sábado, 14 de fevereiro de 2009

Garanhuns respira jazz no carnaval


A cidade de Garanhuns reserva para o período do carnaval uma programação diferente das festas momescas. Trata-se do Garanhuns Jazz Festival, que em sua segunda edição homenageia o conterrâneo Toinho Alves, e oferece uma grade maior e melhor que a de 2008. Desta vez, são 21 atrações de quatro países, em shows gratuitos nos palcos montados na Praça Guadalajara e no Parque Ruben Van der Linden.

Viabilizado por recursos da prefeitura municipal, governo do estado e Ministério do Turismo, o festival foi lançado esta semana, com a presença do prefeito de Garanhus, Luiz Carlos Oliveira, do curador Giovani Papaleo e de três secretários municipais. Desde que nasceu, o Garanhuns Jazz tem sido tratado como a menina dos olhos da prefeitura. "O evento já nasceu consolidado. Investir no carnaval era algo sem retorno, pois a cidade ficava praticamente vazia. Foi quando os Papaléo chegaram com o projeto, que nos interessou de imediato", conta Oliveira.

De acordo com asecretária de turismo, Gabriela Valença, mais de 10 mil pessoas compareceram ao evento ano passado, o que movimentou a economia em R$ 1,6 milhão. A expectativa para este ano é de que o público dobre. "O jazz favorece um novo público e gera o envolvimento da população", diz Valença, que cita o intercâmbio cultural como o maior presente trazido pelo evento.

"Ano passado, a banda musical de Garanhuns criou a Orquestra de Frevo e Jazz de Garanhuns. Este é um legado palpável da primeira edição, maior até do que o do Festival de Inverno", acredita Valença. A mais nova banda estimulada pelo Garanhuns Jazz se chama Street Jazz Band, que se apresentará com o saxofonista carioca Marcelo Martins. Ainda no espírito de intercâmbio cultural, o mestre flautista Carlos Malta abre o festival em apresentação com a Banda de Pífanos Folclore Verde, formada por remanescentes quilombolas da comunidade local do Castainho. Por sua vez, o guitarrista paulista Lancaster toca com o grupo The Bluz, de Caruaru.

A inspiração para o GJF veio do Festival de Jazz de Guaramiranga, no Ceará, que este ano convidou o gaitista belga Toots Thielemans e terá homenagem a Dominguinhos.

Do território do blues, temos os guitarristas James Wheeler (de Chicago) e o angolano radicado em São Paulo Nuno Mindelis, o grupo Igor Prado Band, Blue Jeans e o gaitista Robson Fernandes, que toca com a anfitriã Uptown Up. O jazz está representado por Kate Bentley & Clay Ross Band (USA), Dixie Square Jazz, Nuages Jazz (Equador) e Izzy Gordon, que fará show em homenagem à tia, a diva Dolores Duran.

Saiba mais

Palco Pau Pombo
(Praça Ruber Van der Linden)

21.02 (sábado)

15h - Nosso Jazz
16h - Choro, Baião e Cia

22.02 (domingo)

15h - Orlito
16h - Kleber Blues Band

23.02 (segunda)

15h - Banda local a definir
16h - Banda local a definir

Palco Ronildo Maia Leite
(Praça Guardalajara)

21.02 (sábado)

20h - Carlos Malta (RJ) & Pífano Folclore Verde
21h - Igor Prado Band (SP)
22h30 - Nuno Mindelis (Angola / SP)

22.02 (domingo)

* Dixie Square Jazz Band (SP) - show de rua à tarde e à noite
20h - Nuages Jazz (Equador)
21h - Igor Prado Band (SP)
22h - Lancaster & The Bluz (PE)
23h - James Wheeler (EUA)

23.02 (segunda)

20h - Marcelo Martins (RJ) & Street Band (PE)
21h - Robson Fernandes (SP) &Uptown Band (PE)
22h - Blue Jeans (SP)
23h - Izzy Gordon (SP)

publicado no Diario de Pernambuco

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

No limite entre sonho e realidade*


Alguma compulsão por botões parece ter baixado em Hollywood. Primeiro, no longa protagonizado por um certo Benjamin Button, que fez fortuna fabricando estes pequenos objetos. Agora, eles ressurgem na animação Coraline e o mundo secreto (EUA, 2009), em que uma garota entediada é conduzida a uma dimensão paralela habitada por seres com botões costurados no lugar dos olhos.

Dirigido por Henry Selick, o longa feito com bonecos e técnica stop-motion é uma adaptação do livro homônimo do inglês Neil Gaiman, cuja obra tem sido reprocessada aos poucos para as telas do cinema - vide os recentes MirrorMask e Stardust. Coraline, que estreia hoje nas salas de cinema dos shoppings, em cópias dubladas - uma delas em estimulante projeção 3D - é uma típica história de Gaiman, especialista em ambientes soturnos e situados no limiar entre sonho e realidade.

Tudo começa quando a menina Coraline e família se mudam para um casarão antigo. Ela não sabe, mas o local é habitado por uma bruxa que devora e aprisiona a alma das crianças. Rodeada de pais quase sempre dispersos, e vizinhos com hábitos estranhos, Coraline foi facilmente seduzida por um mundo fantástico, em que todos os seus desejos são atendidos.

Ao lado de O estranho mundo de Jack, também dirigido por Selick, e A noiva cadáver (com a qual compartilha a produtora Laika Entertainment), Coraline é uma fábula de horror para adultos, não por acaso, recomendada para maiores de dez anos. Um belo programa, em que a imagem clássica da bruxa má é o que menos assusta, neste mundo de agulhas, botões, e fantasmas de crianças presas do outro lado do espelho.
* publicado no Diario de Pernambuco

Filmes do Oscar 2009 no Multiplex UCI Ribeiro Recife


Entre 15 e 19 de fevereiro, filmes indicados ao Oscar 2009 serão exibidos no Multiplex UCI do Shopping Recife (Boa Viagem). A programação começa neste domingo, às 11h, com a animação digital Wall-E. Trata-se de programação especial com a presença de especialistas em cinema para debate após cada filme.

Indicado a prêmios como melhor trilha sonora original, roteiro original e melhor animação, Wall-E será debatido por Leonardo Galiza e Alexsandro Vasconcelos.

Nas demais sessões do projeto, são exibidos O curioso caso de Benjamin Button (segunda, às 18h), O leitor (terça, às 19h), O lutador (quarta, às 19h15) e o inédito Milk (quinta, às 19h).

Os ingressos variam de preço: domingo (R$ 11), segunda, terça e quinta-feira (R$ 13) e quarta-feira (R$ 9), com meia entrada todos os dias.

Batman de volta aos cinemas



Batman - O cavaleiros das trevas, de Christopher Nolan, está de volta aos cinemas do mundo todo, inclusive em versão I-Max.

