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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cineclube Dissenso promove mostra Yasujiro Ozu no Recife



"Se em nosso século algo sagrado ainda existe… e se há algo como o tesouro sagrado do cinema, para mim deve ser o trabalho do diretor japonês Yasujiro Ozu". A colocação foi feita em 1985 pelo cineasta alemão Wim Wenders, no início de seu documentário Tokyo-Ga, em que busca na capital japonesa a cidade que conheceu pelos filmes de Ozu. O diretor de Asas do desejo continua: "japoneses, esses filmes são ao mesmo tempo, universais. Neles, fui capaz de reconhecer famílias de todos os países do mundo, assim como meus pais, meu irmão e eu. Para mim, nunca antes o cinema chegou tão perto de sua essência e finalidade: apresentar a imagem do homem, na qual ele não só se reconheça, mas a partir da qual ele possa aprender sobre si".

O Cineclube Dissenso inicia as atividades de 2012 com uma mostra especial dedicada a Yasujiro Ozu. De hoje a domingo, cinco clássicos do diretor serão exibidos em 16mm, através de parceria entre o cineclube e o escritório consular do Japão no Recife. É uma ótima oportunidade de entrar em contato com as principais obras do autor no local apropriado, a sala de cinema.

Autor do livro O anticinema de Yasujiro Ozu (Cosac & Naify, 2003), Kiju Yoshida diz que o cineasta, que começou no cinema mudo, questionava os artifícios técnicos e atuações exageradas dos atores. Nos primeiros filmes, no entanto, Ozu utilizava movimentos de câmera e outros recursos, sob influência do cinema norte-americano. Com o tempo, passou a filmar os diálogos e situações cotidianas, quase sempre em planos fixos, feitos com câmera colocada no nível de uma pessoa sentada no chão e lentes de 50mm, que não permite capturar a amplitude dos ambientes. Formato cinemascope (tela larga), nem pensar.

Ao apostar na simplicidade de elementos e estranheza provocada pelos planos incomuns, Ozu desmonta a ilusão das imagens em movimento e expõe o processo do fazer cinematográfico. Daí o anticinema. No cemitério em que repousa (ele morreu em 1963, no dia do aniversário de seus 60 anos), em sua lápide está gravada o ideograma “Mu”, que significa “nada” ou “o vazio”. Para quem leu o livro Zen e a arte da manutenção de motocicletas, de Robbert Pirsig, também sabe que Mu significa “refaça a pergunta, se ela não dá conta da resposta”. Por mais que desenvolva artimanhas, a “magia” do cinema jamais alcançará a realidade. Ao admitir isso, Ozu também a desvela.

Serviço
Mostra Yasujiro Ozu
Quando: De hoje a domingo
Onde: Cinema da Fundação (Rua Henrique Dias, 609 – Derby)
Informações: 3073-6767
Entrada Franca

Programação
Hoje, às 16h20: Filho único (Hitori Musuko, 1938)
Amanhã, às 16h20: Pai e filha (Banshun, 1949)
Sexta-feira, às 15h50: Era uma vez em Tóquio (Tôkyô Monogatari, 1953)
Sábado, às 14h: Fim de verão (Kohayagawa-Ke No Aki, 1961)
Domingo, às 14h: A rotina tem seu encanto (Sanma no Aji, 1962)

sábado, 23 de outubro de 2010

Mostra de SP // Visões do paraíso



As infinitas sessões da 34ª Mostra Internacional de Cinema podem ser uma visão do paraíso. No entanto, antes há o purgatório da escolha, que passa por optar entre uma retrospectiva nórdica com presença do diretor norueguês Bent Hammer ou a oportunidade de assistir aos clássicos de John Ford numa sala de cinema. A filosofia do evento é trazer para o país filmes que dificilmente viriam de outra forma. Daí se entende situações insólitas como filas para assistir filmes da Armênia, Sri Lanka, Estônia, Haiti, Eslováquia, Ucrânia, Vietnã e países da antiga União Soviética.

Hoje à noite, o dilema é entre a cópia restaurada de Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, e o novo corte de 280 minutos feito por Wim Wenders para Até o fim do mundo (1993). Convidado de honra do festival, Wenders estará na sessão e também abrirá o evento Os filmes da minha vida.

