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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Multidão e atropelos no cinema



A 4ª Janela Internacional de Cinema do Recife encerrou o primeiro fim de semana com público de quase cinco mil pessoas. O evento cresceu, não só em bilheteria, mas pela qualidade do que foi exibido, e pode ser considerado um marco. O Cinema São Luiz esteve lotado duas noites seguidas, sexta-feira com Febre do rato e sábado com Laranja mecânica, 1.200 pessoas em cada sessão, boa parte ocupando corredores, sentadas no chão. Como não ver beleza em um multidão atrapalhando o trânsito da Rua da Aurora para assistir a um filme? Sim, o Recife tem cinema de rua.

Problemas técnicos ameaçaram, mas não tiraram o brilho do evento. O som de Febre do Rato, filme tão visual quanto verborrágico, foi a principal vítima. Para entender o que o poeta vivido por Irandhir Santos dizia, muita gente apelou para as legendas em inglês. Foi um balde de água fria também para Cláudio Assis e equipe. Walter Carvalho, que pouco antes elogiava a beleza da catedral em que pisava, logo depois, do lado de fora, teceu duras críticas às condições de exibição do filme. Na cabine, Kleber Mendonça Filho fez o possível e lamentava o transtorno: “tenho carinho pelo filme de Cláudio. Aquilo foi uma violência contra mim que quero exibir os filmes da melhor forma possível”.

Kleber explica que o problema com o som foi consequência da falta de compatibilidade com o projetor Christie, trazido da França para a retrospectiva Kubrick. No sábado, às 17h, mais tensão no São Luiz: a lâmpada do projetor 35mm simplesmente não ligava, o que atrasou em 20 minutos a sessão de A guerra está declarada. Ontem, uma pane elétrica cancelou o programa matinal Janelinha, transferido para o próximo domingo. E até o fechamento desta matéria, às 17h, a sessão de Spartacus, prevista para as 15h, não havia começado.

Contratempos do tipo estressaram a dedicada equipe do evento e da Fundarpe e só são positivos no sentido de servir de alerta ao Governo do Estado: nas últimas semanas, eventos como o Play The Movie Coquetel Molotov, a pré-estreia de O Palhaço e agora com o Janela são a prova do potencial do Cinema São Luiz em injetar vida no centro da cidade. Após investimento de quase R$ 4 milhões para comprar e restaurar o São Luiz, é coerente esperar que ele esteja equipado à altura.

“O São Luiz é uma sala fantástica cuja estrutura técnica remonta a pelo menos 22 anos atrás. Quando fazemos ela se comunicar com um equipamento de 2011, acontece esse tipo de coisa. O São Luiz é um investimento que está dando certo, um espaço real, vivo, que as pessoas amam. Mas hoje um cinema precisa ser compatível com todos os formatos. O certo é chegar com o HD, conectar no projetor e pronto”.

No sábado à noite, contrariando a maré de contratempos, com Laranja Mecânica restaurado em digital 4k, o São Luiz se tornou um cinema dos sonhos. Um grande filme, imagem brilhante e cristalina. Na plateia em transe, gente sentada nos corredores e nem um pio sequer.

O bel prazer e a voracidade com que o Recife tem sido explorado pelo poder econômico, em contraste com a passividade ou conivência dos poderes públicos é um dos temas abrigados pelo Janela deste ano. Um pouco antes de Laranja Mecânica, um “vurto” de Marcelo Pedroso e Gabriela Alcântara com depoimento de gerente da Moura Dubeux provocou vaias, seguidas de aplausos. Um pouco antes, no Cinema da Fundação, a primeira sessão pública de [projetotorresgemeas] gerou um belo debate. “Tentamos chegar à dureza da realidade. A maioria jovem, mas não quer um discurso mais ou menos. Sentimentalmente posso falar ‘meu Recife’. Mas na prática, principalmente como pedestre, não sinto que a cidade é minha”, desabafa Tião, um dos 57 participantes da obra coletiva.

“O Brasil tem uma cidadania débil, herança do regime militar, que nos deixou com medo. Coletivamente, encontramos mais força para tratar do assunto”, diz Mariana Porto. Marcelo Lordello, recontextualiza. “Antes era a ditadura militar, hoje é do capital. Basta vez o jornal de domingo, os maiores anunciantes são as construtoras”.

Autor da trilha sonora, Tomaz Alvez tem calafrios ao imaginar uma cidade em que os programas se reduzam a ir a shoppings e à Livraria Cultura. Marcelo Pedroso abre o foco dizendo que o problema não é só do Recife, mas das grandes cidades, com projetos urbanísticos atrelados ao capital e sem passar por debate público. “No nosso caso, um projeto aplaudido e endossado pela própria prefeitura”. O debate continua amanhã, às 18h, no São Luiz.

A prefeitura foi à berlinda mais de uma vez. Na sexta à noite, Cláudio atacou a atual gestão. Durante a sessão, ele xingou o som ruim, mas no final saiu para a rua e subiu na Variant usada na filmagem de Febre do rato. Aplausos. Risos. A cidade pulsa,como diz Zizo, “reinventando sonhos, evitando pânicos”. Continua hoje, às 18h, com o Cinema de Rua no antigo Trianon. Acompanhe a programação pelo site do festival: www.janeladecinema.com.br

(Diario de Pernambuco, 07/11/2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

São Luiz com projeção de DVD

Encerrada domingo, a mostra Play The Movie do Coquetel Molotov trouxe uma ótima seleção de filmes ao Recife. Por um lado, acertou em cheio ao lotar o Cinema São Luiz na última terça-feira, no cineconcerto O mágico de Oz. Mas, de forma geral, as condições em que foi realizada estão longe das ideais.

