quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Garanhuns Jazz & Blues Festival - Noite 3 e balanço



Entre conquistas e percalços, o Garanhuns Jazz & Blues Festival cresceu e se impôs enquanto principal alternativa ao carnaval pernambucano. Em todas as noites, a satisfação em assistir aos shows estava estampada no rosto dos milhares de moradores e turistas reunidos na Esplanada Guadalajara. A maior parte dos visitantes partiu do Recife e Caruaru, mas o evento também atraiu grupos de Salvador, Maceió, Natal e Fortaleza.

Para o casal cearense Mário e Givaneide, o evento foi melhor e mais organizado que o Festival de Guaramiranga, no Ceará. "Lá é difícil conseguir ingresso e aqui os shows são de graça. Esse festival merece mais divulgação", acredita Mário. "É um festival fantástico, uma ousadia por fazer no período do carnaval, que dá pouco espaço para esse tipo de música", disse o professor Paulo Chaves, do Recife.

Para a população local, o festival cumpriu a função de apresentar atrações incomuns até mesmo para o tradicional Festival de Inverno, como o bluseiro Magic Slim,de Chicago, e Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura. "É como dar uma bicicleta para um menino de dois anos de idade. Ele pode não saber o que fazer com ela naquele momento, mas um dia vai usar", disse o blogueiro Ronaldo César, que promoveu o paralelo Carnajazz com participação e canjas de convidados do festival, madrugada adentro. Outro destino certo do GJF foi a Bodega do Massilon, que também fez programação musical e etílica. Presença constante, o novaiorquino Karl Dixon foi adotado pelo festival (participou de vários shows) e virou celebridade instantânea em Garanhuns, com direito a flashes, autógrafos e frisson coletivo, causado por sua figura, dança e voz incomuns.


MAGIC SLIM FOI A ATRAÇÃO MAIS ESPERADA

Das três noites, a última foi de longe a maior, melhor e mais animada. Foram seis horas de música e atividades prolongadas pela alegre e divertida Big Time Orchestra, grupo parananense de onze bons músicos, figurino psicodélico, repertório dançante e uma coreografia exagerada para reverenciar os "loucos anos 50". A festa dos músicos se estendeu inclusive para o meio do povo, onde tocaram When the saints go marchin' in, o hino da dixieland. O ponto alto foi quando o guitarrista Ronnie Panzone assumiu a liderança e com uma música só repassou a história do rock em túnel do tempo, que partiu de Michael Jackson (Beat it) para AC/DC (Back in black), retorna a Chuck Berry (Johnny B. Goode), avança para Kiss (Rock'n'roll all nite) e termina com Ramones (I wanna be sedated). O público foi ao delírio e teve até quem arriscasse um salto do tipo mosh.


AULA DE ROCK CONTAGIOU PLATÉIA

Das atrações que fizeram jus e deram sentido ao nome "blues e jazz" ostentado pelo festival, as mais potentes foram Azymuth, Magic Slim e o quearteto de Esteban Sumar. O jazz 100% norte-americano esteve representado por este último, liderado por um guitarrista chileno partidário do jazz contemporâneo de Nova York, onde estudou no Berkeley College. Disposto a aprender, Sumar esteve atento e filmou todos os shows do festival, para onde deve retornar ano que vem, a convite da produção e também do músico pernambucano Wallace Seixas. No palco, o quarteto fez música de nuances e improvisos pontuado por uma simpática brincadeira: um samba dançado no sapatinho pelo saxofonista Paulo Monteiro, que serviu de mestre de cerimônias do grupo por ser o único que já havia tocado no Brasil, onde tocou no Recife Jazz Festival.

Já o blues esteve muito bem representado por Magic Slim, que foi direto ao assunto com um show simples e poderoso, um blues tradicional que se tocado por outros soaria estereotipado. Não é o caso de Slim; sua história de vida o autoriza a viajar pelo mundo como um embaixador do blues. Somente no ano passado, fez 186 apresentações. De Garanhuns, ele segue para shows na França e Alemanha.


ANDREAS KISSER (COM GUITARRA DE BOLAS BRANCAS ESTILO BUDDY GUY) E TICO TOCAM RAUL

O momento "pop" se deu com a homenagem que Tico Santa Cruz e Andreas Kisser fizeram a Cazuza e Raul Seixas. A presença do guitarrista atraiu vários fãs com camisas do Sepultura, Iron Maiden e Black Sabath, os quais provocou com frases do repertório metaleiro. No camarim, uma fila se formou para conhecer o ídolo, que atendeu a todos com a infinita paciência de Jó. Pena que sua participação no festival foi curta demais para satisfazer a sede da platéia.

Bastidores - Em seu terceiro ano, o Festival de Jazz & Blues de Garanhuns enfrentou um ponto de inflexão decisivo para sua continuidade. Com a saída do principal patrocinador, a Secretaria de Turismo de Pernambuco, o evento poderia recrudescer ou até mesmo se extinguir. No entanto, a Prefeitura de Garanhuns e o produtor Giovanni Papaleo conseguiram fazer um festival ainda maior. "Funciono melhor sob pressão", disse Papaleo.

Com a clara intenção de desvincular a imagem do GJF do escândalo que afastou o secretário estadual de Turismo, Papaleo chegou a interromper o show da Uptown Band, Tico Santa Cruz e Andreas Kisser, para dizer que o evento nunca foi pivô de desvio de verba e este ano foi realizado sem recursos do estado. "Pra mim foi questão de honra".

As declarações de Papaleo, amplificadas pela voz de Tico Santa Cruz, incomodaram o deputado estadual Isaías Régis, que abordou de forma agressiva à secretária municipal de Turismo, Gabriela Valença. Segundo ele, o governo teria R$ 90 mil para o evento, mas a prefeitura não apresentou os documentos necessários.

Em nota oficial, a prefeitura reconhece falha na organização pela não citação da presença do deputado, bem como de outras autoridades presentes e que nem sequer foi cogitada a destinação de recursos financeiros por parte do governo estadual. De acordo com a produção, o evento foi realizado com cerca de R$ 100 mil, 60% dos cofres municipais e o restante de empresas como a Chesf, Caixa, Ambev e R$ 25 mil do bolso do próprio Papaleo. O evento também conta com a aprovação da Lei Rouanet. "Espero que em 2011 o governo dê ao festival o mesmo tratamento que dá para Garanhuns durante o resto do ano", disse o produtor.

(Diario de Pernambuco, 18/02/2010)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Carnaval no Iraq


Abertura do carnaval do IRAQ
Rua do Sossego, 179 - Boa Vista
Quarta-feira de cinzas a partir das 16 horas

DJs: Magolombra, Nigian, Evandro Q? e outros DJ's mortos.
Show à meia-noite: PAULINHO TRUMMER Original Caveira Style de Olinda
Entrada: grátis.

Garanhuns Jazz & Blues Festival - Noite 2


CELSO BLUES BOY TERMINOU O SHOW COM KARL DIXON

A noite de domingo no Garanhuns Jazz Festival até que começou bem comportada, mas terminou com muita gente em pé, vibrando com solos de guitarra de Celso Blues Boy e dançando a soul music performática de Karl Dixon. Sim, o norte-americano estava em todas e se tornou celebridade instantânea em Garanhuns. Escalado para cantar no sábado, Dixon voltou para uma "canja" e fez o povo gritar e correr com câmeras em punho.

Para homenagear o jornalista Ronildo Maia Leite (1930-2009), representado por seus familiares, a produção do GJF chamou ao palco o presidente dos Diários Associados, Joezil Barros e o prefeito de Garanhuns, Luiz Carlos Oliveira.

O programa começou às 21h com a banda de Garanhuns Soul Blues, cujos melhores momentos lembram o blues melódico de Gary Moore. Bem que poderiam fazer um final menos estridente.


IVAN CONTI, DO AZYMUTH, UM DOS MELHORES SHOWS DO FESTIVAL

Já a Azymuth fez um show de classe e competentência que só pode ser tocado por músicos experientes como eles. De What's going on a Águas de março, um repertório que agradou entusiastas que assistiram nas mesas, com garrafas de uísque e vinho, e ao fim aplaudiram de pé. "É muito bom ver músicos da minha geração tocando tão bem. Hoje, o Azymuth é muito melhor do que quando eram jovens. Após tantos anos de convivência, são o que existe de muito bom", disse o arquiteto Vander Cristianer, um dos que mais se emocionaram.

Apesar de amargar certa microfonia, o guitarrista Celso Blues Boy levantou os rockers de Garanhuns. Nem a serpentina arremessada no palco, lembrando que em algum universo paralelo há carnaval, ameaçou o espírito rock'n'roll ali instalado. O grande momento foi a execução de seu maior sucesso, Aumenta que isso aí é Rock n' Roll, com direito a introdução do Hino Nacional (se Hendrix pode, ele também).

No fim, o espírito de jam levou ao palco não só Dixon, como outros convidados do GJF. Mais tarde, o circuito Bodega do Massilon - Bar Escritório rendeu novas formações e improvisos com os chilenos do Esteban Sumar, Dixon, Tico Santa Cruz, Blues Boy e a banda caruaruense The Bluz, que seguiu madrugada adentro.

Garanhuns Jazz & Blues Festival - Noite 1


GREG WILSON MANDOU BEM COM O GRUPO DE CARUARU THE BLUZ

Bem longe do carnaval, um belo palco área coberta na Esplanada Guadalajara atraiu muita gente na primeira noite do Garanhuns Jazz & Blues Festival. De acordo com a produção, cerca de cinco mil pessoas compareceram, o maior público já reunido nos três anos de evento.

