto de sua essência e finalidade: apresentar a imagem do homem, na qual ele não só se reconheça, mas a partir da qual ele possa aprender sobre si".

O Cineclube Dissenso inicia as atividades de 2012 com uma mostra especial dedicada a Yasujiro Ozu. De hoje a domingo, cinco clássicos do diretor serão exibidos em 16mm, através de parceria entre o cineclube e o escritório consular do Japão no Recife. É uma ótima oportunidade de entrar em contato com as principais obras do autor no local apropriado, a sala de cinema.

Autor do livro O anticinema de Yasujiro Ozu (Cosac & Naify, 2003), Kiju Yoshida diz que o cineasta, que começou no cinema mudo, questionava os artifícios técnicos e atuações exageradas dos atores. Nos primeiros filmes, no entanto, Ozu utilizava movimentos de câmera e outros recursos, sob influência do cinema norte-americano. Com o tempo, passou a filmar os diálogos e situações cotidianas, quase sempre em planos fixos, feitos com câmera colocada no nível de uma pessoa sentada no chão e lentes de 50mm, que não permite capturar a amplitude dos ambientes. Formato cinemascope (tela larga), nem pensar.

Ao apostar na simplicidade de elementos e estranheza provocada pelos planos incomuns, Ozu desmonta a ilusão das imagens em movimento e expõe o processo do fazer cinematográfico. Daí o anticinema. No cemitério em que repousa (ele morreu em 1963, no dia do aniversário de seus 60 anos), em sua lápide está gravada o ideograma “Mu”, que significa “nada” ou “o vazio”. Para quem leu o livro Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robbert Pirsig, também sabe que Mu significa “refaça a pergunta, se ela não dá conta da resposta”. Por mais que desenvolva artimanhas, a “magia” do cinema jamais alcançará a realidade. Ao admitir isso, Ozu também a desvela.

Serviço
Mostra Yasujiro Ozu
Quando: De hoje a domingo
Onde: Cinema da Fundação (Rua Henrique Dias, 609 – Derby)
Informações: 3073-6767
Entrada Franca

Programação
Hoje, às 16h20: Filho único (Hitori Musuko, 1938)
Amanhã, às 16h20: Pai e filha (Banshun, 1949)
Sexta-feira, às 15h50: Era uma vez em Tóquio (Tôkyô Monogatari, 1953)
Sábado, às 14h: Fim de verão (Kohayagawa-Ke No Aki, 1961)
Domingo, às 14h: A rotina tem seu encanto (Sanma no Aji, 1962)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Era uma vez um repórter incomum



Criado em 1929 pelo desenhista belga Hergé, Tintim está distante o suficiente para seu topete de passarinho e interjeições retrô voltarem à moda. Devidamente adaptada à gramática cinematográfica, em As aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, a série em HQ ganhou mais realismo, mas continua bastante cartunesca, visível nos narizes acentuados dos personagens.

Assim como em Cavalo de guerra, outro filme do diretor, ainda em cartaz no circuito, a atmosfera é a de fantasia nostálgica. É sem dúvida uma aventura spielberguiana de cinco estrelas, com humor ingênuo e sequências de ação espetaculares.

Nesse sentido, a história sobre um tesouro perdido em navio naufragado cai como uma luva. Ele é disputado por um colecionador inescrupuloso e o verdadeiro herdeiro, o Capitão Haddock. Diferentemente dos quadrinhos, ele e Tintim, um jovem e entusiasmado repórter investigativo, não se conhecem e só se tornam amigos durante a aventura.

Outras mudanças foram feitas, como o encadeamento dos fatos e a estranha mudez do cachorro Milú, que de vez em quando falava na trama original, publicada nos livros O segredo do Licorne (1943) e O tesouro de Rackham, o terrível (1944). A opção pela animação 3D, com tecnologia semelhante a usada em Avatar, e a captura de movimento de Senhor dos anéis - o diretor Peter Jackson assina a produção de Tintim - contam a favor.

Além de homenagear o personagem, As aventuras de Tintim é um tributo ao próprio cineasta. Não por acaso, o diretor disse que Tintim é o verdadeiro pai de Indiana Jones. Há também referências a Tubarão. Desde sempre, Spielberg procura nos remeter a uma época menos cínica do que a atual. Tintim talvez seja essa síntese. Só por isso, já valeria a pena assistí-lo.

(Diario de Pernambuco, 20/01/2012)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tudo a seu tempo



Ao narrar a amizade entre seres humanos e um animal, Steven Spielberg resgata um tema tão clássico quanto a estética por ele adotada para esta nova produção. Como mestre da narrativa norte-americana, ele age com a certeza de que o formato é tão importante quanto a história em si. Sua filmografia é dividida entre aventuras, ficção-científica e dramas. Em comum, o forte apelo às emoções.

É o caso de Cavalo de guerra (War horse, EUA 2011), em que o protagonista é o próprio cavalo, sem que haja nada de ridículo nisso. Ao contrário, Joey é um animal admirável, forte, que desperta fascínio em quem dele se aproximar.

O pano de fundo, a primeira guerra, é terreno fértil para Spielberg, que reconstitui trincheiras e frentes de guerra com a mesma competência com que constrói as belas cenas das pradarias britânicas nas quais nasceu Joey, criado por Albert (Jeremy Irvine), filho único do frágil núcleo familiar que mobiliza o início do filme, marcado pela luz artificial e grãos saturados pelo padrão Technicolor dos filmes antigos.

Bêbado e doente, o pai (Peter Mullan) compra Joey em leilão e quase vai à falência, não fosse a força da mãe (Emily Watson) e Joey aprender a puxar o arado. Vendido às forças da Rainha, o animal tem pela frente uma jornada odisseica, em que os humanos são coadjuvantes.

Sequências de ação são magníficas. Além da conhecida moral spielberguiana, em defesa de valores tradicionais e familiares, é um claro reeditar de um filme à moda antiga - sem a usual pressa dos produtos de multiplex e, em plena era digital, com imagens 100% artesanais. É quase um acinte, não fosse Spielberg um dos principais criadores do cinema contemporâneo.

(Diario de Pernambuco, 06/01/2012)

Longa vida ao cinema de Pernambuco



Para a crítica nacional, Praça Walt Disney é o melhor curta-metragem brasileiro de 2011. O filme de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira foi eleito pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema, que divulgou ontem o resultado de uma votação que envolveu 23 críticos. É a coroação de uma carreira que começou em janeiro passado, na Mostra de Tiradentes (MG) e chegou a importantes festivais do mundo, como o de Havana e Locarno. Outra nova informação, PWD foi selecionado para o Festival de Roterdã, onde participa da seção Spectrum.

“O filme já esteve na mostra oficial de Locarno”, explica Sérgio Oliveira. Locarno, aliás, foi favorável a outro curta pernambucano, Mens sana in corpore sano, que recebeu menção honrosa. Da recente produção local, o filme de Juliano Dornelles disputa com o de Sérgio e Renata o título de mais bem-sucedido do ano. Outro atestado de qualidade, eles (mais As aventuras de Paulo Bruscky e os documentários Avenida Brasília Formosa, Pacific e Crítico) disputam o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, espécie de Oscar nacional.

No balanço feito por Sérgio, ele observa que apesar da boa aceitação de PWD, ele foi solenemente ignorado “em casa”, pelo Cine PE. “Pelo que soube, a comissão não soube em que categoria colocar o filme, que não pode ser facilmente classificado como ficção, documentário ou videoarte. Pra mim, isso soa como um elogio”.

Inteiramente realizado na ensolarada Boa Viagem, o curta constrói, em 21 minutos, um ponto de vista ao mesmo tempo crítico e bem humorado sobre a cacofonia cultural e arquitetônica ao redor da praça que o batiza. Para além do discurso, frente à beleza plástica de Praça Walt Disney, vale assumir o risco de dizer que o bairro nunca foi exposto de forma tão bonita e sincera. Sem falar que é uma bem sacada homenagem à história do cinema. Sem nunca ter pisado em Boa Viagem, lá estão os irmãos Lumière, Jacques Tati e o próprio Walt Disney, em sequência à beira-mar que remete ao clássico Fantasia, de 1940.

