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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Costa-Gavras assiste ensaio da Orquestra do Coque

A manhã de ontem foi de sol, ,e ele bem que poderia ter ido à praia ou embarcado em algum programa turístico. No entanto, o cineasta Constantin Costa-Gavras decidiu acompanhar o ensaio da Orquestra Criança Cidadã, no Quartel do Cabanga.

Desde que travou o primeiro contato com o grupo, na abertura do Cine PE, o cineasta fez questão de conhecer de perto o projeto que ensina música erudita a 130 crianças e jovens da comunidade do Coque.

Acompanhado pela mulher, a produtora Michelle, o diretor ouviu atentamente o maestro Cussy de Almeida, que apresentou alguns alunos. Como conjecturar o que se passa quando os olhos do veterano diretor de Z e O quarto poder encontram os do menino Luan, que do alto dos seus quatro anos recém-completados, oferece uma esforçada performance de violino?

O próprio Gavras revelou que, enquanto assistia a um dos meninos tocando violoncelo, lembrou de uma sequência de seu filme Amém, que será exibido no próximo sábado, às 16h, no Cinema da Fundação. "Normalmente, só os filhos da burguesiapodem tocar um violino. Mas esses pequenos músicos que moram na favela são incríveis", disse Gavras ao Diario. "É um enorme prazer saber que há gênios ali. Ao mesmo tempo, é triste saber que outros tantos podem se perder por falta de apoio".

Durante uma hora, a orquestra interpretou músicas de Bach, Vivaldi, Ravel e do próprio Cussy. No fim da apresentação, Gavras aplaudiu e gritou "Bravo!". Antes, declarou que conhecer o projeto provocou uma grande emoção, talvez a maior de sua viagem ao Brasil.

* publicado no Diario de Pernambuco

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Entre a política e o espetáculo - lições de cinema de Costa-Gavras


Foto: Daniela Nader

A noite de abertura do Cine PE entrou para a história como a mais importante de todas as edições do evento. O motivo foi a presença do cineasta Constantin Costa-Gavras, que apresentou, Eden a l'ouest, filme em que dedica seu olhar contundente e perspicaz ao problema dos imigrantes ilegais na Europa, retratada como um paraíso para poucos.

Ontem, ele concedeu entrevista coletiva, que contou com participação ativa de sua mulher, a produtora Michelle Gavras. Entre declarações sobre opções estéticas, políticas e o futuro do cinema, uma curiosidade: o diretor conheceu o ex-governador Miguel Arraes em seu exílio na Europa. Além disso, não é a primeira vez que o cineasta visita Pernambuco. Gavras visitou o estado para pesquisar um personagem real aproveitado no filme Estado de sítio (1973) e, depois, em 1990, numa escala para o Chile. Não bastasse, Michelle revelou à imprensa um segredo de família: "tenho o sonho de que Costa faça um filme sobre sua origem na Grécia".

Os melhores momentos, transcritos a seguir, também servem de provocação para convocar o público para a sabatina a ser promovida por jornalistas da Folha de São Paulo hoje, às 15h, no Recife Palace Hotel (inscrições pelo e-mail eventofolha@grupofolha.com.br). A agenda do cineasta ainda conta com uma visita, às 9h, ao ensaio da Orquestra Cidadã dos Meninos do Coque. Gavras já pensa em colaborar com o projeto. Às 18h, ele será recebido no Palácio das Princesas pelo governador Eduardo Campos e família, com quem Gavras deve trocar boas histórias.

Formação política
Minha formação é literária e cinematográfica. Quanto à formação política, essa se deu com a vida. Vivi num país ocupado por nazistas, que depois passou por uma tremenda guerra civil, a guerra fria e suportou governos conservadores e ditatoriais. Quando fui para a França, descobri uma forma de liberdade que não conhecia. Encontrei pessoas que faziam oposição política de forma clara e precisa, sem dogmatismo. Sempre me interessei na forma como um sistema político maneja os civis. Enquanto estudava cinema, parecia que isso era algo que faltava nos filmes. Poderia me dedicar a fazer filmes românticos, mas acho que, de uma forma ou outra, todos os filmes são políticos.