O ponto alto foi o show de Karl Dixon, que chegou direto de Nova York para cantar e dançar standards da música negra norte-americana. Ao lado de Leo Gandelman, Jaziel Leite e uma banda não tão azeitada pela falta de tempo para ensaiar, Dixon levantou a platéia e fez muita gente dançar com músicas de fácil reconhecimento, como Georgia on my mind, What a wonderful world e I feel good. Ele é um showman pronto para satisfazer o publico com um gogó potente, caras, trejeitos e uma dança peculiar trazida do contexto gospel (ele é do grupo Harlem Jubilee Singers).


KARL DIXON CANTOU E MOSTROU SUA DANÇA DIFERENTE


REISADO DE GONZAGA ABRIU A PROGRAMAÇÃO DO SÁBADO

A noite começou por volta das 22h, com a apresentação do grupo local Reisado de Gonzaga. Quando o espetáculo acabou, alguns dos integrantes continuaram nafrente do palco, onde dançaram ao som do blues-rock de Greg Wilson (SP) e The Bluz (Caruaru). O guitarrista do Blues Etílicos, aliás, fez um grande show de composições próprias e versões como One after 909, dos Beatles.

Show à parte foi o público do GJF, heterogêneo e de boa convivência, formado por famílias com baldes de vinho nas mesas e todo o tipo de boêmios ao redor, nos bares e stands do evento. A turma do gargarejo foi a mais animada e sedenta por algo diferente na cidade. Senhores bêbados, garotinhas dark, rockers, metaleiros e punks embalados a vinho de um real vibraram com solos de guitarra como os do Blues Mascavo, que encerrou as atividades da noite e deu a deixa para quem quis continuar a balada na Budega do Massilon (Os Valvulados) e Bar Escritório (Celso Blues Boy e outros convidados do festival), em programação paralela que seguiu até o dia clarear.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cinema // O abre e fecha das salas

Vários cinemas do Recife deixam de funcionar no carnaval. O Multiplex do Shopping Boa Vista fecha no sábado e domingo para reabrir na segunda e terça, com ingressos a R$ 5 (único). Já o Cine Rosa e Silva não funcionará no domingo e segunda. O Cinema da Fundação fecha hoje e só reabre na próxima sexta, com A fita branca, de Michael Haneke. O Cine São Luiz também abre na mesma data, com O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira. Os cinemas municipais (Apolo e Parque) só voltam a funcionar na segunda, 22 de fevereiro. Os complexos UCI Ribeiro Recife, Tacaruna e Casa Forte e o Box Guararapes funcionam normalmente em todos os dias do carnaval.

Lobisomem proibido para menores



Não há como negar a expectativa em torno de um remake do clássico O Lobisomem (1941) estrelado por Benício Del Toro e Anthony Hopkins, sob a batuta do diretor Joe Johnston (Rocketeer, Jumanji).

Outros seres das trevas encontraram suporte na literatura, como o Drácula de Bram Stoker e Frankenstein de Mary Shelley, mas aqui temos o próprio cinema como referência. No filme original, Lawrence Talbot (Lon Chaney, no papel que marcou sua vida), volta para a pequena vila inglesa em que nasceu para investigar o assassinato de seu irmão, quando um lobisomem (Bela Lugosi) o morde e passa a maldição para ele.

A releitura de 2010 preserva o embate entre natureza animal e sociedade repressora, mas amplifica a violência a tal ponto que o longa está proibido para menores de 18 anos. O drama de Talbot (Del Toro, desperdiçado) continua lá, no meio de uma carnificina explícita (cabeças decepadas, tripas espalhadas) e trilha sonora de um Danny Elfman no piloto automático.

Se o filme começa bem, provocando suspense em torno do monstro que se movimenta mais rápido do que os golpes, descamba para situações esquisitas a ponto de terminar como se fosse comercial de Prestobarba. A Londres vitoriana em que Talbot é trancado no hospício por licantropia (o distúrbio psiquiátrico) usa paleta de cores próxima à de Sherlock Holmes. O papel do pai, Sir John Talbot (Hopkins, evocando os bons tempos de "Canibal" Lecter), é ampliado a ponto de ser elemento determinante numa trama cujos desdobramentos sheakspeareanos interessam mais como argumento que como realização.

Geraldine Chaplin, no papel da cigana que tenta ajudar, e Hugo Weaving (Agent Smith, de Matrix), como o agente da Scotland Yard encarregado de resolver os crimes, rendem momentos que salvam o filme da chatice completa. Fora a involuntária homenagem ao videoclipe de Michael Jackson e à inusitada volta de Hopkins aos banquetes de carne humana.

(Diario de Pernambuco, 12/02/2010)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Garanhuns se entrega ao balanço do jazz

O Garanhuns Jazz & Blues Festival começa sábado e traz para o Agreste pernambucano dez shows com 16 atrações do Brasil, EUA, Chile e Argentina. Da primeira à última apresentação, na segunda-feira, o festival está mais para um retiro musical do que "carnaval do jazz". Isso porque, diferente do caos que se instala nos polos, a organização do GFJ é tanta a ponto do público da Praça Guadalajara contar com mesas e serviço gastronômico em área coberta, algo impensável em qualquer foco de folia. Sem falar que a temperatura moderada remete mais a uma taça de vinho do que a um latão de cerveja molhado de gelo do isopor.

Se há algum traço do festival capaz de lembrar confete e serpentina sua "prévia" (essa verdadeira instituição do período), marcada para hoje, às 20h, no Restaurante Mingus. Na programação, a banda-anfitriã Uptown recebe o guitarrista Greg Wilson (Blues Etílicos), o baterista Alexandre Cunha (Brazilian Duet), artistas escalados para o festival, mais músicos pernambucanos como o trompetista Fábio Costa ea cantora Cida Maria. O Mingus fica na Rua do Atlântico, 102 - Boa Viagem. Ingressos a R$ 15. Informações: 3327-6767.

Durante o festival, além do palco principal (Ronildo Maia Leite), haverá polos alternativos com programação depois da meia-noite, um na Bodega do Massilon e outro no Bar Escritório. As inscrições para workshops de teclado com Sérgio Terranova (dia 14), cidadania, poesia e cultura com Tico Santa Cruz (dia 15) e bateria com Alexandre Cunha (dia 16) continuam abertas, e podem ser feitas gratuitamente no Centro Cultural Alfredo Leite Cavalcante ou pelos telefones da Secretaria de Turismo de Garanhuns: (87) 3762-7063 e 3761-1014. Os mesmos números valem para receber orientações de hospedagem - os hotéis estão lotados, mas ainda há vagas em pousadas e casas.

Programação
Palco Ronildo Maia Leite - Praça Guadalajara

13/02
21h - Reisado de Gonzaga (Garanhuns)
22h - Greg Wilson (RJ) e The Bluz (PE)
23h - Karl Dixon (EUA), Leo Gandelman (RJ) e Jasiel Leite (PE)
0h - Blues Mascavo (AL)

14/02
21h - Soul Blues (PE)
22h - Azymuth (RJ)
23h - Celso Blues Boy (RJ)

15/02
20h30 - Esteban Sumar (Chile)
21h30 - Andreas Kisser (SP), Tico Santa Cruz (RJ) e Uptown Band (PE)
22h30 - Magic Slim (EUA) e Blues Special Band (ARG)
23h30 - Big Time Orchestra (PR)

Como chegar em Garanhuns
Distância: 230 km do Recife e 94 km de Caruaru.
Vias de acesso: BR-232 e BR-423.

A única empresa de transporte de passageiros que faz o itinerário é a Jotude, que oferece passagens com valor entre R$ 32 e R$ 36, em 23 horários, entre 6h e 23h30. Informações e reservas: 3452-1211.

(Diario de Pernambuco, 11/02/2010)

Garanhuns Jazz & Blues Festival recebe Azymuth



Das atrações escaladas para o Garanhuns Jazz & Blues Festival, o trio de brazilian jazz Azymuth é certamente a de maior alcance mundial. Em 40 anos de carreira, o grupo de José Roberto Bertrami (teclados), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti (bateria) fez público nos EUA, Japão e países da Europa. Nesse sentido, o Azymuth é mais internacional do que todos os gringos da programação. O show da Azymuth será no domingo, segunda noite do evento.

Baterista experiente (tocou e gravou com Bethânia, Vinicius, Tom Jobim, Elis Regina Raul Seixas e estrelas do jazz como Ron Carter, Dizzy Gillespie e Wayne Shorter), Conti esteve várias vezes em Pernambuco acompanhando artistas como Gal Costa, Leila Pinheiro e Stanley Jordan. Com sua banda, no entanto, faz a terceira visita - a primeira foi durante o Festival de Inverno, a convite de Toinho Alves, e a segunda num festival do litoral sul. "Será um prazer tocar em Garanhuns novamente", diz Conti, que no meio musical atende pelo apelido de Mamão.

O repertório do show passa a limpo a obra do Azymuth e seu estilo que parte dos ritmos norte-americanos como jazz e funk para fazer música brasileira. São 38 álbuns de estúdio, o último se chama Butterfly e o novo, ainda sem nome, será lançado em abril. Visões do carnaval depuradas pelo jazz estão incluidas. "Tá tudo dentro do contexto. Vamos fazer brincadeiras com samba. Temos uma música, Jazz carnival, em que toco pandeiro. Outra se chama O que que você vai fazer nesse carnaval?", antecipa Mamão.

