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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um brinde ao que interessa



Lars Von Trier, Terrence Malick, Pedro Almodóvar. 2011 foi um belo ano para o cinema. A partir de amanhã, a Expectativa / Retrospectiva promovida pelo Cinema da Fundação passa a limpo o que de melhor esteve em cartaz e antecipa filmes inéditos na cidade, ou no Brasil. A combinação é poderosa. São 15 dias de evento, quase 40 filmes, entre longas e curtas. Algumas sessões são mais imperdíveis do que outras, por exemplo, a do novo Eduardo Coutinho, As canções. Ou a de três recentes provas de renovação criativa no cinema brasileiro, que tiveram boa circulação em festivais internacional: o paulista Trabalhar cansa e os mineiros Os residentes e O céu sobre os ombros.

“A essência do evento é chamar atenção para o que virá e o para o que passou de bom durante o ano. É mais uma oportunidade para ver ou rever filmes que valem a pena”, explica Luiz Joaquim, que divide com Kleber Mendonça Filho o ofício de programar o Cinema da Fundação. Ele conta que o evento começou em 1998, no início da atual gestão da sala. “Era somente retrospectiva, com 14 filmes. Em 1999, foram 24. Em 2000, começamos a trazer filmes que iriam estrear . Em 2001, mais da metade era novidade”. Dos longas deste ano, 19 são inéditos e 11 já foram vistos na cidade. Melancolia, de Trier, é o filme mais visto do ano no Cinema da Fundação.

Amanhã, são três bons motivos para ir ao cinema: Meia-noite em Paris, o maior sucesso de Woody Allen no Brasil; o iraniano Isto não é um filme, feito durante a prisão domiciliar de Jafar Panahi, um manifesto metalinguístico sobre liberdade e também uma aula de cinema; e Triângulo amoroso, novo longa de Tom Tykwer, que em 1998 renovou o cinema alemão com Lola rennt (Corra, Lola, corra).

Dos diretores de outros estados, apenas Sérgio Borges (O céu sobre os ombros) estará presente. Coutinho foi convidado, mas a sessão coincide com a estreia de As canções, no Rio e São Paulo. Fica para a próxima. Dos realizadores locais, apenas Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira (Praça Walt Disney) não estarão, pois viajam para o Festival de Havana. O curta será exibido na quinta-feira, dia 8, junto com Ela morava na frente do cinema, de Leonardo Lacca e [projetotorresgemeas], de autoria coletiva. A primeira leva de pernambucanos virá na terça-feira (6): Di Melo - o imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro; Corpo presente, de Marcelo Pedroso; e Mens sana in corpore sano, de Juliano Dornelles.

Mas o que une obras tão díspares como os hollywoodianos Super 8 e Planeta dos macacos, com o drama alemão sobre integrantes do grupo de Baader Meinhof, Se não nós quem?, videoclipes do R.E.M., e os recentes curtas locais? Joaquim explica que o critério é o respeito à diversidade do cinema. “Se for interessante, a gente coloca”.

Programa

sexta, 2 dez
17h30 - Meia-noite em Paris
19h30 - Isto não é um filme
21h10 - Triângulo amoroso

sábado, 3 dez
17h - A árvore da vida
19h50 - O porto
21h40 - Amores imaginários

domingo, 4 dez
16h20 - Late bloomers: o amor não tem fim
18h20 - Se não nós, quem?
20h50 - Isto não é um filme

segunda, 5 dez
17h - Medianeras
19h - Hermilo no Grande Teatro do Mundo
21h - Melancolia

terça, 6 dez
17h - Amores Imaginários
19h - O planeta dos macacos
21h - Curtas PE 1 (debate)

quarta, 7 dez
17h10 - R.E.M
18h50 - Super 8
21h - Balada do amor e do ódio

quinta, 8 dez
16h30 - O porto
18h30 - Trabalhar cansa
20h30 - Curtas PE 2 (debate)

sexta, 9 dez
15h50 - Balada do amor e do ódio
18h - Super 8
20h10 - O último dançarino

sábado, 10 dez
16h40 - Criança da meia-noite
18h50 - As canções
20h40 - O porto

domingo, 11 dez
16h - Caminho para o nada
18h20 - Adeus o primeiro amor
20h30 - As canções

segunda, 12 dez
15h50 - Lola
18h10 - Uma doce mentira
20h20 - A criança da meia-noite

terça, 13 dez
18h40 - Mulher à tarde
20h30 - O céu sobre os ombros

quarta, 14 dez
17h10 - Melancolia
19h40 - Trabalhar cansa

quinta, 15 dez
17h20 - Árvore da vida
20h - Porta a porta (debate)

sexta, 16 dez
16h20 - Medianeras
18h10 - A pele que habito
20h30 - Conto chinês

sábado, 17 dez
17h10 - Conto chinês
19h - O moinho e a cruz
20h50 - Isto não é um filme

(Diario de Pernambuco, 01/12/2011)

sábado, 8 de outubro de 2011

Território do cinema



Após extensa carreira em festivais, estreia hoje o longa Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro. Como tudo o que vem fazendo, o diretor de Um lugar ao Sol e As aventuras de Paulo Bruscky, fica difícil definir o que é ficção e o que é documentário na nova obra. A única certeza é a de que seus personagens se encontram em uma geografia somente permitida no território do cinema.

Sob o argumento de registrar as mudanças recentes ocorridas no bairro de Brasília Teimosa, o projeto de Mascaro foi aprovado em 2007 no edital para documentários DOC TV. No entanto, o filme se construiu como obra autônoma, que utiliza recursos de linguagem na intenção de confundir percepções do que é real e o que é representação.

Se ao assistir ao cotidiano do garoto Caio, do cinegrafista amador Phábio, da manicure Débora e do pescador Pirambu, encontramos atitudes comuns à maioria dos recifenses, o jogo de luzes, a captação de som e a fotografia elaborada nos levam a questionar até que ponto tais cenas são espontâneas, ou “naturais”. É a partir desse estranhamento que, tênue, o filme se equilibra.

Avenida Brasília Formosa chega a várias capitais através da Sessão Vitrine, que no Recife tem como parceiro o Cinema da Fundação. Atenção para os horários, pois as poucas sessões acontecem hoje, amanhã e terça-feira. Antecede o curta Material bruto, de Ricardo Alves Júnior.



Mudança de rumo - No filme, ele trabalha num restaurante e faz frilas editando videos. Tem vida religiosa ativa e gosta de dançar. Mas nem a casa em que habita no filme, em Brasília Teimosa, ou o restaurante fazem parte do cotidiano de Phábio Mello. Na verdade, ele mora no bairro ao lado, o Pina. E se na época fazia bico como garçom, hoje, aos 26 anos, vende produtos de segurança eletrônica. E nos fins de semana, filma e coloca som em eventos.

Quando foi convidado para participar do filme, Phábio pensou que não precisaria sair da rotina. Quando percebeu que precisaria interpretar um personagem, aceitou, mas durante o processo pensou em desistir. “Não conhecia Brasília Teimosa por dentro. No começo achei legal, mas tinha outros compromissos. Aí chegamos num acordo de gravar somente no tempo livre”.

Desde o começo do ano, Phábio tem viajado, representando o filme em festivais: Tiradentes, Salvador, Triunfo, São Luís, Belo Horizonte. A experiência mexeu com seus planos. “Depois que minha foto saiu nos jornais, cresceu a demanda para filmagens. E despertou a vontade de fazer um curta. Vou pegar umas dicas com o Gabriel”.



Conversa de pescador - A bordo de seu barco, Pirambu atende o telefone e conversa com o repórter. Na época da filmagem, o pescador vivia no Conjunto Habitacional construído no bairro do Cordeiro, para onde foram transferidos os moradores das palafitas. Pirambu é Alexandro José de Olivera, 35 anos. Diz que gostou do filme, que se sente bem representado. A única diferença é que ele voltou a morar em Brasília Teimosa. O apartamento ficou com a tia. “Eu tenho um barco de pesca, não dá pra morar naquele meio de mundo. Meu trabalho é aqui”.

No mais, Pirambu diz que continua com a mesma vida de quando foi convidado para participar do filme. Nada de estranhar os equipamentos ou o movimento da equipe. “Já participei de várias reportagens para a TV sobre o dia a dia no mar. E a conversa dos pescadores é aquela mesma, só não é aquela parte de falar de mulher, não é assim não, era só a gente puxando conversa pra fazer a cena”, brinca. Quando soube a data em que seria publicada esta reportagem, ele lamenta não poder conferir o jornal. Pirambu está no alto mar e só volta em 10 dias. O nome do seu barco? "Deus Todo Poderoso".



Manicure extrovertida - “Aquilo ali é a minha realidade, o meu dia a dia, muito pouco foi mexido”, conta a manicure Débora Leite. Muito pouco? “Algumas coisas que eu falei, na forma de agir e a festa que a gente foi. Não frequento aquele barzinho. No mais, foi natural, não fiz cena”. Se a vontade de participar do Big Brother surgiu como proposta da produção, aos poucos foi sendo assumida por Débora como um desejo real, a ponto de ter mandado o vídeo para se inscrever no programa global, no ano passado. “A experiência de fazer o filme foi ótima, sou extovertida, adoro aparecer. Estou pensando em enviar o vídeo novamente este ano”.

De 2008 pra cá, Débora continua vivendo e trabalhando no mesmo lugar, o Salão Belas Unhas, que ontem completou 12 anos. “A única mudança na minha vida foi ter trocado de namorado”. Sobre a forma como Brasília Teimosa é apresentada no filme, a manicure de 32 anos diz que o bairro tem coisas bem melhores para se mostrar. “Por conta da compra dos terrenos ao redor, ele está menor do que antes, mas continua a mesma coisa em termos de comunidade”.

(Diario de Pernambuco, 08/10/2011)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um espelho em alto mar



Apesar de se apropriar de imagens alheias, das quais não teve participação ou controle, o diretor Marcelo Pedroso assina a autoria de Pacific (Brasil, 2010). E o faz sem provocação alguma. O documentário sustenta um discurso próprio, estabelecido na edição. Ao retirar de seu destino natural - alguma insuportavel reuniao familiar - gravações feitas por turistas a caminho de Fernando de Noronha, Pedroso (KFZ-1348) propõe uma experiência que pode ser tão difícil quanto fascinante.

Pacific estreia amanhã no Cinema da Fundação e até outubro entra em cartaz em mais 13 capitais. O filme chega ao circuito comercial com elogios de importantes nomes do meio, como Eduardo Coutinho e Jean-Claude Bernadet. O mesmo Coutinho que, meses depois, lançou Um dia na vida, uma subversiva colagem de programas de TV exibidos na tela do cinema durante a Mostra de São Paulo. Sintonia fina.