No Recife, ele será exibido a partir de hoje, no Cine Rosa e Silva 2, sempre às 17h40 e 20h30.

É a chance de conferir (ou usufruir novamente) grandes atuações como a de Heath Ledger, sem dúvida o melhor Coringa de todos os tempos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Salto qualitativo de um jovem artista*



Selton Mello, um dos atores mais conhecidos do Brasil, agora investe na carreira de diretor. O primeiro salto de qualidade deste mineiro de 36 anos veio quando migrou das novelas globais para as telas do cinema, onde viveu personagens marcantes e díspares, como o disparatado Chicó em O auto da Compadecida, o angustiado André, em Lavoura arcaica, o perverso Lourenço (O cheio do ralo), e o playboy traficante João Estrela (Meu nome não é Johnny).

O segundo chegou agora, com Feliz Natal, longa-metragem que entrou em cartaz na última sexta-feira (ver roteiro). Como era de se esperar, a produção é generosa com o elenco, estrelado por Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Lúcio Mauro e Paulo Guarnieri. Na equipe, nomes tarimbados como Vânia Catani (produção), Lula Carvalho (fotografia), Daniela Pinheiro (arte) e Plínio Profeta (trilha sonora). Tudo para contar a história de Caio, personagem que, após anos de exílio, retorna ao lar e encara a família em decadência e fantasmas de um passado inconsequente.

Para expressar sua arte, Selton Mello, que também co-assina produção, roteiro e montagem, investiu no improviso em cena, luz natural, planos quase abstratos e por vezes tão aproximados que mostram a textura da pele. Tanta visceralidade pode ser entendida a partir do significado pessoal da noite de Natal para o diretor: 25 de dezembro é data de nascimento de seu pai, e seu próprio aniversário é no penúltimo dia do ano. Apesar disso, ele garante não haver nada de autobiográfico no filme. "Caio não sou eu, e sim a tradução do sentimento dessa época do ano que, para mim, é obrigatória. Feliz Natal é sobre coisas não ditas, as entrelinhas são muito importantes".

Em entrevista ao Diario, o mais novo e promissor cineasta brasileiro conta detalhes sobre o filme de estreia, questiona o sistema usado para a escalação de atores nos filmes nacionais e revela quais os planos para os próximos meses, o que inclui um inesperado retorno à televisão.



Entrevista // Selton Melo: "Quero experimentar formas de me expressar"

Lavoura arcaica parece ter exercido grande influência sobre seu filme. Você mesmo afirmou que ele é uma resposta ao filme de Luiz Fernando Carvalho. Além disso, você cita Cassavettes e o cinema argentino como fortes referências. Elas devem continuar nos próximos filmes, ou foram adotadas apenas para este?
Luiz Fernando é uma referência enorme por causa de sua imensa coragem, ele foi a primeira pessoa que viu um corte bruto do meu filme e me ajudou a encontrar o caminho a seguir. Todas estas referências foram importantes, mas serviram apenas a esse filme. Mas esse não é o meu estilo de direção, é a linguagem dessa história especificamente. Quero experimentar outras formas de me expressar atrás das câmeras. Quero adaptar O alienista, de Machado de Assis, um filme de época, que terá uma outra pegada, diferente de Feliz Natal. E antes desse, rodar um filme que flerta com a comédia. Tentar como diretor fazer o que já faço como ator: ir de Lisbela e o prisioneiro a O cheiro do ralo, de Árido movie a O auto da Compadecida.

Você demonstra evidente respeito com os veteranos Darlene Glória e Lúcio Mauro, grandes talentos nem sempre lembrados pelo cinema brasileiro. Ao mesmo tempo, você apresenta novos e promissores atores. Você passou por essa reflexão antes de optar pelo elenco?
Com certeza. Hoje em dia se dá muita importância a lançamentos. Lançar gente é importante, claro, como o menino Fabrício Reis, por exemplo. Mas não é só assim que a banda deve tocar. Procurei buscar profissionais altamente talentosos, com gana de trabalho, que ficam à margem. Esse é o caso do Paulo Guarnieri. Fez várias novelas, cresci vendo seu trabalho. Assim que fiz o convite, ele veio e fez lindamente o irmão do protagonista. Aquele olhar do Paulo era insubstituível. O mesmo acontece com o extraordinário Lucio Mauro. E Darlene Glória? Musa absoluta do cinema brasileiro. Eu me pergunto por que essas chances não são dadas com mais frequência. Acaba gerando escalações viciadas.

A nudez da atriz Graziela Moretto gerou forte reação do namorado dela, o ator Pedro Cardoso, que redigiu um manifesto e classificou a cena como "pornográfica". Qual sua visão sobre esse episódio?
Sinceramente, acho que isso é passado. Eu não fui citado nominalmente, nem meu filme, mas como a imprensa insistiu em me ouvir coloquei uma nota no site do filme, www.feliznatalofilme.com.br. Quem ainda se interessar por isso pode ir lá conferir.

Na sessão especial de Feliz Natal em dezembro, no Cinema da Fundação, você afirmou estar mais neste filme do que em todos os personagens que já interpretou. Como ficará sua carreira de ator, agora que sua preferência é a direção?
A direção veio para ficar em minha vida, é algo incrível e apaixonante. Descobri esse lado e estou encantado com essa nova possibilidade. Estou bem mais ciente de todo o processo e isso me enriquece muito também como ator. E em meu próximo filme vou atuar também, já me sinto seguro para dar mais esse passo. Mas sinceramente tenho muita vontade de voltar a fazer uma novela, me comunicar através da minha arte com milhões de espectadores. Mudanças estão por vir na minha trajetória.


* publicado no Diario de Pernambuco de 10/02/2009

A História em quadrinhos*



Para os brasileiros, durante décadas, histórias em quadrinhos foram pouco mais do que um passatempo pueril. Com o tempo, e certo esforço das editoras, esse reducionismo provocado pela indústria dos comics norte-americanos foi sendo quebrado. Hoje, o mercado de HQs oferece bem mais do que super-herois, camundongos e outros bichos. Ele reflete uma produção mundial, que utiliza a linguagem peculiar dos quadrinhos para tratar de temas densos e nada engraçados, como a bomba de Hiroshima e o holocausto, apenas para citar dois grandes marcos: Gen, de Keiji Nakazawa, e Maus, de Art Spiegelman.

Após sua publicação, nos anos 1970, os quadrinhos históricos ganharam relevância não somente pelo compromisso social de relembrar fatos importantes do passado, mas pela evidente criatividade de seus melhores autores. De tempos em tempos, há uma onda de boas publicações do gênero, e estamos passando por uma delas. Recentemente, dois bons exemplares vieram à tona, calcados em fatos históricos que marcaram a América Latina no século passado. O primeiro é Chibata! - João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil, da dupla cearense Hemetério e Olinto Gadelha. O segundo é Che – os últimos dias de um herói, obra argentina produzida 40 anos atrás, logo após a morte do líder revolucionário.