A exibição de Gretchen filme estrada, por exemplo, foi interrompida por problemas técnicos e a sessão de Daquele instante em diante foi antecipada em 30 minutos, sob justificativa de que funcionários do cinema não poderiam ficar até o horário previsto. Isso confundiu parte do público que aguardava na frente do cinema, quando o filme já havia começado.

No entanto, o principal problema foi a baixa qualidade da projeção digital, como ocorreu na projeção de A alma do osso, de Cao Guimarães. Isso aponta para um entrave maior: a falta de equipamento adequado para exibições do tipo no Cinema São Luiz. Em plena era da troca de arquivos em alta definição, não dá pra sair de casa e aturar a imagem “lavada” por insuficiência do projetor aliada à qualidade de DVD.

Após investimento de quase R$ 4 milhões para restaurar e adquirir o São Luiz, não seria absurdo esperar que o governo o equipasse à altura. Ou isso, ou ele continuará sendo um cinema público que ignora 90% da produção patrocinada pelo próprio estado.

(Diario de Pernambuco, 11/10/2011)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O brega ao alcance da mão



O brega recifense já provou ter força suficiente para merecer um documentário. Explosão brega, de Hanna Godoy, cumpre essa missão ao dar tratamento cinematográfico à cena, aqui representada por Kelvis Duran, Michelle Melo, Banda Kitara, Musa do Calypso, Mc Leozinho, Mc Cego e Metal, Mc Sheldon, Remixsom. Produzido com recursos do 1º edital do audiovisual, o filme será exibido pela primeira vez hoje, às 19h, em pré-estreia no Cinema São Luiz, com presença dos artistas.

Ao contrário de outros lançamentos organizados às segundas-feiras no São Luiz, Explosão brega não terá entrada franca, mas ingressos a R$ 4 e R$ 2 (meia). O motivo é que, coerente com o tema, a produção tem como proposta desenvolver um modelo mais ligado com o público que com os editais. Se depender do apelo do filme, dos artistas e do volume do sistema de som, a sessão deve funcionar.

“Esse não é um filme de festivais. Ele compõe o desejo de produzir filmes com forte apelo de público, qualidade técnica de produção e que rendam bilheteria para que sejam autossustentáveis”, explica Hanna, que, para a divulgação, conta com a colaboração dos artisas em suas redes sociais, fã clubes e rádios comunitárias. “A escolha do São Luiz faz parte do desejo de percorrer o circuito de salas de cinema do estado”.

O longa de Hanna tem qualidades culturais e estéticas para agradar tanto aos amantes do brega quanto do cinema. O primeiro, irá se surpreender ao ver na tela grande os artistas em condições diferentes das estabelecidas pelos programas de TV. “Quando se pensa em brega a imagem que vem logo à cabeça é de algo tosco, sem requinte, exagerado e muitas vezes de mau gosto”, diz Hanna. “Ao entrar em contato com o movimento brega pernambucano percebi que há uma um enorme vontade de fazer as coisas bem feitas, com capricho e bom gosto estético, mas, às vezes, eles esbarram em dificuldades orçamentárias. Esse universo é rico e merece cuidado. E como no filme o personagem principal é a música tivemos cuidado redobrado com o som”.

A imagem seduz e abre caminho para a música, que ao vivo ou em estúdio, é utilizada para compor videoclipes. Um deles, de Kelvis Duran, faz uma paródia de Michael Jackson (Thriller) digna de Bollywood. Questões de mercado não ficam de fora. Em dado momento, o compositor de um dos grupos conta que muitos dos sucessos que geram lucro às bandas de forró eletrônico são originalmente compostas no bojo do movimento brega. Depoimentos e cenas de intimidade familiar completam a experiência.

As performances são fotografadas com apuro de luz e sombra, obra do fotógrafo gaúcho Juarez Pavelak, que já havia trabalhado em Pernambuco no curta Rapsódia para um homem comum, de Camilo Cavalcante. A edição, outro mérito do filme, é do carioca Rafael Mazza, montador de Onde a coruja dorme, de Márcia Berraik. A pesquisa é da antropóloga Márcia Mansur. Outro ponto interessante é que o filme evita especialistas ou pretensas autoridades para teorizar sobre o brega. No lugar, há o olhar 100% focado nos artistas e seu universo. Relação mais direta com o público, impossível. Dá até pra cantar junto.

O plano de Hanna é formar a Embaixada Brega, trilogia que vai se desdobrar sobre os bregas antigos e o tecnobrega. O segundo filme, Reis do brega, está em pré-produção e será anunciado hoje à noite, com presença do Conde do Brega, Paulo Marcio, Augusto César, Banda Labaredas, Paixão Brasileira.