Não raro, Pernambuco vem gerando curtas impactantes e reconhecidos, basta lembrar Recife frio, de Kleber Mendonça Filho e Superbarroco, também assinado por Renata Pinheiro. De acordo com Luiz Zanin, presidente da Abraccine, Praça Walt Disney foi eleito o melhor curta do ano pela “proposta estética inovadora, aliada a uma pegada política e de crítica social que tem caracterizado o cinema pernambucano contemporâneo”.

O crítico continua: “sem qualquer discurso panfletário, o filme nos joga no universo da especulação imobilária que está ameaçando destruir o Recife e nos faz avaliar os desníveis sociais marcantes do Brasil urbano, que cresce a ritmo acelerado. É um filme que nos conquista pela acuidade formal, pela inserção crítica em seu meio e pelas camadas de leitura que proporciona a cada vez que o revemos. Muito bom mesmo”.

Crítica nacional elege os melhores - Além de Praça Walt Disney, a Abraccine elegeu Árvore da vida, de Terrence Malick e Transeunte, de Eryk Rocha, como os melhores filmes de 2011. É a primeira vez que a crítica nacional reúne esforços em torno de uma premiação. O mesmo pode ser dito sobre uma entidade nacional, que foi criada há seis meses e que comporta 80 sócios de 14 estados, entre nomes de reconhecida importância, como Ismail Xavier e Rubens Ewald Filho.

Mas por que Árvore da vida, e não Melancolia? E sim para Transeunte, em detrimento de Trabalhar cansa ou O Palhaço? “Os prêmios foram obtidos num processo de longa discussão interna entre os associados”, diz Luiz Zanin, sobre o processo de votação. “A Abraccine congrega críticos importantes, atuantes nos veículos mais conhecidos em seus estados, profissionais da mídia impressa e eletrônica. O prêmio espelha a filosofia central da entidade: qualificação profissional, respeito à diversidade regional do país, recusa de bairrismos e democracia interna”.

De acordo com João Carlos Sampaio, um dos deveres da crítica é “identificar tendências e louvar o risco” e certamente o experimentalismo congênito dos três filmes os levaram à consagração. “Os filmes que mais se arriscam nem sempre são os que erram menos, mas certamente os que estão mais perto de trazer contribuições para a evolução da linguagem, para o questionamento dos discursos, para a mudança de rumos, enfim, para a necessidade que a arte tem de ser arejada por novas correntes de ar”.

(Diario de Pernambuco, 06/01/2012)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Muppets, o verdadeiro 3D



De hoje a quinta-feira, às 18h e 20h10, no Cinema Rosa e Silva. Estas são as últimas sessões de Os Muppets nas salas locais. Dos filmes baseados no programa de TV, este é sem dúvida o melhor. Estrelado e escrito por Jason Siegel, fã assumido, o longa é produzido pela Disney, que soube respeitar o espírito dos personagens criados por Jim Henson nos anos 1950. Com direção de James Bobin, o longa traz elementos de musicais, teatro e humor que marcaram as esquetes originais.

O clima remete a um mundo infantil e nonsense, com elementos de loucura e artesania cada vez mais raros no cinema infanto-juvenil. Sem um único recurso digital, apenas com bonecos de tecido manipulados à mão, Os Muppets são o verdadeiro 3D.

A trama traz o casal Gary (Siegel) e Mary (Amy Adams), que prepara viagem para Los Angeles, em comemoração ao 10º ano de namoro. A história ameaça cair no romance meloso, mas Walter, o irmão-boneco de Gary, quebra o açúcar ao aproveitar a viagem para visitar o antigo estúdio dos Muppets. Lá, descobrem que um milionário (Chris Cooper) ambiciona derrubar o prédio. O trio avisa Kermit (nome original de Caco), que resolve convocar a velha turma para salvar o estúdio com um último show. Enquanto isso, Mary desafia Gary a escolher entre os bonecos ou ela.

Durante o filme, boas participações de Jack Black, Whoopi Goldberg, Jim Parsons, Alan Arkin, Zach Galifianakis, Selena Gomez.

No auge da crise, o Muppet Show vai ao ar com esquetes impagáveis: Gonzo, o alienígena-bala; Animal e sua banda hippie; Caco e seu banjo; os velhinhos rabugentos no balcão. Costumávamos adorar esses bonecos. Por que esquecemos o que amamos? Vale refletir.

(Diario de Pernambuco, 02/01/2012)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

2011-2012: cinema em franca ebulição



O ano de 2011 foi intenso para o cinema, que sem dúvida refletiu o processo de transição mundial. Dado o panorama de eventos políticos, sociais e econômicos, não deixa de ser sintomática a recorrência de superproduções escapistas como Harry Potter, Amanhecer e Transformers, que ocuparam os cinemas do mundo com a mesma sanha imperialista de uma incursão no Oriente Médio.

A estratégia deve crescer em 2012, principalmente com as franquias O espetacular Homem-Aranha, Batman - O Cavaleiro das Trevas ressurge, A era do gelo 4, Madagascar 3, O legado Bourne, G.I. Joe 2, Homens de Preto 3, Os Vingadores e Motoqueiro Fantasma 2. Grandes diretores apresentarão novas obras, a começar por Steven Spielberg (Cavalo de guerra), Guy Ritchie (Sherlock Holmes 2), Peter Jackson (O Hobbit) , Clint Eastwood (J. Edgar, com Leonardo DiCaprio), David Fincher (Homens que não amavam as mulheres, com Daniel Craig), Ridley Scott (Prometheus), Ang Lee (The life of pee) e David Cronenberg (Um método perigoso).

Em 2012, o 3D ganhará o reforço dos mestres Spielberg e Peter Jackson, que assinam As aventuras de Tintim, com estreia de janeiro; em fevereiro, é a vez de Martin Scorsese com A invenção de Hugo Cabret; em março, Wim Wenders faz tributo à coreógrafa Pina Bausch. Star Wars, Titanic, Procurando Nemo e A Bela e a Fera serão relançados, devidamente adaptados à técnica.

Eventos como a primaveira árabe, a crise financeira europeia e o drama político-social na Rússia pouco afetaram as produções norte-americanas. A grande exceção é Margin Call - O dia antes do fim, drama corporativo com Kevin Spacey e Jeremy Irons sobre o crash de 2008 (ainda inédito no Recife). No mais, a preferência foi por conflitos do passado, como a guerra fria (Missão Impossível 4) e a Segunda Guerra (Capitão América e X-Men - Primeira classe). Já os alienígenas nos deixariam em paz não fossem o nostálgico Super 8 e o horroroso Lanterna verde. E por falar em heróis, além dos X-Men, os melhores momentos vieram de personagens não-originários dos quadrinhos: Besouro Verde de Michel Gondry e Sucker Punch, de Zack Snyder.

2011 também foi o ano de Woody Allen, que Meia-noite em Paris, filme mediano e adorável, bateu seu recorde de bilheteria no Brasil. Ao contrário das produções hollywoodianas, o escapismo dourado de seu alter-ego (Owen Wilson) faz todo o sentido, pois leva à libertação. Terrence Malick é outro grande destaque do ano. Com A árvore da vida, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, tirada das mãos de Lars Von Trier, que não conseguiu fazer graça com o nazismo e foi expulso do festival. Mesmo sem o prêmio máximo do cinema mundial, Melancolia se impõe como melhor filme do ano. Não somente pelos atributos estéticos (principalmente a fotografia e a atuação de Kirsten Dunst), mas pela pertinência filosófica que melhor traduz o espírito de nossa época.

Sim, coube ao cinema europeu e asiático escancarar as contradições do presente. De Isto não é um filme, manifesto do iraniano Jafar Panahi enclausurado pelo governo de seu país, a A pele que habito, prospecção psicológica de Pedro Almodóvar sobre o fetiche da cirurgia plástica. De Cópia fiel, em que Kiarostami expõe as fragilidades do jogo afetivo-social, preso a papéis pré-definidos, ao russo Um sábado inocente, em que funcionários de Chernobyl não conseguem fugir do desastre enquanto se embriagam numa festa de casamento. Após o desastre de Fukushima, o filme ganhou estranha atualidade. Como diria Buñuel: a realidade é bem maior que os olhos podem enxergar.