Listado no index da ditadura argentina, a versão nacional para Che chegou somente mês passado, e preenche uma lacuna na bibliografia nacional. A HQ, criada por Hector Oesterheld e Alberto Breccia, é considerada uma obra prima não somente pelo caráter político-histórico, mas por narrar a trajetória do personagem com maestria no uso das técnicas de claro-escuro. Além disso, o próprio livro entrou pra história, ao vencer a cruel ditadura argentina. No entanto, o roteirista Oesterheld e todas as suas filhas foram presos, torturados e assassinados pelo regime dos generais. Ao longo do tempo, a dupla tem sido adotada como referência básica por gigantes como Hugo Pratt (criador da série Corto Maltese) e Frank Miller.

Os dois títulos foram lançados pela editora paulista Conrad Livros. “Durante mais de 50 anos, os quadrinhos foi a arte mais censurada do Ocidente. Como eram considerados uma coisa de criança, só se aceitava que tratasse de temas que os adultos julgassem adequados às crianças. Ainda hoje, qualquer quadrinho que trate de temas mais complexos que guerras intergaláticas ou brigas de patos são obrigados a trazer o aviso: ‘quadrinhos adultos’, mesmo que não tenham cenas de sexo ou excesso de violência”, diz Rogério de Campos, diretor da Conrad, que ostenta em seu catálogo outros capítulos da história mundial, como os conflitos no Oriente Médio e leste europeu narrados pelo jornalista gráfico Joe Sacco.

“Creio que os quadrinhos estão vivendo seu momento de libertação. A queda das vendas dos gibis de super-heróis e os outros gêneros tradicionais abriam espaço para outros tipos de quadrinhos. Veio também abaixo aquele muro de preconceito e ignorância que impedia muita gente de perceber que os quadrinhos são uma linguagem artística como outra qualquer, com os mesmos direitos e deveres”, reflete Campos.

Ele conta que a ideia de quadrinizar a Revolta da Chibata, episódio propositadamente obscurescido pela historiografia brasileira, partiu da própria editora. “Nos agrada pensar que Chibata! surgiu em parte como resultado desse trabalho da Conrad de mostrar que quadrinhos podem falar de qualquer tema”, provoca o editor. A aposta deu certo: o projeto é considerado pela crítica especializada uma das melhores HQs de 2008.

Parte do mérito veio da confiança depositada nos artistas convocados para a missão. “A Conrad foi corajosa, ao confiar nos nossos instintos e nos deixando em paz para trabalhar”, conta Hemetério, que desenhou as 244 páginas do livro. “A história brasileira é rica em fatos, mas pobremente documentada. E quando tudo vem à tona, sempre passa um quê de ranço oficial. Quanto mais houver pesquisas e questionamentos, mais os fatos poderão ser analisados à luz da crítica. Os quadrinhos nacionais podem ter um papel relevante nessa divulgação, desde que sejam divertidos e criativos, por exemplo, ao dar voz a quem a história oficial tentou calar, ou mostrar as coisas por outro ângulo”, pensa o artista.

Para ter acesso a informações sobre o levante liderado por João Cândido, o “almirante negro”, o roteirista Olinto Gadelha desenvolveu um cuidadoso trabalho de pesquisa, que se valeu de bibliotecas tradicionais à internet, que para ele foi ótima fonte iconográfica. “Um dos motivos que me atraíram foi o fato de que o público pouco sabe sobre o tema. A visão escolar é muito resumida, e isso simplifica a importância dos eventos de 1910. Por ter sido uma insurreição contra uma forte instituição nacional, e ressaltado o que havia de pior nas relações sociais e raciais da nossa sociedade, o tema sempre foi tratado com reserva. Nestes 98 anos desde os fatos, muitos que ousaram se pronunciar sobre os eventos foram perseguidos e censurados”, afirma Gadelha.

Para o desenhista, o sucesso das HQ sobre temas históricos está na busca dos leitores por melhores exemplos. “Nos faltam heróis. A história do nosso povo é cheia de distorções, ídolos fajutos, feitos atribuídos a quem teve pouca ou nenhuma relação com os mesmos, e muita gente heróica como João Cândido é deixada no esquecimento porque seus atos ou origens iam de contra-mão à norma estabelecida”.

Outro nome que tem se destacado no ofício das adaptações da história para os quadrinhos é o ilustrador, cartunista e quadrinista João Spacca de Oliveira. Nos últimos anos, ele produziu Santô e os pais da aviação, Debret - Viagem quadrinhesca ao Brasil e D. João Carioca, todos pela Companhia das Letras. “Tenho a impressão de que a HQ precisa desses e outros referenciais para ser melhor aceita. Tradicionalmente ela é fruto da indústria cultural, ou seja, é entretenimento descartável. Mas como nos filmes B de Hollywood, surgiram autores que se destacaram e conseguiram fazer evoluir essa linguagem ao estado da arte”, avalia Spacca.

Em meio a efemeridade da imprensa escrita, há que destacar a linha editorial do Diario de Pernambuco, que usa dos quadrinhos para aproximar os leitores dos fatos históricos recentes, como na premiada série sobre Lampião e o cangaço, com texto do jornalista Paulo Goethe e arte de Greg Holanda.

Neste processo em comum a todos os casos aqui descritos, a atualização de um passado “oficial” a partir do olhar de cada autor, os quadrinhos extrapolam a condição de objeto de entretenimento para assumir uma das funções sociais da arte: estimular o pensamento - e por que não? – a ação.

* publicado na revista Continente nº 98 - fevereiro/2009

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Longe da ideia de Papai Noel


Feliz Natal, longa de estreia de Selton Mello, vai na contramão do espírito de amor, paz e família reunida no final de ano

A cada 25 de dezembro a cena se repete: família reunida, troca de presentes, espumante e muita comida na mesa. Ocasião perfeita para o parente bêbado dizer impropérios, e quem sabe provocar um "barraco" com a lavagem da roupa suja. Esse é o pano de fundo de Feliz Natal (2008), longa de estreia de Selton Mello. Com certo atraso, o filme entra no circuito do Recife via Cine Rosa e Silva.

Feliz Natal conta a história de Caio (Leonardo Medeiros), que quando jovem levou uma vida vazia e inconsequente, e após situação traumática, se exilou anos a fio numa cidade do interior. Hoje, na casa dos 40, um balanço existencial o leva a bater na porta da casa dos pais, em plena ceia natalina.