Há o incômodo de se sentir preso por 70 minutos, em imagens trêmulas, que registram a viagem de cruzeiro, o “paraíso” all-included capaz de ofuscar o próprio destino. Tanto que os passageiros não comemoram o ano novo em terra firme, mas no próprio navio que dá nome ao filme. Em outro momento, um casal simula a famosa cena do Titanic. O quanto isso diz respeito a todos nós e aos valores que compartilhamos?

A proliferacao de câmeras gerou uma avalanche de videos caseiros. Pacific é um convite para pensar a natureza dessas imagens e que necessidades as levam a exisitir. É um espelho e, como tal, podemos rejeitá-lo por refletir o que não queremos ver em nós mesmos.

Entrevista >> Marcelo Pedroso: “Qualquer pessoa pode criar a própria narrativa”

Muitas vezes vemos os personagens do filme em situações ridículas. Pacific é uma crítica à “nova” classe média?
O conceito de ridículo é relativo e a proposta do filme não é criar juízo sobre isso. O que está em jogo é a noção de felicidade, que padrão de bem-estar é esse que buscamos, que nos é vendido, como o ideal de estar num navio de luxo, a caminho de uma praia paradisíaca. A noção do ridiculo não é um valor absoluto. A proposta não é criar um juízo, pois o que parece ridículo pode ser um momento singular para alguém. As pessoas foram muito generosas em ceder imagens e fizemos o possível para respeitá-las, sem abandonar um olhar que refletisse uma visão crítica do assunto.

Por que usar imagens feitas por turistas? De outra forma, o filme não seria possível?
Se tivesse ido para o navio filmar, poderia tocar em questões parecidas, não seria o Pacific. O filme tem uma marca da fabulação que remete a quem somos e quem queremos ser. Que personagem se cria quando estou no navio filmando, sem imaginar que aquilo poderá ser visto publicamente? Isso não é novo no documentário. Nos anos 1960, em vez de entrevistar, Jean Rouch filmava quem o personagem gostaria de ser. Então o filme parte para um grande retrato do devaneio, das narrativas em que nos colocamos como protagonistas e, com isso, se recria um mundo. Ser feliz se torna uma compulsoriedade, há quase uma obrigação de ligar a câmera, se ver e se mostrar realizado. Apertar o REC é quase um deflagrador da felicidade. É a apologia da imagem como determinante das situações.

Hoje milhões de pessoas têm acesso a câmeras e Pacific reflete esse momento. Como você avalia essa produção?
Hoje qualquer pessoa pode criar a sua própria narrativa, voce filma o objeto e se filma. Com isso está desenvolvendo um estar no mundo. E isso tem a ver com realização de desejos. Ao olhar para essas imagens, o filme busca mapear a iconografia do que está no extracampo. Que traços da cultura audiovisual estão ali, determinamo a busca daquelas pessoas? São referências da TV, da publicidade, que referendam um modo de vida capitalista, voltado ao consumo e a um deteminado padrão de beleza.

(Diario de Pernambuco, 18/08/2011)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Um bebê extraordinário



Em cartaz no Cinema da Fundação, Ricky (França, 2009) é um filme incomum sobre temas bastante comuns. A princípio, ele aponta para história recorrente, a da mulher abandonada, mãe solteira oprimida pelas responsabilidades. Ou seja, seria mais um filme a repetir fórmulas prontas. Assim como poderia cair em outros lugares-comuns e ser uma daquelas peças de entretenimento com bebês fofinhos, os “anjinhos” que tanto mexem com as fantasias femininas. Ou então a condenar o ser humano, incapaz de lidar com o desconhecido, tanto pelo viés da ciência, quanto pela ávida imprensa sensacionalista.

Mas o filme de François Ozon evita vícios e se equilibra belamente entre o ordinário e o fantástico, numa parábola sobre o processo de religação com o divino em seu sentido mais amplo, de reconexão com a vida. Foco no drama de Katie (Alexandra Lamy), a quem encontramos sem energia para enfrentar o dia. Ela tem uma filha de sete anos, a melancólica Lisa. Uma reviravolta as espera quando Katie conhece Paco (Segi Lópes), imigrante espanhol que trabalha na mesma indústria química. Em pouco tempo, eles estão morando juntos e têm um filho.

Até então, a narrativa de Ozon é econômica, de cortes temporais precisos. Após o parto de Ricky, o filme se dilata, entregue à surpreendente revelação trazida pelo bebê. Há a tentação de tratar do assunto mais diretamente, mas revelar mais do que isso seria estragar o que o filme tem de mais precioso. Pois a fantasia está incorporada ao filme não como um processo em si, mas com a clara função de relembrar as almas tomadas pelo desencanto de que é possível voltar a acreditar.

Se entregar para esse processo em vez de se agarrar exclusivamente ao filho são lições de amor e desapego que toda mãe deveria conhecer. “Quem ama, não abandona”, diz a filha. Parece clichê, mas é isso aí.

(Diario de Pernambuco, 26/07/2011)

domingo, 17 de julho de 2011

Uma arte de projeção


Joselito Gomes, há 13 anos projecionista do Cinema da Fundação

Praticamente invisíveis, eles estão ali, cuidando da sua sessão de cinema. Apesar de serem lembrados somente quando o filme falha, um atestado recente da importância dos projecionistas está em carta enviada pelo diretor Terrence Malick, que recomendou aos projecionistas normas de afinação do equipamento para exibir seu novo filme, A árvore da vida.

Há 15 dias, Michael Bay fez o mesmo para garantir que seu Transformers 3 não perdesse em virtude da luz filtrada pelos óculos 3D. Neste fim de semana, a produtora de Harry Potter também indicou parâmetros para sua correta exibição. A preocupação procede, já que nos últimos anos o que temos visto é a multiplicação de salas de shopping, que se preocupam mais com qualidade da pipoca do que com as condições em que os filmes são exibidos.

No Recife, poucos projecionistas “à moda antiga” estão em atividade. Com o fim dos cinemas de rua, nos quais se alternavam operadores com décadas de experiência, acabou-se também o romantismo da profissão. A gradual digitalização das salas é outro fator que aponta para o acanhamento da função. Assim como diminui a interação com o público e com o próprio filme a ser exibido, há menos intimidade com a maquinaria.

Thiago Augusto, projecionista do UCI Ribeiro Casa Forte, vê nesse distanciamento um processo de alienação. “A gente tem alcance limitado para mexer no equipamento, quando precisa tem que acionar a manutenção especializada. Além de ter um custo para o cinema, o projecionista fica de mãos atadas”.

Para Joselito Gomes, que trabalha no Cinema da Fundação, no futuro próximo bastará alguém que saiba apertar botões, já que a projeção digital se resume a acionar aparelhos pré-ajustados. “Uma sala de shopping com 12 salas desempregou 11 projecionistas. Para quem está começando talvez isso seja um sofrimento, porque esta é uma profissão que apaixona”. O segredo para uma boa projeção? “Tem que ter sensibilidade e estar atento, senão o público deixa de prestar atenção no filme para reparar nos problemas”.

Joselito começou no extinto complexo Trianon - Art Palácio. Em 1998 foi para o Cinema da Fundação, por indicação do falecido Seu Alexandre (Moura), que não pôde assumir pois já trabalhava no Cinema Arraial. “Aprendi olhando. Fui contratado como mecânico do ar-condicionado, mas era rato de cabine. Chegava mais cedo e treinava, fui pegando o jeito até que chegou um tempo em que o projecionista ia dormir e eu ficava fazendo o serviço dele”.

Depois de contratado, Joselito testemunhou várias situações inusitadas – outras apimentadas – mais nada como o dia em que, durante sessão superlotada de Rambo 3, o público quebrou tudo, até as poltronas. “O gerente quis exibir uma cópia para duas salas. Como o rolo não chegou a tempo no outro cinema, o público protestou. Teve gente que até arrancou a camisa”.

Antes de trabalhar no Apolo, Luciene Arruda começou a carreira no UCI Ribeiro Recife. “Queria trabalhar na bomboniere, mas como tenho curso de eletrotécnica, me escalaram para a cabine. Quando entrei, fiquei horrorizada e quis desistir, eram dez máquinas!”. As condições de trabalho também não eram as melhores. “Lá você não respira, não para pra comer, até ir ao banheiro é complicado”.

Luciene é uma das poucas - se não a única - representante feminina numa profissão tradicionalmente masculina. "Sou uma enxerida", se classifica. "Eles dizem que eu sou pequena demais pra subir e descer escada com os rolos, mas pra trabalhar direito, precisa é disso aqui", diz, apontando para a cabeça.

Thiago Augusto, que já trabalhou no Box Guararapes, compartilha a opinião. “É bem cansativo. Acontecia muito de ficar sozinho nas 12 salas. Não sei como o Box está hoje, mas na época foi bem difícil”. Chamado para o UCI Casa Forte, Thiago chegou a trabalhar na montagem das salas. “Como eu comecei com a carga pesada no outro complexo, tiro as cinco salas de letra. E em termos técnicos, o Casa Forte é o paraíso dos projecionistas”.

Vidas dedicadas ao cinema - Os projecionistas entrevistados pelo Diario concordam que esta é uma profissão apaixonante. O que mais justificaria vidas inteiras dedicadas, inclusive fins de semana madrugadas adentro? Paulo Bezerra Bento, o mais antigo em atividade no Recife, começou como zelador no Cine Nossa Senhora de Fátima, em Paratibe e passou por vários outros desde então. “É uma profissão muito esquecida, as condições não são ideais”. Lá de cima, na cabine, ele disse que já viu de tudo. “Casal que namora, gente que dança, bate palma. Já vi até soltar bomba de São João”.

Já André Viana, assumiu o cargo do projecionista do antigo Cine Ribeira, pois o titular havia tomado uma cachaça na noite anterior. Anos depois, quando começou a trabalhar no Cine Floriano (onde hoje funciona uma igreja), nem poderia imaginar que ali, entre uma sessão e outra, iria conhecer a mulher com quem está casado há 25 anos. “A irmã era funcionária e a família dela estava sempre por lá”. Sem esconder a tristeza, ele lamenta não ter tido condições para ficar mais tempo perto da família. “Sustentei meus filhos com essa profissão. Mas não pude estar mais presente”.

Categoria quer mais reconhecimento - No circuito comercial, o salário de um projecionista está longe de corresponder à responsabilidade de sua profissão. Não há um sindicato próprio, o que diminui sua força com os patrões. “Só sei das reclamações, nunca dos elogios”, afirma Thiago Augusto que, da solidão de sua cabine, diz se sentir sozinho. “Muitas vezes nossa voz não é ouvida. As preocupações são outras, pois bilheteria é o menor dos lucros, o grosso vêm dos produtos vendidos na bomboniere. É com isso que eles se preocupam”.