(Diario de Pernambuco, 29/08/2011)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

São Luiz de Pernambuco



Boa notícia, o Cinema São Luiz foi comprado pelo governo do estado. De imediato, dois benefícios decorrem desse movimento. A partir de agora, um dos últimos palácios do cinema em atividade pertence ao povo pernambucano. E o melhor, com a aquisição, o destino do São Luiz fica “imune” a mudanças políticas advindas da alternância de poder. O que falta resolver diz respeito a ajustes técnicos e estruturais, mas principalmente à crise conceitual de um cinema que ainda não encontrou público.

É notório que o São Luiz voltou à ativa porque foi tratado como prioridade pelo governador Eduardo Campos. Até a efetivação da compra, confirmada pelo secretário da Casa Civil, Tadeu Alencar, não havia como garantir que ele continuasse de portas abertas. Segundo Tadeu, o imóvel, de propriedade do Grupo Severiano Ribeiro, foi adquirido por R$ 2,584 mihões, a serem pagos em 12 parcelas. Durante esse período, o governo ganhará créditos de publicidade a ser veiculada na rede UCI Ribeiro (shoppings Plaza, Recife, Tacaruna e Boa Vista).

Para fechar o negócio, cada uma das partes requisitou avaliações comerciais, que levaram em conta o ponto e o metro quadrado. A proposta inicial da Severiano Ribeiro era de R$ 5 milhões. O valor final foi definido a partir do lance oferecido pelo governo, de R$ 3,83 milhões. “Desse valor, abatemos o que investimos na reforma, que não só restaurou o espaço como também agregou um novo valor. É uma relíquia”, considera o secretário. Avaliado em R$ 500 mil, o mural do artista Lula Cardoso Ayres, localizado no hall do cinema, entrou no pacote como uma doação do grupo.

“Fizemos questão que o painel não constasse em nenhuma das avaliações, assim como não levamos em conta os acabamentos, afrescos, vitrais e a aplicação do mármore”, diz Luís Henrique Severiano Ribeiro, gerente patrimonial do grupo, que veio do Rio de Janeiro ao Recife para participar das negociações. “O governo do estado teve uma atitude exemplar, fez reforma excepcional, demonstrou grande sensibilidade”.

As negociações começaram em 2010, mediadas pelo então secretário da Casa Civil, Ricardo Leitão, e Lula Cardoso Ayres Filho, um dos responsáveis pela restauração do São Luiz e, desde setembro, responsável pelo setor de engenharia e patrimônio do grupo Severiano Ribeiro no Nordeste. “O São Luiz é o único cinema do país preservado exatamente como foi construído”, diz Lula.

Ribeiro conta que o São Luiz foi construído por seu bisavô como forma de retribuição ao Recife, que foi fundamental para a prosperidade do grupo e continua sendo o escritório central da região. Outros dois cinemas São Luiz foram construídos na mesma época, um no Rio e outro em Fortaleza, terra natal de Severiano Ribeiro. “O governo do Ceará está negociando o São Luiz de Fortaleza, mas está vacilante. Uma igreja de lá fez oferta de R$ 10 milhões, mas recusamos. Nada contra as religiões, mas queremos que o local seja um espaço de cultura, que preserve a nossa história”.

Uma casa à espera de reformas - A princípio, a compra do Cine São Luiz pelo governo do estado não se reflete em mudança nas diretrizes de sua gestão. No entanto, para que o cinema funcione plenamente, faltam melhorias técnicas e estruturais, a principal delas, a aquisição de um equipamento de projeção digital.

“Hoje, 20% dos filmes disponíveis no mercado só circulam em suporte digital. É uma produção interessante, mas estamos fora desse circuito”, diz o programador do São Luiz, Geraldo Pinho. Segundo ele, entre setembro e outubro será aberta uma nova licitação para compra do equipamento digital. Enquanto isso, o cinema funciona com um projetor reformado, que data dos anos 1950, e som Dolby Stereo.

O cinema também sofre de problemas estruturais decorrentes da má conservação do Edifício Duarte Coelho. Infiltrações advindas dos andares superiores comprometem o forro de gesso. Esse e outros danos (como os provocados por lixo jogado dos apartamentos, no telhado do cinema) serão resolvidos por outra empresa, que também aguarda licitação. O equipamento de refrigeração, também original da década de 50, é outra deficiência que está sendo solucionada. Das seis máquinas, três estão funcionando e outra será reativada semana que vem.

A programação atual continua disponível de terça a domingo, em três horários. O filme em cartaz, Enfim viúva, pode ser assistido às 15h, 17h e 19h. Aos domingos, a sessão matinê traz Kung Fu Panda 2 (10h e 14h) e é responsável pela maior bilheteria do cinema, uma média de 400 pessoas por sessão. Programas especiais na segunda-feira, festivais e outros eventos culturais continuam na pauta.

Linha do tempo

1952 | Cinema São Luiz é inaugurado em 6 de setembro, com o filme O falcão dos mares, de Raoul Walsh.

Década de 1970 | Os filmes dos Trapalhões faziam tanto sucesso que os próprios comediantes subiam no palco do São Luiz para
lançar os filmes.

Década de 1980 | Auge de público do São Luiz, que alcançava a média semanal de 34 mil pessoas.