O que ele encontra não é nada bonito: a mãe (Darlene Glória), afogada em álcool e anfetaminas; o pai (Lúcio Mauro), obcecado pela performance sexual com a nova namorada de 20 anos; o irmão (Paulo Guarnieri) enfrenta decepção conjugal. Sinais de decadência encontráveis na própria casa onde um dia viveu, com alcatifa da parede e espelhos oxidados, em competente direção de arte de Renata Pinheiro (Superbarroco) e fotografia de Lula Carvalho.

Em pouco tempo, Caio deixa o "lar" novamente, e busca abrigo no apartamento de dois amigos "junkies". No subúrbio de tons encardidos, ele pode reviver os fantasmas do passado. "Eu estou muito mais neste filme do que todos os personagens que já fiz", garante Selton Mello, diretamente inspirado no cinema de John Cassavetes, por buscar na força interpretativa dos atores, um contraponto sombrio e visceral à pasteurizada imagem da noite feliz.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Ibep-Companhia Editora Nacional compra a Conrad


O comunicado acima foi encaminhado hoje à tarde para a imprensa, e informa que o grupo Ibep anuncia a compra da Conrad Editora.

O ofício deixa claro que não haverá mudanças na linha editorial da Conrad. Muito menos na equipe, que só não permanece intacta porque deixaram o grupo a gerente administrativa Solange Reis e Cristiane Monte, uma das sócias fundadoras.

Desde 1993, a Conrad é responsável por publicar boa parte dos melhores quadrinhos lidos no Brasil. Tanto nas bancas, onde circulam os mangás, quanto nas livrarias, ela tem papel fundamental de introduzir novos autores e disseminar os mestres.

Alexandre Boide, coordenador editorial da Conrad, adiantou ao Quadro Mágico o que 2009 reserva aos leitores.

"Temos muito material para lançar, e certamente o faremos ao longo de 2009. O plano é lançar mais álbuns nacionais do que nos últimos anos. Preferimos não revelar autores e títulos porque são obras ainda em produção, que podem atrasar. No entanto, posso garantir que muitas novidades virão, tanto de artistas que já publicaram com a gente como de gente nova na área, sem esquecer dos clássicos dos quadrinhos brasileiros".

Leia mensagem de Rogério de Campos aos leitores da Conrad:
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Conrades,

Temos o prazer de anunciar que, a partir de agora, a Conrad faz parte do Grupo IBEP, do qual faz parte também a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato em 1925.

Esse movimento é resultado da evolução da Conrad nestes anos todos. Crescemos e ocupamos espaços. Temos feito história. Mas para continuar crescendo percebemos que precisávamos de investimento externo. E é isso que temos agora.

As negociações que desembocaram neste grande momento foram complexas, demoradas e cheias de idas e vindas. Isso afetou bastante o ritmo de lançamentos da editora no ano passado. Mesmo assim, em meio a tudo isso, continuamos a emplacar nossos hits nas paradas de sucessos. Como a série de compilações de tiras de Calvin & Haroldo e livros como Che, Fun Home, Prontuário 666 e Chibata!. No mês passado, lançamos com bastante sucesso A Ditadura da Moda, o primeiro romance da jornalista Nina Lemos.

Agora que tudo está resolvido, a Conrad irá retomar seu ritmo tradicionalmente furioso de lançamentos. Já nos próximos dias lançaremos a continuação das séries Dragon Ball, Bambi, Nausicaä e O Sétimo Suspiro do Samurai. E também o clássico álbum Verão Índio, de Milo Manara e Hugo Pratt.

O primeiro objetivo é reforçar a identidade editorial da Conrad. A quase totalidade da equipe da editora permanece. Vocês clientes continuarão a falar com as mesmas pessoas com quem já falavam. Quero, no entanto, agradecer muito as pessoas que deixam a empresa, como minha amiga Solange Reis, gerente administrativa, e, especialmente, minha sócia Cristiane Monti, que fundou esta editora e forneceu a ela uma energia sem a qual nada disso teria sido possível.

Parabéns para todos
E, mais uma vez, obrigado

Rogério de Campos

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Funarte propõe diálogo com gestores e produtores


O presidente da Fundação Nacional de Arte, Sérgio Mamberti, está no Recife desde ontem, onde cumpre agenda de encontros e eventos. Esta é a primeira visita oficial da Funarte à região Nordeste desde que Mamberti assumiu a frente da instituição, em novembro passado. O objetivo é estreitar laços com gestores públicos e atores do campo cultural discutindo as ações da Funarte para os próximos dois anos. Hoje, às 9h30, haverá reunião aberta ao público na sede da Representação Nordeste do Ministério da Cultura (Rua do Bom Jesus, 227 - Bairro do Recife).

Ontem, a agenda da comitiva formada por Mamberti e equipe foi cheia: pela manhã houve reunião a portas fechadas com funcionários do MinC Nordeste. À tarde, eles se reuniram com os secretários de cultura de oito estados e sete capitais do Nordeste. À noite, ele esteve no Teatro de Santa Isabel, no encerramento do Janeiro de Grandes Espetáculos (que este ano recebeu R$ 50 mil em recursos da Funarte), para a entrega do prêmio Apacepe de Teatro e Dança.

"Nesse momento o que nos interessa é ouvir, para que possamos construir nossas políticas com a participação da sociadade ", diz Mamberti. Em conversa com o Diario, ele disse que a principal meta de sua gestão é repensar a Funarte no contexto do século 21. Para tanto, ele renovou completamente a equipe de diretores. O único nome mantido é o de Myriam Lewin, que desde 2003 ocupa o cargo de secretária executiva da instituição. "Queremos trazer de volta a tradição da Funarte na prestação de serviços à cultura brasileira", afirma Mamberti.

Mais do que uma missão de reconhecimento, a presença da Funarte no Nordeste tem a ver com a busca de novas parcerias, articulações e interlocuções, inclusive internas. Tanto que, em breve, o atual representante regional da instituição, Jorge Clésio contará com equipe e escritório próprio, que atenderá no mesmo prédio onde funciona o MinC. "A representação da Funarte é um salto de qualidade que nasceu de uma necessidade de ampliação. Será um novo nívelde inserção, um espaço integrado", descreve Taciana Portela, chefe da representação do MinC-NE. No mesmo local, haverá uma galeria de arte, mantida em parceria com o Centro Cultural Banco do Nordeste.

Por enquanto, este será o único espaço da Funarte no Nordeste, região cuja ausência de equipamentos tem gerado críticas recorrentes. "Somos feios e moramos longe", conclui o produtor cultural Paulo de Castro, em tom de brincadeira. "Sabemos que no Sudeste tem se concentrado a maior parte das atividades da Funarte. Enquanto isso, precisamos de cursos e capacitação, além aparelhagem de som e luz para os teatros, que estão em certa decadência", afirma Castro.