De escola jazzística, Mamão diz que música brasileira e norte-americana é uma combinação imbatível. "Acredito que jazz, rock e samba são os elementos mais fortes, pois têm versatilidade rítmica e harmônica acoplados e trazem um entrosamento muito grande. Essa troca de ritmos é muito importante, principalmente para o jazz brasileiro, que é riquíssimo em todos os sentidos. Essa fusão é importante e os EUA e Europa respeitam muito".

O encontro de Bertrami, Malheiros e Mamão se deu em 1970, quando se juntaram sob o nome "Seleção" para fazer o show de abertura da casa de shows Canecão, no Rio de Janeiro. O trio foi batizado Azymuth em 1973, quando participou da trilha sonora do documentário O fabuloso Fittipaldi, de Roberto Farias. Na linguagem de estúdio, azimute é o ângulo formado pela fita magnética em relação à cabeça de gravação ou de reprodução sonora.

"Era o nome de uma das músicas compostas por Marcos Valle, que nos convidou para tocar. Nós tocamos essa música tantas vezes que ficamos marcados pelo nome e pedimos para Marcos ceder o nome e ser nosso padrinho". Nessa mesma época, Mamão participou das gravações do primeiro álbum solo de Raul Seixas, Krig-Há Bandolo. "Fui o primeiro baterista a gravar com o Raul. No fim dos anos 60 eu tocava no grupo de rock Youngsters, o Raul gostou da onda e nos chamou".

O prestígio da Azymuth em terras estrangeiras começou a crescer em 1977, quando se tornou o primeiro grupo brasileiro a tocar no Festival de Montreux. No ano seguinte, Flora Purin e Airto Moreira fizeram uma turnê nos Estados Unidos e gravaram uma faixa para o álbum de Ella Fitzgerald. Anos mais tarde foram morar nos EUA, onde lançaram vários discos que não saíram no Brasil, pela Milestone Records. Mamão diz que o Azymuth só não é mais famoso no Brasil por falta de divulgação nas rádios. "Quando a gente toca na rua as pessoas ficam inebriadas. Lá fora é mais aberto, tem estações que tocam nossa música. Precisamos dar mais oportunidade para o público descobrir esse material".

(Diario de Pernambuco, 11/02/2010)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Olhar intrigante sobre o maracatu rural



O interesse por pessoas tem pautado o trabalho da fotógrafa Bárbara Wagner. Na mostra Estrela Brilhante, intrigante série de retratos de brincantes do maracatu rural, ela reafirma e amplia seu olhar sobre a figura humana.

Caboclos de três agremiações foram retratados sem a indumentária típica, antes e durante ensaios noturnos para o carnaval. Patrocinada pelo Grupo Santander Brasil, a exposição foi montada na Galeria Marcantonio Vilaça do Instituto Cultural Banco Real e encerra o projeto Contemporâneos Pernambucanos, que desde 2006 promoveu exposições individuais de Rodrigo Braga, Lourival Cuquinha, Amanda Melo, Bruno Vieira, Jeims Duarte, Tereza Neuma, Cristiano Lenhardt, Jonathas de Andrade e Kilian Glasner.

Para a curadoria de Estrela Brilhante, os coordenadores do projeto Cristiana Tejo e Moacir dos Anjos convocaram o professor e crítico de arte carioca Marcelo Campos. "Foi uma surpresa pra mim uma jovem artista retomar com originalidade a tradição de fazer retratos do povo. Ela retira a fantasia dos caboclos assim como no período em que eram feitos retratos de nobres sem a indumentária. Se na história da arte o retrato é algo clássico, quando somado a novas situações se torna arte contemporânea ", diz Campos. Na noite de domingo, ele visitou os ensaios in loco, nas ruas estreitas de Nazaré da Mata, o que permitiu fazer comparações com a série de fotografias. "É tudo muito escuro, o que esconde as cores das roupas, chapéus e outros objetos visíveis na luz do flash, uma das características do trabalho de Bárbara".

A exposição traz 22 retratos dispostos nas quatro paredes da galeria, com leitura em sentido horário. A primeira mostra um grupo de pessoas que aguarda o ensaio na frente de uma bodega; logo após brincantes conhecidos e anônimos são apresentados individualmente; em outra parede, há duas fotos de grande dimensão com pessoas que assistem à brincadeira; por fim, quatro imagens capturam caboclos durante o ensaio, em posição de espera, enquanto o mestre canta a toada.









Os retratos de Bárbara também causam estranhamento não só por contrariar a imagem consolidada em torno do maracatu, mas pelo aspecto "sujo" dos ensaios regados a azougue e à presença de objetos urbanos como papéis de sorvete, bitucas de cigarro e garrafas de bebida espalhados no chão. A falta de informações que possam situar o observador se confronta com a formação da fotógrafa, jornalista graduada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Gosto de trabalhar nos limites de linguagem. O que há de fotojornalismo é que eu respeito o fato e não monto ou dirijo a cena. As pessoas estão à vontade para se apresentar do jeito que quiserem para a câmera. Só que como observadora, quero liberdade para poder criar a própria interpretação", diz Bárbara.

Campos chama atenção para o fato desse "silêncio" de informações objetivas ser algo essencial no trabalho de Bárbara. "Subversivamente, ela tira as legendas das imagens. Não é um trabalho etnográfico, jornalístico ou de história da cultura popular. Ele se balança nessa incompletude para o espaço da arte".



Serviço
Estrela Brilhante, de Bárbara Wagner
Onde: Instituto Cultural Banco Real (Av. Rio Branco, 23, 3º andar, Bairro do Recife)
Quando: Hoje, às 19h30. Visitação de amanhã a 4 de abril
Informações: 3224-1110

(Diario de Pernambuco, 09/02/2010)

Cinema italiano no Recife



Ao que tudo indica, um grande artista do cinema italiano será o convidado de honra do Cine PE 2010. Enquanto o nome não se confirma, outras definições vão dando corpo ao festival. Guel Arraes, Tony Ramos e Júlia Lemmertz serão homenageados com o Calunga de Ouro.

Ao contrário do que foi previsto no ano passado, a reforma do Centro de Convenções não começou e o festival continuará sediado no espaço que gabarita o evento a ostentar o título de maior público do Brasil. A cerimônia de encerramento, no entanto, será transferida para o Cine São Luiz, que ainda pode abrigar outras atividades do festival, marcado para o período entre 26 de abril e 2 de maio.

O retorno ao São Luiz é algo simbólico para o Cine PE, que nasceu naquele local, 14 anos atrás. "Vai ser um charme diferente, pois foi onde tudo começou. Além disso, o governo do estado é nosso parceiro, queremos valorizar o trabalho que ele fez no São Luiz", diz Alfredo Bertini, diretor do festival.

"Notamos que cerimônia de premiação não costuma atrair grande público e jáestávamos procurando alternativas para isso". Mesmo com o espaço reduzido de 2.500 para 900 poltronas, o encerramento no São Luiz não será apenas para convidados, mas para o público que retirar convites limitados ao longo do evento. Para a ocasião (um domingo à noite), Bertini pretende definir com a Prefeitura do Recife um plano para isolamento da área para estacionar carros e estender o tapete vermelho.

Ano passado, a presença do cineasta greco-francês Constantin Costa-Gavras e seu novo filme A oeste do Éden atraiu olhares de todo o Brasil. Agora o foco está na Itália, que está em alta no panorama mundial de filmes, além de ser país de origem da família Bertini. "2011 será o ano da Itália no Brasil e embaixadas, consulados e a Câmara do Comércio Brasil-Itália estão interessados em antecipar uma parceria com o Nordeste", diz o produtor.

É certa para esta edição do evento uma mostra especial com filmes do novo cinema italiano. Não se sabe se o convidado de honra que abrirá o evento será um ator, atriz ou diretor. Difícil é não especular. Bertolucci ou Morelli, Scola ou Tornatore, Sophia Loren ou La Cardinale? "Roberto Benigni era sério candidato, mas é comunista de carterinha e não participa de eventos com marcas privadas", diz Bertini.

Tudo estará definido no início de abril, quando uma coletiva de imprensa anunciará os filmes das mostras competitivas, selecionados entre mais de 60 longas e 400 curta-metragens inscritos até segunda-feira passada. De olho no ibope gerado pela Copa do Mundo, Bertini (que é membro da diretoria do Sport Clube) também prepara mostra especial sobre futebol.

A Fundação Joaquim Nabuco continua a abrigar os workshops, que este ano são três: roteiro cinematográfico com Di Moretti, produção com Chris Rodrigues e elaboração projetos culturais, com o advogado Fabio de Sá Cesnik. As inscrições estão abertas, com vagas limitadas. As oficinas serão nas manhãs de 26 a 30 de abril e custam R$ 120.

(Diario de Pernambuco, 09/02/2010)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Devir lança "Bad Boy", de Frank Miller e Simon Bisley


O livro tem 48 páginas em papel couché colorido. Preço sugerido: R$ 23

A Devir acaba de lançar Bad Boy, novo trabalho de Frank Miller com desenhos de Simon Bisley.

A história foi publicada originalmente em capítulos, numa revista britânica.

Afeito a distopias, Miller coloca um garoto fujão (Jason) como peça essencial para os planos de um conglomerado médico totalitário que controla corpos e mentes humanas.

Eles precisam de algo importante que está na mente de Jason e tentam prendê-lo numa falsa realidade em que os pais programados são parte da ilusão. Do seu lado, Jason tem um gato geneticamente aprimorado (Adolf) e uma garotinha (Rachel).

A trama, repleta de cyber seres, não se esforça para explicar muito. Será Jason é mesmo um garoto?

O componente sexual é forte e aqui temos mais duas mulheres fatais para o rol de criações de Miller. O garoto também adora fumar e essa é apenas uma das atitudes politicamente incorretas contidas na HQ.