1997 | O São Luiz sedia a 1ª edição do Cine PE e exibe Baile perfumado, primeiro longa feito em Pernambuco em 20 anos

1998 | Recorde de público, Titanic, de James Cameron, atraiu tanta gente que foi preciso fechar o cinema com tapumes para que as pessoas não o invadissem

2007 | Em 31 de janeiro, o Grupo Severiano Ribeiro encerra as atividades do cinema com o filme Uma noite no museu. No mesmo ano, o Grupo Barros Melo, das Faculdades Barros Melo (Aeso), assumiu o restauro do espaço, para transformá-lo em centro cultural.

2008 | Após desistência da Aeso, Eduardo Campos anuncia, durante o Festival de Cinema de Triunfo, que o restauro e administração do São Luiz será responsabilidade do governo do estado, que investiu R$ 1,2 milhão para a reforma e passa a pagar aluguel mensal de R$ 20 mil ao Grupo Severiano Ribeiro

2009 | Em junho, é tombado como patrimônio artístico e cultural do estado de Pernambuco. Em dezembro, é reinaugurado, com sessão especial de Baile Perfumado.

2010 | Em janeiro, é reaberto para o público com sessões de curtas e longas pernambucanos. Em março, passa a ter curadoria de Lula Cardoso Ayres, que fica na função até outubro.

2011 | Em abril, passa 30 dias fechado para manutenção. Volta em maio, com Geraldo Pinho na função de programador. Em agosto, o governo anuncia a compra do imóvel.

(Diario de Pernambuco, 25/08/2011)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cinema São Luiz em manutenção



Sem que muita gente desse falta, há duas semanas o Cinema São Luiz deixou de funcionar. Inicialmente o motivo seria a manutenção do equipamento de som, mas a situação piorou com a falência do sistema de ar-condicionado, o mesmo desde a inauguração da sala, em 1952. A expectativa era que tudo se resolvesse logo, mas a previsão agora aponta para o dia 6 de maio. Até lá, também serão feitos reparos no forro e telhado. Na melhor das hipóteses, são 30 dias com as portas fechadas.

A notícia foi anunciada pela Fundarpe junto com a escalação do novo programador, Geraldo Pinho. Ele substitui Lula Cardoso Ayres Filho, que deixou a função em outubro do ano passado após série de turbulências entre ele e a Fundarpe, responsável pela administração do São Luiz, que chega a 2011 sob a égide da inconstância e improviso. É uma bela sala, talvez a mais bonita do país. Mas para fazer jus à fama, ou seja, voltar a ser cinema, precisa reavivar a relação com o público.

O trabalho é delicado e foi assumido por Pinho como um desafio e uma honra. Paulista de Santos, sua história se cruzou com a do São Luiz pela primeira vez em 1962. O filme em cartaz era La violetera (Espanha, 1958). “Na época ele tinha um bebedouro de mármore. É um cinema ímpar, pois foi projetado para ser isso, em vez de ser adaptado, como outros foram. Nunca deixei de frequentá-lo, mesmo durante a decadência”.

Gestor do Museu da Imagem e do Som, Pinho acumula cargos e diz que vai se empenhar para que o São Luiz volte a ser um cinema de referência. Para tanto, pretende voltar em maio com um filme inédito na cidade: Um lugar qualquer (Somewhere, EUA, 2010), de Sofia Coppola. “O São Luiz não é uma praça com chafariz, onde as pessoas se encontram para tirar fotos. Ele é um cinema e precisa se afirmar como tal, ter programação constante, som e imagem de qualidade, bom atendimento”.

É pena, mas os 30 dias de “molho” não serão usados para incrementar a potência da luz, limitada a três mil watts. “Quando o São Luiz fechou, a lâmpada era de dois mil watts. Quando assumiu, a Fundarpe passou para três mil, que é o máximo que o projetor aguenta”, explica Pinho. “Quatro mil seria a potência ideal para o espaço, mas para isso é preciso modificar a lanterna”.

Por enquanto, a prioridade será investir na programação diária e infantil, reservada para as manhãs de domingo. Quando estas estiverem fortalecidas, haverá tempo para clássicos, mostras e eventos como a extensão recifense do Festival Mix Brasil, sucesso de público nos anos 1990, quando Pinho era responsável pelo Cineteatro do Parque. “Quero exibir trailers dos filmes que vão entrar em cartaz. Cinema tem que anunciar os filmes que entram ‘a seguir’, para fidelizar o público”, diz o programador.

Diretrizes estabelecidas pela Fundarpe serão contempladas, como a exibição de filmes nacionais e a agenda de festivais e eventos formativos. No entanto, Pinho que isso não pode engessar o cinema. “Vou atender a demanda da melhor maneira, mas é preciso entender que o São Luiz é um cinema, e que portanto, precisa funcionar todos os dias. Um evento de três dias, por exemplo, pode matar o filme em cartaz”.

E que tipo de filmes podemos esperar? “De todo o tipo. Só não trabalho com lixo, norte-americano ou de qualquer outro país. Cinema público tem o dever de formar plateias. De passar filme experimental, que pode não atrair muito público, mas que faça as pessoas assistir algo diferente”. Após o filme de Coppola, a intenção é exibir o inédito (e indicado ao Oscar) Inverno da alma (Winter’s bone, EUA, 2010), de Debra Granik.

À procura de seu público, Pinho assim o define: “uma mistura de cinéfilo com ‘cinemeiro’, sem preconceito, que arrisca assistir filmes desconhecidos, mesmo que não goste do que viu. Esse público existe e precisa ser reunido”. E convoca a população para que volte a frequentar o palácio do cinema. “Para que o São Luiz possa retomar sua grandeza e volte a ser um cinema que nos dê orgulho”.

