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sábado, 28 de julho de 2007

E quem precisa de um Eisner Awards?



American Born Chinese, de Gene Luen Yang foi premiado San Diego (Califórnia) como o melhor álbum gráfico inédito

Saiu ontem o resultado do Eisner Awards 2007. A cerimônia se deu durante o grandioso San Diego Comic-Con International, mega-evento que encerra as atividades amanhã, pela primeira vez com os ingressos esgotados (ano passado, o público foi de 123 mil pessoas).

Entre os premiados estão Paul Pope (Batman: Year 100), Gene Luen Yang (American Born Chinese), Alison Bechdel (Fun Home), Grant Morrison (All Star Superman) e, claro, Neil Gaiman (Sandman). A lsita compelta está aqui.

Os brasileiros tem um motivo para decepção: os irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá não levaram o prêmio de melhor obra estrangeira publicada nos EUA. Eles concorreram pela graphic novel "De:TALES", editada nos states pela Dark Horse Comics.

Não foi desta vez. De qualquer maneira, a indicação soma mais um reconhecimento à qualidade do trabalho da dupla, fartamente premiados no último HQ Mix em São Paulo por, entre outros títulos, a adaptação em quadrinhos para "O Alienista", de Machado de Assis.

Sem falar que a Dark Horse chamou Fábio Moon para mais um projeto: Sugar Shock, minissérie publicada também na internet (de graça) pelo selo Dark Horse Presents. Para conhecer, clique aqui. Confira o material, e me responda: quem disse que pra entrar no mercado americano precisa ter um traço colonizado pela estética Marvel/DC?

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Matéria sobre "O Alienista" (de Machado de Assis) em quadrinhos, na Folha de Pernambuco de hoje




Na Folha de Pernambuco de hoje saiu uma resenha minha sobre mais uma adaptação da literatura para os quadrinhos: o conto O Alienista, escrito por Machado de Assis em 1881. Lançada no começo deste mês, a recriação em HQ é assinada por Fábio Moon e Gabriel Bá, e é o primeiro volume da série "Grandes Clássicos em Graphic Novel", publicada pela Editora Agir (grupo Ediouro).

Para ler a matéria, é só clicar aqui.

terça-feira, 24 de abril de 2007

"O Alienista" em quadrinhos: um bom exemplo de adaptação



Os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá fizeram uma bela versão em quadrinhos de "O Alienista" (R$39,90), de Machado de Assis. Editado pela Agir, recentemente adquirida pela Ediouro, o livro está sendo anunciado como o primeiro de uma série a adaptar clássicos da literatura brasileira. Que venham mais.

Longe da chatice das adaptações convencionais, os autores acertaram a mão. Não mutilaram o texto para caber em poucos quadros (tiveram espaço para isso, são 72 páginas), fizeram bom uso da linguagem dos quadrinhos: sequências em silêncio, cores em tons de sépia, uso de metáforas e um traço que caracteriza com pompa e nobreza os personagens deste conto passado no fim do século 19.

Talvez por isso a palavra "quadrinhos" está ausente da capa. Os editores preferiram usar o eloqëente "Grandes clássicos em graphic novel". Não importa o nome, a obra é um convite irresistível a conhecer o alienista original.

Outro trabalho dos irmãos desenhistas, "De:TALES" (Dark Horse), acaba de ser indicado ao Eisner Awards, o "Oscar" dos quadrinhos, na categoria "Melhor edição americana para material estrangeiro".

sábado, 31 de março de 2007

300 de Esparta: divagações sobre a suposta "fidelidade" do cinema aos quadrinhos




"Fidelidade" é uma palavra que tem sido repetida orgulhosa e infinitamente por Zack Snyder, diretor do filme "300", inspirada na graphic novel homônima de Frank Miller. Muito bem divulgado pela imprensa, "300" está à disposição do público desde ontem, em 550 salas brasileiras. Por um lado, vitória para os quadrinhos, arte geralmente diminuída, aqui enobrecida pelo tratamento de luxo e evidência nunca desfrutada em sua centenária trajetória.