Na última terça-feira, o diretor alemão inaugurou exposição de fotografias Lugares, estranhos e quietos, que ocupa o primeiro andar do Masp. Ao longo dos anos, Wenders lançou seu olhar de viajante ao redor do planeta e o resultado está nessa mostra inédita. As imagens variam entre landscapes como a que mostra enorme cratera provocada por um meteoro na Austrália ou recortes da realidade, que como em seus filmes, revelam o que há de insólito ou fantasmagórico numa casual esquina urbana. O cruzamento de ruas, aliás, simboliza bem o espírito da busca de Wenders. Não se sabe muito bem o que iremos encontrar ao tomar um dos caminhos e isso é um estímulo e tanto para a imaginação.

Wenders também esteve na cerimônia de abertura, na noite de quinta-feira, em que a atração principal foi o novo longa de Manoel de Oliveira, O estranho caso de Angélica. Como o diretor português (introduzido no país pela própria Mostra, em 1979) não pode vir, mandou um vídeo pela internet, onde se diz desolado pelo impedimento de seu médico, que o fez trocar de marcapasso antes de viajar para a mostra. Por isso, ainda há a expectativa de que o mestre de 102 anos ainda possa estar entre nós.

O estranho caso de Angélica é de uma poesia sem fim. Sem a preocupação de parecer moderno ou de honrar suas várias décadas de experiência, Oliveira faz um cinema sem pressa, de tempo próprio. No filme, coprodução Brasil-Portugal, ele assume como alterego um fotógrafo (Ricardo Trêpa), um coletor de imagens munido de câmera mecânica. A história começa quando uma família importante o chama para fazer a última foto de Angélica, bela filha que morreu, mas mantém misterioso sorriso nos lábios. Há um quê de Blow Up de Antonioni quando, através do dispositivo ótico da câmera fotográfica, a falecida volta à vida, tamanho é o mistério das imagens.

Outro momento especial da abertura foi a presença de Teruyo Nogami, que trabalhou por mais de 50 anos ao lado de Kurosawa e trouxe para o Brasil exposição de desenhos (storyboards), lançados em livro pela CosacNaify. Ela disse emocionada que imaginou um encontro centenário entre Kurosawa e Oliveira, e saber que o diretor português estaria no país a motivou a fazer a viagem aos 83 anos de idade.

(Diario de Pernambuco, 23/10/2010)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um festival, 400 filmes


O estranho caso de Angélica, de Manoel Oliveira, abre a Mostra hoje à noite

Com mais de 400 filmes na programação, a 34ª Mostra Internacional de São Paulo começa hoje à noite, com a exibição de O estranho caso de Angélica, novo filme de Manoel de Oliveira. O centenário diretor português viria para a abertura, mas precisou fazer uma operação de emergência para troca de marcapasso. De acordo com Leon Cakoff, organizador da mostra e coprodutor do filme, o cineasta está bem e deve comparecer para a cerimônia de encerramento.

A partir de hoje, o Diario estará no evento cuja grandiosidade só é superada pela qualidade da programação. A começar pelos clássicos, Metropolis (1927) de Friz Lang será projetado em parede externa do auditório do Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer. Será a primeira exibição clássico restaurado com cenas inéditas e musicado ao vivo pela Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo.

Presente no evento, Wim Wenders inaugura exposição inédita de fotos, também publicadas em livro editado pela Mostra e terá retrospectiva de filmes emblemáticos como O filme de Nick, Asas do desejo, Paris Texas e Até o fim do mundo, este em nova edição de 240 minutos. O cinema alemão também está representado pela presença de atriz Hanna Schygulla, a preferida de Fassbinder. Outro convidado especial é Alan Parker, que preside o júri e terá mostra com O expresso da meia-noite (1978), Pink Floyd The Wall (1982) e Mississippi em chamas (1988).

Os 100 anos de Akira Kurosawa são lembrados com exibição de Rashomon (1950), Madadayo (1993) e exposição de 80 desenhos originais do mestre, organizada em parceria com o Instituto Tomie Ohtake. É a primeira vez que a coleção será exposta fora do Japão.

A grandiosidade da mostra que mobiliza equipe de 500 pessoas e custa R$ 6,2 milhões só é superada pela qualidade da programação de filmes aplaudidos em Cannes, Berlim, Veneza e produzidos em países díspares como Tailândia, Haiti, Coreia do Sul, Palestina e Noruega.