Cinema nacional se multiplica

Dos dez maiores mercados do país, o Recife é o que mais prestigia o cinema nacional. De acordo com o portal de análise do mecado FilmeB, 19,5% do público da capital pernambucana assistiram a filmes brasileiros em 2011. Prova de que a vitalidade da produção nacional não está somente no potencial criativo dos filmes independentes, que neste ano tiveram mais espaço no latifúndio exibidor graças ao projeto Vitrine. Está também na capacidade de atrair muita gente para as salas de cinema.

No cinema comercial, comédias e melodramas predominam. Com um público de 3,5 milhões, De pernas pro ar, de Roberto Santucci, é a maior bilheteria do ano. Cilada.com, Qualquer gato vira-lata, O homem do futuro, Bruna Surfistinha e Assalto ao Banco Central também ultrapassaram a marca de um milhão de espectadores. A tendência deve se repetir em 2012, em filmes como As aventuras de Agamenon, o repórter, com Marcelo Adnet e Luana Piovani; E aí, comeu?, com Bruno Mazzeo; Tainá 3 – A origem; e À beira do caminho, de Breno Silveira.

Se, por um lado, Tropa de Elite 2 e seus 11 milhões de espectadores se confirmaram como caso isolado, a boa nova é que, entre tantos filmes com os dois pés no entretenimento televisivo (e por isso tachados de “globochanchadas”), fomos surpreendidos pela sensível viagem cinematográfica de O Palhaço, escrito, dirigido e estrelado por Selton Mello, que ano que vem estrela as comédias Reis e ratos e Billi Pig.

Dois grandes nomes do Brasil apresentam novos trabalhos no mercado internacional: Fernando Meirelles, com 360, e Walter Salles, com On the road. De pernambuco, Era uma vez Verônica, de Marcelo Gomes e Febre do rato, de Cláudio Assis, são duas prováveis produções a ter carreira internacional, assim como Praia do Futuro, de Karim Aïnouz. Também vêm aí, A hora e a vez de Augusto Matraga, com Fernanda Montenegro, João Miguel e José Wilker (em 2012, Wilker estreia como diretor em Giovanni Improtta); Xingú, de Cao Hamburger; Corações sujos, de Vicente Amorim; e Paraísos artificiais, de Marcos Prado, com produção de José Padilha.

Nos 15 anos de morte de Renato Russo, os fãs da Legião Urbana não podem reclamar. Neste ano, ganharam o documentário do mestre Vladimir Carvalho Rock Brasília – Era de ouro. E, ano que vem, estreiam Faroeste Caboclo e Somos tão jovens, a cinebiografia de Russo. Os dez anos de morte de Cássia Eller também serão lembrados em documentário de Paulo Henrique Fontenelle (Loki). E Raul Seixas ganha o filme O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho.

Em Pernambuco, o cenário não poderia estar melhor. Com o novo edital do audiovisual (R$ 11,5 milhões), a produção deve se fortalecer. Começamos 2012 com três longas em 35mm na agulha: Verônica, Febre do rato e O som ao redor, de Kleber Mendonça. E 2011 certamente ficará na memória dos cinéfilos que, nos 40 anos de Laranja Mecânica puderam assistir a todos os filmes de Stanley Kubrick no São Luiz, um luxo só equiparado à mostra promovida em Paris, pela cinemateca francesa.

Maiores bilheterias (Brasil)

1. Rio
2. Amanhecer - parte 1
3. Harry Potter e as relíquias da morte - parte 2
4. Os Smurfs
5. Piratas do Caribe
6. Enrolados
7. Transformers: o lado oculto da lua
8. Carros 2
9. Velozes e furiosos 5
10. Capitão América: o primeiro vingador

Fonte: Filme B

Os dez melhores de 2011 (estrangeiros)

1. Melancolia, de Lars Von Trier
2. Tio Boonmee que pode recordar de suas vidas passadas, de Apichatpong Weerasetakhul
3. Cópia fiel, de Abbas Kiarostami
4. A pele que habito, de Pedro Almodovar
5. A árvore da vida, de Terrence Malick
6. O lutador, de David Russell
7. Homens e Deuses, de Xavier Beauvois
8. Super 8, de J.J. Abrams
9. Meia noite em Paris, de Woody Allen
10. X-Men - primeira classe, de Matthew Vaughn

Os dez melhores de 2011 (nacionais)

1. Trabalhar cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas
2. Estrada para Ythaca, de Luiz e Ricardo Pretti e Guto Parente
3. O Palhaço, de Selton Mello
4. Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro
5. Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano
6. Pacific, de Marcelo Pedroso
7. As canções, de Eduardo Coutinho
8. Ex-isto, de Cao Guimarães
9. Transeunte, de Erick Rocha
10. O céu sob os ombros, de Sérgio Borges

(Diario de Pernambuco, 28/12/2011)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sufocante padrão de consumo



Representante brasileiro no último Festival de Cannes, Trabalhar cansa é um dos melhores filmes do ano e um caso à parte na recente produção nacional. Com a chancela dos festivais de Paulínia e Brasília, ele será exibido no Recife hoje, às 18h30, dentro da programação do Expectativa 2012/Retrospectiva 2011 do Cinema da Fundação.

Dirigido por Marco Dutra e Juliane Rojas, o longa utiliza recursos do cinema sobrenatural para desdobrar as dificuldades de uma família de classe média em decadência que se esforça para manter certo padrão de consumo.

O pai (Marat Descartes) acaba de ser demitido da empresa para a qual dedicou metade de sua vida adulta. A mãe (Helena Albegaria) abre um mercadinho. Enquanto luta para viabilizar o empreendimento, Abegaria (em ótima atuação) radicaliza na postura senhorial com os empregados, mesmo sem autoridade (ou conta bancária) para tanto.

A náusea que sentimos vem da condição de Descartes, que sente na pele o cinismo utilitarista dos departamentos de RH, ou do encanamento quebrado, que deixa o mercado com insuportável odor? São vários os ruídos estranhos. Eles representam o estado psicológico dos personagens ou algo misterioso, a ser revelado?

O olhar para as contradições e amarguras da vida social brasileira através da intimidade do núcleo familiar remete a filmes de Leon Hirzman (São Bernardo) e Sérgio Bianchi (Os inquilinos), mais longe ainda, à filmografia italiana do pós-guerra, Vittorio de Sica, Mario Monicelli.

Com um grande porém: o sentimento de revolta e mal-estar é construído com requinte estético e peculiaridades pouco comuns a produções engajadas. Uma narrativa fantástica que não se resume ao escapismo. Pelo contrário, se justifica por estar atrelada a uma observação afiada sobre o verniz de civilidade que, em nome da sobrevivência, é trocado pelo que há de cruel e selvagem nas relações humanas.

A estratégia remonta à escola surrealista, de Buñuel a David Lynch. Que de alienados, não têm nada. Tratar o irreal com naturalidade é metáfora precisa para retratar as contradições e a morbidez com que se estabelecem as relações.

(Diario de Pernambuco, 08/12/2011)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Safra de curtas tem seu janelão



Começa hoje o 13º Festival de Video de Pernambuco, a maior janela para a recente safra de curta-metragens produzidos no estado. São 50 filmes, em sessões diárias e gratuitas, até a próxima sexta-feira. Pelo segundo ano, o evento é realizado no Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 184 - Boa Vista). E é a primeira vez desde que o majestoso cinema de rua se tornou propriedade pública.

Não é pouco. Além de ser o principal incentivador do audiovisual pernambucano e oferecer um dos melhores e mais generosos editais do país, o governo do estado agora oferece um espaço à altura da produção que patrocina. Falta modernizar o equipamento, é verdade. Como já foi dito antes, a maioria dos filmes com a logomarca da Fundarpe é realizado em suporte digital. O São Luiz, no entanto, não conta com tecnologia para exibi-los.

Por isso, o evento precisou alugar um projetor digital, o mesmo utilizado no Festival de Triunfo. Carla Francine, coordenadora de audiovisual da secretaria estadual de cultura, diz que ano que vem será aberta uma licitação para compra de um projetor próprio. “Agora que adquirimos o cinema, a prioridade é equipá-lo com o que há de melhor. Estamos todos empenhados nisso”.