Estudante de história, Thiago participa de um movimento para organizar um sindicato. “A insatisfação é grande. O salário não é ajustado há anos, a gente ganha no contracheque R$ 670. Tem gente lá embaixo vendendo pipoca que ganha mais do que a gente. Esse sentimento de estagnação leva a gente a pensar em procurar coisa melhor”. E não só Thiago tem outros planos para a carreira. Seus colegas também. “Todos adoramos aquele trabalho, é um emprego tranquilo. Mas estamos procurando outras coisas. É uma pena, pois é uma profissão bonita, é prazeroso promover uma sessão perfeita pra quem está assistindo”.

Para preparar novos profissionais, a Fundação Joaquim Nabuco tem o projeto de oferecer, em parceria com a Fundarpe, um curso de capacitação em que Joselito e Luciene fossem os professores. No entanto, o projeto ainda não saiu do papel.

O ranking dos projecionistas

Joselito Gomes
Dançando no escuro
Buena Vista Social Club
Irreversível
Gandhi
O último imperador

Paulo Bezerra Bento
Os dez mandamentos
Ben Hur
A noiva
O Corcunda de Notre Dame
... E o vento levou

André Tadeu Viana
Dio como te amo
Dirty dancing
A força do destino
O cobra

Luciene Arruda
O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas
Amistad
Julie & Julia
O discurso do Rei
Piaf

Thiago Augusto
Bastardos inglórios
Cisne negro
A conquista da honra
Bravura indômita
Meia-noite em Paris

Orientações de Terrence Malick para os projecionistas

1. O filme deve ser projetado no formato 1.85:1;
2. Por não conter créditos de abertura, “as luzes devem ser apagadas antes do frame inicial do primeiro rolo de filme”;
3. Coloque o Fader dos sistemas Dolby e DTS em 7.5 ou 7.7 (maior que o padrão 7);
4. As lâmpadas de projeção devem estar em "funcionamento padrão" (5400 Kelvin) e que o nível Foot-Lambert [medida de luminosidade comum nos EUA] esteja no “padrão 14”

(Diario de Pernambuco, 17/07/2011)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Essa bebida tem história



Primeiro os animais; depois os índios; os colonizadores, vilarejos e cidades: Januária, Diamantina, Milho Verde, até chegar em Paraty. Investigação in loco sobre a rota secular que liga o norte de Minas Gerais ao litoral do Rio de Janeiro, o documentário Estrada Real da Cachaça coloca o cinema a serviço da antropologia etílica. Como o alambique para o caldo de cana, o filme destila cinema. Não à toa as sequências da produção da bebida, de evocação “vertoviana”, são plasticamente o que o filme tem de mais belo.

Talvez não há assunto mais brasileiro do que a cachaça. Como diz um dos depoimentos, são os muitos caminhos que levam à Estrada Real. Mas aqui somos conduzidos pela visão pessoal de Urano, fotógrafo que imprime sua intimidade com o assunto e faz interessante trabalho de montagem, mais visível no processo de moagem e fermentação da cana, além da fabricação do alambique.

Com depoimentos, personagens exóticos e belas paisagens, ele explica como a cachaça, normalmente fabricada nas usinas de cana, adentrou o norte de Minas Gerais.
Apesar de em 2008 ter sido aplaudido nos festivais de Locarno, Berlim e Rio de Janeiro (onde ganhou prêmio de melhor documentário), somente agora o longa de Pedro Urano entra no circuito nacional, um mercado difícil, em que os filmes mais interessantes quase não chegam ao público. No Recife, ele estreia sexta-feira no Cinema da Fundação e tem sessão especial hoje, com a presença do diretor.

Em seus melhores momentos, Estrada Real da Cachaça gera o efeito “road-movie”, por promover uma imersão em outra realidade, oculta em pequenas trilhas. Um universo invisível aos olhos de quem passa pelas rodovias. Para chegar a ele, é preciso sujar o pé de barro e adentrar pequenos vilarejos e antigos campos de mineração. É preciso seguir as pegadas dos tropeiros que no século 18 por ali passaram. Eis o reencontro com o Brasil colonial, onde a cachaça surge como principal combustível da corrida do ouro.

O filme recolhe fragmentos desse passado, registrados em película Super 16mm, que na montagem se mistura com imagens de arquivo. Especialistas (que só aparecem no final) pontuam a viagem, feita de encontros com personagens que contam, cantam e compartilham histórias e aforismos em torno da cachaça. Como este: “Cachaça limpa a memória, por isso vamos beber”.

Estrada Real da Cachaça é também uma viagem através da arte de construir imagens, ofício que Urano se dedica com mérito há pelo menos dez anos. Como diretor de fotografia, seu trabalho vem sendo reconhecido e premiado em filmes como Diário de Sintra (RJ), Superbarroco (PE), Áurea (RJ), Babás (SP), Ensolarado (MG), Praça Walt Disney (PE) e Faço de mim o que quero (PE). Agora é hora de conferir seu primeiro voo 100% autoral. A viagem é das boas.

Entrevista // Pedro Urano: "Há um interesse político em tornar visível essa história"

Você parece ter curtido muito fazer esse filme. Sempre gostou do tema?
Gosto de cachaça, não há como negar. E o filme também é a materialização desse gosto, mas tampouco se resume a isso. Não se trata de simples apologia, algo de que a cachaça não precisa. O filme é uma viagem no espaço e no tempo, um percurso, um caminho– uma estrada. A cachaça foi o meio que encontrei para acessar o imaginário do brasileiro. Um documentário através da cachaça.

Há cinco anos, você fez um curta sobre a Estrada Real. Foi um estudo para o longa. Há quanto tempo trabalha nesse projeto?
Depois de algum tempo pesquisando em casa, surgiu a necessidade de ir a campo. Tinha feito poucos filmes como diretor e precisava me convencer de que havia filme e de que era capaz de realizá-lo, para então seduzir ao projeto produtores, equipe e etc. A ideiaera conhecer lugares e situações, tirar algumas fotos, fazer uma pesquisa de imagens e sons. Pouco antes de viajarmos, comprei uma câmera de vídeo e resolvi levá-la comigo: serviria com um bloco de notas audiovisual. Quando voltamos pra casa, surpreendi-me com o material que havíamos rodado. Havia assistido há pouco ao Notas para uma Oréstia Africana, do Pasolini, um filme belíssimo que trabalha com essa ideiade ‘estudo preparatório’ para a realização de um outro filme, e resolvi montar um curta, que se chamou Estudo Etílico para Construção de uma Estrada Real. Não é uma versão menor do Estrada Real da Cachaça. Não há nenhuma imagem ou som comum aos dois filmes.

Você poderia contar a história da cachaça de várias formas. O que te levou à Estrada Real?
A história da Estrada Real surgiu de uma curiosidade muito grande sobre como Minas Gerais foi capaz de assumir a posição de destaque que inegavelmente possui hoje quando o assunto é cachaça. Afinal, Minas não é uma região com tradição no cultivo da cana-de-açúcar como são Rio, Bahia e Pernambuco, por exemplo. Então, por que Minas? A resposta a esse enigma surgiu quando encontrei um caminho calçado de pedras no interior do estado. Aquela 'estrada largada no meio do mato’, como alguém diz no filme, parecia sugerir que essa proeminência mineira se devia em grande parte à cultura bandeirante (e mais tarde tropeira) que descobriu, fundou e desenvolveu as chamadas Minas Gerais. Os bandeirantes e tropeiros, saídos de Paraty ou do Vale do Paraíba paulista sabiam que no sertão só se entra acompanhando da cachaça. E o filme, assim, se tornou também a história desse caminho, principal eixo de interiorização e desenvolvimento do país desde então.

Buscar a presença da cachaça na cultura brasileira a partir do recorte geográfico Minas-RJ não seria reducionista? O mapa também passa pelo nordeste...
Você tem razão. O mapa da produção e consumo da cachaça também passa pelo nordeste. E pelo norte, centro-oeste, sul... Cachaça se produz e consome em todo o território brasileiro. Quando comecei, pensava em viajar o país inteiro, mas logo percebi que essa vontade colocava em risco a efetiva conclusão do projeto. O Brasil é um país continental, e acabei por realizar esse recorte geográfico que é um pouco até onde conseguíamos chegar de carro. Com a descoberta das estradas reais a coisa encontrou uma direção e acabou se materializando assim: um filme sudestino. O norte e o sul de Minas, o quadrilátero ferrífero, o Vale do Paraíba paulista e o sul fluminense reuniam uma diversidade incrível de paisagens e situações mas, estranhamente, possuíam algo em comum.

O filme viaja de Minas ao RJ, no que parece ser a contramão do surgimento da estrada. Qual foi a intenção?
É a contramão do surgimento das estradas e da ocupação do território, mas é o sentido do escoamento da produção mineral, das riquezas, desde o século 18 até hoje. Além disso, a cachaça foi o primeiro produto industrial brasileiro a desbancar seus concorrentes no mercado internacional, tornando-se símbolo de um país que ainda não existia. Não é por acaso que tenha sido muito utilizada quando da elaboração de uma certa ideia de Brasil (por vezes extremamente estereotipada)pensada para seduzir estrangeiros. A cachaça sempre esteve presente na construção de uma auto-imagem ‘tipo exportação’ do país. Vi sentido no caminho apontar para o outro, para o oriente, o desconhecido, o mar. A colônia era toda voltada pra Europa, afinal. Mais do que isso, no entanto, percorrer o caminho nesse sentido permitiu que o filme materializasse uma busca pelas origens da cachaça, do país, do brasileiro. “A coisa começou em Paraty, então é lá que vamos terminar!”, pensei.

A fotografia (muitas paisagens e cores fortes) e as sequências de produção da cachaça, são lindas. Fale sobre essa concepção, de como ela é útil ao filme.
Isso aí foi fruto da pesquisa de imagens de que falei há pouco. Desde o início, coloquei-me a questão de quais eram as imagens e sons do filme que sonhava construir. É uma questão que me acompanha. Estou sempre a fazê-la quando começo um projeto. Prefiro trabalhar com imagens e sons a trabalhar simplesmente com um texto. Essa é a diferença do que fiz para uma reportagem, seja ela boa ou ruim. Claro que há falas no filme, mas essas falas não esgotam seu interesse no conteúdo do que está sendo dito. O que quero dizer é que durante toda conversa ou entrevista, havia uma preocupação constante com o tom de voz, o ritmo, enfim, com a materialidade sensorial de cada fala. Um ótimo exemplo disso é a sequência que, durante a montagem, chamávamos de tropeiro-fantasma (o filme tem muitos fantasmas). Acontece lá pelo meio do filme, quando começamos a falar sobre a atividade mineradora na atualidade. Ouvimos um discurso pausado, um tom de voz baixo, algo clandestino, vez por outra pontuado por explosões típicas da prospecção de minérios. Essa foi uma entrevista que fizemos no alto de uma montanha, logo após o pôr-do-sol. A serenidade do lugar e daquela hora do dia condicionaram o estado de espírito do entrevistado e isso me pareceu um contraponto interessante ao que estava sendo dito. Ou seja: há o discurso verbal, mas não é ele sozinho que estrutura a narrativa. Não é um filme puramente racional, ele mobiliza mais de um sentido. É um filme sensual, sensorial, endereçado ao corpo do espectador como um todo. Trata-se também de comunicar a experiência da viagem, as mudanças na paisagem, nos ambientes acústicos. O filme, que tem como patrono Exú, senhor dos caminhos e amante da branquinha, é também um filme sobre o movimento.