A retomada das câmaras setoriais será outro ponto de pauta. "Mais do que críticas, queremos saber quais são os planos da nova direção da Funarte", diz Marília Rameh, uma das coordenadoras do Movimento Dança Recife, que ainda lembra o longo intervalo em que as câmaras setoriais estiveram suspensas, até serem retomadas no fim do ano passado.

Mamberti, que reservou boa parte de seu dia para dar conta das demandas do setor, adianta que as prioridades para 2009 estão ligadas a formação, circulação e a contribuição da Funarte na efetivação do Plano Nacional de Cultura. "Não temos a pretensão de resolver todos os problemas, mas ao menos queremos que as discussões se institucionalizem", garante.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fantasma da crise ronda quadrinho nacional


HQ // Com o mercado em ebulição, profissionais dizem que ano será de retração, mas algumas editoras preparam surpresas
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

Há 140 anos nascia a primeira história em quadrinhos produzida no Brasil: As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, série criada pelo italiano (depois naturalizado brasileiro) Angelo Agostini, e publicada no periódico Vida Fluminense.

Hoje, o caminho inverso foi percorrido: o artista brasileiro Rafael Grampá publicou sua primeira HQ no exterior, para depois conquistar a terrinha com Mesmo delivery (Desiderata), um dos melhores lançamentos dos últimos tempos. O trabalho de estréia rendeu prêmios, elogios e o convite para desenhar o personagem Constantine, criado por Alan Moore com roteiro do celebrado Brian Azarello.

O caso de Grampá contrasta com o espaço reservado à maioria dos autores nacionais, quase sempre espremidos entre editais públicos e a instabilidade de um mercado que investe em novos e promissores artistas, mas que pode estar entrando em recessão. A suspeita é baseada em indícios como o fechamento da Opera Graphica, que há pelo menos 15 anos publicou diversos autores brasileiros. Outros episódios preocupantes: a Conrad, uma das maiores editoras do ramo, teve parte das ações vendidas para poder seguir em frente; Cassius Medauar, responsável pelos quadrinhos da Pixel, pediu as contas ("Acabei não me encaixando mais nos planos da empresa", escreveu no seu blog); e o editor S. Lobo saiu do cargo que ocupava na Desiderata para criar a própria editora, a Barba Azul.

Para Gabriela Javier, atual editora da Desiderata, o ano será de muita cautela. "As empresas devem preferir projetos de retorno garantido, e o retorno financeiro dos quadrinhos ainda não é o mesmo que o de livros de prosa convencional. Espero que os prêmios - tanto os internacionais quanto o Jabuti conquistado pelo Fábio Moon e o Gabriel Bá pela versão em quadrinhos do Alienista - e a adoção pelas escolas públicas dessas publicações ajudem a rebater os efeitos dessa possível retração".

Indo pelo caminho inverso, a Companhia das Letras acaba de lançar o Quadrinhos e Cia, selo exclusivo para o gênero. Os planos são os melhores possíveis: ao lado das HQs Jimmy Corrigan, de Chris Ware, e American Born Chinese, de Gene Yang, serão lançados Jubiabá, adaptação de Spacca para o romance de Jorge Amado, e Cachalote, graphic novel de Daniel Galera e o Rafael Coutinho. "Acho que é um mercado novo, e há vários modelos a serem explorados. Estamos otimistas porque conseguimos uma série de títulos ótimos, porque as edições estão ficando muito bonitas. E porque acreditamos que há um público enorme que não lê quadrinhos, mas que, por inúmeros fatores, está muito mais aberto para começar", afirma o editor André Conti.

A postura otimista é compartilhada por Carlos Mann, ex-editor da Opera Graphica. Apesar da empresa ter fechado as portas definitivamente, ele acredita que a crise mundial afetará o mundo dos quadrinhos não a ponto de haver uma derrocada, mas sim, um resfriamento. "Esta visão fatalista a respeitode 2009 é, a meu ver, equivocada, pois coloca o foco em apenas um dos quadros do mercado brasileiro. Se, por outro lado, olharmos um panorama mais amplo de uma ou duas décadas, teremos uma análise menos pessimista e mais real. Nunca houve tantas editoras de médio e grande portes lançando quadrinhos, muito menos tamanha diversidade de gêneros, estilos e formatos", diz Mann. Apesar da transição acionária, a Conrad também guarda boas notícias: "temos muito material bom para lançar, e certamente o faremos ao longo de 2009", garante o coordenador editorial Alexandre Boide.

Entrevista // Leandro Luigi Del Manto: "Sempre vale a pena investir em talentos nacionais"


Ele comanda o setor de quadrinhos da editora paulista Devir há seis anos, mas desde 1987 atua diretamente no mercado. De forma que Leandro Luigi Del Manto é o nome por trás de alguns dos melhores títulos dos quadrinhos nacionais dos últimos tempos, como as obras dos premiados irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Em entrevista ao Diario, ele diz porque, apesar dos obstáculos que possivelmente surgirão em 2009, o quadrinho nacional tem muito o que comemorar.

Numa perspectiva mercadológica, o que há para comemorar no dia do quadrinho nacional?
Podemos comemorar o número grande de conquistas das HQs brasileiras em território nacional e no exterior em 2008. Devemos aplaudir todos os lançamentos de autores brasileiros e o destaque que receberam lá fora, seja com suas próprias obras, como os gêmeos Gabriel Bá e Fabio Moon, ou desenhando para editoras do mainstream americano, como os talentosos Ivan Reis e Renato Guedes.

Nos últimos anos, a Devir tem investido em alguns títulos nacionais. Vale a pena?
Sempre vale a pena investir em talentos nacionais, mas em 2008 a imprensa deu muito destaque à produção nacional, o que certamente impulsionou o interesse dos leitores por essas obras . A Devir tem em seu catálogo autores já consagrados no mercado de tiras diárias de jornais, como Fernando Gonsales, Laerte e Angeli, entre outros. No entanto, o grande número de lançamentos nacionais por tantas editoras que entraram no mercado em 2008, fez com que segurássemos alguns projetos.

Após um ano de euforia, há quem defenda que 2009 será um ano complicado para o mercado nacional. Você concorda?
Acho que será um ano difícil, sim. Embora em 2008 tenhamos visto muitos lançamentos nacionais, alguns foram feitos de maneira não muito séria por editoras pequenas que se aventuraram num mercado extremamente competitivo. Então, o final de 2008 foi um momento de todos colocarem os pés no chão e fazer as contas na ponta do lápis. Assim, quando começamos o ano em plena crise econômica mundial, dizer que 2009 será um mar de rosas seria um ato de inconsequência. Devemos ter consciência de que, independentemente da qualidade ou da autoria, as HQs são entretenimento. Por causa disso, nesse momento de controlar custos e fazer cortes orçamentários, a primeira coisa que as pessoas deixam de comprar é tudo aquilo que não é essencial. Assim, creio que as editoras terão de ser mais dinâmicas e criativas com seus lançamentos para chamar a atenção de seus leitores.