Miguel Arraes

Tive uma relação próxima com Miguel Arraes. Em 1990, quando acompanhava uma delegação francesa no transporte dos restos mortais de Salvador Allende até Santiago, paramos no Recife por algumas horas e encontrei o governador. Ele falou mais comigo do que com os ministros franceses! Sem dúvida, havia uma relação interessante entre nós.

Eden à l'ouest

É um filme muito pessoal. Não chega a ser biográfico, pois sou um imigrante que chegou à França legalmente. Hoje a imigração ilegal é um problema enorme. É muito importante tomar partido. O tema já gerou muitos filmes, todos dramáticos. Quis colocar o problema de uma forma diferente, mais cotidiana, e mesclar o drama com um ritmo frenético. Jaques Tati disse que, para fazer comédia, basta retratar a sociedade como ela é. Quis fazer isso em O corte (2005) e me pareceu indispensável utilizar o mesmo recurso para tratar da imigração. Me pareceu mais positivo. Essa gente pode criar uma nova cultura e quis apresentá-la de forma adequada, pois a história de Elias (o protagonista), é a história de nós mesmos, da nossa sociedade.

Mídia e terrorismo

Hoje a palavra terrorismo é usada pela mídia de diferentes formas. Penso que é preciso refletir sobre o que isso significa pois, algumas vezes, é algo necessário. Claro que da forma praticada no Oriente Médio é algo negativo. Mas numa sociedade onde não há possibilidade de mudança da forma democrática, provavelmente a única maneira de fazê-lo é pelo terrorismo.

Ideias x entretenimento

Penso o cinema como um espetáculo. Não vamos ao cinema para receber lições políticas ou universitárias, vamos pelo sentimento. Para chorar, rir, odiar, amar. Tudo isso é ligado à vida cotidiana. Claro que a utilização do thriller, por exemplo, não é sempre necessária. Pode "matar" o conteúdo político e social e dar ao filme uma direção distinta do objetivo inicial. Por isso, Estado de sítio começa com a morte do personagem, o que acabou com um suspense desnecessário.

Novas linguagens
A cada nova tecnologia, o cinema muda muito esteticamente. Não podemos desconsiderar a influência da televisão e o advento da linguagem do videoclipe. Hoje, a capacidade dos espectadores seguir as elipses (recurso que faz cortes abruptos de tempo/espaço) é muito maior. Isso muda o estilo de se fazer um filme. Agora entramos em um novo paradigma, que é o digital, o que mudaa economia, a estética e a forma de apresentar um filme para o público. Essa é uma facilidade que esconde um perigo, pois pode aumentar a concentração de poder na exibição de filmes. Mas pouca gente sabe o que está por vir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A maratona do Cine PE começou


CONSTANTIN COSTA-GAVRAS, PRESTES A RECEBER HOMENAGEM, ONTEM, NA ABERTURA DO CINE-PE
Foto: Beto Figuerôa

Ontem, com a presença do cineasta Constantin Costa-Gavras e a exibição de seu novo filme, Eden à l’ouest, o Cine PE fez um providencial upgradepara continuar relevante no cenário de festivais brasileiros. Com o início da mostra oficial de curtas e longa-metragens, tem início uma maratona cinéfila, que segue até o próximo domingo, com a exibição de O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira. Somente hoje, serão nada menos que cinco horas de projeção no Teatro Guararapes (Centro de Convenções), com direito a pausa para homenagem a atriz Dira Paes.

Abre a competição de longa-metragens a ficção Mistéryos, de Pedro Merege e Beto Carminatti, dois representantes da nova geração de filmes feitos no Paraná. De acordo com os produtores, trata-se de um suspense surreal, baseado em O mez da grippe e outros livros (Companhia das Letras), de Valêncio Xavier. O “Y” grafado no título é uma referência ao português arcaico que Xavier fez uso na obra.

Em conversa por telefone, Merege diz que não houve dificuldade na adaptação para o cinema. “Classifico o livro como lítero visual, pois ao ler os contos, era como se estivesse assistindo a um filme cheio de links”.