Desenho de Miller (o único do livro) lembra os bons tempos de Sin City

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Novo capítulo para o livro de fábulas de Wes Anderson



Com uma filmografia relativamente curta, Wes Anderson consolidou marca própria em filmes protagonizados por seres esquisitos e sonhadores, capazes agregar pessoas ao redor a viver situações absurdas. Em O fantástico Senhor Raposo (Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009), ele reafirma essa disposição e radicaliza na linguagem dos desenhos animados. Com uma gama de situações típicas, como choques que acendem o esqueleto e olhos estrelados após uma pancada, seu primeiro filme com bonecos é viagem das boas. E também um novo capítulo no livro de fábulas que o diretor de A vida marinha com Steve Zissou e Viagem a Darjeeling vem compondo com obras estranhas e fascinantes.

Nosso protagonista é o Sr. Raposo (voz de George Clooney), chefe de família que ganha a vida como colunista de jornal, mas não quer deixar de ser raposa e invade o galinheiro dos vizinho. Esposa (Maryl Streep) e amigos - um texugo advogado (Bill Murray) e uma toupeira (Wallace Wolodarsky) - tentam conter Raposo, mas a chegada do talentoso sobrinho Kristofferson (Eric Anderson) instiga ainda mais seu instinto animal.

A primeira sequência de golpes é bem-sucedida e abastece a despensa da família com defumados e garrafas de Sidra. A resposta imediata dos fazendeiros lesados obriga a turma a escapar por baixo, em túneis que desenham um esquema / mundo paralelo regido por raposas, toupeiras, ratos e gambás. A situação descamba para um grande saque de alimentos em sequência festiva ao som de banda caipira, que sintetiza o espírito anárquico do filme.

O casting de vozes se completa com Owen Wilson, Willem Dafoe, Jason Schwartzman e Adrien Brody. Indicado ao Oscar de melhor animação, Mr. Fox está no Recife via Sessão de Arte (hoje às 12h10 no UCI Plaza e amanhã às 19h30 no Tacaruna). Merece aplauso o fato da cópia ser legendada, coisa rara para animações. O público agradece: aqui o som original faz toda a diferença. E diferente é uma ótima palavra para definir O fantástico Senhor Raposo, um elogio àqueles que destoam felizes num mundo cada vez mais padronizado e artificial.

(Diario de Pernambuco, 07/02/2010)

Visibilidade para o rock instrumental


A Banda de Joseph Tourton


Anjo Gabriel

O rock instrumental está em alta. No Recife, bandas se organizam em palcos e estúdios. Ao longo deste ano, Wassab, Ska Maria Pastora e Anjo Gabriel lançam álbuns de estreia. O mesmo vale para Radistae e A Banda de Joseph Tourton, que abrem a programação do Rec Beat no sábado e domingo de carnaval. Elas reforçam o cenário formado por grupos de composições próprias, jovens e veteranos, como Rivotrill, Monodecks, A Roda, Tonami Dub, Chambaril, Monstro Amor, Treminhão, Variant TL e Kastarrara.

O fato de optarem pelo instrumental nada tem a ver com a suposta falta de bons vocalistas em Pernambuco. Base segura para soltar a veia criativa, bandas de pop instrumental sempre existiram. A diferença é que agora elas estão mais visíveis. A ascensão do formato tem a ver com o surgimento de produtores dispostos, um circuito de festivais antenado e a consequente formação de público para esse tipo de som.

A nova cena local acompanha uma tendência nacional, formada por Hurtmold, Elma, SãoPaulo Underground, Dead Rocks e Guizado, todos de São Paulo. Macaco Bong (MG), Pata de Elefante (RS), Retrofoguetes (BA), Burro Morto (PB) e Camarones Orquestra Guitarrística (RN) dão a entender que não se trata de um fenômeno regional. A unidade entre elas não está exatamente no estilo, distinto, mas na disposição em investir num formato que, apesar de soar estranho aos ouvidos do grande público, vem se afirmando como um dos mais criativos da música brasileira.

Leo Antunes, produtor do Radistae, vê na movimentação um bom momento para a música local. "Nunca parei para pensar se é tendência ou coincidência. O bacana é que essas bandas deixam o altar da música instrumental tradicional, erudita e de difícil compreensão, para chegar na diversidade de gêneros musicais mais comuns ao nosso cotidiano".

Nos últimos anos, Antunes promoveu shows com bandas instrumentais e espera promover o encontro da Radistae com a Variant TL. Ele diz que é mais difícil manter o público atento num show de 40 minutos, mas enumera vantagens de uma banda sem vocalista. "Sem a poesia do texto, elas são mais livres para fazer o que quiserem. Outra coisa é que a atenção é dedicada igualmente a todos os músicos. Vocalistas tendem a concentrar a atenção do público só neles".


Wassab

Há poucos meses o percussionista Gilú, da Orquestra Contemporânea de Olinda, fundou o Wassab, de olho no mercado de trilhas sonoras e produtos afins. Entusiasta do som instrumental, ele ainda quer criar um festival exclusivo para agregar bandas dessa vertente. "A gente fica mais solto para explorar o máximo possível. Com um vocalista temos que seguir uma linha melódica específica".

Jarmeson de Lima, do Coquetel Molotov, diz que a tendência é bem-vinda, apesar de poucos artistas investirem no formato como atividade principal. "A maioria são projetos paralelos, para mostrar algo diferente do que já estão fazendo". E ressalta a importância dos festivais para o atual cenário. "Uma coisa alimenta a outra. Quando começamos, não era tão fácil encontrar bandas de rock instrumental.Com mais espaço eles tiveram como se organizar. Hoje, a repercussão é maior".

As supernovas

Anjo Gabriel - Rock experimental, com músicas de longas tocadas com intrumentos obscuros, nos moldes dos grupos psicodélicos e do rock progressivo dos anos 60 e 70. Puristas, utilizaram equipamento analógico na gravação e mixagem do primeiro álbum, que será lançado no suporte CD e disco de vinil duplo, prensado numa fábrica da República Tcheca. "O computador nunca chegaria no timbre característico para o som que a gente quer", diz Marco da Lata (baixo e voz). Completam o grupo André Sette (teclados, harmonium e theremin), Cristiano Nascimento (violão, guitarra e voz) e Junior do Jarro (bateria e percurssão).

A Banda de Joseph Tourton - Grupo jovem e sintonizado com a vertente do rock contemporâneo, que experimenta e vai direto ao assunto. Formado por Diogo Guedes (guitarra e efeitos), Gabriel Izidoro (guitarra, escaleta e flauta transversal), Rafael Gadelha (baixo) e Pedro Bandeira (bateria), o grupo tem uma sonoridade que lembra Mogwai, Tortoise e Explosions in the Sky.

Radistae - O grupo de surf music é inspirado em The Pops, The Ventures, Dick Dale e Big Lazy, mas também flerta com ritmos caribenhos. O nome da banda, formada por Gabriel Melo (guitarra), Yuri Queiroga (guitarra), Chico Tchê (baixo) e Pernalonga (bateria), evoca o point preferido dos surfistas em Olinda, antes da construção dos diques na orla da cidade.

Wassab - Inspirada no "avant-groove" de Medeski Martin & Wood e na fase instrumental dos Beastie Boys, o power trio surgiu ano passado, em Olinda. Seu primeiro CD está pronto e deve chegar depois do carnaval. A banda surgiu quando Gilú (bateria) convocou Juliano Hollanda (guitarra) e os dois chamaram Hugo Lins (baixo). Os três são produtores e compositores e o que era um projeto pessoal se tornou coletivo.

(Diario de Pernambuco, 07/02/2010)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Na expectativa para assistir "A fita branca", de Michael Haneke



Estreia na sexta seguinte ao Carnaval, no Cinema da Fundação.

Do Fundo do Baú 2 >> Los Três Amigos



Para ler, clique na imagem.

Do Fundo do Baú 1 >> Life in Hell



Revirando papéis antigos, encontrei página da Folha de São Paulo com HQ antiga e muito bacana de Matt Groening.

Antes de criar os Simpsons, ele era conhecido por Life in Hell, que começou em 1977 no formato revista em quadrinhos independente.

A história acima é de 1986, um ano antes da criação dos Simpsons.

A ideia inicial era transpor Life in Hell para desenho animado, mas para não rescindir dos direitos de publicação do material produzido até então, ele criou outro universo de personagens para o desenho.

Para ler a HQ em tamanho maior, clique no desenho.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estreias e roteiro da semana nos cinemas do Recife

Amor extremo, Diário de Sintra, Guerra ao terror, Nova York, eu te amo,High School Musical o desafio, e Premonição 4 são as estreias da semana.

O fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson, está na Sessão de Arte (hoje e amanhã no Boa Vista; domingo no Plaza). É o único candidato ao Oscar de melhor animação em cartaz.

Outro indicado ao Oscar ,Preciosa - Uma história de esperança, continua em regime de pré-estreia.

O homem que engarrafava nuvens , de Lírio Ferreira, também no Cine São Luiz. Mas atenção para os horários, pois o longa divide a programação com Lula - o filho do Brasil, às 16h15. A programação vale até a próxima terça-feira, pois o São Luiz fechará no período do carnaval e só voltará no dia 19 (sexta-feira).

De hoje a domingo, o Cinema Apolo (Recife Antigo) exibe Abraços partidos, de Pedro Almodóvar. De segunda a quarta, o filme vai para o Cinema do Parque (Boa Vista) e o Apolo entra com Julie & Julia.

Programação completa aqui.