O formato das exibições é o mesmo de sempre, com o detalhe de que a antiga Mostra Universitária agora se chama Mostra de Formação. Na Mostra Geral serão oferecidos R$ 40 mil em prêmios e comissão é formada por Ângela Prysthon, Germana Pereira e Rose Lima (júri Formação) e Francisco Baccaro, Isabela Cribari e Paulo Meira (júri Geral). Neste última, concorrem 40 curtas de cinco gêneros: documentário ficção, videoclipe, experimental e animação. Três concorrentes fazem parte do projeto Olhares sobre Lilith, livre adaptação da obra As filhas de Lilith, de Cida Pedrosa: Rosana, de Kátia Mesel; Wilma, de Eva Jofilsan; e Úrsula, de Luci Alcântara.

Na terça de manhã, haverá programação especial em parceria com o Dia Internacional da Animação, para 500 estudantes do ensino médio da rede pública, seguida de debate com realizador Marcos Buccini. Durante a semana, três oficinas serão oferecidas pelo festival, no período da manhã e tarde, na Fundação Joaquim Nabuco / Derby: Laboratório de Roteiros, com o cineasta Torquato Joel; Direção de Arte, com Silvia Macedo; e Realizando em 1 Minuto, com Alice Gouveia.

Outra boa notícia é que o espaço de convivência promovido pelo MediaLuna Gourmet no primeiro andar do São Luiz está de volta. A experiência funcionou bem durante o Janela Internacional. Festival não se resume a exibir filmes. Principalmente, deve proporcionar um ambiente de encontro e fluxo de ideias.

Seminário - Pela primeira vez, o Festival de Vídeo realiza o seminário Cinema: Mercado e Distribuição no Brasil. Será nos dias 15 e 16, no auditório do IPHAN (Palácio da Soledade, antigo Colégio Nóbrega - Boa Vista). “O governo tem feito um investimento crescente no audiovisual. Temos mais de 30 longas sendo produzidos no estado. Precisamos discutir estratégias de ocupação do mercado, de como fazer circular essa produção premiada em festivais, bem cotada pela crítica, mas que não está nas salas de cinema”, diz Carla. Para aprofundar o assunto, estarão no Recife o distribuidor Jean-Thomas Bernardini (Imovision), Sérgio Sá Leitão (RioFilme), Paulo Sérgio Almeida (FilmeB), Adhemar de Oliveira (Arteplex), entre outros, além de Kleber Mendonça (realizador, produtor e programador do Cinema da Fundação), João Jr (REC Produtores Associados), Isabela Cribari (produtora e realizadora), Mannu Costa (presidente da ABD/PE) e do secretário de cultura do estado, Fernando Duarte.

Programação

Segunda

19h | Mostra Competitiva de Formação
Fulô de açucena, de Marcos Carvalho
Sem energia, de Tiago Rocha
Quarteto simbólico, de Josias Teófilo
No caminho de claranã, de Marcos Carvalho
Bexiga, de Felipe Almeida e Vinicius Gouveia
Estella, de Priscilla Andrade

20h | Mostra Competitiva Geral
Café Aurora, de Pablo Polo
Setembro, de Pedro Severien e Rodrigo Campos
Grace, de Geórgia Alves
Mãe do mundo, de Ayla Alencar
Acercadacana, de Felipe Peres
O macaco e o rabo, direção coletiva dos alunos da disciplina animação digital
To doidão, de Alessandro Guedes
Solar dos Príncipes, de Bruno Mendes e Henrique Eduardo
16° Andar, de Celso Vinicius Sales
Vou tirar você da cara, de Ana Olívia Godoy, Danielle França e Jean Santos

Terça

9h | Mostra Especial CineCabeça / Dia Internacional da Animação
Mostra Nacional de Cinema de Animação 2011

19h | Mostra Competitiva
de Formação
Case, de Adalberto Oliveira
Marcha das vadias, de Gabriel Parente, Ramon Dias e Caio Cagliani
A fome, de Luciano Monteiro
Os atores, de Adalberto Oliveira, Benjamin Ruschi, Carol Correia, Gabi Saegesser, Jéssica Coelho e Klaudya

20h | Mostra Competitiva Geral
Com paixão, de Alexandre Lucena
A ponte, de José Cahue
Sha-layam!, de Neco Tabosa, Marcelo Lyra, Beto Figueiroa, Raphaela Spencer, Renato Spencer, Rafa Medeiros, Tom Cabral e Jr. Black
Rosana, de Kátia Mesel
Vou Estraçaiá, de Tiago Leitão
No Limite, de Adalberto Oliveira
Coração Delator, de Júlia Araújo e Nathália D’Emery
Frotteurismo já – Monstro Amor, de Grilo
Turno da noite, de Henrique Spencer
Calma Monga, calma!, de Petrônio de Lorena

Quarta

19h30 | Mostra Competitiva Geral
Cavalo-marinho: no passo da brincadeira, de Clecio Sobral e Magda Negromonte
O baile de Betinha, de Chiarina Maria Beloto
A rapadura é nossa, de Maria Filomena
A saudade de Severina, de Shivo
Erickson Luna, de Osman Godoy
FEIJAM- Resistência %2b Cultura Popular, de José Diniz
Velho Samba da Ilha, de Chico Egídio
Coco de improviso e a poesia solta no vento, de Natália Lopes

Quinta

19h30 | Mostra Competitiva Geral
Dia estrelado, de Nara Normande
Palavra plástica, de Léo Falcão
Zip, de Felipe de Araújo, Marlon David e Túlio Bonagura
Úrsula, de Luci Alcântara
Vendo meu voto: tratar aqui, de Lia Letícia
Homem-Planta, de Pedro Severien e William Paiva
Pelos muros, de Igor de Lyra
A festa de Isaac, de Ianah Maia
Corpo líquido, de Ana Lúcia Diniz e Alan Tonello
Saudade do mundo, de Bidu Queiroz
Ciclo do ser, de Paulo Leonardo
Wilma, de Eva Jofilsan

Sexta

20h | Cerimônia de Premiação

(Diario de Pernambuco, 05/12/2011)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A mordida do vampiro



Tem sido cada vez mais recorrente o circuito de exibição brasileiro ter metade das salas ocupadas por um único filme. Somente este ano, tivemos três: em abril, o desenho Rio, de Carlos Saldanha, estreou em 1.024 salas; o último Harry Potter, 915; agora, assistimos à quarta sequência da saga Crepúsculo, Amanhecer - Parte 1, chegar a 1.100 salas do país. Além da onipresença, o blockbuster se tornou a maior abertura da história brasileira - somente no primeiro fim de semana, 1,721 milhão de pessoas assistiram ao romance dos vampiros.

É sem dúvida uma relação bem sucedida entre distribuidores, exibidores e público. No entanto, se duas produções do mesmo porte forem lançadas ao mesmo tempo, teremos de 2.225 salas exibindo dois filmes. No mínimo, uma anomalia. Seria esta uma prática de mercado razoável, ou uma ocupação vampiresca?

Daqui por diante, o parque exibidor receberá lançamentos cada vez maiores e por menos tempo em cartaz. É a forma encontrada pela indústria para obter lucro máximo e driblar a pirataria. Talvez por isso, nos Estados Unidos, a queda na bilheteria de Amanhecer foi de 76% entre as duas primeiras semanas, a maior entre todos os filmes da série. Enquanto alguns comemoram, outros setores reagem. Em seu blog, a Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (www.abraccine.wordpress.com) publicou uma série sob o título “O Crepúsculo do circuito brasileiro”.

Luiz Zanin, crítico do Estadão e presidente da Abraccine, diz que a Argentina cobra imposto progressivo sobre megalançamentos. Aos defensores da não-regulamentação, pergunta: “Não se dão conta de que uma ocupação militar do mercado, como essa, é que é o verdadeiro atentado à livre circulação das (outras) obras?”

Programador do Cinema da Fundação, Kleber Mendonça Filho lembra do modelo francês, que direciona parte das grandes bilheterias para o cinema nacional. “A ideia é tão boa que não vejo sendo usada no Brasil. Imagine, todos torcendo para Amanhecer deixar R$ 40 milhões para a produção local”. Enquanto os vampiros invadiam o circuito comercial, o Cinema da Fundação colocou em cartaz três filmes nacionais, ao mesmo tempo. A partir de sexta, serão 40 produções em dez dias, na Retrospectiva 2011/Expectativa 2012.