(Diario de Pernambuco, 22/04/2011)

domingo, 27 de março de 2011

Em busca do cinema perfeito



O Recife conta com 47 salas de cinema. Um parque de exibição e tanto, se comparado com o de 15 anos atrás, quando poucos cinemas de rua restavam na cidade. Hoje podemos assistir a filmes projetados com a última palavra em tecnologia digital, a definição 4K, duas vezes maior do que o Full HD. Ou ao filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Entre tantas opções, escolher a sala certa pode ser um tiro no escuro. Cada uma tem qualidades e problemas e cabe ao espectador adequar necessidades e realidades.

Ir ao cinema é coisa cara - ingressos chegam até a R$ 23 e nada mais justo que exigir um serviço à altura. Em busca da sala perfeita, a reportagem do Diario visitou todos os cinemas do Recife - e não a encontrou. Há sempre o que melhorar, até mesmo entre os que estão próximos da excelência. Nosso test drive confirmou o que já era consenso: o complexo UCI Kinoplex Casa Forte tem a melhor infraestrutura e é tecnicamente impecável. Ficou ainda melhor desde janeiro, quando chegou o projetor Sony 4K, capaz de exibir em 2D ou 3D com ótimo resultado.

´Gosto daqui porque tem mais conforto e é mais moderno que os outros. Só não gosto tanto das poltronas, as do Box são melhores`, diz o estudante de pós-graduação Marcone Madruga. ´O Plaza é ótimo. Antes eu pegava uma fila para pagar e outra para sentar. Alguns cinemas da cidade têm cheiro de mofo e pouco espaço para sentar`, diz a economista Maíra Cavalcanti.

Há pouco tempo, os complexos Recife (Boa Viagem) e Tacaruna (Santo Amaro) passaram por melhorias e já ostentam a marca Kinoplex. Mas, com exceção das salas digitalizadas (duas em cada), o make up que reformou cadeiras, piso e modernizou terminais de atendimento não chegou à imagem e som.

O esmero da exibição faz falta na maioria das salas, comerciais ou independentes. Mês passado, a sala 2 do UCI Tacaruna exibiu O discurso do rei com som tão ruim que parecia radinho de pilha. Ontem, a mesma sala exibiu Bruna Surfistinha com som adequado, o que comprova erro operacional no passado. É comum filmes chegarem à tela com bordas borradas, chiados, som restrito às caixas frontais, imagem turva ou desfocada e outras imperfeições. Ou seja falta manutenção e outros cuidados.

Com exceção das salas acima citadas, todas precisam de algum tipo de reforma. A mais urgente é a do Cine Rosa e Silva, que apesar da ótima iniciativa de unir filmes comerciais e ´de arte`, faz tempo que deve a seu público um upgrade. De acordo com a direção do cinema, há planos de reforma das três salas, mas ainda sem cronograma definido.

O mesmo ocorre com o Box Guararapes, um ótimo cinema que carece de mais atenção dos administradores. Apesar da reforma recente, não há guias luminosos em corredores e escadas. Na sala 3D, há uma sombra permanente na parte esquerda da tela. Durante nossa visita, a sala THX (7) exibia Bruna Surfistinha com um som de dar dó. A assessoria do grupo informa que ainda neste ano serão instalados totens de autoatendimento e mudanças no foyer, incluindo iluminação moderna.

2012 é a data para o Multiplex BoaVista se tornar Kinoplex. Antes disso, em junho, um novo estacionamento abre no shopping, com mil vagas a mais. Enquanto isso, problemas são comuns. ´É um bom cinema, mas não se pode comparar com os outros`, diz Fernando Teixeira, engenheiro.

Cinema da Fundação - a melhor sala alternativa

À margem do circuito comercial, salas independentes agonizam. Grandes distribuidoras preferem grandes exibidores. De forma que pequenas salas precisam esperar a vez para reprisar o que já foi exibido pelos complexos de shopping. É o último estágio da cadeia de exibição - veja o caso do Cinema Apolo (em cartaz, Bravura indômita) e do Cinema São Luiz (De pernas pro ar e Enrolados), antes dos filmes serem lançados em DVD.

Caso à parte é o Cinema da Fundação, uma das poucas do Brasil a manter padrões de qualidade técnica, de conforto e no trato com o público. ´É um cinema público que tem uma imagem melhor que a dos cinemas comerciais, que cobram o dobro para exibir filmes lançados em escala mundial, sem oferecer em retorno um serviço à altura`, diz Kleber Mendonça Filho, programador da sala ao lado de Luiz Joaquim. Ele informa que, ainda neste ano, o sistema de som atual, analógico, será substituido por um sistema digital. ´A projeção está boa, mas queremos ela perfeita`.

O Cine São Luiz é mantido pelo estado e é um dos poucos cinemas de rua a funcionar no país. É de longe o cinema mais bonito da cidade e ainda aguarda direcionamento programático que o leve a uma identidade própria. Aos poucos, o público volta a frequentá-lo. ´É o meu cinema preferido. Ele tem história, enquanto cinemas de shopping não têm alma, são só uma tela e uma cadeira`, diz a agente ambiental Schirleide dos Santos Silva.