O fantástico Senhor Raposo no circuito Sessão de Arte



Indicado ao Oscar de melhor animação, O fantástico Senhor Raposo é uma fábula moderna sobre a importância de preservar os instintos num mundo cada vez mais domesticado. Conta a história de uma raposa que rouba galinhas e outras comidas, o que desperta a ira dos vizinhos humanos dispostos a tudo para capturá-la.

Baseado no livro de Roald Dahl - o mesmo autor da Fantástica fábrica de chocolate, o filme retoma a atmosfera estranha e fascinante dos filmes de Wes Anderson (Viagem a Darjeeling, A vida marinha com Stevie Zissou), que pela primeira vez dirige uma animação stop motion, com bonecos no lugar de atores. A cópia em cartaz na Sessão de Arte da Severiano Ribeiro é legendada, o que preserva as vozes originais de George Clooney, Bill Murray, Meryl Streep, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Willem Dafoe e do próprio Anderson. A trilha sonora é um atrativo a mais para uma experiência cativante.

(Diario de Pernambuco, 05/02/2010)

Um cine-poema para Glauber Rocha



Para evitar o esquecimento, inventa-se a memória. Diario de Sintra (Brasil, 2009), de Paula Gaitán, transmuta o passado em arte presente. Que o público não espere um documentário. O registro visual e sonoro da última viagem com o marido Glauber Rocha é trampolim para outra jornada, igualmente pessoal, mas distinta. O longa, que entra em cartaz hoje no Cinema da Fundação, evoca mais do que homenageia, versa mais do que explica os derradeiros momentos do cineasta.

Vinte e seis anos separam 1981 de 2007, quando Paula refez o percurso que levou Glauber e família ao autoexílio na pequena cidade lusa de Sintra, onde o cineasta esperava se recuperar da saúde. Tempo suficiente para que lembranças se percam no labirinto da memória. Numa árvore de galhos secos, pendura fotos da época. Entre idas e vindas, ela promove um funeral simbólico em Monsanto, referência imediata ao Monte Santo de Deus e Diabo na terra do sol. A banda sonora tem papel tão importante quando a imagem, fotografada por Paula e Pedro Urano. A montagem provoca sensação afinada com o bucolismo dos caminhos lusos.

"Parto do esquecimento para falar de memória", disse Paula, na pré-estreia de seu filme, terça última. O material recriado dá a entender que, após 26 anos, a autora fez as pazes com o passado fazendo um cinema de libertação, que costura tempo próprio, extraído dos grãos de película, de fotogramas envelhecidos e frames do suporte digital. "Não quero tratar de fatos históricos. Faço percurso de reconhecimento, não linear, fragmentado. É minha tentativa de ver nessas imagens algo mais, de descobrir seu segredo".

Após a sessão, críticos e diretores de cinema dividiram seu entusiasmo. "Eu adoro esse filme. É cinema de risco, ninguém sai incólume. Uma pérola de sensibilidade. As pessoas classificam o cinema brasileiro de um jeito ou de outro e Paula numa contramão absurda, de novas apreensões, como poucos conseguem fazer no Brasil", disse Lírio Ferreira. "É um poema escrito em linguagem audiovisual. O filme é dela,mas ali está o espírito de Glauber. Ele recorre ao espírito épico para abordar uma pessoa que viveu uma espécie de epopeia, mas como um anti-herói ", disse Celso Marconi.

"Ela construiu filme pessoal, plástico, bonito e emocionante. Não é um filme sobre Glauber, mas sobre uma mulher que vai em busca de uma memória perdida. É uma ode à saudade do homem com quem ela viveu", disse Marcelo Gomes, que encontra no filme de Paula paralelos com seu último longa (com Karim Ainouz) Viajo porque preciso, volto porque te amo. "Os dois tratam de viagem e deslocamento, com personagens tentando ressignificar o sentimento que tem por outra pessoa e uma observação do mundo muito particular".

Em tempo: o Cineclube Dissenso aproveita a ocasião e exibe amanhã, às 14h, dois outros filmes de Gaitán: o curta Kogi e o longa Vida. Entrada franca.

(Diario de Pernambuco, 05/02/2010)
* com acréscimos

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Recife em dívida com o Oscar


Guerra ao terror entra hoje, mas e os irmãos Coen?

Avatar, Preciosa, Nine, Sherlock Holmes e Amor sem escalas continuam disponíveis nos cinemas da cidade. Invictus (melhor ator principal - Morgan Freeman e coadjuvante - Matt Damon) também. Ano passado, Distrito 9, Up - altas aventuras, Bastardos inglórios, Star trek e Julie & Julia tiveram temporada garantida. E os demais filmes indicados ao Oscar, quando poderão ser vistos nos nossos cinemas?

Como num passe de mágica, a revelação dos oscarizáveis colocou na pauta do circuito comercial brasileiro filmes até então ignorados. Com nove indicações, Guerra ao terror estreia amanhã e é o exemplo mais gritante: após lançar versão em DVD, a Imagem Filmes, que distribui o longa de Kathryn Bigelow no Brasil, entra nos cinemas.

Os demais indicados a prêmios principais entram após o carnaval, a maioria somente no eixo Rio - São Paulo: Educação (melhor filme, atriz principal - Carey Mulligan e roteiro adaptado - Nick Hornby), de Lone Scherfig; Um homem sério (melhor filme e roteiro adaptado), dos irmãos Coen; Um sonho possível (melhor filme e atriz principal - Sandra Bullock), de John Lee Hancock; Crazy heart (melhor ator principal - Jeff Bridges, melhor atriz coadjuvante - Maggie Myllenhaal, melhor canção), de Scott Cooper, The messenger (melhor ator coadjuvante - Woody Harelson, melhor roteiro original), de Oren Moverman; Um olhar do paraíso (melhor ator coadjuvante - Stanley Tucci), de Peter Jackson; O imaginário do Dr. Parnassus (melhor direção de arte e figurino), de Terry Gilliam.

Mas a "magia" do Oscar parece não fazer diferença para o circuito local. Da lista acima, o Recife assistirá Guerra ao terror e Um olhar do paraíso, marcado para o próximo dia 19. Os demais não têm data definida. Não por má vontade dos exibidores, mas pelo baixo número de cópias disponibilizadas pelas distribuidoras, que prefere investir no mercado do Sudeste.

Entre os indicados a melhor filme estrangeiro, temos a felicidade de contar com A fita branca, de Michael Haneke, que entra dia 19 no Cinema da Fundação, mesma casa que ano passado exibiu outro concorrente, La teta asustada, de Claudia Llosa.

A única categoria em que todos os indicados foram exibidos no Recife é a de melhor animação: Coraline, A princesa e o sapo, O segredo de Kells (exibido no Festival de Cinema Infantil), Up - altas aventuras e O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, que entra amanhã na Sessão de Arte do Boa Vista e domingo vai pro Kinoplex Casa Forte.

Box 3D volta a funcionar na próxima terça

É só um fim de semana. A previsão é que até terça-feira a sala 5 do Box Guararapes volte a funcionar com projeção 3D. E com Avatar em horário cheio, para alívio de quem não conseguiu cadeira ao longo das férias. Não fosse a pane no equipamento (espelho refletor quebrado), os "smurfs" gigantes de Cameron teriam que dividir espaço com Premonição 4 (entra amanhã em 2D). A Playarte, que distribui Premonição no Brasil, vinha adiando a estreia porque não dava pra concorrer com o preferido do Oscar. Resta saber se a agenda de lançamentos será mexida após a premiação, no dia 7 de março.

Avatar 3D volta inclusive em cópia legendada às 21h, sessão inviabilizada desde sexta porque o arquivo estava corrompido. Rosa Maria Vicente, diretora de programação e marketing do Box Cinemas, diz que já fez contato com a distribuidora e ela vai mandar outro HD com a cópia legendada. "Por experiência na Europa, sabíamos que salas 3D costumam dar problema. É um equipamento muito novo e ainda estamos aprendendo a lidar com ele", diz Rosa, que garante que o longa de Cameron fica na programação do Guararapes enquanto houver interesse do público. Ainda que dividindo a grade com Toy story 1 e 2, que agora voltam em 3D.

Para o público (cerca de 200 pessoas) que comprou ingressos antecipados para este fim de semana, a orientação é que os guardem para trocar nas próximas sessões ou procure a adminstração do cinema para receber o dinheiro de volta. "A prioridade será para essas pessoas", diz Déricles Aguiar, gerente do Box Guararapes.


Agenda de lançamentos em 3D no Brasil
* nos próximos seis meses

23/02 - Toy story 1 (Disney / Pixar)
05/03 - Toy story 2 (Disney / Pixar)
26/03 - Como treinar seu dragão (Dreamworks / Paramount)
23/04 - Alice (Disney)
Abril - Xgames (Disney)
Maio - A bela e a fera (Disney)
Junho - Toy story 3 (Disney)
Julho - Shrek forever after
(Dreamworks / Paramount)
Agosto - Meu malvado favorito (Universal), The hole (Imagem) e Piranha (Imagem)

(Diario de Pernambuco, 05/02/2010)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

GJF - Ponte entre o jazz e a cultura brasileira


Big Time Orchestra, de Curitiba, encerra a programação

A produção do Garanhuns Jazz & Blues Festival (GJF) anunciou ontem a programação completa de shows e workshops. A maior novidade é a entrada da Big Time Orchestra e do Reisado de Gonzaga de Garanhuns. A Big Time é um supergrupo de swing formado por 12 músicos de Curitiba, Paraná, e deve encerrar o evento dia 15 de fevereiro, uma segunda-feira, logo após o guitarrista Magic Slim, de Chicago. De acordo com a filosofia do evento, o Reisado de Gonzaga pode ser considerado a maior big band do festival. O grupo de 44 integrantes abre as atividades, na noite de sábado, 13 de fevereiro. Com essa configuração, o GJF reafirma a intenção em unir cultura popular norte-americana (o jazz) com a nacional, assim como artistas consolidados com talentos da cidade - este ano o saxofonista Jaziel Leite, da Street Jazz de Garanhuns, se apresenta com Leo Gandelman.