Restauração Pernambucana ganha versão quadrinizada


CAPA // No Recife, Dia do Quadrinho Nacional é celebrado com lançamento

Várias cidades comemoram hoje o Dia do Quadrinho Nacional com exposições e palestras. No Recife, será lançada Heróis da Restauração Pernambucana (100 páginas, R$ 20), adaptação do livro do historiador José Antônio Gonsalves de Mello, quadrinizada por Amaro Braga, Danielle Jaimes e Roberta Cirne, o mesmo trio responsável pela série Passos perdidos, que reconta a trajetória dos judeus em Pernambuco a partir do livro de Tânia Kaufmann.

O evento é gratuito, e está marcado para as 19h de hoje, na Livraria Cultura (Paço Alfândega), e conta com duas palestras: uma, sobre outras obras que contam a história de Pernambuco em quadrinhos, e outra sobre histórias em quadrinhos feitas por pernambucanos, como o célebre Péricles, criador do famigerado personagem O Amigo da Onça.

Publicado com recursos do Funcultura, o que permitiu a impressão de mil cópias, Heróis da Restauração Pernambucana é dividido em quatro blocos. Cada um apresenta personagens essenciais na luta pela expulsão dos holandeses do território nacional, em1654: Henrique Dias, João Fernandes Vieira, Felipe Camarão e Antonio Dias Cardoso. "Um negro, um mestiço, um índio e um português. Ali se deu a formação da identidade brasileira", afirma Braga, professor de sociologia que assina o roteiro da obra.

Braga conta que encontrou no meio acadêmico um campo fértil e praticamente virgem para adaptações para os quadrinhos, linguagem que pode quebrar a resistência à temas considerados difíceis. "Não se trata de uma simplificação de um texto, pois a linguagem sequencial é mais do que isso. É uma maneira convidativa, lúdica e prazeirosa de escoar a produção acadêmica", conta o autor, cujo plano de distribuição inclui escolas estaduas, onde a revista será adotada como material paradidático.

Estilhaços no sonho americano



Adaptação do livro homônimo de Richard Yates, o drama conjugal Foi apenas um sonho (Revolutionary road, 2008) marca a volta do diretor Sam Mendes a um tema já introduzido em Beleza Americana (1999): o questionamento das normas e convenções sociais baseadas no american way of life. É emblemático que o tempo-espaço estabelecido seja o subúrbio de Nova York dos anos 1950, época em que o império se afirmava a partir de estereótipos como o da família feliz, mesmo que às custas de alguns amantes e um emprego medíocre.

Tudo isso se materializa na história dos Wheller (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), jovem casal tido pelos vizinhos como modelo de família feliz. Exceto pelo fato de April, a esposa, não reconhecer mais no marido Frank, que galga carreira de vendedor para sustentar os filhos, a pessoa brilhante com quem se casou anos atrás.

Decidida a reavivar a relação, ela propõe uma fuga definitiva para Paris, o que gera curiosas reações nos vizinhos e colegas de trabalho. A mais interessante vem da figura louca(ou enlouquecida por pais alienados e ultraconservadores) e sincera de John Givings, interpretado por Michael Sannon, não por acaso indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

Não deixa de ser irônico que o longa seja estrelado pela dupla DiCaprio e Winslett, eternizada como o casal apaixonado de Titanic. Onze anos depois, essa imagem é finalmente estilhaçada por Mendes, numa produção que reduz o sonho americano a uma fuga confortável, vazia e sem esperança.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Fundarpe concede autonomia à literatura


Criação de uma pasta específica para o setor, antes atrelado às artes plásticas/gráficas, sinaliza nova disposição do governo com as letras
André Dib // Especial Para o Diario

A notícia ainda não foi divulgada oficialmente, mas desde outubro Pernambuco conta com uma coordenação específica para a literatura. O escritor e jornalista Samarone Lima foi nomeado para a pasta, até então conjugada com artes plásticas e gráficas, sob responsabilidade do artista plástico Félix Farfan. "Muitas pessoas ainda não estão sabendo porque foi uma entrada mansa. Antes de convocar o setor, precisei de um tempo para conhecer melhor a nova casa", disse Samarone à reportagem do Diario.

A missão do novo coordenador será desenvolver no âmbito da literatura as diretrizes estabelecidas pela política cultural da gestão estadual. Para ele, o desmembramento para uma coordenadoria exclusiva foi um movimento natural por parte da Fundarpe. "O objetivo é colocar a literatura na pauta da sociedade. O estado tem tradição de grandes vôos na literatura, e como não havia uma interlocução específica, esse trabalho estava sendo tocado com certa dificuldade".

Nascidono Crato, interior do Ceará, Samarone Lima se mudou em 1987 para o Recife, onde se formou jornalista pela Universidade Católica. Na imprensa, foi repórter do Diario de Pernambuco e da revista Veja, entre outros veículos. Como escritor, sua trajetória inclui passagem por pequenas e grandes editoras, onde publicou quatro livros. Outros dois estão em gestação: Adiós Nonino, sobre uma visita recente a Cuba; outro, baseado nas viagens que fez Brasil afora com o espetáculo Nau, de Ariano Suassuna.

Durante as viagens com a trupe de Suassuna, Samarone constatou que a presença de bibliotecas e livrarias nas cidades do interior é praticamente nula. Por isso, um primeiro passo no sentido de interiorizar a ação da coordenadoria será incluir a dimensão literária no circuito Pernambuco Nação Cultural. Enquanto isso, parcerias estão sendo estabelecidas com a UFPE, Companhia Editora de Pernambuco e da sociedade civil, através de ONGs como o Centro Luiz Freire, Pontos de Cultura e bibliotecas comunitárias. "Temos acesso ao registro dos fóruns realizados nas 12 regiões de Pernambuco, e acredito que podemos fazer muito articulando projetos isolados e promovendo encontros estaduais".

"Sou uma pessoa apaixonada pela literatura. O desafio é transformar isso em políticas públicas, articular parceiros, e pensar projetos", avalia Samarone. Para chegar a tanto, seu maior trunfo está na valiosa experiência de educador, desenvolvida nas Oficinas da Palavra com jovens do projeto Oi Kabum!. Nada mais emblemático do que o fato dos dois integrantes da nova equipe, Gabriela Alves Lima, 22 anos, e Aldemir Félix, 21 anos, virem justamente desse contexto. "Lá, lidando com alunos que antes odiavam livros, eu vi como a literatura pode transformar a vida das pessoas", conta o escritor, que pretende interagir em bairros com histórico de violência, como o Santo Amaro, em parceria com o Pacto pela Vida. "Um jovem com um livro de poesia na bolsa está mais protegido", acredita.