A capacidade de se renovar permite que nomes consagrados como Woody Allen, Sofia Copolla, Zhang Yimou e Jean Luc Godard convivam com novos realizadores como o pernambucano Gabriel Mascaro, que já participou da Mostra com KFZ -1348 (dele e Marcelo Pedroso) e agora volta com o desafiante Avenida Brasília Formosa.

"Não tem megalomania, é amor ao cinema", diz Cakoff, por telefone. Para marinheiros de primeira viagem na Mostra, como este repórter, a dica é simples: "Sabe nadar? Mergulha".

(Diario de Pernambuco, 21/10/2010)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Mimo cresce e traz cubanos do Buena Vista


Barbarito, do Buena Vista Social Club, se apresenta na Praça do Carmo, em Olinda

A Mostra Internacional de Música em Olinda anunciou ontem sua programação, que neste ano se estende para o Recife e capital da Paraíba, João Pessoa. Integrantes do grupo cubano Buena Vista Social Club, Cesar Camargo Mariano, Hermeto Pascoal, St. Petersburg String Quartet e o duo Didier Lockwood e Ricardo Herz são algumas das 22 atrações. Outro convidado cubano, o pianista Gonzalo Rubalcaba, se apresentará com o cantor belga David Linx e o percussionista brasileiro Sérgio Krakowski.

A Mimo 2009 será realizada entre 1º e 7 de setembro. O primeiro dia será exclusivo para a etapa educativa, que no próximo sábado anuncia os 900 alunos selecionados. No dia seguinte, começam os concertos. O maestro paulista Isaac Karabtchevsky estará à frente do curso de regência, que terá a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa como residente. As master classes, voltadas à profissionais da música serão ministradas por Luiz de Moura Castro e integrantes do St. Petersburg String Quartet (Rússia) e do Art Metal Quinteto. Assim como fez dois anos atrás, Karabtchevsky volta a reger a Orquestra Sinfônica do Recife.

O cineasta alemão Wim Wenders não estará presente, mas será reconhecido em duas ocasiões. A primeira, como diretor do documentário que revelou ao mundo a velha guarda de músicos do Buena Vista Social Club. Em sua primeira apresentação no Nordeste, o Buena Vista estará representado por Amadito Valdes (percussão), Barbarito Torres (alaúde) e Tereza Caturla (voz). Eles serão acompanhados por músicos da nova e velha geração de cubanos, entre eles, integrantes da big band AfroCuban All Stars.

Wenders também como produtor de Les violons du monde (Os violinos do mundo), em que o francês Didier Lockwood registra os diferentes usos para o instrumento na cultura dos países. O documentário está em produção (já passou pela África) e deve ficar pronto em 2011. O encontro de Lockwood com os rabequeiros Siba, Renata Rosa, Seu Luiz Paixão e o multiartista Antonio Nóbrega, assim como com o Quinteto daParaíba em João Pessoa, certamente entrarão no projeto.

"Uma das características mais estimulantes da Mimo é a de criar encontros marcantes, que levem a novas possibilidades musicais", diz a coordenadora e idealizadora do evento, Lú Araújo. "César Camargo requisitou uma parceria com Spok, mas não deu certo porque na época do concerto ele estará em turnê na África do Sul".

Além da extensão para igrejas do Recife e João Pessoa, creditadas por Araújo aos secretários municipais de cultura - respectivamente, Renato L e Chico César - a organizadora ressalta outra novidade da Mimo: o palco aberto na Praça do Carmo, que na noite de sábado receberá o Buena Vista Social Club Stars. "Sentia falta de um espaço para atrações que atraem um público maior e sem as imposições acústicas das igrejas antigas".

Programação

Quarta, 02/09
20h30 - Didier Lockwood e Ricardo Herz | Convento de São Francisco (João Pessoa)
Participação Especial do Quinteto da Paraíba

Quinta, 3/9
18h - Fernando Sodré | Igreja de São Francisco (Olinda)
19h - Art Metal Quinteto | Igreja do Rosário dos Homens Pretos (Olinda)
20h30 - Didier Lockwood e Ricardo Herz | Igreja da Sé (Olinda) - Participação especial de Siba, Antonio Nóbrega, Renata Rosa e Seu Luiz Paixão.