Em coletiva à imprensa, o produtor Giovanni Papaleo e a secretária de Turismo e Cultura de Garanhuns, Gabriela Valença, defenderam oevento como alternativa ao carnaval. E lamentam o silêncio por parte do Governo para inclusão do festival no calendário oficial do estado, requisitado pelo deputado Isaías Régis. "Estamos solicitando apoio financeiro, logístico e de atrações", diz Gabriela. Ela informa que, a duas semanas do festival, hotéis estão com lotação de 85% e a partir de agora vai acionar pousadas e casas para dar conta da demanda, do Recife, Fortaleza, Salvador, Maceió e Natal.

Após perder o apoio da Secretaria de Turismo, a saída da produção, bancada majoritariamente pela Prefeitura de Garanhuns, foi buscar recursos na Chesf e Caixa Econômica. Os governos do Chile e do Paraná bancaram a vinda de Esteban Sumar e BTO. Para 2011, o plano é buscar a iniciativa privada. "Queremos depender menos do governo", diz Papaleo, que viabilizou com fabricantes de instrumentos três workshops gratuitos. "Contamos com a participação de empresas de música que nunca investiram no estado", diz Gabriela.

Instrumentos cedidos pela Bends, Roland, Odery,Orion, Meteoro serão distribuídos nos intervalos para autores das melhores frases sobre o festival (concurso@garanhunsjazz.com.br). Inscrições para oficinas de bateria com Alexandre Cunha (SP), teclado com Sérgio Terranova (SP) e Voluntários da Pátria com Tico Santa Cruz na Secretaria de Turismo de Garanhuns pelo (87) 3762-7063.

Programação Garanhuns Jazz & Blues Festival
Palco Ronildo Maia Leite - Entrada franca

13/02
21h - Reisado de Gonzaga (Garanhuns)
22h - Greg Wilson (RJ) e The Bluz (PE)
23h - Karl Dixon (EUA), Leo Gandelman (RJ) e Jasiel Leite (PE)

14/02
21h - Soul Blues (PE)
22h - Azymuth (RJ)
23h - Celso Blues Boy (RJ)

15/02
20h30 - Esteban Sumar (Chile)
21h30 - Andreas Kisser (SP), Tico Santa Cruz (RJ) e
22h30 - Magic Slim (EUA) e Blues Special Band (ARG)
23h30 - Big Time Orchestra (PR)

(Diario de Pernambuco, 03/02/2010)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Bárbara Wagner lança livro hoje, no Bar Central



O livro de fotografias Ensaio, de Bárbara Wagner, será lançado hoje, às 19h, no Bar Central (Rua Mamede Simões, 144 - Boa Vista). Patrocinada pelo Funcultura, a publicação traz 36 retratos de integrantes dos maracatus Estrela Brilhante, Águia Dourada e Cambinda do Cumbe, todos de Nazaré da Mata.

Eles foram fotografados sem a indumentária do maracatu rural, durante os ensaios que antecedem o carnaval. O material do livro integra uma série de fotos que no próximo dia 10 (quarta-feira) serão mostradas ao público em exposição individual na Galeria Marcantônio Vilaça do Instituto Cultural Banco Real.

Bárbara começou a pesquisar o tema em 2008, a convite do compositor Siba Veloso, para assistir os ensaios do Macacatu Estrela Brilhante. Motivada pelo interesse jornalístico de buscar uma realidade pouco revelada, Bárbara captura os brincantes à noite, durante os ensaios, entre os seus. A opção pela informalidade revela formas menos viciadas deolhar para o maracatu rural, uma das imagens mais estereotipadas da cultura pernambucana.

"Quis escapar dessa prática de fotografar os caboclos coloridos, em movimento, com céu azul ao fundo", diz a fotógrafa. Optou por mostrá-los parados, em duas situações: de pé, antes de entrar na brincadeira; e no chão, estáticos, enquanto o mestre canta a toada.

A primeira exposição veio ano passado, em coletiva promovida pelo programa Rumos Itaú Cultural. O patrocínio para rodar o livro (mil cópias a R$ 25 cada) pelo Funcultura veio logo depois. A individual no Instituto Banco Real promove o encontro entre a artista e o curador carioca Marcelo Campos.

Com projeto gráfico de Clara Gouvêia, o livro usa páginas duplas para dispor de maneira uniforme 15 fotos horizontais e 15 verticais. Cada sequência compõe um sentido de leitura próprio, com fotos invertidas com relação à outra parte. "O único movimento é de quem está lendo, porque precisa virar o livro". O texto é do historiador italiano Giuliano Sergio, que contribui como observador externo para o conceito do projeto.

(Diario de Pernambuco, 02/02/2010)

Os últimos dias de Glauber



A cineasta Paula Gaitán está no Recife para conversar sobre seu novo filme, Diário de Sintra. O documentário trata dos últimos dias de Glauber Rocha. Em 1981, eles passaram temporada em Portugal com seus filhos, Eryk e Ava. O longa, que tem pré-estreia hoje, às 20h20, no Cinema da Fundação (Rua Henrique Dias, 609), nasce da mescla de imagens daquela época com o retorno de Paula à Sintra, em 2007. Depois da sessão, a realizadora e o crítico Luiz Joaquim conversam com o público. Diário de Sintra entra em cartaz na próxima sexta-feira.

Sintra serviu de refúgio para o criador de Deus e o diabo na terra do sol, que teve o plano de rodar um novo filme interrompido por uma broncopneumonia, causadora de sua morte. "Em Diário de Sintra, Paula Gaitán recupera as sobras de um passado estilhaçado e consegue outorgar-lhes nova vida. Ela o faz sem um grama de sentimentalismo - e com uma coragem que é raramente vista em filmes nos dias de hoje", escreveu o cineasta Walter Salles, sobre o filme. O documentário se estrutura a partir de uma série de fotos, imagens em Super 8, 16mm e digital, inclusive a última entrevista de Glauber, concedida ao ator Patrick Bauchau.

(Diario de Pernambuco, 02/02/2010)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Spiegelman revisto por ele mesmo



Ao lançar Breakdowns, há três décadas, o novaiorquino Art Spiegelman deu o primeiro passo para consolidar conceito cada vez mais comum hoje em dia: o de histórias em quadrinhos como obra de arte. Item de colecionador, o livro volta revisto e ampliado pelo autor, que fez uma introdução ilustrada tão interessante quanto a obra que a antecede, e um texto final que revisa quase 50 anos de carreira - seu primeiro trabalho foi publicado aos 13 anos de idade.

Breakdowns - Retrato do artista quando jovem (Quadrinhos na Cia, R$ 79) usa aquele momento definidor como mote para passar a limpo a história de uma vida. Por exigência de Spiegelman, a edição nacional manteve o formato álbum de luxo, com capa dura e papéis especiais.



A arte da capa sintetiza o recado: o cartunista de meia-idade escorrega não numa casca de banana, como na clássica "gag" de desenhos antigos, mas na própria obra realizada na juventude. Em capítulos, o novo material revê traumas de infância, vida conjugal, a forte presença dos pais e, claro, a descoberta dos quadrinhos como tábua de salvação. Para o autor, pode ser uma forma de lidar com os próprios fantasmas. Para o leitor, é a chance de se deleitar com novas possibilidades narrativas do criador de Maus (1992) e À sombra das torres ausentes (2004).

O livro original, publicado em 1978, traz as primeiras pranchas de Maus, visão pessoal do holocausto judeu (Spiegelman tem origem polonesa - seus pais sobreviveram a Auschwitz), que anos mais tarde seriam aprofundadas em mais de 300 páginas de uma HQ celebrada como a única a ganhar o prêmio Pulitzer. A relação de culpa com a mãe, que se suicidou no fim dos anos 60, e com o pai repressor também estão representadas.

Hoje a linguagem dos quadrinhos é usada para quase tudo, da confissão mais íntima à reportagem de guerra, e seus melhores autores têm status de artista. Mas os tempos eram outros e os que se dispunham a criar histórias com tinta e papel dificilmente eram reconhecidos como tal.

Spiegelman tinha certeza de que era um deles, e que seu livro, uma coletânea do que fez nos cinco anos anteriores, faria diferença no cenário da arte contemporânea daquele momento. Com a ajuda de amigos, colocou cinco mil cópias (algumas com problemas de impressão) no mercado. Ele tinha se encontrado enquanto autor e precisava olhar para o próprio trabalho fora do contexto precário em que foi publicado.

À época, pouca gente deu atenção às inquietações existenciais de um desenhista desconhecido. Mas nestas e outras histórias estão, em estado bruto, os elementos que anos depois dariam notoriedade ao autor e abriram caminho para uma série de autores de quadrinhos experimentais, autobiográficos e que dialogam com outras formas de arte.