A trama, que transita entre cinco contos do livro, começa com o desaparecimento de Jucélia Ramos (Sthefany Brito), que em 1969 entrou num trem-fantasma, para nunca mais sair de lá. Anos depois, o escritor VX (Carlos Vereza, que viveu Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere), a reencontra de forma um tanto inusitada, como uma das atrizes de Sapho, o amor entre as mulheres, filme erótico produzido em 1922. Ainda no elenco estão Leonardo Miggiorin, os paranaenses Marco Zeni, Janaína Spoladore e a veterana Lala Schneider (1926-2007), em sua derradeira atuação.

Merege ainda disse ao Diario que utilizou imagens de arquivo e de envelhecimento digital para simular o filme feito nos anos 20. “Buscamos a verossimilhança, mas a artificialidade do processo digital acabou entrando como mais um elemento de um jogo com infinitas relações”.

Programação intensa - As atividades do Cine PE começam logo cedo, às 9h30, no Recife Palace Hotel, com o seminário Desenvolvimento audiovisual – Os caminhos da co-produção internacional. Participam da mesa os produtores Paula Barreto, Assunção Hernandez, Alberto Flaksman (Ancine), Gualberto Ferrari (França/Argentina) e mediação do secretário do audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin. A entrada é franca.

Às 18h30, começa a mostra competitiva. Os curtas digitais são Nello’s (SP), documentário de André Ristum; Teteco (RJ), ficção de Glauco Kuhnert; Eiffel (PE), documentário de Luiz Joaquim; e 6.5 Megapixels (CE), ficção de Michelline Helena, Gláucia Soares e Janaina de Paula. Logo após, serão exibidos os seguintes curtas 35 mm: Selos (CE), de Graciely Dias - produzido pela escola de audiovisual de Fortaleza; Distração de Ivan (RJ), de Cavi Borges e Gustavo Melo - novo trabalho do coletivo Nós do Morro; e Muro (PE), de Tião, premiado ano passado no Festival de Cannes. Nossos ursos camaradas, novo filme de Fernando Spencer, terá exibição hors concours.

Amanhã, das 15h às 17h, a Sabatina Costa-Gavras, promovida pelo jornal Folha de São Paulo, promete render pano pras mangas. Será no Recife Palace Hotel (Boa Viagem), e terá como entrevistadores os jornalistas Alcino Leite Neto, Silvana Arantes e Inácio Araújo. Até o fechamento desta edição, 50 vagas ainda estavam à disposição. A inscrição é gratuita, e deve ser feita pelo email eventofolha@grupofolha.com.br.

Em tempo: a organização do Cine PE informou ontem que, motivada pela grande procura, a exibição do filme Z, de Costa-Gavras, foi transferida do Cinema da Fundação para o Cineteatro Guararapes. Será na próxima sexta-feira, às 16h, com entrada franca.

*publicado no Diario de Pernambuco

terça-feira, 8 de maio de 2007

Filmes para assitir enquanto o Santo Papa visita o Brasil.



Amen (2002), de Konstantinos Costa-Gravas. Com a ajuda de um jovem padre, o oficial da SS tenta avisar o Papa Pio XII sobre o holocausto que matou 10 mil judeus por dia nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Até descobrir quais as relações entre o Vaticano e o Partido Nazista. Precisa dizer: "baseado em fatos reais"? Ou lembrar que, no fim da adolescência, Bento 16 serviu à juventude nazista?



O Poderoso Chefão 3 (Godfather: Part III, 1989), de Francis Ford Coppola. Empenhado em limpar o nome da famiglia Corleone, Michael abandona os negócios ilegais para participar das empresas da imaculada Santa Sé, e obter o perdão papal. Lá, descobre que, para sobreviver, precisa ser tão (ou mais) violento quanto no tráfico de drogas e cassinos que mantinha em Las Vegas. Bem didático é o rito de passagem de poder, do Papa Paulo VI (morto em 1978) para o eleito e morto em seguida João Paulo I, para então assumir o nosso velho conhecido João Paulo II. Quem saberá o que se passou entre uma fumaça e outra na escolha do simpático Ratzinger?