“Claro que nunca é bom metade da nação ser coberta por um único filme”, avalia Kleber. “O público pode até gostar, mas o efeito é o de uma escola onde as pessoas são direcionadas para determinada visão de mundo. É como decretar que todo o país vai comer McDonald’s. Do ponto de vista da cultura, não é nada saudável. Mas pode parecer ingenuidade pensar em cultura quando o que existe é o mercado”.

Doutor em sociologia, o professor da UEPB Luciano Albino diz que Hollywood está monopolizando um mercado cada vez maior e ao mesmo tempo, reduzido para a concorrência. “É assim em outros setores da economia, como o automobilístico. Grandes empresas controlam o mercado. Junto com esses produtos está se consumindo uma carga simbólica, um indissociável padrão ideológico. Concorrer com esse padrão é complicado. Mais fácil é juntar-se a ele, como a Globo vem fazendo”.

São pontos estratégicos, que apontam para questões de supremacia. Será que o público de fato escolhe o que vai assistir no cinema? Responde o pensador francês Jean Baudrillard: “a liberdade e a soberania do consumidor não passam de mistificação”.

Blockbusters como aliados?

No mercado há 30 anos, o programador dos complexos UCI Ribeiro Pedro Pinheiro diz que não é comum um filme atrair tanto público fora do período de férias ou feriado prolongado. Ao contrário dos críticos, ele vê os blockbusters como aliados dos demais filmes. “Eles subsidiam os demais. Avatar, por exemplo, subsidiou o mercado 3D e a abertura de novas salas. Isso ajuda os filmes que virão depois. Este ano, Woody Allen bateu recorde de público porque havia mais salas, para ele e para os filmes nacionais. Um bom exemplo é O palhaço, que entrou em 500 salas e fez 1 milhão de espectadores”.

Kleber Mendonça discorda. “Amanhecer traz luxo e riqueza para o mercado, mas não significa que pode ter expansão da variedade. O parque exibidor aumenta para exibir a mesma coisa. Nos anos 1990, o Recife tinha oito salas para Hollywood e nenhum espaço para outros filmes. Hoje temos 44 salas e continua a mesma coisa. Recife é cidade estranha pois tem base de cultura muito forte e o circuito continua pobre, não reflete o perfil de cultura da cidade. Mas público é como água, sempre vai achar maneira de ir atrás do que gosta”.

(Diario de Pernambuco, 29/11/2011)

sábado, 26 de novembro de 2011

Da palavra à imagem



O escritor paulista Marçal Aquino está no Recife. O motivo é dos melhores, uma conversa sobre cinema e literatura. Quem promove é a 2ª Mostra Sesc de Literatura Contemporânea. O evento será hoje, às 19h, no salão de eventos do Sesc Santa Rita, com entrada franca. Autor de 13 livros e dezenas de roteiros para cinema e TV, Marçal esteve na cidade pela última vez em 2009, a convite da Bienal do Livro. Agora volta para tratar de questões relativas à adaptação da palavra à imagem. Entre os escritores brasileiros, é o mais tarimbado no assunto. E um dos poucos que adaptam o próprio trabalho para o cinema.

Seu currículo inclui os roteiros de todos os filmes de Beto Brant (Os matadores, Ação entre amigos, O invasor, Crime delicado e o recente Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios), além de Nina e O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia. Para a TV, é responsável (com Fernando Bonassi) pelo seriado global Força-tarefa. A parceria deu certo. Já preparam outra série policial, que estreia ano que vem.

Formado em jornalismo - daí a familiaridade com o mundo cão e situações limite, Marçal não vê conflito entre as atividades. Diz que sua prioridade sempre foi a literatura. “É a minha casa. Me preparei para isso a vida inteira, é efetivamente o que gosto de fazer. Os roteiros são meu ganha-pão. Não fosse isso, estaria trabalhando em alguma redação”.

Marçal diz que, a não ser como espectador, nunca quis nada com o cinema. Entrou por acaso. “Em matéria de atividade economicamente inviável, já basta a literatura”, brinca. “Enquanto Beto filmava Os matadores, encontraram dificuldade na adaptação e eu disse o que faria se fosse o roteirista. Não tinha experiência nenhuma, só um curso na faculdade”.

A sintonia com Beto Brant, de quem não se diz roteirista, mas “parceiro de aventuras cinematográficas”, vem de um pouco antes. “Ele quis adaptar um livro meu. Não deu certo, mas nos aproximamos e estabelecemos uma relação de amizade. Ele é muito afetado pela literatura, todos os filmes dele têm base literária. Meu trabalho é criar condições para que ele realize o seu trabalho”.

Como cinéfilo, usa o pouco tempo livre para assistir à produção sul-coreana. “No momento, na minha opinião, ninguém faz cinema como eles”. Não são violentos demais? “Não tanto quanto Sam Peckimpah (Meu ódio será tua herança) ou Gaspar Noé (Irreversível). O que me atrai neles é a próximidade à história em quadrinhos”.

E é justamente pelos quadrinhos, sua primeira paixão, que se explica a força imagética da prosa de Marçal. “Dizem que minha ‘literatura visual’ tem a ver com o trabalho como roteirista, mas meu primeiro impulso artístico vem dos quadrinhos, que é o cinema estático. Já cheguei a desenhar, mas hoje sou só leitor. Meu trabalho é a palavra”.

Atualmente, além de trabalhar para a Globo, o escritor se dedica ao próximo livro, Como se o mundo fosse um bom lugar. Sobre ele, nem uma palavra. “Decidi não falar sobre o que está sendo feito. Não é superstição. Vou descobrindo o livro na medida em que escrevo. Quanto mais certezas eu tiver, pior”.

(Diario de Pernambuco, 26/11/2011)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cinema, cidade e solidão



O cinema independente tem sido pródigo ao refletir sobre a desordem urbana das grandes cidades. A produção argentina Medianeras - Buenos Aires na era do amor virtual, de Gustavo Taretto, é uma bela investigação de como o tema incide nas relações e subjetividades que produzem o sentimento de estar só, mesmo na multidão. A boa carreira em festivais (somente em Gramado, foram três prêmios principais) contribuiu para que o filme chegasse ao circuito nacional. No Recife, conseguiu janela na programação do Cine Rosa e Silva, programada por Carol Ferreira.

Medianeras é mais uma prova da vitalidade do cinema argentino contemporâneo. A sequência inicial deflagra recortes da paisagem urbana de Buenos Aires, em instigante montagem costurada pela voz do protagonista (Javier Drolas), jovem webmaster de tendências depressivas e que passa 99% da sua vida na internet. Ele chama atenção para as “irregularidades éticas e estéticas” da cidade, que se expande “sem planejamento, como nossas vidas”.

Medianera, o próprio filme explica, é a parede sem janelas dos edifícios, geralmente mofadas ou usadas como outdoor publicitário. Em um desses prédios está a arquiteta vivida por Pilar Lopez de Ayala (a bela falecida de O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira), arquiteta recém-separada que tenta se readaptar à casa em que morou há quatro anos. O exercício de “procurar beleza onde não existe”, nas medianeras, levará ao encontro, à religação?

Uma sequência em desenho animado, referências diretas a Onde está Wally?, e o espírito de melancolia pop fazem do filme uma ode à juventude viciada no mundo online - e pouco à vontade fora dele. No entanto, a maior influência do filme está em Woody Allen, assumida quando uma sequência inteira de Manhattan (1979) preenche a tela. Buenos Aires não é Nova York. Mas para o cinema, isso é o que menos importa.

(Diario de Pernambuco, 25/11/11)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Entre o psicológico e o sobrenatural



Suspense psicológico acima da média, A casa dos sonhos (Dream house, EUA, 2011) chama a atenção já pelo cartaz: duas garotas, de costas, têm a estampa de seus vestidos fundida com o papel de parede da casa, supõe-se, onde moram. Seriam elas fantasmas ou fruto do delírio? O segundo atrativo é o elenco, liderado por Daniel Craig, Rachel Weisz, Naomi Watts e Elias Koteas. Isso, aliado à direção do irlandês Jim Sheridan (Meu pé esquerdo, Em nome do pai, O lutador), é suficiente para valer a ida ao cinema.