Cia das Letras investe nos quadrinhos

Contrariando a tendência do mercado, que em 2009 foi tímido em novos produtos, a Companhia das Letras entrou com os dois pés no filão de quadrinhos adultos. Criou o selo especializado Quadrinhos na Cia., que nos últimos meses trouxe ao país importantes títulos estrangeiros. A primeira leva colocou nas prateleiras Retalhos, de Craig Thompson, Nova York - a vida na grande cidade, de Will Eisner, e O chinês americano, de Gene Lueng Yang. Os mais recentes, além de Breakdowns, são Jimmy Corrigan - O garoto mais esperto do mundo, de Chris Ware e Umbigo sem fundo, de Dash Shaw. A resposta do público foi imediata.

"A editora quis apostar no plano antigo de publicar quadrinhos com constância. Antes, eles eram lançados pelo selo Cia. das Letras, voltados para o público juvenil. Só que muitas vezes são quadrinhos adultos, que ficavam na seção errada das livrarias", diz o editor André Conti, responsável pelo novo selo. "Seguimos a linha editorial da Companhia das Letras, que é descobrir bons autores contemporâneos e resgatar os clássicos. A diferença é que agora aumentou a dedicação para manter regularidade e a busca de quadrinhos autorais".

Entre março e abril serão lançados Bordados, de Marjani Satrapi (Persépolis), o primeiro tomo de Scott Pilgrim, série canadense que mistura estética mangá e videogame, No coração da tempestade, de Will Eisner, Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, Vishnu, de Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, e Vento em mala frata, de Emílio Fraia e D.W. Ribatski. Os três últimos inauguram uma série baseada na interação entre escritores e artistas gráficos. O pernambucano Marcelino Freire e o gaúcho Guazzelli estão cotados para o projeto, mas ainda não há nada confirmado. A volta de Lourenço Mutarrelli (Natimorto, O cheiro do ralo) aos quadrinhos também está na pauta.

O revés econômico afetou o mercado de livros em quadrinhos, mas não os planos da editora. "Para nós, a resposta está muito boa. Retalhos, New York e Umbigo sem fundo são os mais vendidos", diz Conti. Alémdo evidente interesse por quadrinhos com qualidade literária, a linha editorial da Quadrinhos na Cia. contemplará HQs de apelo estritamente visual. "Estamos abertos para apostar na diversidade".







(Diario de Pernambuco, 01/02/2010)

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Triste Fim de Policarpo Quaresma, por Edgar Vasques e Flávio Braga



O triste fim de Policarpo Quaresma é o novo título da coleção "Grandes Clássicos em Graphic Novel", incialmente mantido pela editora Agir, agora nas mãos da Desiderata - ambas do grupo Ediouro.

A versão em quadrinhos, assinada por Edgar Vasques e Flávio Braga, ultrapassa o filão rentával da função didática.

É obra autônoma, na ilustração de Vasques (Rango, O analista de Bagé) e no texto bem resolvido de Braga.

Esqueça o ranço da escola que te obrigou ou um dia obrigará a ler O triste fim de Policarpo Quaresma .

O livro é uma das maiores obras da literatura brasileira. Escrito em 1911 po Lima Barreto, o livro trata da desventura de um idealista que queria restaurar a língua tupi e costumes indígenas em pelo governo Floriano Peixoto.

No entanto, a república nascente, positivista, tinha problemas maiores para resolver, como a insurreição da Marinha no Rio de Janeiro. A guerra é iminente e o major Quaresma assume comando de uma das tropas. E tão logo descobre as dificuldades de conciliar humanismo com nacionalismo que pega em armas, seu triste fim se torna inevitável.

Mais um bom momento da série "Grandes Clássicos em Graphic Novel", ao lado de O Alienista e O pagador de promessas.

Como foi: Dia do Quadrinho Nacional em Pernambuco

por Amaro Braga, organizador do evento

Na última sexta-feira, 29 de janeiro, os Pernambucanos comemoraram o Dia do Quadrinho Nacional com uma série de palestras memoriais no Auditório Capiba da Faculdade Maurício de Nassau. O público assim que chegava se deparava com uma exposição em banners retratando as origens das Histórias em Quadrinhos, que finalizava na publicação dos quadrinhos de Ângelo Agostini que marcam a data de 30 de janeiro como dia do Quadrinho Nacional e colocam o Brasil como o 3° pais a produzir a versão moderna das histórias em quadrinhos, muito antes do Yelow Kid nos EUA.

A abertura do evento ficou por conta da conferência de Laílson de Holanda Cavalcanti sobre as sete edições memoriais do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco – FIHQPE, suas inovações estéticas e os ilustres convidados, nacionais e internacionais, com especial destaque para a vinda de Will Eisner. Antes disso, Laílson premiou a platéia com uma excelente retrospectiva de sua trajetória profissional, resgatando na fala, a uma parte significativa dos eventos importantes sobre Quadrinhos, charge e Cartum que ocorreram no Estado e sua influência na introdução de Pernambuco no circuito internacional do humor e dos quadrinhos e que se encontra defasado nos últimos anos pela não continuidade do Festival.

A seguir a desenhista e professora Danielle Jaimes resgatou a recente produção de quadrinhos voltados para a educação e a história de Pernambuco, com a série “Passos Perdidos, História Desenhada” sobre a Presença Judaica em Pernambuco, e o álbum “Heróis da Restauração Pernambucana”, sobre a Capitulação Holandesa. Sua explicação mostrou o resgate que a equipe fez da urbanização dos bairros da cidade, do resgate histórico e cultural.

Depois destas duas falas foi montada uma mesa sobre o Perfil da Produção Atual de quadrinhos no Mercado em várias perspectivas: primeiro com o Grupo PADA – Produtora Artística de Desenhistas Associados, através dos membros Milson Marins e Arnaldo Lúis que compartilharam com o público a trajetória de publicação de seu Fanzine/Revista Prismarte, atualmente na edição de número 51.

Depois foi a vez do professor doutor Henrique Magalhães da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) expor sua trajetória profissional e acadêmica com a publicação de tirinhas de quadrinhos e o estudo sobre os Fanzines, no brasil, França e na Espanha, finalizando sua exposição com o perfil editorial da Marca de Fantasia, única editora especialziadano Gênero quadrinhos do Norte-Nordeste, publicando não só quadrinhos dos amis diversos gêneros, dos independentes aos comerciais, como é a única editora brasileira especializada na publicação de estudos Acadêmicos sobre o Gênero Quadrinhos.

A mesa findou com a fala do quadrinhista Pedro Ponzo, que diferente dos demsi, tem sua produção voltada quase que esclusivamente para o mercado norte-americano. Ponzo dividiu com a platéia a experiência de trabalhar como Ghost (desenhista que não tem o crédito nas publicações e que preparara as páginas para os desenhistas oficiais) até ser reconhecido e assinar a primeira edição publicada nos EUA.

Após a surpreendente visão ampala dos mercado no qual os quadrinhistas pernambucanos estão inseridos, foi avez do professor Amaro Braga, organziador do evento mapear através de imagens a pré-história das histórias em quadrinhos, registrando as cenasq eu incirpiravam alinguagem sequencial nas pinturas rupestres,nos murais egípcios, nos vãos gregos, nos códices Maias e até nas tapeçarias medievais e nos murais romanos, vinculando a História dos Quadrinhos ao panorama da História da Arte universal.

Como previsto, a programação se encerrou com a fala e conversa com a platéia do jornalista do Diário de Pernambuco, André Dib, comentando sua experiência com o jornalismo sobre quadrinhos. Atualmente Dib é o único jornalsita que tem administrado e assinado de forma constante a pauta sobre quadrinhos no Estado.

Sylvio Back mergulha no universo de Graciliano



Neste ano, Graciliano Ramos será tema de duas novas produções do cineasta Sylvio Back. A primeira é um documentário sobre sua vida, com recursos já captados e pré-produção prevista para começar em março. Buíque, no agreste pernambucano, faz parte do roteiro, que passa por cidades onde o autor de São Bernardo e Vidas secas morou, como Palmeira dos Índios, Viçosa, Quebrangulo, Maceió e Rio de Janeiro.

Graciliano morou em Buíque quando criança e aos 18 anos voltou à cidade para tratar da saúde. A fazenda em que morou está preservada de acordo com algumas características da época e deve servir de cenário para a produção. Pernambuco entra na pauta não somente pela ligação histórica com o personagem mas porque terá na capital uma potencial base de trabalho.

Por telefone, do Rio de Janeiro, Back diz que o novo filme será um ensaio para o próximo, que adapta o romance Angústia, escrito por Graciliano em 1936, quando estava na prisão. Apesar de trabalhar no território da ficção, muitas memórias da infância em Buíque estão no livro. "É o único romance dele que ainda não filmado. É uma história de ciúme, um Crime e castigo nordestino".

Durante a pesquisa, que durou oito meses, o diretor se aprofundou e viu que ali tinha um documentário. A produção inclui "toques" de ficção e será dividida em sequências com títulos dos romances, diretamente ligados às etapas da vida do escritor alagoano, como o assumidamente autobiográfico Infância. "Vou contar a vida dele com todos os elementos audiovisuais possíveis".

Ex-jornalista e crítico de cinema, Sylvio Back é filho de imigrantes húngaros e alemães que imigraram para Santa Catarina. Sua formação intelectual está fortemente ligada à literatura - não é por acaso que ele cita o romance de Fiodor Dostoievsky, também admirado por Graciliano Ramos. "Me interessei pela vida pessoal de Graciliano, pelo itinerário dele, por sua angústia com a escrita, com a linguagem. Ele chegava a escrever a mesma frase centenas de vezes".

Afeito a temáticas históricas, políticas e literárias, Sylvio Back realizou 37 filmes (11 longas-metragens) em 46 anos de carreira, iniciada em Curitiba, no Paraná. Os principais são A guerra dos pelados (1970), Revolução de 30 (1980) e Lost Sweig (2002), este último sobre o escritor judeu Stefan Zweig. Restaurado recentemente, Lance maior (1968) traz Regina Duarte e Reginaldo Faria no elenco e é o primeiro longa do cinema paranaense.