Filme
18h30 - Orquestra dos meninos, de Paulo Tiago | Pátio da Igreja da Sé (Olinda)

Sexta, 04/09
17h - Duo Milewski | Ordem Terceira do Carmo (Recife)
18h - St. Petersburg String Quartet | Igreja de São Bento (Olinda)
18h30 - Trio de Câmara Brasileiro | Igreja de São Francisco
19h - Toninho Horta | Igreja do Seminário (Olinda)
20h30 - Orquestra Sinfônica de Barra Mansa e Luiz de Moura Castro | Igreja da Sé (Olinda)

Filmes
18h - Nós somos um poema, de Sérgio Sbragia e Beth Formaggini | Igreja do Seminário (Olinda)
18h30 - Música é perfume, de Georges Gachot | Pátio da Igreja da Sé (Olinda)

Sábado, 05/09
17h - St. Petersburg String Quartet e Luiz de Moura Castro | Basílica do Carmo (Recife)
18h - Sopro Brasil | Igreja do Rosário dos Homens Pretos (Olinda)
19h - Antonio Nóbrega e Orquestra Retratos do Nordeste | Igreja do Seminário (Olinda)
21h30 - Buena Vista Social Club Stars | Praça do Carmo (Olinda)

Filmes
18h - Raphael Rabello, de Lara Velho e Monica Camargo | Igreja do Seminário (Olinda)
18h30 - Um homem de moral, de Ricardo Oliveira | Pátio da Igreja da Sé (Olinda)

Domingo, 06/09
11h30 - Orquestra MIMO | Igreja da Sé (Olinda)
16h - Encontros (apresentações livres) | Coreto da Praça do Carmo (Olinda)
17h - Orquestra Sinfônica do Recife e Isaac Karabtchevsky | Basílica do Carmo (Recife)
18h30 - Joana Boechat | Igreja de São Francisco (Olinda)
19h - Jam da Silva | Igreja do Seminário (Olinda)
20h30 - Gonzalo Rubalcaba, David Linx e Sérgio Krakowski | Igreja da Sé (Olinda)

Filmes
18h - No tempo de Miltinho. De André Weller | Igreja do Seminário (Olinda)
18h30 - Simonal - ninguém sabe o duro que dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal | Pátio da Igreja da Sé (Olinda)

Segunda, 07/09
11h30 - OSBM - Encerramento do Curso de Regência | Igreja da Sé (Olinda)
16h - Grande Cia. Brasileira da Mystérios e Novidades | Praça do Carmo (Olinda)
18h - Quarteto Radamés Gnattali | Igreja de São Pedro (Olinda)
19h - Cesar Camargo Mariano | Igreja do Seminário (Olinda)
20h30 - Hermeto Pascoal e Grupo | Igreja da Sé

Filmes
18h - Quebrando tudo, de Rodrigo Hinrichsen | Igreja do Seminário (Olinda)
18h30 - Palavra (En)cantada, de Helena Solberg | Pátio da Igreja da Sé (Olinda)

(Diario de Pernambuco, 12/08/09)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Wim Wenders e o Cinema além das fronteiras do croma key



Porto Alegre (RS) - Lá fora, vento frio e chuva fina. Dentro, no silêncio de um teatro lotado, ecoa a voz de uma única pessoa, de fala pausada e movimentos leves como os anjos: nada menos do que o cineasta alemão Wim Wenders, que esteve em Porto Alegre na última segunda-feira, a convite do projeto Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem. Em seu discurso quase sempre inspirador está um recado bem claro: o da necessidade em valorizar o território em que se pisa, e a importância do cinema nessa busca pela cultura local. "Falo não como intelectual ou filósofo, mas como quem aprende olhando, ouvindo e viajando", disse, durante o evento mediado pelo realizador gaúcho Carlos Gerbase. Para ilustrar suas idéias, exibiu Crimes invisíveis, curta-metragem de sua autoria sobre mulheres violentadas nas zonas de conflito africanas, sob encomenda para a organização Médicos Sem Fronteiras.