Você também trata das condições de quem trabalha na usina e nos minérios e de como essas pessoas vivem atualmente. Há um interesse político de denúncia?
Há um interesse político de colocar a atualidade em perspectiva. Tentar entender como chegamos a ser o que somos hoje – qual foi nosso percurso até aqui. A extração do minério de ferro é a atualização da atividade mineradora, que começou no século 18 e só se intensificou desde então. Com a diferença de que ouro se encontra em veios e o minério é a montanha inteira. Algumas das montanhas que orientavam bandeirantes e tropeiros na direção das minas já não existem mais: seguiram por trem até o porto para alimentar o crescimento chinês. Ainda exportamos minério in natura, sem beneficiamento algum. Isso sem falar no custo ambiental da atividade. Não se trata de denúncia, até porque estamos falando de algo público e notório, nem de se colocar contra o desenvolvimento ou a atividade mineradora. Trata-se justamente de tornar visível essa realidade.“A arte não representa o visível, ela torna visível” (Paul Klee). E então colocá-la em discussão: esse é o modelo de desenvolvimento que queremos?

O filme é sobre memória, e nisso as imagens de arquivo tem papel importante. Como foi executar essa parte do trabalho?
Teve uma coisa legal durante a pesquisa que é o seguinte: uma das principais fontes de informação sobre o período colonial são os relatos dos viajantes europeus que visitaram o Brasil. E esses senhores produziam aquarelas e desenhos que, quando voltavam pra Europa, transformavam em gravuras que eram publicadas acompanhadas de textos que justamente descreviam o que estava ali representado. Vi nesses livros proto-documentários extremamente subjetivos, muitas vezes fantasiosos, que me sugeriram uma abordagem poética para o filme. Afinal, o material mais, digamos, histórico a que se tinha acesso eram quase como relatos de sonhos! Esse tipo de abordagem mais criativa vinha muito a calhar também pois estava trabalhando com um passado pré-cinema, pré-fotográfico e não me seduzia a ideia de trabalhar com pranchas ilustradas num filme tão comprometido com o movimento. Foi aí que decidi criar imagens de passado, filmando em super 8 e trabalhando a película para que a textura da imagem comunicasse essa distância temporal. A maior parte das imagens de arquivo do filme fui eu mesmo que rodei, inclusive recriando alguns desenhos de Rugendas e Debret.

O longa está pronto desde 2008, foi duas vezes premiado e exibido em vários festivais. Por que é difícil conseguir espaço no circuito comercial?
Essa é uma pergunta para distribuidores e programadores de salas de cinema. Uma pergunta que deve ser feita. Eu apostaria em duas respostas: há poucas salas para o filme autoral brasileiro e o preço do ingresso é demasiado caro. Cinema é meio de comunicação de massa, arte para a multidão. Não pode resumir seu alcance somente aos estratos mais abastados da população. Do jeito que está, é inviável.

Como fotógrafo, você tem participado de vários filmes pernambucanos. Alguma atração especial pelo cinema feito aqui?
Por uma série de fatores como o apoio do Estado, uma aposta na distribuição dos recursos (e não na concentração, como é o caso do Rio) e, principalmente, pela existência de realizadores extremamente talentosos, o cinema pernambucano está, já há alguns anos, na vanguarda da criação cinematográfica do país. Há muito filme bom sendo produzido por aí, e é uma felicidade fazer um bom filme. Por isso, espero ter a oportunidade de ainda fazer muitos filmes em Pernambuco.

Em quais projetos tem trabalhado ultimamente?
Estou finalizando meu próximo documentário de longa-metragem, chamado simplesmente HU. É um documentário inteiramente filmado no monumental e inconcluso prédio modernista do Hospital Universitário da UFRJ, um edifício dividido ao meio: metade hospital, metade ruína. É um filme sobre o modus operandi da coisa pública no Brasil, sobre como o Estado funciona no país e sobre a importância que de fato damos a coisas tão fundamentais como a saúde e a educação públicas. Após décadas de abandono, a metade vazia do prédio sofreu um abalo estrutural e foi implodida em dezembro do ano passado. Nosso documentário se tornou assim a única imagem daquele lugar. O filme fica pronto no segundo semestre desse ano. E tem também os filmes que vou realizar como fotógrafo que, afinal, é minha ocupação predileta e principal.

(Diario de Pernambuco, 28/06/2011)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Elogio ao cinema



Estreia hoje, no Cinema da Fundação, Chantal Akerman, de cá (Brasil, 2010), de Gustavo Beck e Leonardo Luiz Ferreira. A princípio, o documentário diz respeito a poucos. São 61 minutos de entrevista com diretora belga de filmografia poderosa, mas pouco conhecida no Brasil. No entanto, o longa interessa a todos os que gostam de cinema e da arte como forma de compreender a vida.

Conduzida em inglês, a conversa com Chantal repassa seus anos de formação, preferências estéticas, influências e hábitos pessoais. O método de abordagem adotado pelos diretores é pouco convencional. Durante a conversa com Chantal, duas câmeras foram utilizadas. Uma enquadra a diretora de frente, ponto de vista clássico do cinema documental. Outra foi posicionada na antesala, de onde, oculta, registra tudo do lado “de cá”. O filme utiliza imagens desta, em plano único, fixo, sem montagem ou qualquer outra interferência no fluxo da entrevista.

Assim, deslocado do espaço de interação “oficial”, o filme se constroi. Em palavras, gestos e expressões de Chantal (entrevistador e a equipe ficam fora de quadro). No suntuoso salão do Centro Cultural Banco do Brasil (RJ), enquadrado de forma a desenhar uma “tela dentro da tela”. Na fotografia, que valoriza paredes, portas e corredores, tão importantes quanto a personagem. No plano único e de longa duração, que força o espectador a tomar consciência do transcorrer do tempo. Recursos que remetem a filmes da diretora, como Jeanne Dielman, de 1975.

Passado o estranhamento inicial, o filme flui. Diretor de A casa de Sandro (2009), Beck justifica o passo atrás (ou ao lado) como fundamental para oferecer espaço a personagem, “e permitir que o tempo do filme viesse dela”. Conseguiu. É um belo tributo à Chantal Akerman. E à arte de fazer cinema.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Novos curtas no Cinema da Fundação

Realizar um curta de ficção em 16mm com um dia de filmagem e dez minutos de negativo. Esse foi o desafio imposto aos alunos do projeto Curta em Curso, realizado em Petrolina, Fernando de Noronha e no Recife. O resultado dos filmes feitos na capital será exibido nesta segunda, às 19h, no Cinema da Fundação (Derby).

São eles: O eco dos meus passos, de Leo Leite; Invasão, de Sofia Donovan; Sem energia, de Thiago Rocha; Rosa dos ventos, de Luca Coutinho; Desta vez, de Allan Tonello; Me gustas, de Germana Glasner; e João Ila, de Jerônimo Lemos. Os roteiros e a produção são dos citados acima e de equipes formadas por Lucas Caminha, Gustavo Arruda, Rodrigo Cavalcanti, Muriel Lima, Flávio Gusmão, Jerônimo Lemos, Camila Meneghini, Evan Diniz, Maria Luiza Sá, Priscila Lins, Amanda Beçça, Bruna Belo, Herivelton Santos, Annyela Rocha, Leandro Gantois, Vinicius Gouveia, Luis Vitor, Camila Vanessa, Txai Ferraz, Wagner Pontes e Thaís Vidal.

Em seus trabalhos, há consciência clara de cada etapa da produção cinematográfica, como a fotografia, direção de arte, som, trilha sonora. Para editar o material bruto, o projeto conta com o talento do montador João Maria.

“Trabalhar com negativo desenvolve o olhar cinematográfico e a disciplina de filmagem que são atitudes importantes e que podem e devem serem levadas para produções que utilizam meios digitais”, diz Maria Pessoa, idealizadora e coordenadora do projeto.

Atenção para o curta João Ila, que experimenta linguagem e, ao usar cenas aéreas do Recife, recursos de animação e cenas dramatizadas. Um pouco mais desenvolvido, pegaria bem em qualquer festival.

(Diario de Pernambuco, 23/05/2011)

sábado, 21 de maio de 2011

Estrada para Ythaca em pré-estreia hoje, no Cinema da Fundação



A busca pela liberdade criativa levou quatro diretores à Estrada para Ythaca. Vale invocar Rogério Sgarnzela: os cearenses Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti nos apresentam hoje às 20h20, em pré-estreia no Cinema da Fundação, um autêntico “filme de cinema”. Após a sessão, os irmãos Pretti conversam com o público.

Ythaca conta a história de quatro amigos (os próprios diretores, com barbas postiças), que após bebedeira pegam a estrada para prestar condolências a Júlio, companheiro que acabara de falecer. Destemido, o filme acerta e erra. Consequência de quem arrisca.

Luiz Pretti diz que o cerne de Ythaca está no fortalecimento da amizade entre os realizadores. “A melhor forma para isso seria fazer um filme juntos, sobre o encontro feliz de quatro pessoas”. A ideia de fazer um filme viajando, sem compromisso com mais nada, surgiu quando discutiam a montagem de um curta.

“As locações eram encontradas ao longo da viagem. Às vezes a gente tinha dúvidas se ia realmente virar um filme”. Virou, antes de tudo, uma espécie declaração de princípios estéticos e processuais. “Para lá é o cinema desconhecido, o cinema da aventura; Por aqui, o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino e maravilhoso”, anuncia o personagem Júlio, numa encruzilhada. Palavras ditas originalmente por Glauber Rocha em O vento do leste (1970), de Godard. “A cena tem função narrativa, mas também implicações políticas e históricas importantes pra gente, pois fizemos o filme em condições precárias”, conta.