Apesar do orçamento para 2009 não ter sido revelado, Samarone adianta algunsplanos, como a criação dos agentes de leitura (nos mesmos moldes dos agentes de saúde) e do selo Amigo do Livro, que premiará os melhores projetos de leitura com incentivo financeiro para aquisição de acervo. "Se conseguirmos articular esses primeiros projetos, começaremos a respirar literatura e pensar em passos maiores".

A publicação de livros, que talvez seja a demanda mais forte a ser enfrentada pela coordenadoria, terá regras a serem estabelecidas por um conselho editorial, ainda não definido. "É a maneira mais democrática de não privilegiar ninguém, pois diariamente chegam propostas de todos os tipos", explica Samarone que, enquanto não conta com um espaço definitivo nos prédios da Fundarpe, informa o email para os primeiros contatos: literatura.fundarpe@gmail.com .

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Realidades paralelas de Lírio


Retrospectiva da obra do cineasta pode ser vista no contexto da evolução do "novo cinema de PE"
André Dib // Especial para o Diario

O Cinema do Parque exibe hoje, a partir das 14h, uma retrospectiva do cineasta pernambucano Lírio Ferreira. Fazem parte da mostra os curtas O crime da imagem, That´s a lero lero, e os longas Baile perfumado, Árido movie e Cartola - Música para os olhos.

Colocados em perspectiva, os cinco filmes permitam observar tanto a trajetória do cineasta, quanto a evolução do cinema pernambucano nas últimas décadas. Em conversa com o Diario, Lírio Ferreira diz que, se há conexão entre seus filmes, ela está na representação de diferentes mitos, sob um olhar ou foco de análise nem sempre vinculado à realidade.

Esse é o caso de O crime da imagem (1989), onde se narra o suposto episódio em que Antonio Conselheiro parte para sua peregrinação após assassinar a esposa e a própria mãe. "Esta é uma explicação popular, que depois se provou não ser verdadeira", conta Ferreira. Dois anos depois, com That's a lero lero (dirigido com Amin Stepple), outra fabulosa história é retomada: uma noitada de 1942, quando o cineasta Orson Welles se jogou com três companheiros na boemia do Recife.

A parceria com Stepple seria a primeira de muitas, sendo a estabelecida com Hilton Lacerda a mais constante (o roteirista e diretor participa de todos os seus filmes), e com Paulo Caldas a mais emblemática, pois Baile perfumado (1996) é o primeiro longa feito em Pernambuco após uma "seca" de quase 20 anos.

Ao contar a aventura do libanês que filmou Lampião e seu bando, Baile perfumado inaugurou um novo capítulo para o cinema pernambucano, ciclo que vem sendo reconhecido internacionalmente pela força renovadora e criativa, e que parece estar longe de terminar. "Se fosse feito hoje, nem sei como seria, pois ele é um retrato daquela época, em que a cidade fervia na produção musical, de cinema e artes plásticas", lembra o diretor.

Quase dez anos depois, Árido movie (2005) tardou, mas chegou. Ofilme conta a história de Jonas, que após vários anos trabalhando em São Paulo, retorna ao sertão pernambucano para o enterro do pai. O elemento transcendental está na figura de Meu Pai (Zé Celso Martinez), personagem baseado na história real de Meu Rei, falecido líder de uma seita que acredita na imortalidade através do consumo da água "da vida".

Por fim, Cartola - Música para os olhos (2007) recria o contexto social, político e cultural do período vivido pelo antológico sambista. Feito em parceria com Lacerda, a montagem é um dos grandes méritos do longa: hipertextual, imprevisível, caótica.

Esta incursão pelo gênero documentário levou Lírio Ferreira a seu mais recente projeto, intitulado O homem que engarrafava nuvens. O filme, que gira em torno do compositor popular Humberto Teixeira, já circula nos festivais mundo afora, e aguarda resposta do Cine PE para estrear no Nordeste em abril.

Entre imagens próprias e de arquivo, intérpretes como Chico Buarque, David Byrne e o próprio Luiz Gonzaga cantam músicas do autor de Asa branca. "É um filho direto de Cartola, com a diferença de que, por tratar do baião, é mais alegre e colorido", conta o diretor que, enquanto viaja com o novo longa, escreve (com Sérgio Oliveira e o carioca Fellipe Gamarano) o roteiro de Sangue azul, o retorno do cineasta ao universo da ficção.

Serviço
Cinema Falado, com Lírio Ferreira
Quando: Hoje, a partir das 14h
Onde: Cinema do Parque (Rua do Hospício, 81 - Boa Vista)
Informações: 3232-1553. Entrada franca

sábado, 24 de janeiro de 2009

Lula, o filme, chega às telas este ano


Diretor Fábio Barreto pretende estrear a cinebiografia ficcional do presidente em outubro
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

Garanhuns - No set de Lula - O filho do Brasil, Fábio Barreto agia de forma um tanto apreensiva. No terceiro dia de filmagens, repetiu pelo menos uma dezena de vezes a cena da partida do pau-de-arara, que conduziu a família de Dona Lindu de Caetés ao litoral paulista. Um perfeccionismo mais do que justificado, considerando a importância da história a ser retratada. Inicialmente, o filme seria um documentário. Três anos atrás, quando se optou pelo gênero ficcional, o filho mais novo de Luiz Carlos e Lucy Barreto foi uma escolha natural para conduzir a produção. Em entrevista exclusiva ao Diario, Barreto revela detalhes do que pode ser seu mais ambicioso projeto, que deve estar nos cinemas ainda em 2009.

Entrevista // Fábio Barreto: "Estaremos no Oscar do ano que vem"

Uma inevitável dúvida paira sobre as implicações políticas de produzir um filme sobre um presidente em exercício, que certamente estará em cartaz em ano eleitoral. Como você vê esta questão?
Este é um filme sobre o lado humano de Lula, não o político. Tanto que o filme termina em 1980, com o enterro de Dona Lindu. O único momento em que se toca em política é no contexto de líder operário, onde mostramos nele a preocupação de não deixar o sindicato ser tutelado por nenhum partido político. Para ele era fundamental defender o direito do trabalhador, não pela via partidária, pois Lula era um humanista. Daí ele ter chegado onde chegou.

Qual o conceito do projeto?
Esse filme trata principalmente de três esferas. A primeira é a da perda e superação. A segunda, é a da relação entre mãe e filho, ou seja, como o filho herda de uma maneira muito forte uma base moral e ética muito profunda, de uma guerreira que arrancou sete filhos do nordeste em um pau de arara. É bom lembrar que Lula nasceu em uma época em que o índice de mortalidade do Nordeste era de 35%. E a terceira é sobre a família, os Silva, que passaram pelo mesmo destino de outras milhares de famílias brasileiras.