Nascido na Alemanha do pós-guerra, desde jovem Wenders quis conhecer outros países.Ainda criança, viajou para a Holanda de bicicleta. Adolescente, trocou seu saxofone por uma câmera 16mm, dando início à carreira de cineasta em permanente trânsito. "Às vezes é preciso viajar para longe para redescobrir e aceitar o que está perto", disse, durante a conferência. Poucas horas antes, ele concedeu uma generosa entrevista coletiva, com a presença de veículos da imprensa de Portugal, Uruguai, Argentina e Brasil. Entre eles, o Diario de Pernambuco marcou presença. Frente à frente com o mestre, uma pessoa serena e centrada a refletir antes de cada frase, é possível entender um pouco mais sua obra. Um pensamento que, assim como seus filmes, convida a conhecer a si e o chão em que se pisa - sem pressa alguma.

OLHAR DO VIAJANTE
Praticamente todos os meus filmes surgiram do meu interesse em descobrir algum lugar. Nasci em Oberhausen, poucos meses depois da 2ª Guerra Mundial, num país devastado e sem esperança, perdido em vergonha e culpa. Desde cedo percebi que havia algo de errado naquele país, e quis saber como outras pessoas viviam. Através do cinema recebi as primeiras mensagens de lugares distantes. Aos 16 anos, faltava a escola a cada três dias para assistir filmes. Primeiro, assisti a Memórias do subdesenvolvimento, de Tomas Gutierrez Alea. Depois, um filme argentino de Fernando Solanas. Depois, o incrível Deus e diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. E logo após, Terra em transe, que se instalou profundamente no meu cérebro e colocou o Brasil no meu mapa. Foi como uma revelação: eu precisava estar lá. A mesma revelação tomou conta da minha vida quando assisti Tokyo story, de Yasujiro Ozu. Quando vi um western de John Ford e Anthony Mann, descobri a América. Esses filmes me fizeram sentir vontade de conhecer o mundo. A partir de então, viajar se tornou minha profissão.

ASAS DO DESEJO (1987) - "Os lugares têm memória"
Fiz esse filme sem roteiro algum, a partir de lugares que gosto em Berlim. Quando voltei dos EUA, tentei redescobrir meu próprio país, minha própria língua. Quis filmar uma história sobre Berlim, mas não conseguia encontrar um personagem para contá-la. Pensei em bombeiros, médicos, carteiros, mas nenhum deles poderia fazer justiça à cidade como um todo. Foi quando, olhando ao redor, a cidade evocou seus próprios protagonistas: havia figuras de anjos nos monumentos, na decoração, nas ruas. A cidade falou por si. O mesmo aconteceu em Paris Texas (1984), que praticamente se escreveu sozinho. Acredito que os lugares têm histórias próprias para contar. Aprendi a respeitar a autonomia dos lugares. Daqui a milhares de anos, quando ninguém se lembrará de nós, os lugares estarão aí. E se lembrarão de nós, porque os lugares têm memória.

CINEMA E FRONTEIRAS
Não tenho o menor interesse em histórias que poderiam acontecer em qualquer lugar. Entedio-me mortalmente com filmes feitos na "Terra de ninguém", com atores que não se encontram e não vão a lugar algum. Quero histórias movidas pela experiência, pela descoberta. Com a globalização, o sentido de local está desaparecendo. Muitos lugares no planeta estão se tornando iguais. Nós podemos mantê-los diferentes, e somente o senso de lugar permite que façamos alguma coisa. As pessoas viajam pelo mundo em trilhas marcadas, vão onde supõe-se que devam ir, fotografam onde deve-se fotografar. Essa é a diferença entre turista e viajante. Por mais que se desloque, o turista fica irremediavelmente em casa. Mas nem tudo está perdido. Podemos aprender a preservar e cultivar nosso sentido de lugar. E o cinema pode nos ensinar a respeitar e aceitar fronteiras e ouvir o que os lugares têm a nos dizer.

CINEMA E IDENTIDADE
As imagens são as armas mais poderosas do século 21. Na medida em que avançamos para um futuro global, precisamos valorizar nossas fronteiras, preservando nossa identidade. Ter identidade é repousar em si mesmo, saber quem você é e a que lugar pertence. Identidade é formada e definida por limites, escolhas e experiências. Nações prosperarão não apenas pela força econômica, mas pelo sentido de identidade, e o cinema tem uma tarefa enorme nesse sentido. Desisti de esperar isso da TV, que causa mais dano do que tudo por ter se tornado a voz do consumismo. Só esse cinema específico pode comunicar algo diferente, e é ele que deve viajar pelo mundo. Só o cinema permite essa voz misteriosa que fala com o público numa relação mágica.