Os irmãos Pretti e primos Parente (como eles se apresentam nos créditos) integram o coletivo Alumbramento, um dos núcleos de renovação do cinema nacional. Seu longa mais recente, Os monstros, segue pelo mesmo caminho. Eles também participam de outros focos criativos do cinema independente: no Recife, os Pretti trabalham com Marcelo Pedroso no curta Câmara escura. Em Belo Horizonte, Luiz monta um filme da produtora Teia. Em Fortaleza, os irmãos montam o novo documentário de Ivo Lopes de Araújo e Pedro Diógenes. A conexão é tida por Luiz como natural e saudável. “Mais do que identificação estética, acho que há um intercâmbio de ideias, de vontade de realização, de mundo”.

Distribuido pela Vitrine Filmes, Estrada para Ythaca inaugura no Recife uma nova estratégia, que reveza filmes independentes em oito capitais, que ficam em cartaz por uma semana em oito cidades. No mesmo pacote estão, entre outros, Um lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro e Pacific, de Marcelo Pedroso, Estrada Real da Cachaça, de Pedro Urano e Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro.

(Diario de Pernambuco, 21/05/2011)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Nos confins do Afeganistão



É como estar em batalha no Afeganistão por 90 minutos. Com imagens feitas durante o conflito e depoimentos de sobreviventes, Restrepo reconstrói com incrível veracidade o drama de soldados norte-americanos. Ao mesmo tempo, causa a estranha sensação de que já vimos aquelas imagens antes. Isso porque, na mesa de edição, os diretores Tim Hetherington e Sebastian Junger se valeram de recursos do cinema de ficção para construir uma narrativa convincente. A combinação é certeira.

Por 15 meses, os diretores acompanharam o pelotão que se instalou no front mais inóspito e mortal da guerra dos EUA contra o Talebã, o remoto vale do Korangal. Como se estivesse na mão de um fuzileiro, a câmera registra a troca de tiros e bombardeios. A imersão naquela realidade nos leva a compartilhar de momentos triviais a negociações com os anciãos do vale, de confissões a discursos para enfrentar a morte de companheiros. Morto logo no início da operação, Restrepo é um deles.

Chama a atenção a diferença entre as partes. O Tio Sam está armado até os dentes, enquanto os afegãos visíveis são agricultores que lamentam a morte de uma vaca. O fato desse documentário ser feito durante a batalha talvez seja a maior demonstração deste desnível de poder bélico.

No entanto, o risco de morte assumido pelos diretores cobrou seu preço. No último 20 de abril, Tim Hetherington sucumbiu enquanto cobria a guerra na Líbia. Indicado ao Oscar de melhor documentário, Restrepo traz consigo outro amargo sabor: a crença bovina dos norte-americanos de que a baixa de civis adultos e crianças é justificável desde que os “malvados” sejam exterminados.

(Diario de Pernambuco, 20/05/2011)

sábado, 2 de abril de 2011

A carne fresca do hermano



Não é novidade que o cinema argentino vive ótima fase e o ator Ricardo Darín é seu principal rosto. Antes mesmo da consagração de O segredo dos seus olhos, ele já vinha fazendo um trabalho notável em filmes como Kamchatka, Clube da lua e XXY. Portanto, nada de novo. Em Abutres (Carrancho, 2010), em cartaz no Cinema da Fundação, no Derby, temos um Darín em modo áspero.

Dirigido Pablo Trapero (Família rodante), o filme reafirma argumentos a favor de uma cinematografia que muito tem a nos ensinar. O principal, o de que é possível fazer cinema ´de gênero` derivado da matriz norte-americana, sem que o resultado seja um subproduto de Hollywood. Não é a toa que o longa foi o candidato oficial da Argentina para concorrer ao Oscar.

Mesmo que se movimente em clichês bem definidos, este tour de force noturno sobre a exploração de acidentados no trânsito de Buenos Aires transpira verdade. Primeiro, a de filme-denúncia, que desvenda a engrenagem de um sistema criminoso formado por médicos, advogados e policiais. Tudo é explicado passo a passo, enquanto os casos acontecem. Do atropelamento ao hospital, da abordagem hipócrita de impostores supostamente bem intencionados à briga pela fatia maior da indenização.

Depois, o filme assume a forma de ´plantão médico`, em que a câmera gruda na ambulância, recolhe atropelados e se movimenta com maestria para a sala de emergência. No meio dessa adrenalina, Luján (Martina Gusman) conhece Sosa (Darín).

Ela é médica idealista em hospital público equivalente ao nosso SAMU, onde trabalha com devoção insone. Ele é um ´abutre`, como são conhecidos os advogados que se aproveitam da ignorância das vítimas ou seus parentes sobre o quanto podem ganhar de indenização pelos acidentes.

São condições adversas para começar um romance e é exatamente isso o que fazem. Sosa está apaixonado e cansado da vida de trapaceiro, mas seu chefe se recusa a liberar alguém com sua capacidade de convencimento. A tensão libera uma nova e definitiva identidade para a narrativa, que se assume como filme de gângster. O sangue vem de todos os lados e ainda assim o casal planeja escapar do jugo dos chefões da máfia e seus capangas sebosos.

O visual regado a luzes artificiais de escritórios e ambientes sujos ajudam a construir a dura realidade de um mundo cão, que se resolve na porrada. Se as coisas são como o filme mostra, muita gente deveria estar presa. Enquanto cinema, a experiência é de tirar o fôlego.

*no Recife, Abutres está em cartaz desde sexta no Cinema da Fundação

(Diario de Pernambuco, 02/04/2011)

domingo, 27 de março de 2011

Em busca do cinema perfeito



O Recife conta com 47 salas de cinema. Um parque de exibição e tanto, se comparado com o de 15 anos atrás, quando poucos cinemas de rua restavam na cidade. Hoje podemos assistir a filmes projetados com a última palavra em tecnologia digital, a definição 4K, duas vezes maior do que o Full HD. Ou ao filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Entre tantas opções, escolher a sala certa pode ser um tiro no escuro. Cada uma tem qualidades e problemas e cabe ao espectador adequar necessidades e realidades.

Ir ao cinema é coisa cara - ingressos chegam até a R$ 23 e nada mais justo que exigir um serviço à altura. Em busca da sala perfeita, a reportagem do Diario visitou todos os cinemas do Recife - e não a encontrou. Há sempre o que melhorar, até mesmo entre os que estão próximos da excelência. Nosso test drive confirmou o que já era consenso: o complexo UCI Kinoplex Casa Forte tem a melhor infraestrutura e é tecnicamente impecável. Ficou ainda melhor desde janeiro, quando chegou o projetor Sony 4K, capaz de exibir em 2D ou 3D com ótimo resultado.

´Gosto daqui porque tem mais conforto e é mais moderno que os outros. Só não gosto tanto das poltronas, as do Box são melhores`, diz o estudante de pós-graduação Marcone Madruga. ´O Plaza é ótimo. Antes eu pegava uma fila para pagar e outra para sentar. Alguns cinemas da cidade têm cheiro de mofo e pouco espaço para sentar`, diz a economista Maíra Cavalcanti.

Há pouco tempo, os complexos Recife (Boa Viagem) e Tacaruna (Santo Amaro) passaram por melhorias e já ostentam a marca Kinoplex. Mas, com exceção das salas digitalizadas (duas em cada), o make up que reformou cadeiras, piso e modernizou terminais de atendimento não chegou à imagem e som.

O esmero da exibição faz falta na maioria das salas, comerciais ou independentes. Mês passado, a sala 2 do UCI Tacaruna exibiu O discurso do rei com som tão ruim que parecia radinho de pilha. Ontem, a mesma sala exibiu Bruna Surfistinha com som adequado, o que comprova erro operacional no passado. É comum filmes chegarem à tela com bordas borradas, chiados, som restrito às caixas frontais, imagem turva ou desfocada e outras imperfeições. Ou seja falta manutenção e outros cuidados.

Com exceção das salas acima citadas, todas precisam de algum tipo de reforma. A mais urgente é a do Cine Rosa e Silva, que apesar da ótima iniciativa de unir filmes comerciais e ´de arte`, faz tempo que deve a seu público um upgrade. De acordo com a direção do cinema, há planos de reforma das três salas, mas ainda sem cronograma definido.

O mesmo ocorre com o Box Guararapes, um ótimo cinema que carece de mais atenção dos administradores. Apesar da reforma recente, não há guias luminosos em corredores e escadas. Na sala 3D, há uma sombra permanente na parte esquerda da tela. Durante nossa visita, a sala THX (7) exibia Bruna Surfistinha com um som de dar dó. A assessoria do grupo informa que ainda neste ano serão instalados totens de autoatendimento e mudanças no foyer, incluindo iluminação moderna.

2012 é a data para o Multiplex BoaVista se tornar Kinoplex. Antes disso, em junho, um novo estacionamento abre no shopping, com mil vagas a mais. Enquanto isso, problemas são comuns. ´É um bom cinema, mas não se pode comparar com os outros`, diz Fernando Teixeira, engenheiro.

Cinema da Fundação - a melhor sala alternativa

À margem do circuito comercial, salas independentes agonizam. Grandes distribuidoras preferem grandes exibidores. De forma que pequenas salas precisam esperar a vez para reprisar o que já foi exibido pelos complexos de shopping. É o último estágio da cadeia de exibição - veja o caso do Cinema Apolo (em cartaz, Bravura indômita) e do Cinema São Luiz (De pernas pro ar e Enrolados), antes dos filmes serem lançados em DVD.

Caso à parte é o Cinema da Fundação, uma das poucas do Brasil a manter padrões de qualidade técnica, de conforto e no trato com o público. ´É um cinema público que tem uma imagem melhor que a dos cinemas comerciais, que cobram o dobro para exibir filmes lançados em escala mundial, sem oferecer em retorno um serviço à altura`, diz Kleber Mendonça Filho, programador da sala ao lado de Luiz Joaquim. Ele informa que, ainda neste ano, o sistema de som atual, analógico, será substituido por um sistema digital. ´A projeção está boa, mas queremos ela perfeita`.

O Cine São Luiz é mantido pelo estado e é um dos poucos cinemas de rua a funcionar no país. É de longe o cinema mais bonito da cidade e ainda aguarda direcionamento programático que o leve a uma identidade própria. Aos poucos, o público volta a frequentá-lo. ´É o meu cinema preferido. Ele tem história, enquanto cinemas de shopping não têm alma, são só uma tela e uma cadeira`, diz a agente ambiental Schirleide dos Santos Silva.

Tecnologia melhorou projeção

Enquanto isso, no reino do 3D, as opções têm melhorado. Até o ano passado, eram duas salas na cidade. Hoje são seis. As mais recentes são também as mais interessantes: as salas 1 e 10 do UCI Recife, 1 e 8 do Tacaruna e 5 do Casa Forte. São as mesmas que oferecem projeção 4K, da Sony.