Lá encontramos Craig no último dia de trabalho. Pediu demissão, quer se dedicar mais à família, para a qual acaba de comprar uma casa nova, no subúrbio. Em conversa com a esposa (Weisz), ele comenta sobre o livro que pretende começar a escrever. O sossego acaba logo que Craig descobre um grupo de adolescentes no porão, em culto para o assassino que matou brutalmente os antigos moradores. Teria ele levado sua família para uma casa amaldiçoada?

O roteiro traz uma série de reviravoltas ao redor de Craig, o que evita a vala comum dos filmes de serial killer. Novas informações causam vertigem, e quando o chão lhe falta aos pés, a vizinha da frente (Naomi Watts) se revela aliada, ao contrário de seu ex-marido. Entre o psicológio e o sobrenatural, A casa dos sonhos está diretamente ligado a O iluminado, de Kubrick, não somente pela referência às irmãs que vagam no Overlook Hotel. Há nele o fantasma de Jack Torrance, vivido com maestria por Jack Nicholson. Claro que o filme de Sheridan não chega a tanto. Ao contrário, pelo tanto que promete, fica aquém das expectativas. Mesmo assim, vale a sessão.

(Diario de Pernambuco, 06/11/2011)

domingo, 6 de novembro de 2011

Críticas sobre a cidade



Olhar para a cidade é um exercício que remonta aos primórdios do cinema. Em 1895, os irmãos Lumiére fizeram história como registro de operários saindo da fábrica. Da mesma forma, no começo dos anos 1920, Ugo Falângola e J.Cambiere filmaram as novidades do Recife moderno: o bonde, o movimento do porto, os armazéns. Um século se foi e um novo boom econômico está remodelando esse mesmo espaço. Mas ao contrário dos pioneiros do cinema, realizadores contemporâneos olham para as mudanças de forma bastante crítica.

Parte dessa produção foi reunida pela 4ª Janela Internacional de Cinema do Recife, que na próxima terça-feira promove o programa especial O cinema e o espaço urbano do Recife, que inclui cinco curtas. Considerando as diferentes abordagens e discursos dos filmes, que vão da leveza poética ao protesto radical, o debate entre cineastas e arquitetos deve render bons momentos.

Antes, na segunda-feira, o próprio Janela fará uma intervenção inédita: a partir da cabine do Cinema São Luiz, imagens serão projetadas na parede externa do antigo Cine Trianon, do outro lado do Capibaribe. “Será uma sequência de imagens que passam por filmes exibidos pelo Janela, clássicos como Hitchcock e Pulp Fiction, junto com imagens urbanas do Recife”, diz Cris Gouveia, que coordena a atividade. “Como fosse um farol, do São Luiz sairá uma ponte de luz. Do outro lado há o antigo Trianon, um prédio emblemático, que representa um vazio particular, que chama a atenção para outros silêncios, anônimos”.

Para falar dos caminhos e descaminhos do Recife enquanto cidade, o Viver entrevistou os diretores dos curtas [projetotorresgemeas] e Quarteto simbólico, que estreiam no Janela Internacional, e o arquiteto urbanista Milton Botler, coordenador do Instituto da Cidade da Prefeitura do Recife. Deste último, surge um bom começo de conversa: “Tenho inveja dos cineastas, que em poucos anos podem ter seu filme montado. Quanto a mim, vou morrer sem ver a cidade como a planejamos”.

Gigantes na mira dos artistas - “Meia duzia de magnatas decidem o destino da cidade”. A frase, dita em certo ponto do [projetotorresgemeas], revela uma preocupação legítima. No filme, realizado por quase cinquenta artistas, são dados nomes aos bois dos que agem sem controle público ou em desacordo com um plano racional de urbanização.

Ideias podem ser bombas. O alvo, como sugere o título, são as torres monumentais, cravadas em território onde um dia foi anunciado um complexo cultural. Seu correspondente fálico, o órgão sexual masculino em riste, é a metáfora nada suave adotada pelo filme para descrever a situação. Mas o curta não trata somente do objeto, mas das mentalidades que o permitiram existir. Enquanto uma faxineira olha, do alto da área de serviço, para Brasília Teimosa, do outro lado, alguém faz o oposto e mira a sombra das torres no mar. Na rua, a ocupação dos sem-teto no antigo prédio público é vista por dentro. Em breve, ali será um centro de compras. “É uma escolha política fazer projetos arquitetônicos para a classe A quando se sabe que o centro da cidade pode oferecer uma série de opções para quem vive o déficit habitacional”, diz Felipe Peres Calheiros, um dos integrantes do projeto.

Se o aspecto visual do curta é o de uma colcha de retalhos, um correspondente estético ao caos urbano do Recife, o discurso é afiado. Há momentos de ironia e outros de alguma ingenuidade. Em comum, o signo da denúncia. “Não há projeto público socialmente referendado para o desenvolvimento do Recife. O que há é um projeto particular das empreiteiras, que conseguem implementar sem debate ou passar por um órgão regulatório dessas ações”, diz Marcelo Pedroso, outro membro do coletivo.

Felipe explica que foi questão de coerência realizar o filme coletivamente. “A beleza está na forma como pesquisamos um processo do fazer cinematográfico tão questionador quanto o conteúdo. Sem alguém que dirigisse despoticamente, conseguimos dar uma identidade para a obra”.

Milton Botler, arquiteto do Instituto da Cidade, diz que a discussão sobre preservação urbana perdeu a legitimidade porque tem sido restrita à academia e especialistas, não faz parte do cotidiano da cidade. “Acho bom que o cinema coloque essas questões, que devem vir mais vezes a público”.

Botler relativiza as reações contra a verticalização. “Ela representa menos de 20% da cidade, passa longe das periferias e bairros populares. Não dá pra ficar no conservadorismo, em que nada se mexe. Temos que olhar para a cidade e a memória pela dinâmica das transformações. A Avenida Guararapes, por exemplo, arrasou quarteirões e casarões coloniais, mas abriu espaço para arquitetura moderna”.

Memória arquitetônica - “Acho interessante que esse desconforto urbano da cidade se reflita no cinema, mas vejo alguns problemas, no geral. Um deles é falta de uma relação maior com a memória - é tudo muito focado na atualidade. Outra coisa é uma visão exclusivamente social da arquitetura, o que exclui a estética. Vejo também uma repetição da questão da verticalidade. Esse tema já foi muito explorado e de modo geral, de maneira rasa”.

A análise é de Josias Teófilo, jornalista radicado em Brasília. Seu novo curta, Quarteto simbólico, trata da obra de Delfim Amorim, um dos principais nomes da arquitetura moderna. Seus projetos trazem marcas típicas, como o uso de cobogós combinados com azulejos brancos e azuis. No Centro do Recife, dois de seus edifícios são emblemáticos: o Santa Rita, atrás do Cinema São Luiz, serve de plano inicial para o filme, que de um detalhe dos azulejos abre para a Rua da Aurora; e o Barão de Rio Branco, também na Boa Vista, uma de suas construções mais preservadas.

Josias explica que Quarteto simbólico, título retirado de música de Villa-Lobos, vem da relação quádrupla da narrativa: “entre o Recife moderno e o contemporâneo, e de Delfim e seu filho, que nos dá o relato”. É de Luiz Amorim, considerado o maior especialista no assunto, que parte o viés acadêmico e afetivo adotado pelo filme. “Fiquei fascinado em estudar a herança de Amorim em dois aspectos: o do Recife, com relação ao patrimônio, e o do filho diante da obra do pai. Algo se conectou no filho dele que, na cidade em geral, não houve”.

Ao mesmo tempo em que denuncia o descaso coletivo de uma cidade com sua própria história, Josias busca uma delicada aproximação com a obra de Amorim. Nesse sentido, o uso da música (escrita por Ana Lúcia Altino sob um quinteto de Brahms) é fundamental. “Na época que escrevi o roteiro tinha acabado de ler o livro Eupalinos ou o Arquiteto, de Paul Valéry. Lá ele fala que a arquitetura e a música se assemelham em muitos aspectos. As duas nos envolvem”.