Tecnologia melhorou projeção

Enquanto isso, no reino do 3D, as opções têm melhorado. Até o ano passado, eram duas salas na cidade. Hoje são seis. As mais recentes são também as mais interessantes: as salas 1 e 10 do UCI Recife, 1 e 8 do Tacaruna e 5 do Casa Forte. São as mesmas que oferecem projeção 4K, da Sony.

O 3D destas salas também é melhor, não somente porque a tecnologia superior evita o efeito ´estrobo`, que cansa e causa enjoo em algumas pessoas. Mas porque os óculos são mais leves e higiênicos - todos passam por esterilização em água quente, sabão especial e são entregues ao público em embalagem de plástico. Não é o caso dos óculos do Box Guararapes (sistema Xpand), entregues à reportagem com manchas nas lentes e sem bateria. Em segunda tentativa, o aparelho falhou algumas vezes durante a sessão.

Especialista em cinema digital, o carioca Daniel Leite diz que a projeção das salas locais são superiores do que as do Rio de Janeiro. ´Se calibrados corretamente, esses aparelhos garantem que o filme seja visto da forma original. Ao contrário da película, que desbota a cor e arranha após certo número de projeções`. Ele atribui a qualidade da imagem projetada por esse equipamento mais ao fato dele ser novo do que pela alta definição obtida. ´Estudos afirmam que o olho humano não é capaz de perceber a diferença entre o Full HD (1920 x 1080 pixels) e o 4K (4096 x 2.160). Mas o grande trunfo da indústria do cinema é oferecer algo que ainda não temos em casa`.

Com a palavra, os cinéfilos - Além da investigação in loco, convidamos profissionais de cinema e cinéfilos de plantão para eleger o melhor cinema da cidade. O resultado, unânime, foi o Cinema da Fundação. Sinal de que, apesar de todas as inovações técnicas e confortos possíveis, a qualidade da programação e o cuidado com a exibição dos filmes são requisitos essenciais para fazer um bom cinema. Para justificar suas decisões, também pedimos para nossos especialistas explicarem seus critérios, sendo a categoria ´melhor cinema`, uma média das demais.

Leo Sette cineasta

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: Cinema da Fundação
Melhor som: UCI Casa Forte
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: Cinema da Fundação
Melhor atendimento: Cinema da Fundação

Acho muito desconfortável ter que pagar estacionamento, sentir cheiro e ouvir barulho de pipoca. Ter que andar pelos corredores do shopping para poder ver um filme, fora o preço alto dos ingressos. É importante apontar o problema sério que é a projeção das salas da prefeitura, o Cinema do Parque e Apolo. O projecionista de lá não tem o menor espírito de cinema, faz de qualquer jeito e não aceita críticas, é super mal-educado. Ele erra janela, foco, conversa e ri alto durante a projeção ao ponto de se poder ouvir da sala às vezes. Todo mundo já faz piada, apesar do carinho que temos pelas salas.

Tomaz Alves compositor de trilhas sonoras

Melhor cinema: Difícil responder essa. Seria mais fácil dizer os piores
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte
Melhor som: UCI Casa Forte
Sala mais confortável: UCI Casa Forte e Cinema da Fundação
Melhor atendimento: UCI Casa Forte

É uma pena que o hábito de ir ao cinema, para muita gente, não passa de mais uma coisa que se pode fazer no shopping. Isso porque quase todas as salas são de shopping. E aí fica o meu maior incômodo: a sujeira. As salas estão muito sujas, com exceção do Cinema da Fundação, onde se proíbe entrar com comida, e do Plaza, porque ainda é novo. Fora outros problemas como má projeção, defeitos de som. A única sala que eu continuava frequentando era o Box Guararapes, mas um dia cheguei até a ver foto de ratos na sala do cinema - um cara postou no Twitter. Foi o fim da picada!

Rodrigo Carreiro professor e crítico de cinema

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte 5
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte 5
Melhor som: Box Guararapes 5
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: Box Guararapes

No geral a qualidade das projeções é apenas razoável: o som digital se desgasta muito rápido, a maior parte das salas do UCI Recife e Tacaruna tem apenas quatro canais de áudio e a manutenção dos projetores anda vacilando. Projeções muito escuras são quase uma rotina. Nesse sentido o Plaza (por ter instalações mais recentes, talvez) e o Box Guararapes me parecem os complexos mais preparados para projeções de boa qualidade. A menção ao Cinema da Fundação é obrigatória e eu destacaria o conforto alcançado após a reforma, e não apenas dentro da sala, mas no programa como um todo.

Fernando Vasconcelos designer e crítico de cinema

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Plaza Casa Forte
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Recife 1 (Digital 4K)
Melhor som: UCI Recife 1 (Digital 4K)
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: UCI Plaza Casa Forte
Melhor atendimento: Cine Rosa e Silva

Melhor projeção e som, me refiro à sessão cabine de Invasão do mundo, visto no UCI Recife. Melhor atendimento, me refiro à gerência e funcionários do Cine Rosa e Silva, por serem muito atenciosos, informados e educados. Faz muita diferença, apesar do cinema ser deficiente tecnicamente em relação aos demais. Cabe um comentário sobre a péssima programação atual do São Luiz, que voltou depois do recesso de fim de ano com a pior programação da cidade, reprisando os piores filmes vindos dos multiplexes.