O 3D destas salas também é melhor, não somente porque a tecnologia superior evita o efeito ´estrobo`, que cansa e causa enjoo em algumas pessoas. Mas porque os óculos são mais leves e higiênicos - todos passam por esterilização em água quente, sabão especial e são entregues ao público em embalagem de plástico. Não é o caso dos óculos do Box Guararapes (sistema Xpand), entregues à reportagem com manchas nas lentes e sem bateria. Em segunda tentativa, o aparelho falhou algumas vezes durante a sessão.

Especialista em cinema digital, o carioca Daniel Leite diz que a projeção das salas locais são superiores do que as do Rio de Janeiro. ´Se calibrados corretamente, esses aparelhos garantem que o filme seja visto da forma original. Ao contrário da película, que desbota a cor e arranha após certo número de projeções`. Ele atribui a qualidade da imagem projetada por esse equipamento mais ao fato dele ser novo do que pela alta definição obtida. ´Estudos afirmam que o olho humano não é capaz de perceber a diferença entre o Full HD (1920 x 1080 pixels) e o 4K (4096 x 2.160). Mas o grande trunfo da indústria do cinema é oferecer algo que ainda não temos em casa`.

Com a palavra, os cinéfilos - Além da investigação in loco, convidamos profissionais de cinema e cinéfilos de plantão para eleger o melhor cinema da cidade. O resultado, unânime, foi o Cinema da Fundação. Sinal de que, apesar de todas as inovações técnicas e confortos possíveis, a qualidade da programação e o cuidado com a exibição dos filmes são requisitos essenciais para fazer um bom cinema. Para justificar suas decisões, também pedimos para nossos especialistas explicarem seus critérios, sendo a categoria ´melhor cinema`, uma média das demais.

Leo Sette cineasta

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: Cinema da Fundação
Melhor som: UCI Casa Forte
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: Cinema da Fundação
Melhor atendimento: Cinema da Fundação

Acho muito desconfortável ter que pagar estacionamento, sentir cheiro e ouvir barulho de pipoca. Ter que andar pelos corredores do shopping para poder ver um filme, fora o preço alto dos ingressos. É importante apontar o problema sério que é a projeção das salas da prefeitura, o Cinema do Parque e Apolo. O projecionista de lá não tem o menor espírito de cinema, faz de qualquer jeito e não aceita críticas, é super mal-educado. Ele erra janela, foco, conversa e ri alto durante a projeção ao ponto de se poder ouvir da sala às vezes. Todo mundo já faz piada, apesar do carinho que temos pelas salas.

Tomaz Alves compositor de trilhas sonoras

Melhor cinema: Difícil responder essa. Seria mais fácil dizer os piores
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte
Melhor som: UCI Casa Forte
Sala mais confortável: UCI Casa Forte e Cinema da Fundação
Melhor atendimento: UCI Casa Forte

É uma pena que o hábito de ir ao cinema, para muita gente, não passa de mais uma coisa que se pode fazer no shopping. Isso porque quase todas as salas são de shopping. E aí fica o meu maior incômodo: a sujeira. As salas estão muito sujas, com exceção do Cinema da Fundação, onde se proíbe entrar com comida, e do Plaza, porque ainda é novo. Fora outros problemas como má projeção, defeitos de som. A única sala que eu continuava frequentando era o Box Guararapes, mas um dia cheguei até a ver foto de ratos na sala do cinema - um cara postou no Twitter. Foi o fim da picada!

Rodrigo Carreiro professor e crítico de cinema

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte 5
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte 5
Melhor som: Box Guararapes 5
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: Box Guararapes

No geral a qualidade das projeções é apenas razoável: o som digital se desgasta muito rápido, a maior parte das salas do UCI Recife e Tacaruna tem apenas quatro canais de áudio e a manutenção dos projetores anda vacilando. Projeções muito escuras são quase uma rotina. Nesse sentido o Plaza (por ter instalações mais recentes, talvez) e o Box Guararapes me parecem os complexos mais preparados para projeções de boa qualidade. A menção ao Cinema da Fundação é obrigatória e eu destacaria o conforto alcançado após a reforma, e não apenas dentro da sala, mas no programa como um todo.

Fernando Vasconcelos designer e crítico de cinema

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Plaza Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Recife 1 (Digital 4K)
Melhor som: UCI Recife 1 (Digital 4K)
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: UCI Plaza Casa Forte
Melhor atendimento: Cine Rosa e Silva

Melhor projeção e som, me refiro à sessão cabine de Invasão do mundo, visto no UCI Recife. Melhor atendimento, me refiro à gerência e funcionários do Cine Rosa e Silva, por serem muito atenciosos, informados e educados. Faz muita diferença, apesar do cinema ser deficiente tecnicamente em relação aos demais. Cabe um comentário sobre a péssima programação atual do São Luiz, que voltou depois do recesso de fim de ano com a pior programação da cidade, reprisando os piores filmes vindos dos multiplexes.

Clara Moreira arquiteta e ilustradora

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte.
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte
Melhor som: UCI Casa Forte
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: UCI Casa Forte
Melhor atendimento: Cinema da Fundação

Predomina nos shoppings um grande descaso com as sessões de cinema. O problema mais recorrente e mais aparente é a projeção - geralmente escurecida ou levemente desfocada. Na última vez que fui ao Cine Rosa e Silva, além da projeção escurecida e do foco desajustado, tinha uma região da tela que estava ainda mais desfocada que o resto, durante todo o filme. Sente-se claramente a preocupação dos que fazem o Cinema da Fundação para fazer o melhor em termos de programação, imagem e som, com um projecionista realmente preocupado em fazer o melhor.



Conheça o parque exibidor do Recife:

Box Cinemas Guaararapes. 12 salas; inaugurado em 2004. Projeção 35mm e digital Rain com lâmpada de 3 mil e 6 mil watts (salas 5, 6 e 7); som Dolby digital e analógico; funciona diariamente; café, bomboniére (dinheiro e débito) e estacionamento; acesso para cadeirantes; banheiro infantil; bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Av. General Barreto de Menezes, 800 - Shopping Guararapes (Piedade).
Telefone: 3207-1212.

Cine Rosa e Silva. 3 salas; inaugurado em 1997; lotação: 371; média mensal de público: 11.992 espectadores; projeção 35mm com lâmpadas de 2 mil watts; áudio: Dolby CP45; bomboniére (só dinheiro) e estacionamento; acesso para cadeirantes. bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Av. Rosa e Silva, 1406 (Aflitos).
Telefone: 3207-0100.

Cinema Apolo. 1 sala; inaugurado em 1842 (como teatro); lotação 282; projeção 35mm; áudio: Dolby analógico; bilheteria: dinheiro.
Endereço: Rua do Apolo, 121 (Recife Antigo).
Telefone: 3355-3118.

Cinema da Fundação. 1 sala; inaugurado em 1998; lotação: 200 pessoas; média mensal de público: 2,5 mil pessoas; projeção 35mm e digital Rain com lâmpada de 2 mil watts; som Dolby 4.1; aberto de terça a domingo; café e bomboniére (dinheiro, débito e crédito); bilheteria: somente dinheiro.
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 (Derby).
Telefone: 3073-6688.

Cinema São Luiz: 1 sala com balcão; inaugurado em 1952 (reinaugurado em 2010); Lotação: 992; média mensal de público: 4 mil espectadores; projeção 35mm com lâmpada de 3 mil watts; som Dolby Stereo; aberto de terça a domingo; Acesso para cadeirantes; Bilheteria: somente dinheiro.Endereço: Rua da Aurora, 175, Boa Vista.Telefone: 3184-3000.

Multiplex Boa Vista. 6 salas; inaugurado em 2003; lotação: 887; média mensal de público: 44 mil espectadores. Projetores 35mm; som Dolby stereo analógico; aberto diariamente; bomboniére (dinheiro e débito) e estacionamento; acesso para cadeirantes; sanitário infantil; bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Shopping Boa Vista (Rua do Giriquiti, 48 - Boa Vista).
Telefone: 3184-3000.

UCI Kinoplex Casa Forte (Shopping Plaza). 5 salas; inaugurado em 2007. Lotação: 957 pessoas. Média mensal de público: 54.930 espectadores. UCI Kinoplex Shopping Recife (Boa Viagem). 10 salas; inaugurado em 2000.
Lotação: 2.187 espectadores. Média mensal de público: 92.528 pessoas. UCI Kinoplex Shopping Tacaruna (Santo
Amaro). 8 salas; inaugurado em 2000. Lotação: 1.378 espectadores. Média mensal de público: 62.803 pessoas. Projetores 35mm, 3D e 4K. Som Dolby digital e analógico. Aberto diariamente. Bomboniére (dinheiro, crédito e débito) e estacionamento. Acesso para cadeirantes; Bilheteria: dinheiro, crédito e débito.
Telefone: 3207-0000.

(Diario de Pernambuco, 27/03/2011)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Estreia // "Tio Boonmee que pode recordar de suas vidas passadas", de Apichatpong Weerasethakul



Após pré-estreia disputada no último sábado, Tio Boonmee que pode recordar de suas vidas passadas (Lung Boonmee Raluek Chat, Tailândia, 2010), entra em cartaz como atração principal do Cinema da Fundação. Tendo como foco a jornada espiritual de Boonmee, que sofre de insuficiência renal e ao lado da irmã se recolhe na casa próxima à natureza, o filme é uma obra incomum, no sentido de que o centro está no fazer cinema e tudo o mais se torna periférico.

Isso fica claro na capacidade de Apichatpong Weerasethakul, apelidado Joe pela ironia ocidental, de fazer uma obra inesperada a partir de temática recorrente, as reencarnações tão em voga nos filmes de evocação espírita e até no recente Além da vida, de Clint Eastwood. E que não se enganem os que veem em Tio Boonmee ligações com a cultura religiosa de seu país, a Tailândia. Até mesmo naquele país marcado pela filosofia budista, diz o diretor, o filme é visto como um alienígena.

Tio Boonmee chegou ao país com um ano de atraso, mas nada de reclamar. A Palma de Ouro conquistada em Cannes foi decisiva para que um filme de Joe, que realiza filmes desde 1993, fosse recebido nos nossos cinemas. Agora é aproveitar a oportunidade e conferir um dos melhores filmes da temporada. Como toda boa viagem, há estranhamento, mistério e o sentimento fascinante de que algo mudou na nossa forma de ver o mundo.

(Diario de Pernambuco, 18/03/2011)

O cinema como viagem espiritual



Que o título quilométrico e o nome quase impronunciável de seu autor não sejam impedimentos para assistir a um dos melhores filmes dos últimos tempos. Em pré-estreia no Cinema da Fundação, Tio Boonmee que pode recordar de suas vidas passadas (Lung Boonmee Raluek Chat, Tailândia, 2010), de Apichatpong Weerasethakul, foi o grande vencedor do último Festival de Cannes do ano passado.