Serviço

Cinema de Rua - projeções no antigo Cinema Trianon
Segunda, às 18h

Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.
Domingo, às 19h, no Cinema da Fundação
Segunda, às 17h15, no Cinema São Luiz
Sábado (12), às 20h, no Cinema da Fundação

Programa O cinema e o espaço urbano do Recife
Quarteto Simbólico, de Josias Teófilo; Eiffel, de Luiz Joaquim; Menino Aranha, de Mariana Lacerda; Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira; e [projetotorresgêmeas], filme coletivo. Sessão seguida de debate com os realizadores, e Luiz Amorim, Milton Botler. Mediação: Ângela Prysthon.

Terça-feira, às 18h, no Cinema São Luiz

(Diario de Pernambuco, 06/11/2011)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Szafir e o profeta Elias

Elias, o profeta do Antigo Testamento, terá uma versão contemporânea dirigida por Guilherme de Almeida Prado. O diretor, que estreou em 1981 com o filme As taras de todos nós e ganhou fama em 1988 com A dama do Cine Shanghai, foi convidado pela produtora recifense Anjoluz Filmes para realizar A palavra de Elias, protagonizado por Tuca Andrada. No entanto, o nome mais famoso é o de Luciano Szafir, que aterrissa na capital amanhã de manhã. Ele será Acabi, o rei politeísta que, no roteiro assinado por Prado e Tarciana Oliveira, retorna como o dono de uma emissora de TV.

As filmagens começaram na última segunda-feira, em Nova Jerusalém, e incluem sequências no Recife e Vale do Catimbau. Além de Szafir e Andrada, o elenco conta com Regina Remensius, Karina Barum, Rubens Teixeira e Germano Haiut. A fotografia é de Roberto Yuri. A direção de arte, de Luiz Rossi; O figurino, de Beto Normal. A montagem será de João Maria.

Prado, que não tem inclinação religiosa, descreve a história como um drama de inspiração bíblica, com elementos de comédia, trazido para os tempos atuais. “Há momentos de realismo mágico, que não chega a ser fantástico. Mas não vai ter ninguém de saias romanas andando por aí. São temas atu-ais como a indústria da seca, o uso da mídia, assuntos que já estão na Bíiblia, que também é uma história política do povo de Israel”.

De acordo com a produtora executiva, Zitah Oliveira, a ideia é gerar um produto para TV e DVD, mas uma edição para cinema não está descartada. Ela quer que A palavra de Elias seja o primeiro de uma série de adaptações. A próxima será A palavra de Eliseu, que susbstituiu Elias quando foi arrebatado para o céu em uma carruagem de fogo. Zitah, que é da Assembleia de Deus, não soube precisar o orçamento com que trabalha a produção, mas garante que não há patrocínio institucional.

(Diario de Pernambuco, 06/10/2011)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Brasília, noite 1 - mudou tudo, menos a platéia

Com aplausos e vaias, a noite de abertura do 44º Festival de Brasília fez jus à tradição crítica do festival. E nesse sentido, a escolha de Rock Brasília – anos de ouro, documentário sobre a gênese da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, não poderia ser mais oportuna. Quando seu diretor, Vladimir Carvalho, subiu ao palco com membros das bandas e familiares de Renato Russo, aproveitou para agradecer o apoio que o ex-ministro da cultura, Juca Ferreira, deu ao projeto, o que gerou aplausos. Logo depois, saudou a atual ministra, Ana de Hollanda, presente no evento. Vaias ecoaram ao pelo menos metade do Teatro Nacional. Muito foi mudado no Festival de Brasília, reflexo da troca de gestores na secretaria de cultura do Distrito Federal . Mas o crivo da plateia continua o mesmo.

Como anunciou o mestre de cerimônias, o ator José de Abreu, este ano o Festival de Brasília vai mostrar sua nova cara. Terá sessões promovidas simultaneamente no Cine Brasília e nas cidades satélites. Querem passar a imagem de um festival democrático, que está reagindo à falta de rumo a que estava relegado nos últimos anos. Com uma grandiloquência bizarra (e Xica da Silva como música ambiente), Abreu parecia falar de um picadeiro ou pior, de um palanque político. A presença do ex-ministro José Dirceu, Cacá Diegues e de Luis Carlos Barreto, que participam de seminário sobre novas perspectivas do cinema nacional, foi novamente reforçada como um dos grandes momentos do festival.

Como protesto, o realizador brasiliense Adirley Queirós retirou seu longa A cidade é uma só? da competição Primeiros Filmes. “Fazemos filmes buscando outra perspectiva estética e política (não partidária, e sim política). (...)Transformar o festival em um pastiche, em um moribundo com cara de qualquer coisa. Isso são avanços?”, diz o texto do realizador, enviado para a organização do festival. E estamos apenas no primeiro dia.

Se o cerimonial foi um anticlímax, Rock Brasília teve recepção calorosíssima, com o teatro lotado e gente sentada no chão. O filme faz um retrato afetivo, social e político de uma geração de artistas, filhos de diplomatas e acadêmicos que vieram para a capital federal. Coincide com a época em que Vladimir Carvalho passou a morar na cidade. Ele chama aos músicos de “moçada”, que hoje tem entre 40 e 50 anos. Aos 76, Vladimir certamente os enxerga com e olhos de pai orgulhoso. “Eles são um ensurdecedor exemplo de perseverança”, disse, no palco. No hotel JK, base do festival, o diretor disse em entrevista que na época não chegou a curtir aquelas músicas (ele gosta mais de MPB), mas que se ligou muito a Faroeste caboclo, que para ele, é uma espécie de cordel ou repente. “Se tivesse que eleger uma música era essa”.

Para os pernambucanos, uma boa notícia: seu próximo projeto pode ser um documentário
sobre Cícero Dias. “Tenho admiração antiga pelo Cícero Dias. Ele foi uma figura notável das artes plásticas brasileiras. Por sorte, o filmei no seu ateliê na França e durante uma exposição entrevistei a viúva dele. Me interessa a ligação do surrealismo com o imaginário nordestino”.

(Diario de Pernambuco, 28/09/2011)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma escola para o olhar



Diariamente somos expostos a um sem número de imagens e sons. Eles vêm de todos os lados: TVs, computadores, celulares. E câmeras, cada vez mais câmeras. Mas as escolas normalmente não preparam crianças para entender a linguagem audiovisual. Será que estamos aptos a produzir, interagir e refletir sobre esse conteúdo? Tudo indica que não: com referenciais restritos, nos tornamos incapazes de responder à avalanche midiática ao redor.

Fundada no fim do ano passado, com patrocínio do Funcultura, a Escola Engenho procura agir nessa lacuna. É um projeto pioneiro, voltado para alunos do ensino público, com idades entre 6 e 12 anos, e realizado por um grupo de cineastas, fotógrafos e técnicos liderados por Mariana Porto. Não se trata de ensinar a fazer um filme. O objetivo é estimular a criticidade e o senso ético e estético das crianças.

“As imagens têm um poder arrebatador”, diz Mariana. “Procuramos ampliar o repertório dos alunos para que eles não sejam reféns e aprendam a se posicionar diante delas”. Como se trata de algo inédito, a busca é sistematizar a própria metodologia. “Nosso foco não é conteudista. Não tratamos o cinema enquanto discurso ou linguagem pura. As crianças não funcionam mediadas pela razão. Elas vêm aqui para brincar. Se usamos palavras demais, perdem a atenção. É um mundo muito concreto. Nesse primeiro momento, nós aprendemos mais do que eles”.

As oficinas deste primeiro ano foram ministradas por Marcelo Pedroso, Thelmo Cristovam, Tuca Siqueira, Gê Carvalho, Ana Lira, Caio Sales e Val Lima. Outros vêm se aproximando do projeto, como Daniel Bandeira. “O cinema é trabalhado enquanto prática, daí a importância de ter pessoas que de fato tenham vivência profissional”, afirma Mariana. “A necessidade de se concentrar, planejar ações e agir colaborativamente são valores que estão sempre em foco, e que nós julgamos edificantes não somente da vida de cada um, mas como pressuposto de convivência”.