Clara Moreira arquiteta e ilustradora

Melhor cinema: Cinema da Fundação
Melhor sala de shopping: UCI Casa Forte.
Melhor sala alternativa: Cinema da Fundação
Melhor projeção: UCI Casa Forte
Melhor som: UCI Casa Forte
Melhor programação: Cinema da Fundação
Sala mais confortável: UCI Casa Forte
Melhor atendimento: Cinema da Fundação

Predomina nos shoppings um grande descaso com as sessões de cinema. O problema mais recorrente e mais aparente é a projeção - geralmente escurecida ou levemente desfocada. Na última vez que fui ao Cine Rosa e Silva, além da projeção escurecida e do foco desajustado, tinha uma região da tela que estava ainda mais desfocada que o resto, durante todo o filme. Sente-se claramente a preocupação dos que fazem o Cinema da Fundação para fazer o melhor em termos de programação, imagem e som, com um projecionista realmente preocupado em fazer o melhor.



Conheça o parque exibidor do Recife:

Box Cinemas Guaararapes. 12 salas; inaugurado em 2004. Projeção 35mm e digital Rain com lâmpada de 3 mil e 6 mil watts (salas 5, 6 e 7); som Dolby digital e analógico; funciona diariamente; café, bomboniére (dinheiro e débito) e estacionamento; acesso para cadeirantes; banheiro infantil; bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Av. General Barreto de Menezes, 800 - Shopping Guararapes (Piedade).
Telefone: 3207-1212.

Cine Rosa e Silva. 3 salas; inaugurado em 1997; lotação: 371; média mensal de público: 11.992 espectadores; projeção 35mm com lâmpadas de 2 mil watts; áudio: Dolby CP45; bomboniére (só dinheiro) e estacionamento; acesso para cadeirantes. bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Av. Rosa e Silva, 1406 (Aflitos).
Telefone: 3207-0100.

Cinema Apolo. 1 sala; inaugurado em 1842 (como teatro); lotação 282; projeção 35mm; áudio: Dolby analógico; bilheteria: dinheiro.
Endereço: Rua do Apolo, 121 (Recife Antigo).
Telefone: 3355-3118.

Cinema da Fundação. 1 sala; inaugurado em 1998; lotação: 200 pessoas; média mensal de público: 2,5 mil pessoas; projeção 35mm e digital Rain com lâmpada de 2 mil watts; som Dolby 4.1; aberto de terça a domingo; café e bomboniére (dinheiro, débito e crédito); bilheteria: somente dinheiro.
Endereço: Rua Henrique Dias, 609 (Derby).
Telefone: 3073-6688.

Cinema São Luiz: 1 sala com balcão; inaugurado em 1952 (reinaugurado em 2010); Lotação: 992; média mensal de público: 4 mil espectadores; projeção 35mm com lâmpada de 3 mil watts; som Dolby Stereo; aberto de terça a domingo; Acesso para cadeirantes; Bilheteria: somente dinheiro.Endereço: Rua da Aurora, 175, Boa Vista.Telefone: 3184-3000.

Multiplex Boa Vista. 6 salas; inaugurado em 2003; lotação: 887; média mensal de público: 44 mil espectadores. Projetores 35mm; som Dolby stereo analógico; aberto diariamente; bomboniére (dinheiro e débito) e estacionamento; acesso para cadeirantes; sanitário infantil; bilheteria: dinheiro e débito.
Endereço: Shopping Boa Vista (Rua do Giriquiti, 48 - Boa Vista).
Telefone: 3184-3000.

UCI Kinoplex Casa Forte (Shopping Plaza). 5 salas; inaugurado em 2007. Lotação: 957 pessoas. Média mensal de público: 54.930 espectadores. UCI Kinoplex Shopping Recife (Boa Viagem). 10 salas; inaugurado em 2000.
Lotação: 2.187 espectadores. Média mensal de público: 92.528 pessoas. UCI Kinoplex Shopping Tacaruna (Santo
Amaro). 8 salas; inaugurado em 2000. Lotação: 1.378 espectadores. Média mensal de público: 62.803 pessoas. Projetores 35mm, 3D e 4K. Som Dolby digital e analógico. Aberto diariamente. Bomboniére (dinheiro, crédito e débito) e estacionamento. Acesso para cadeirantes; Bilheteria: dinheiro, crédito e débito.
Telefone: 3207-0000.

(Diario de Pernambuco, 27/03/2011)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O bom momento do circuito local

No Recife há salas públicas e projetos mantidos por cinemas privados que formam um circuito paralelo de exibição. Algumas exibem filmes inventivos, estranhos, surpreendentes ou experimentais. Outras exibem filmes do circuito comercial, cujo acesso normalmente custaria até R$ 20, por módicos R$ 4.

Há pouco mais de dez anos, a realidade não era tão animadora. Na época, uma matéria escrita pelo crítico Luiz Joaquim (www.cinemaescrito.com), mapeou na cidade apenas três espaços do tipo. Desde 2001 programando os filmes do Cinema da Fundação ao lado de Kléber Mendonça Filho, Joaquim diz que o começo não foi fácil. Em 1998, quando a sala se tornou exclusiva para projeção de filmes, o público anual foi de 8 mil pessoas.