É verdade que prêmios e medalhas não são garantia de satisfação, mas é justamente pela consagração de júri (presidido por Tim Burton) e crítica no festival mais renomado do mundo que o filme de Joe (como Weerasethakul foi ironicamente apelidado pelos ocidentais) pode chegar ao circuito brasileiro, dando ao público a oportunidade de julgar seu mérito.

Se assistido sem preconceitos, Tio Boonmee pode levar a lugares inesperados. Aos mais apressados, nada de colocá-lo no rol de filmes sobre espiritismo. Antes de mais nada, ele trata do mistério. E o principal: o faz pelo uso excepcional da linguagem do cinema. É através dela que podemos mais do que acompanhar, mas experimentar sensorialmente a jornada de Boonmee, no limiar entre a vida e a morte. A saúde não vai bem e ele se refugia na casa de parentes, onde pode se reconectar com a natureza.

Durante a despedida surge o fantasma da esposa, já falecida e seu filho, transmutado em entidade verde-musgo com olhos vermelhos que brilham no escuro. A partir deste momento, o filme vai para além do tema e salta para o território da criação cinematográfica. A maior síntese disso está na impressionante composição da floresta em imagens e sons, onde natural e sobrenatural coexistem sem sobressaltos. Vale reafirmar: Tio Boonmee trata de uma realidade que não poderia ser representada de outra forma, a não ser pelo cinema.

No Recife, o filme entra em cartaz na sexta-feira que vem, no Cinema da Fundação. Antes, haverá uma sessão de pré-estreia, às 18h deste sábado (12). A segurr mais imagens e dois cartazes especiais de Tio Boonmee, um deles assinado pelo artista gráfico Chris Ware (de Jimmy Corrigan, o garoto mais esperto do mundo)








sábado, 26 de fevereiro de 2011

O bom momento do circuito local

No Recife há salas públicas e projetos mantidos por cinemas privados que formam um circuito paralelo de exibição. Algumas exibem filmes inventivos, estranhos, surpreendentes ou experimentais. Outras exibem filmes do circuito comercial, cujo acesso normalmente custaria até R$ 20, por módicos R$ 4.

Há pouco mais de dez anos, a realidade não era tão animadora. Na época, uma matéria escrita pelo crítico Luiz Joaquim (www.cinemaescrito.com), mapeou na cidade apenas três espaços do tipo. Desde 2001 programando os filmes do Cinema da Fundação ao lado de Kléber Mendonça Filho, Joaquim diz que o começo não foi fácil. Em 1998, quando a sala se tornou exclusiva para projeção de filmes, o público anual foi de 8 mil pessoas.

“Naquele tempo a gente precisava se apresentar e ganhar a confiança dos distribuidores. Já chegamos a exibir filme para apenas uma pessoa e nem por isso desistimos ou resolvemos passar Batman. Hoje temos a liberdade de escolher os filmes dentro do nosso critério de interesse”.

E foi através desse critério que a sala conquistou público fiel. Em 2010, 60 mil bilhetes foram vendidos. "Atualmente não podemos exibir todos os filmes que desejamos e acho que há uma demanda para eles. Como espectador, penso que deveria haver mais espaços de exibição para estes filmes"

Kleber Mendonça rejeita o rótulo de “cinema de arte” ou “cabeça” para classificar a programação do Cinema da Fundação, que já exibiu produções de Hollywood sem causar espanto. "Consideramos importantes alguns exibidos em cinemas comerciais, mas nem por isso vamos ajoelhar e rezar de acordo com a cartilha do mercado”.

O Recife também conta com dois cinemas municipais, sendo que um deles, o quase centenário Cinema do Parque, está fechado para reforma. Sérgio Dantas, atual gerente de audiovisual da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (FCCR), diz que o Cinema Apolo vai combinar filmes autorais e mostras temáticas que começam com Godard, Herzog, Fellini, Polanski e David Lynch. “Também queremos apresentar a produção do Recife”, diz Dantas.

O Panorama Recife de Documentários também voltará à pauta do dia. Enquanto o Parque está em reforma, a prefeitura estuda a possibilidade de transferir o equipamento de projeção para o Teatro Barreto Junior, no Pina. “É uma reivindicação do bairro. Queremos que tenha o perfil popular do Parque. Talvez no futuro poderemos contar com três equipamentos”.

Nos cinemas privados também há espaço para filmes pequenos e notáveis. Das três salas do Cine Rosa e Silva, uma é exclusiva para eles. “Quis trazer um público diferente, com tom autoral e conciliar com o cinema comercial. Esta semana (começo de fevereiro) programamos Cisne negro, que acho que está dentro dessas duas vertentes”, diz a programadora Carol Ferreira.

Outro projeto especial é a Sessão de Arte do grupo UCI/Ribeiro, promovida há 15 anos por Pedro Pinheiro. “É uma forma de dar mais opção ao espectador que vai ao multiplex. Às vezes o público é pequeno, mas isso contribui para aumentar a qualidade da programação”.

Destino incerto para o Cinema São Luiz



Ano passado, o Recife teve o privilégio de ter de volta o Cinema São Luiz. A histórica sala, inaugurada em 1952 no centro da cidade, tinha tudo para se tornar igreja ou supermercado. Em vez disso, foi restaurado pelo governo estadual e hoje é um dos poucos cinemas de rua do país. No entanto, em termos de programação, o São Luiz viveu um 2010 conturbado pois se tornou um “pomo da discórdia” entre a Fundarpe, que gerencia o equipamento, e o então programador Lula Cardoso Ayres, destituído do cargo desde janeiro.

Durante seu mandato, Lula foi abertamente contra a exibição de filmes que já passaram pelo circuito comercial, assim como a sequência de eventos e festivais abrigados pelo local. Procurou lançar filmes inéditos na cidade e promoveu a Sessão Cinemateca, o que atraiu um público pequeno, mas fiel e ávido para assistir clássicos em 35 mm.

Enquanto o presidente da Fundarpe, Fernando Duarte, decide quem será o novo programador, os filmes são escolhidos pela coordenadora de cinema Carla Francine e o gerente do São Luiz, Cristiano Régis. “O público é o nosso termômetro. Começamos bem 2011, com Tropa de Elite 2, e vamos manter Megamente na matinê infantil”, diz Régis.

Desde que foi reinaugurada, a sala contabiliza mais de 50 mil pessoas em sessões normais, o que não inclui os projetos educativos CineCabeça, festivais e eventos - só o Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici) realizado em outubro passado, atraiu quase 14 mil pessoas. “Isso está sendo bem positivo e atende a uma demanda real que observamos no cinema”, diz Carla Francine.

Geraldo Pinho, que já foi programador dos cinemas do Parque e Apolo, diz não enxerga problema algum em conciliar os dois perfis. “Não tenho preconceito com isso. No Parque eu cheguei a exibir 14, 15 filmes inéditos por ano, além de uma mostra de cinema iraniano. Mas boa parte era de filmes já exibidos na cidade. Costumava dizer que eles eram inéditos, pois se não passou no Parque, nosso público não tinha assistido”.

Serviço

Cinema da Fundação (200 lugares). Rua Henrique Dias, 609 - Derby. Ingressos: R$ 8 e R$ 4 (meia). 3073-6688.

Cinema Apolo (282 lugares) - Rua do Apolo, 121 - Recife Antigo. Ingressos: R$ 4 e R$ 2. 3355-3118.

Cinema do Parque (900 lugares - fechado para reforma) Rua do Hospício, 81 - Boa Vista. R$ 1. 3355- 3113.

Cines Rosa e Silva (127 lugares). Av. Rosa e Silva, 1406, Aflitos). Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia). 3207-0100.

Cinema São Luiz (900 lugares) Rua da Aurora, 175 - Boa Vista. R$ 4 e R$ 2.

(Diario de Pernambuco, 06/02/2011)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A lógica no liquidificador



Suspense com fortes doses de humor negro, Reflexões de um liquidificador (Brasil, 2010), de André Klotzel, faz uma leitura bastante particular da máxima do eletrodoméstico como o melhor aliado da dona de casa. A história está longe da estratégia marqueteira para vender tais objetos, assim como do senso comum machista que diz que lugar mulher é na cozinha.

Ao contrário, o objeto fetiche do filme (voz de Selton Mello) representa a improvável função de cúmplice de um crime passional, praticado por Elvira (Ana Lúcia Torre), senhora que suspeita ser traída pelo marido (Germano Haiut). O longa de Klotzel (Marvada carne, Memórias póstumas) estreia nesta sexta-feira no Cinema da Fundação. Hoje, às 20h20, ele tem pré-estreia especial com a presença do diretor e dos atores Haiut e Aramis Trindade.

O filme observa quase tudo do ponto de vista do liquidificador, manifestação inconsciente da culpa de Elvira e cujo desenho industrial retrô é explorado com sabor. A fantasia gera graça diametralmente oposta à sequência final. Por sua vez, este é antecipado pela narrativa estruturada em retrospectiva. O filme começa na delegacia, com Elvira dando queixa do sumiço do marido. O caso é investigado pelo detetive Fuinha, tipo cafajeste interpretado por Aramis Trindade.

A trilha sonora à moda antiga e personagens pitorescos geram leveza necessária para encarar o sangrento desenrolar dos acontecimentos. Além de Fuinha, sabujo farejador e catalizador do suspense, há a vizinha Milena (Fabíula Nascimento) e o carteiro bisbilhoteiro (Marcos Cesana, em seu último papel).

Este é o primeiro papel principal de Ana Lúcia Torre, nome respeitado no teatro, rosto conhecido nas novelas com carreira de doze longas. Mas o astro do filme é mesmo o liquidificador, que desenvolve visão peculiar da natureza humana e suas contradições. Para ele, pensar é moer. "O sentimento humano é uma hélice de dois gumes. Uma lâmina alisa a tua vaidade. A outra corta fundo o teu orgulho", dispara o eletrodoméstico, afiado.

Quando a lanchonete em que dedicou a vida é fechada, Elvira não sabe bem o que fazer com o tempo livre e passa a confidenciar com o liquidificador. O marido arruma emprego de vigia e ela fica em casa empalhando animais para passar o tempo e completar o orçamento. O tempo de sobra abre brecha para o ciúme, sentimento capaz de alterar radicalmente as percepções da realidade. São eles, o ciúme e o delírio, que fazem girar o aparelho - e o filme - de forma eficiente.