Vivência - Inicialmente, as crianças se aproximaram através de um cineclube. Agora, organizam a própria filmoteca. A convivência entre oficineiros, monitores, convidados e as crianças leva a novas experiências. Ivan Pereira, o caçula da turma, adorou assistir ao curta paraibano Sweet Karolyne, de Ana Bárbara Ramos. Se identificou com a pobre galinha, prestes a ser degolada. Em outra aula, usou a câmera para filmar do ponto de vista de um gato, inspirado em Alice no País das Maravilhas. Na aula de som, um estetoscópio foi utilizado para ouvir os sons do corpo e uma história inteira foi contada somente com áudio.

“Nunca tinha sonhado em entrar num estúdio”, diz Daiane de Oliveira, sobre a visita à base da Cabra Quente Filmes. Otávio Campos aprendeu a identificar personagens através de cores: “se ele é calmo é azul, verde ou rosa; estressado, é amarelo, vermelho ou laranja”. “E se é sério, é branco, preto ou cinza”, completa Ruan Torres.

Entre os desafios enfrentados pelas crianças, está a de suportar o silêncio e até mesmo parar de falar para ouvir o outro. “Não dá pra ensinar a viver uma experiência estética, mas sim, a ampliar a sensibilidade. Procuramos algo que extrapola o audiovisual e vai para o campo da cidadania”, explica Mariana.

Quinta-feira passada foi o último dia de aula da primeira turma, no antigo Centro de Treinamento da Sudene, próximo à UFPE. Prevista para o começo do ano que vem, a segunda turma da Escola Engenho reunirá os alunos veteranos, mo papel de guias dos novatos. Vinte vagas estão disponíveis para alunos do ensino público do Engenho do Meio, Roda de Fogo e Sítio das Palmeiras. Mais informações: 8666-3456 e escolaengenho@gmail.com

Depoimentos

"Não achei que dava para aprender a assistir a um filme.
Fui ficando, principalmente, porque aqui eu uso a imaginação”
João Pedro Carvalho

"Quando passa um filme na TV, agora a gente sabe como ele é feito”
Vivian Guimarães

"Em casa, a gente assiste aos filmes e esquece; aqui, a gente conversa e o filme fica na memória”
Dayane de Oliveira

(Diario de Pernambuco, 26/09/2011)

Festival de Brasília começa hoje, sob nova direção

Entre rockers dos anos 1980 e políticos do alto escalão, começa hoje o 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme de abertura (fora de competição) é o documentário Rock Brasilia – Anos de ouro, de Vladimir Carvalho, com presença de membros dos grupos Plebe Rude, Capital Inicial e parentes de Renato Russo, da Legião Urbana. O documentário não pode concorrer “em casa”, pois o regulamento não permite que filmes premiados em outros festivais (no caso, em Paulínia) participem da competição. Céu, inferno e outras partes do corpo só concorre entre os curtas de animação porque foi premiado em Gramado, após o anuncio da seleção em Brasília.

Mas a criação de uma mostra de animação é a menor das mudanças. O festival chega a 2011 sob nova direção (a cargo de funcionários da secretaria de Cultura do DF), o que tem gerado burburinho entre jornalistas e cineastas. Um dos pontos mais criticados é a inclusão na competição de filmes exibidos em outros festivais. Até o ano passado, Brasília só selecionava filmes inéditos. Este ano, traz os bons Trabalhar cansa (exibido em Cannes e Paulínia), o pernambucano As hiper-mulheres (prêmio especial do júri em Gramado), Meu país (Paulínia), O homem que não dormia (o novo de Edgard Navarro, já exibido em Salvador) e os inéditos Vou rifar meu coração (de Ana Rieper) e Hoje (de Tata Amaral). Eles concorrem ao prêmio máximo de R$ 250 mil, valor idêntico ao concedido em Paulínia. São R$ 425 mil em prêmios.

A presença confirmada dos atores Rodrigo Santoro e Cauã Reymond, do elenco de Meu país, e Denise Fraga, de Hoje, se soma a do ex-ministro José Dirceu e a ministra Ana de Hollanda. Os dois participam do seminário Novas perspectivas para o audiovisual brasileiro, com os cineastas Luiz Carlos Barreto, Roberto Farias, Caca Diegues, Silvio Da-Rin e o exibidor Adhemar de Oliveira, no Hotel JK, o novo QG do festival. Fica a pergunta: qual serão os rumos (e o destino) do evento de cinema mais antigo e um dos mais conceituados do país? Os próximos dias serão decisivos para chegar a uma resposta.

(Diario de Pernambuco, 26/09/2011)

Cinema com viés social


Ovos de dinossauro na sala de estar (PR), de Rafael Urban, é um dos destaques da mostra

Com abertura às 19h no Cinema da Fundação (Derby), começa hoje o 3º Festival do Filme Etnográfico do Recife. É a oportunidade de conferir um panorama da produção recente – todos os filmes foram realizados de 2009 para cá. Ao todo, a mostra competitiva reúne 17 produções, de diferentes lugares do país, além de um média metragem paraguaio, Jopói, todos juntos, sobre a permanência do idioma guarani naquele país, que sera exibido ainda hoje à noite, junto com Quindim de Pessach, de Olindo Estevam, e Djero encontra Iketut em Bali, de Carmem Rial e Miriam Grossi. Na quinta, após a exibição dos filmes, haverá cerimônia de premiação.

A programação interessa tanto a quem gosta de sociologia pelo viés antropológico quanto de cinema. O curta paranaense Ovos de dinossauro na sala de estar (foto acima), de Rafael Urban, é ótimo exemplo. O filme apresenta a imigrante alemã Ragnhild Borgomanero, de 77 anos. Viúva de um diplomata italiano, com quem reuniu a maior coleção particular de fósseis da América Latina, ela se dedica a preservar sua memória, através da digitalização caseira de fotos, que apresenta à câmera de forma quase mecânica.

O filme passa amanhã, junto com outro paranaense, O corte do alfaiate, de João Castelo Branco, Aperreio (MA), de Humberto Capuci, Capa de índio (BA), de Aelson Pataxó, e Estranho amor (ES), de Lucia Caus.

O festival serviu de mote para que o Consulado Geral da França organizasse uma exposição Zo’é, do fotógrafo Serge Guiraud, sobre os últimos povos Tupi a entrar em contato com a sociedade. A abertura será amanhã, às 17h, na Aliança Francesa do Recife (Derby).

(Diario de Pernambuco, 26/09/2011)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Eles também querem o ouro



Um pistoleiro sem nome, uma vila perdida no Arizona, um coronel ganancioso e seu filho inconsequente, uma tribo de Apaches. Poderia ser mais um filme de Sergio Leone ou Sam Peckinpah, não fosse a base alienígena instalada no desfiladeiro ao lado. Cowboys & aliens é uma adaptação dos quadrinhos feita por gente que sabe o que faz, do diretor Jon Favreau (Homem de Ferro) aos produtores Ron Howard (Apollo 13) e Steven Spielberg, que não deixaram a mistura de gêneros sair dos trilhos.

A começar pela escolha do elenco, liderado por Daniel Craig e Harrison Ford, à vontade como antagonistas que precisam se unir para expulsar os ETs. Os alienígenas são gosmentos e maus, uma mistura de Alien com Predador disposta a exterminar humanos para extrair ouro. Do outro lado estão personagens do faroeste, inconciliáveis até que precisam unir forças. Bons, maus e feios, além de uma mulher misteriosa (Olivia Wilde, de Tron).

Mocinho pós-moderno, Craig está armado e não guarda lembranças. Só sabe que precisa salvar a amada esposa, raptada pelos aliens. Em cena emblemática, ele, o 007 de Cassino Royale, anda com uma Colt 45 na mão direita e uma espécie de bracelete-radar-phaser que parece ter saído da cartela de armas de Guerra nas estrelas. Para sabotar os monstrengos, o mocinho precisa invadir um megaedificio alien, no meio do deserto. A sequência em que ele se mete em cavernas que desmoronam evoca a Indiana Jones e o templo da perdição. Precisa mais para justificar a presença de Harrison Ford, de chapéu surrado e fugindo de naves?

Não é preciso muito esforço para ver no todo um grande pastiche de referências. É como se, de tempos em tempos, Hollywood precisasse refrescar a própria memória. Desta vez, funcionou. Divertido e competente, Cowboys & Aliens é um dos melhores entretenimentos do ano.

(Diario de Pernambuco, 09/09/2011)