Luta pela terra - Seu último trabalho, O contestado - restos mortais, acaba de ser finalizado. O filme marca o retorno ao tema, ficcionado no longa A guerra dos pelados , com atuações de Jofre Soares, Stênio Garcia e Otávio Augusto. "Sylvio Back conseguiu fazer um filme ágil, dinâmico na sua linguagem, na sua estilística", escreveu o crítico Celso Marconi, à época.

Back retoma o Contestado com um documentário de 160 minutos de duração em que registra 30 médiuns da fronteira entre o Paraná e Santa Catarina, região onde ocorreram os combates entre a população cabocla e militares republicanos entre 1912 e 1916. Combatentes narram detalhes do conflito através da atividade mediúnica.

A Guerra do Contestado foi desencadeada com a morte de um pernambucano, o comandante das tropas Coronel João Gualberto e do monge José Maria, figura messiânica equivalente a Antonio Conselheiro (o Contestado é tido como o "Canudos do Sul"). O cineasta justifica a nova produção, 40 anos depois: "O Contestado foi um dos movimentos pela posse da terra mais importantes do século passado, mas continua submerso, quase desterrado da historiografia oficial".

(Diario de Pernambuco, 31/01/2010)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Entrevista // Fábio Moon: "Ainda estamos buscando esse tal quadrinho nacional"


Os gêmeos Moon e Bá: autoretrato

Há 141 anos foi publicada a primeira história em quadrinhos produzida no Brasil: As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte, de Angelo Agostini.

Desde 1984, a data foi escolhida para marcar o Dia do Quadrinho Nacional, comemorada com eventos em todo o país.

Nos últimos anos, a produção de HQs brasileiras tem crescido em qualidade e quantidade. Um termômetro é o Blog dos Quadrinhos, do jornalista Paulo Ramos, que promove maratona de blogs e sites de artistas nacionais. Até o fechamento desta matéria, 130 blogs e sites de quadrinhos foram listados.

Artistas em ascensão contínua, os paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá conquistaram reconhecimento internacional e abriram espaço no mercado para um trabalho autoral, coisa rara para brasileiros publicados nos EUA.

Hoje, além de produzir uma tira semanal Quase nada, para a Folha de São Paulo, eles produzem a minissérie Daytripper para o selo Vertigo, da DC Comics. Em entrevista ao Diario, Moon fala sobre carreira, mercado e conceitos em torno do "quadrinho nacional".

O rótulo "quadrinho nacional" é algo necessário para formação de uma identidade? Ou precisamos acabar com as fronteiras?
O quadrinho nacional não tem cara, não tem estilo, não tem escola, então, acho que ainda estamos buscando esse tal quadrinho nacional. Ainda estamos no esquema cada artista faz a sua coisa, que pouca gente vê, relaciona ou interage. A identidade do artista é individual, e nesse sentido vem a brasilidade, porque somos todos brasileiros. Quanto mais fiel à sua origem, mais nacional você será, e mais fronteiras atravessará.

Hoje temos mais festivais e salões de HQ, editoras, espaço na imprensa (na cobertura e na seção de cartuns e tirinhas). Finalmente temos mercado para o quadrinho nacional?
Ainda não temos um mercado ideal. Temos mais oportunidades e mais espaço, mas ainda pode melhorar. A qualidade pode melhorar, a estrutura das editoras pode melhorar e, se tudo melhorar, acho que o tamanho do público também melhorará.

Qual a diferença entre trabalhar com editoras gringas e nacionais?
Dependendo da editora gringa, é a mesma coisa. Mas lá fora existem editoras de quadrinhos com uma estrutura muito maior, que pode bancar a produção dos artistas antes de esperar o resultado do público. Então você pode viver somente do seu trabalho. Outra diferença é a relação com editores que conheçam o mercado em que trabalham e ajudem os autores enquanto eles produzem o trabalho. Aqui no Brasil a maioria dos editores tem que trabalhar com a criação pronta. Quase não existe relação entre autor e editor no Brasil.

O começo não deve ter sido fácil. Qual foi a estratégia?
Nós queremos contar histórias em quadrinhos. Faremos o que for necessário. Só depende de nós, então vamos levar a sério. Essa foi a estratégia.

Vocês trabalham juntos o tempo todo ou cada um mantém seu trabalho solo?
Gostamos de trabalhar juntos o máximo possível, mas temos participado de projetos no exterior, com outros autores, e nesses projetos podemos trabalhar separados, pois quase sempre só um de nós pode desenhar tal história, enquanto o outro vai desenhar outra coisa.

Como vocês dividem o trabalho a quatro mãos?
A gente escreve as histórias junto e decide qual desenho combina mais, ou qual dos dois tem mais tempo pra desenhar.

Vocês não perderam a marca autoral para se adaptar ao mercado norte-americano. Foi difícil resistir às imposições do Tio Sam?
Você precisa saber o que quer da vida. Se você quer desenhar o Super-homem, não está se curvando a nada quando você chega lá e desenha o Super-Homem. Se você quer ser autor, escrever e desenhar suas histórias, o caminho é outro. Nenhum caminho é fácil, aliás fazer histórias em quadrinhos é difícil pacas, mas saber o que você quer te dá tranquilidade.

(Diario de Pernambuco, 30/01/2010)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O futebol salvou minha vida


Eric Bishop, o carteiro, encontra Eric Cantona, o ídolo

Cinema e futebol é combinação arriscada. À procura de Eric, que estreia hoje no Cinema da Fundação, está entre as poucas produções que valem a pena serem assistidas.

Não estranha que, assim como na paternidade do jogo, o mérito do filme seja dos ingleses. No caso, Ken Loach (Terra e liberdade, Pão e rosas), cineasta veterano e afeito a histórias e conflitos da classe operária. Curiosamente, o filme de Loach se alinha a outra estreia da semana, Invictus, em que o esporte cumpre determinante papel social.

À procura de Eric fala sobre a importância do futebol na vida de pessoas individualmente oprimidas, mas que coletivamente extravasam energias e lavam a alma. Há cenas de arquivo com gols e dribles fabulosos, mas o filme não está diretamente ligado à ação futebolística e sim no drama de um trabalhador anônimo. Eric Bishop (Steve Evets) é um carteiro de aspecto apagado e triste que tem como ídolo Eric Cantona, lenda viva do maior time de futebol da Inglaterra, Manchester United.

Eric vive numa casa mal-cuidada,perdido entre derrotas do passado (separação conjugal) e presente (desconsideração dos filhos adolescentes). Numa fossa daquelas surge Cantona (o jogador em pessoa), que dá conselhos estratégicos para o novo amigo retomar o controle da própria vida. O ponto de honra desse processo está no revide a um gângster que ameaça seu filho mais velho, oportunidade ideal para colocar em prática a truculenta operação Cantona, o que inclui máscaras e tacos de beisebol. Nada como um grupo de amigos para colocar as coisas no lugar.

(Diario de Pernambuco, 27/01/2010)

O verde e ouro de Eastwood


Mandela (Freeman) e Pienaar (Damon): green and gold

Cada líder mundial tem o cineasta que merece. Bush teve Stone; Lula, Barreto. Nelson Mandela tem o luxo de contar com Clint Eastwood, autor de obra cada vez mais respeitável.

Mesmo causando estranhamento inicial, Invictus (EUA, 2009) tem envergadura suficiente para estar entre os melhores do diretor de Menina de ouro (2004) e Gran Torino (2008). E não será surpresa se o longa ganhar bom número de indicações ao Oscar na semana que vem. Aos 79 anos, Eastwood está em alta nos EUA - na última terça-feira foi eleito o astro mais popular do país, desbancando Johnny Deep e Denzel Washington e, quem diria, o eterno cowboy John Wayne.

Mestre em mapear luzes e sombras da cultura norte-americana, Eastwood transfere o foco para a recente transição político-social vivida pela África do Sul com a posse de Nelson Mandela e o fim do apartheid. Mandela é Morgan Freeman, escolha óbvia e inquestionável. O ator sempre quis o papel e o filme nasceu do encontro dele e o jornalista John Carlin,que escreveu o livro agora adaptado pelo filme. A publicação narra a reunificação racial que marcou os anos Mandela (1994-1999). O pivô desse processo foi o investimento no Springbocks, time de rúgbi mais querido dos afrikaner (ingleses nascidos na África).

Com a tranquilidade e eficiência de quem teve tempo para planejar cada ato, Mandela convoca o capitão do time, François Pienaar (Matt Damon) e inicia ali a relação veterano-aprendiz presente em outros filmes de Eastwood. O que incomoda é a ausência de revezes ou escuridão, comum na obra do cineasta. Mandela brilha como um anjo triunfante enviado à Terra.

Os 20 minutos finais, em que os Bucks disputam a final da Copa do Mundo com a Nova Zelândia, é uma aula de como filmar um estádio lotado de forma sensacional e contagiante. O embate entre os jogadores (o rúgbi é violento pra valer), enganchados e grunindo como animais, gera um momento à parte. A turma de seguranças negros, obrigados a conviver com a guarda branca que antes os perseguiam também rende boassituações. Damon, que equilibra a visão conciliatória de Mandela e a resistência histórica dos brancos (no time e na própria família), conseguiu uma de suas melhores atuações.

E Eastwood, mesmo ensolarado e positivo, continua invicto.

(Diario de Pernambuco, 29/01/2010)