CINEMA GLOBAL X LOCAL
Há dois tipos de cinema. O maior, poderoso, é distribuído quase simultaneamente no mundo todo. Esse cinema sem fronteiras, não considera as experiências da vida. Ele é feito, antes de tudo, da experiência de outros filmes. Acredito no outro, diferente, pequeno, mas de grandes pretensões, feito em todos os lugares, e que precisa ser cuidadosamente preservado. Honestamente, prefiro assistir Central do Brasil vinte vezes do que ver uma segunda sessão de Superman, Matrix ou Harry Potter. Eles podem divertir, mas não conseguem alimentar nossos espíritos. Os olhos podem se acostumar com fast food, mas precisam de comida saudável para ficar em forma.

MESTRES E APRENDIZES
Quando era um jovem diretor, meus pais artísticos eram todos os pintores. Por causa da situação histórica da Alemanha, os cineastas não tinham pais, somente avós no cinema. Levou tempo para que eu estabelecesse uma relação com F.W. Murnau e Fritz Lang, por exemplo. Só que, de repente me tornei uma espécie de pai para uma nova geração de cineastas. E por mais que eu tenha gratidão aos mestres, estou mais interessado nos novos. Já faz 20 anos que leciono, mas as aulas não são sobre história, mas sobre o futuro do cinema. O que eles aprendem comigo é dar ouvidos à própria voz.

NICK'S MOVIE (1978)- "A morte é o maior tabu que existe na indústria cinematográfica"
O que ficou foi mais a experiência do que o filme como produto. Desenvolvemos o conceito juntos, com a idéia de um filme de ficção onde Nicholas Ray continuaria a fazer o papel de O amigo americano (1977). Começamos a filmar sem roteiro, seguindo nosso pensamento, na esperança de chegar no filme de ficção. Só que o câncer de Nick foi mais forte, e o filme virou um tipo de documentário sobre sua morte. Quis parar, mas o médico pediu para continuar. Só paramos de filmar depois do funeral. Foi assustador filmar o processo de morte. Esse assunto voltou no meu último filme, Palermo shooting, uma ficção em que a morte aparece como uma pessoa, furiosa com um homem que a fotografou. A morte é o maior tabu que existe na indústria cinematográfica.

ROCK'N'ROLL
Às vezes desejo fazer um filme como se fosse um rock. Infelizmente os filmes tomam mais tempo. Na verdade Alice nas cidades (1974) começou com uma música de Chuck Berry. Muitas vezes invejo os músicos do rock. Muitos músicos de rock são autores, como alguns cineastas, só que com mais liberdade criativa.

MANOEL DE OLIVEIRA
Continuo mantendo contato com Manoel e espero encontrá-lo no Festival de Veneza. Conheço-o há 20 anos, em dezembro do ano passado o vi pela última vez, e fizemos uma grande festa para comemorar os 99 anos de idade. Imaginem o que vai acontecer em dezembro, quando ele será o único cineasta que continua trabalhando aos 100 anos, fazendo filmes inventivos e inteligentes.

CHAMBRE 666 (1983) E O FUTURO DO CINEMA
Às vezes o melhor é admitir que não temos razão. A história mostrou que meu pessimismo estava equivocado sobre o futuro do cinema. Naquela época, ninguém dava a mínima para o cinema europeu. Só que ele se reencontrou e está melhor do que nunca. A maior parte dos que falaram naquele filme estavam errados. O único otimista foi Antonioni.

CRÍTICAS DA IMPRENSA
Depois de ter feito cinco filmes, fui aos EUA mostrar O Amigo americano. Naquela época, ainda lia críticas. Depois, percebi que todas diziam a mesma coisa: "esse alemão faz filmes que tratam de medo, alienação e América". E me dei conta que não poderia continuar assim. Aos poucos durante os anos que vivi nos EUA, aceitei que tinha o espírito romântico alemão, e depois disso meus filmes perderam a alienação. Em Asas do desejo, é possível encontrar até mesmo alguma felicidade.

publicado em 20 de agosto de 2008 no Diario de Pernambuco