Entrevista // Aramis Trindade: "Precisamos refletir não só sobre a exibição"

A partir de sexta-feira Aramis Trindade poderá ser visto em dois filmes em cartaz nos cinemas: Reflexões de um liquidificador e Nosso lar. Elvis e Madonna, de Marcelo Lafite, Casamento brasileiro, de Fausi Mansur e Uma professora muito maluquinha, de André Alves Pinto e César Rodrigues, são outras produções que entram ainda este ano com o ator pernambucano no elenco. Na TV, ele participa da série As cariocas, baseada em contos de Stanislaw Ponte Preta. Ele está no sexto episódio, A desinibida do Grajaú, ao lado de Marcelo D2 e Grazi Massafera.

Ao Diario, o ator fala sobre o detetive Fuinha, o "bicho tinhoso" que o diretor André Klotzel o convidou para interpretar em seu novo filme, e que acrescenta mais um à sua galeria de 35 personagens. E aproveita para fazer sua crítica ao suposto bom momento do cinema nacional. (André Dib)

Este não é o primeiro agente da lei que você interpreta no cinema.
Não. Em Baile perfumado fiz um tenente da volante, no Auto da Compadecida fiz o Cabo Setenta. Meu pai, Bóris Trindade, era do mundo das artes, mas também era advogado criminalista. Antes da anistia, me lembro de jipes do exército lá em casa, de militares peitando meu pai, que trabalhava no escritório que ficava num oitão. Ele tinha muitos clientes que almoçavam lá, então respirei muito essa atmosfera, da jurisprudência.

No que Fuinha difere de outros personagens que você já fez?
Para ele procurei usar um sotaque mais neutro, pois ele é um policial contemporâneo. O método de ator que eu uso é o mesmo, um sentimento de ator que eu empresto para o personagem. É um pouco sofrido, mas depois de pronto, o personagem te retribui com alegria.

Dois filmes brasileiros (Nosso lar e Tropa de elite 2) ocupam quase metade do circuito exibidor. Isso reflete o bom momento para o cinema nacional?
Acho que não. Precisamos refletir não só a exibição maso acesso a recursos para realizar um filme. Temos vários editais para captação mas não temos o caminho das pedras, de chegar nas pessoas certas. Não adianta ter o bônus se o projeto não vai conseguir captar um dinheiro que é público, mas que fica na mão do marketing das empresas. No caso da exibição é a mesma coisa, o espaço precisa ser melhor dividido. Veja o caso do filme de Klotzel poético, elogiado na imprensa, tem dificuldade de encontrar espaço para ser exibido. Não sei qual é o problema, mas alguma coisa está errada.

(Diario de Pernambuco, 12/10/2010)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Janela de Cinema anuncia curtas em competição


Foto de Haruo Ohara, fotógrafo e imigrante japonês cuja obra inspirou o curta de Rodrigo Grota

A 3ª Janela Internacional de Cinema do Recife anunciou ontem os curtas em competição. Eles serão exibidos entre 12 e 21 de novembro, no Cinema da Fundação e Cine São Luiz. Ao todo são 69 filmes, selecionados de um universo de 629 inscrições de 20 estados brasileiros e 37 países, alguns exibidos e premiados em grandes festivais como Cannes e Berlim.

Eles serão distribuídos em programas temáticos. Por exemplo, o premiado em Gramado Haruo Ohara (PR), de Rodrigo Grota, e Janela molhada (PE), de Marcos Enrique Lopes, devem ser vistos em uma única sessão, sobre a busca da memória via imagens de arquivo. "Os curtas ainda contam com poucos espaços de exibição e trazem uma diversidade e liberdade que não vejo nos longa-metragens", diz Emilie Lesclaux, produtora do evento.

Emilie também faz parte da comissão de seleção de curtas, ao lado do roteirista Luiz Otávio Pereira, do crítico Fernando Vasconcelos (Kinemail) e do jornalista Rodrigo Almeida (Cineclube Dissenso). Kleber Mendonça Filho, diretor artístico do festival, supervisionou o processo. Até o fim deste mês, cerca de 15 longas, mostras temáticas e retrospectivas com curadoria de KMF serão anunciados.

Realizadores com passagem anterior no evento, como os irmãos Pretti, de Fortaleza, e o italiano Blu, apresentados na cidade em edições anteriores do Janela, estão de volta com filmes recentes. Há inéditos, como Viagem à marte, de Antonio Castro e Permanências, de Ricardos Alves. Entre os estrangeiros, destaque para Chienne d'Historie, de Serge Avédikian, Palma de Ouro em Cannes 2010. Outros pernambucanos em competição são A banda, de Chico Lacerda, Aeroporto, de Marcelo Pedroso, Pacífico, de Jonathas de Andrade, As aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro, Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena e Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante.

Programação completa e video aqui.

(Diario de Pernambuco, 07/10/2010)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Avenida Brasília Formosa" tem première no Recife hoje, no Cinema da Fundação



Após passagem em festivais da Holanda, República Tcheca, Argentina, Peru e Rio de Janeiro, Avenida Brasília Formosa, novo longa de Gabriel Mascaro, será exibido pela primeira vez no Recife hoje. Até então, o projeto contava com uma versão de 50 minutos para a TV, patrocinada pelo programa de fomento ao documentário DocTV.

Assim como ele, a versão longa apresenta quatro protagonistas, que têm no bairro de Brasília Teimosa, localizado entre a Zona Sul e Centro do Recife, um palco de histórias particulares. A sessão será às 20h, no Cinema da Fundação, somente para participantes do 14º encontro da Socine.

Enquanto a câmera esquadrinha a geografia do local, o filme se constrói na subjetividade de um rapaz que divide seu tempo entre o ofício de garçom e videasta, uma cabeleireira que sonha em entrar no Big Brother, um pescador retirado das palafitas e que agora precisa cruzar a cidade atrás do ganha-pão, e uma criança simplesmente entregue à infância, incólume.

O grau de autorrepresentação com que essas pessoas se mostram, sem nunca olhar para a câmera (a ponto de torná-la invisível). Nas entrelinhas está o recorte urbano já explorado por Mascaro em Um lugar ao Sol.

Aqui de outra forma, mas que continua a dizer muito sobre arranha-céus que assombram a região - historicamente, a comunidade desafia a expansão imobiliária que a toque de caixa verticaliza a cidade. Daí a dificuldade de quem procura classificar Avenida Brasília Formosa. Ficção ou documentário? No impasse, os dois. Ou melhor, até: cinema.

(Diario de Pernambuco, 06/10/10)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Eles não são invísiveis


Crédito: Tiago Santana

Eles estão por aí. Nas esquinas, sinais de trânsito, se expondo à violência do trânsito na beira das estradas. Meninos que perambulam precariamente, presença tão comum que se tornaram invisíveis.

No universo de pobreza, garotos têm seus sonhos, querem ser caminhoneiros ou operadores das bombas de gasolina. Foto: Tiago Santana/Divulgação
Tome o exemplo de Nego e Cocada. Eles vivem na área rural de uma pequena cidade do interior pernambucano. Diariamente se deslocam para o posto de gasolina, onde ficam disponíveis para trabalhos de ocasião. Dificilmente os conheceríamos, não fossem eleitos pelo casal de cineastas Jean-Pierre Duret e Andrea Santana e se tornassem protagonistas de um filme sobre sonhos e realidade.

No meio do mundo (2009) é um documentário incomum entre os que retratam a miséria social brasileira. Isso porque ele não se arvora a interpretar a condição de seus personagens. Se imagens desafiam o público com moscas na comida, no lixo e em bichos moribundos, é porque a vida é dura. Mas guarda poesia o suficiente para se infiltrar na composição das cenas e em diálogos tão fluentes que parecem ficção.

Do alto de seus 15 anos, Nego e Cocada interagem entre si, nunca com a câmera. Esta os revela na medida em que se torna invisível. Em conversas, sonham com um futuro até onde a vista alcança: querem ser caminhoneiros, quiçá operadores das bombas de gasolina. À sombra das boleias estacionadas, discutem a ética de pedir esmolas e compartilham versão para a lenda do papa-figo, que virou traficante de órgãos. Eles precisam trabalhar e também estudar, ao som dos pais esbravejantes.

Nesse contexto de abandono, políticos existem de forma abstrata, em discursos televisivos do presidente Lula e nomes pintados nos muros em disputa eleitoral. Ao assumir o segundo mandato, Lula diz que qualquer pobre pode se tornar presidente.

Coprodução Brasil-França, No meio do mundo foi assim batizado porque é termo recorrente nas falas de Nego e Cocada. Eles, que vivem à beira, dizem ter vontade de "sumir no meio do mundo". Enquanto o título francês, Puisque nous sommes nés (já que nascemos), aponta para outro sentido proposto pelo filme. O de que estamos aqui e, se não háremédio, é preciso viver da melhor forma possível.

(Diario de Pernambuco, 16/07/2010)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Estreia // "Mary and Max", de Adam Eliott



A animação Mary and Max (Austrália, 2009) retrata o drama de gente triste e solitária a partir da história de duas pessoas confinadas a lados opostos do mundo, que trocando cartas se tornaram melhores amigos. Com oito anos, Mary Daisy Dinkle mora no subúrbio de uma cidade da Austrália. Aos 44, Max Jerry Horovitz vive num pequeno apartamento em Nova York. De tão desajustados às suas realidades, eles se apegam a uma amizade à distância, movida a confidências, fotografias e estranhas receitas de chocolate. Ao longo dos anos, a cumplicidade se torna o alento para seguir adiante.

É preciso reconhecer o profundo carinho com que o diretor Adam Eliott apresenta seus personagens, demasiadamente humanos em suas inseguranças e frustrações - e as vozes de Philip Seymour Hoffman (Max), Toni Collette (Mary) e Eric Bana (Damien, o namorado de Mary) contribuem muito nesse sentido. Famoso mundialmente pelo curta Harvie Krumpet (2003), vencedor do Oscar de melhor animação, o diretor segue desenvolvendo predileção por bitucas de cigarro e cenários sombrios e artificiais, como a tortuosa NYC. Max, por sinal, leva amarrado no pescoço um guia para leitura de rostos humanos, que remete diretamente a Krumpet e seu livro de fatos.

Eliott explora nostalgia via técnica artesanal do stop-motion. Não só por sua trama se desenrolar há 30 anos, mas pelo aspecto antigo e monocromático das imagens, marcado por um cinza azulado que só se quebra pela cor vermelha. A música também contribui com o old times felling.



Outro ponto positivo é o ritmo. Na era da comunicação instantânea, que transpõe tempo e espaço com um clique, o hábito de redigir cartas alongadas a punho ou em barulhentas máquinas de escrever está praticamente esquecido. É certo que a o intervalo de tempo entre uma mensagem e outra não diz respeito à limitação imposta pelos oceanos. Até que a próxima seja colocada na caixa do serviço postal, é preciso que sentimentos e situações estejam elaborados. E para Mary e Max, isso leva uma vida inteira.

(Diario de Pernambuco, 25/06/2010)