“Naquele tempo a gente precisava se apresentar e ganhar a confiança dos distribuidores. Já chegamos a exibir filme para apenas uma pessoa e nem por isso desistimos ou resolvemos passar Batman. Hoje temos a liberdade de escolher os filmes dentro do nosso critério de interesse”.

E foi através desse critério que a sala conquistou público fiel. Em 2010, 60 mil bilhetes foram vendidos. "Atualmente não podemos exibir todos os filmes que desejamos e acho que há uma demanda para eles. Como espectador, penso que deveria haver mais espaços de exibição para estes filmes"

Kleber Mendonça rejeita o rótulo de “cinema de arte” ou “cabeça” para classificar a programação do Cinema da Fundação, que já exibiu produções de Hollywood sem causar espanto. "Consideramos importantes alguns exibidos em cinemas comerciais, mas nem por isso vamos ajoelhar e rezar de acordo com a cartilha do mercado”.

O Recife também conta com dois cinemas municipais, sendo que um deles, o quase centenário Cinema do Parque, está fechado para reforma. Sérgio Dantas, atual gerente de audiovisual da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (FCCR), diz que o Cinema Apolo vai combinar filmes autorais e mostras temáticas que começam com Godard, Herzog, Fellini, Polanski e David Lynch. “Também queremos apresentar a produção do Recife”, diz Dantas.

O Panorama Recife de Documentários também voltará à pauta do dia. Enquanto o Parque está em reforma, a prefeitura estuda a possibilidade de transferir o equipamento de projeção para o Teatro Barreto Junior, no Pina. “É uma reivindicação do bairro. Queremos que tenha o perfil popular do Parque. Talvez no futuro poderemos contar com três equipamentos”.

Nos cinemas privados também há espaço para filmes pequenos e notáveis. Das três salas do Cine Rosa e Silva, uma é exclusiva para eles. “Quis trazer um público diferente, com tom autoral e conciliar com o cinema comercial. Esta semana (começo de fevereiro) programamos Cisne negro, que acho que está dentro dessas duas vertentes”, diz a programadora Carol Ferreira.

Outro projeto especial é a Sessão de Arte do grupo UCI/Ribeiro, promovida há 15 anos por Pedro Pinheiro. “É uma forma de dar mais opção ao espectador que vai ao multiplex. Às vezes o público é pequeno, mas isso contribui para aumentar a qualidade da programação”.

Destino incerto para o Cinema São Luiz



Ano passado, o Recife teve o privilégio de ter de volta o Cinema São Luiz. A histórica sala, inaugurada em 1952 no centro da cidade, tinha tudo para se tornar igreja ou supermercado. Em vez disso, foi restaurado pelo governo estadual e hoje é um dos poucos cinemas de rua do país. No entanto, em termos de programação, o São Luiz viveu um 2010 conturbado pois se tornou um “pomo da discórdia” entre a Fundarpe, que gerencia o equipamento, e o então programador Lula Cardoso Ayres, destituído do cargo desde janeiro.

Durante seu mandato, Lula foi abertamente contra a exibição de filmes que já passaram pelo circuito comercial, assim como a sequência de eventos e festivais abrigados pelo local. Procurou lançar filmes inéditos na cidade e promoveu a Sessão Cinemateca, o que atraiu um público pequeno, mas fiel e ávido para assistir clássicos em 35 mm.

Enquanto o presidente da Fundarpe, Fernando Duarte, decide quem será o novo programador, os filmes são escolhidos pela coordenadora de cinema Carla Francine e o gerente do São Luiz, Cristiano Régis. “O público é o nosso termômetro. Começamos bem 2011, com Tropa de Elite 2, e vamos manter Megamente na matinê infantil”, diz Régis.

Desde que foi reinaugurada, a sala contabiliza mais de 50 mil pessoas em sessões normais, o que não inclui os projetos educativos CineCabeça, festivais e eventos - só o Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici) realizado em outubro passado, atraiu quase 14 mil pessoas. “Isso está sendo bem positivo e atende a uma demanda real que observamos no cinema”, diz Carla Francine.

Geraldo Pinho, que já foi programador dos cinemas do Parque e Apolo, diz não enxerga problema algum em conciliar os dois perfis. “Não tenho preconceito com isso. No Parque eu cheguei a exibir 14, 15 filmes inéditos por ano, além de uma mostra de cinema iraniano. Mas boa parte era de filmes já exibidos na cidade. Costumava dizer que eles eram inéditos, pois se não passou no Parque, nosso público não tinha assistido”.

Serviço

Cinema da Fundação (200 lugares). Rua Henrique Dias, 609 - Derby. Ingressos: R$ 8 e R$ 4 (meia). 3073-6688.

Cinema Apolo (282 lugares) - Rua do Apolo, 121 - Recife Antigo. Ingressos: R$ 4 e R$ 2. 3355-3118.

Cinema do Parque (900 lugares - fechado para reforma) Rua do Hospício, 81 - Boa Vista. R$ 1. 3355- 3113.

Cines Rosa e Silva (127 lugares). Av. Rosa e Silva, 1406, Aflitos). Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia). 3207-0100.

Cinema São Luiz (900 lugares) Rua da Aurora, 175 - Boa Vista. R$ 4 e R$ 2.

(Diario de Pernambuco, 06/02/2011)