Por outro, problemas no tocante ao processo de adaptação me saltam aos olhos. Nas cenas acima, não resta dúvida. "Igualzinho", não é?

Não é bem o caso da pintura abaixo, veja bem como os espartanos foram retratados:



Nada tão "macho" quanto os guerreiros de Miller.

Enquanto escrevia uma crítica de "300" para o site da Continente Multicultural, me questionei bastante sobre a utilização da linguagem dos quadrinhos no cinema. Naturalmente não cheguei a muitas conclusões. Como explicar a artificialidade e falta de fluidez de filmes como "300", meu caro Watson? Foi inevitável, enquanto assistia ao filme, fiquei o tempo todo comparando: "nossa, é igualzinho mesmo!".

Bom, tenho que admitir que a cópia transposta por Snyder é muito bem feita. Realmente, o filme conseguiu manter intacta a estética original. Não tão obsessivamente quanto Robert Rodriguez e o próprio Frank Miller fizeram em "Sin City", clonagem quadro-a-quadro que chega a dar náuseas após duas horas de projeção. "300" utiliza mais recursos de cinema, graças a Zeus.

Talvez as melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema sejam as assumidamente traduzidas para a linguagem audiovisual, ou seja, são cinema antes de tudo. Tomem, por exemplo, os filmes de super-heróis. Eles parecem bem resolvidos quanto a isso. Neles, a fidelidade está em, durante o processo de tradução estética entre uma linguagem (HQ) para outra (cinema), preservar as características dos personagens, o contexto em que foram criados, enfim, sua essência. Filmes como "Ghost World", "Hulk", "Homem-Aranha", "X-Men" e "Quarteto Fantástico" vem fazendo isso muito bem.

Claro que não é o caso de invalidar experiências como "300" e "Sin City". Elas não são meros subprodutos das HQs. Pelo contrário, apontam para um diálogo de linguagens onde só o equilíbrio pode gerar bons frutos. Quando este for alcançado, teremos filmes bem mais interessantes de se assistir. Um bom exemplo neste sentido é o não tão recente "American Splendor" (Robert Pulcini), que conta a história do roteirista de quadrinhos Harvey Pekar.



Júlio Bressane, em seu ótimo livro-ensaio "Cinemancia", trata do processo de tradução de uma forma mais livre e essencial. De uma língua para outra, analisando o caso de São Jerônimo, que converteu a Bíblia do Sânscrito para o grego. E da literatura para o cinema, exemplificando com sua então recém lançada adaptação de Machado de Assis, "Brás Cubas". Quem assistiu ao filme, sabe que ele é uma viagem de sons e luzes ao universo machadiano. Nem de longe passa por uma transposição literal de diálogos e descrições de ambiente contidos no romance original. O sentido e a maneira machadiana de olhar para a realidade, no entanto, brilha no filme inteiro.

Isso porque para Bressane, a recriação é imprescindível no processo de tradução. Tanto que seu Brás Cubas reinventado para o cinema é diametralmente oposto (e infinitamente superior) ao interpretado por Reginaldo Faria no filme de André Klotzel, que se dispôs a adaptar "fielmente" o livro de Assis. O máximo que uma obra assim pode atingir é o da reverência ao original. Um culto que termina em si, que não extrapola como arte.

De volta aos espartanos, o "fiel" (como um escravo?) diretor Snyder demonstra com orgulho ter reproduzido a luz, a textura, os diálogos, enquadramentos, exatamente como na HQ original, esta servindo como o mais perfeito storyboard do planeta. Um sinal de respeito e tributo, mas também de engessada submissão, característica limitante do potencial que um bom filme pode atingir.

Caro Watson, onde está Wally (Snyder)? Cadê o seu olhar como tradutor?

Por fim, como bem provou Mary Shelley, ao criar seu Frankenstein há quase dois séculos, encerro com a máxima nada matemática: a soma das partes nunca é igual ao todo.