O filme é uma adaptação do livro de Denise Paraná?
Não. O livro da Denise é uma rica coletânea de informações e depoimentos. Fizemos do filme uma ficção mesmo. Creio que o gênero desse filme é o da "dramaturgia de informação".

Então seria uma cinebiografia?
Sim, uma cinebiografia ficcionada. Como existem várias: Ghandi, Nixon, Bush, Chaplin. Lula hoje é uma personalidade brasileira do nível e extensão somente comparável a Carmem Miranda e Pelé.

O filme pode saciar o que seria uma curiosidade mundial em torno do presidente?
Ele vem exatamente para isso. Temos um plano de fazer um lançamento continental em setembro ou outubro, e depois na Europa. Assim como o lançamento no circuito comercial, pois não queremos entrar em 2010, que será ano eleitoral. Além disso, outubro é uma boa época para estar entre os filmes com potencial para o Oscar. Essa é uma certeza que eu tenho: a de que estaremos no Oscar do ano que vem.

Que estética foi adotada para o filme?
Estou tentando romper com o que fiz até agora em termos de linguagem com a câmera, tentanto dar a maior força possível para o que está sendo encenado, da mise en scène à marcação de atores. A fase Nordeste é muito despojada e simples. Escolhi uma abordagem em que a câmera participe o mínimo das situações. Indo para Santos, a família sai de uma realidade para outra, igualmente adversa, só que mais violenta, marcada pelo alcoolismo de um pai doente, que reprimia muito os filhos. Aí, sim, usarei mais interferências e movimentos de câmera. Em termos de referência visual, vejo uma mistura louca entre Sangue negro, de P.T. Anderson, que seria o máximo do épico, até Gomorra, por ser uma ficção feita como se fosse documentário.

E quanto à trilha sonora?
Estou conversando com Jaques Morelenbaum, que já trabalhou comigo em A paixão de Jacobina e em O quatrilho. Por se tratar de um filme histórico, que vai de 1945 a 1980, também vamos ter trilha incidental para pontuar cada época. Teremos de Luiz Gonzaga a Ray Conniff, que a família de Lula ouvia bastante em São Paulo. Vamos investir na própria Dona Lindu, que cantarolava músicas de Jackson do Pandeiro.

Uma das características dos filmes da LC Barreto é a de fazer filmes em família. Como tem sido essa experiência para você?
Tem suas vantagens e desvantagens. Por um lado, todas são pessoas do mais alto nível e gabarito. Meu pai é o maior produtor de cinema da América Latina, com milhões de prêmios internacionais, e trabalhar com ele significa ter condições que raramente são providas em outras situações. A desvantagem é que entre família tudo é mais passional. Rola briga, desgastes, estresses, e às vezes as relações afetivas se sobrepõem às profissionais. Às vezes sou tratado mais como filho do que como diretor.

Hijos del Mar traz engajamento ensolarado


Uma banda nova estréia na noite de hoje. Fruto da miscigenação das culturas pernambucana e portenha, a Hijos del mar se apresenta no Quintal do Lima, em Santo Amaro. Antes, haverá show do grupo Embuás.

A Hijos del mar nasceu em Buenos Aires, cidade natal do cantor, compositor e instrumentista Santiago, que desde 2007 mora no Recife. A banda se renova a partir da junção do criador do projeto com músicos atuantes no eixo Recife/Olinda, a saber: Paes (baixo), Kuka (trompete e percussão) e Iezu Raeru (bateria).

Paes é mais conhecido por seu projeto autoral, baseado no samba. Por sua vez, Raeru acumula a função nos grupos Embuás, Backin' Ball Cats Barbies Volcals, Sabiá Sensível e Trio Pouca Chinfra. O repertório de hoje é composto de músicas da primeira fase da banda, e também de outras, inéditas, que em breve devem virar CD.

O nome da banda faz referência aos filhos de vítimas da ditadura argentina, cujos corpos muitas vezes eram jogadas ao mar. Para Santiago, está é uma história muito pessoal. "Meu pai foi sequestrado em 1978, e até hoje não sabemos o que aconteceu com ele", diz. Além do contexto daquele período, as letras abordam temas contemporâneos. "Sou da geração seguinte. É outro ponto de vista", explica Santiago, que também fará as vezes de DJ na festa de hoje.

Serviço
Quando: Hoje, às 22h
Onde: Quintal do Lima (Rua Capitão Lima, 100 - Santo Amaro)
Quanto: R$ 6
Informações: 3221-6552

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A saga dos Silva do Brasil


Da pacata Caetés, seguindo o fluxo migratórioi para o Sudeste, saiu uma mãe acompanhada de sete filhos, um deles se tornaria mais tarde o presidente do país

André Dib // Enviado Especial

Garanhuns - O ano é 1952. Na estrada de chão batido, o motorista do pau-de-arara aguarda os passageiros se acomodarem na boléia de madeira. A lotação se faz rapidamente, com homens em busca de trabalho, uma mulher grávida e o marido, e uma mãe acompanhada de sete filhos, um deles ainda no colo. Lobo, o cão, quer se juntar ao grupo, mas acaba deixado para trás, se misturando com a poeira. A bela cena contrasta com a dureza da viagem, uma das tantas daquela época marcada pelo fluxo migratório para o Sudeste. O que ninguém poderia imaginar é que naquele grupo que enfrentou 13 dias de estrada e amargou a morte de uma menina estaria o futuro Presidente da República.

Esse é o mote de Lula - filho do Brasil, longa-metragem de Fábio Barreto que começou a ser rodado na última terça-feira, nos arredores do município de Caetés, no Agreste pernambucano, onde a equipe permanece até a tarde de hoje. Anteontem, a reportagem do Diario visitou o set da produção, montado na zona rural de Capoeiras. Frei Chico, irmão mais velho do presidente, que acompanhou as filmagens sentado ao lado do diretor, e estava visivelmente tocado pela dramatização daquele difícil momento vivido na própria pele. "Foi muito forte", disse, enquanto observava o caminhão partir. Terminada a gravação, ele fez questão de ajudar os figurantes a descer precária estrutura.

A atriz global Gloria Pires, que aqui incorpora Dona Lindú, se disse totalmente envolvida com a personagem. "Reconheço a responsabilidade que é interpretar a mãe de um presidente, mas a história de Dona Lindú simboliza as milhares de mães heroínas, que criam seus filhos mesmo com todas as dificuldades. Ao mesmo tempo, ela oferece uma ideia de vida, um exemplo de estrutura familiar muito raro, que não tem a ver com dinheiro, mas com caráter", comentou a atriz, que no dia anterior contracenava com Milhem Cortaz, que interpreta Aristides, o pai do pequeno Luiz Inácio.

Mais conhecido como o Capitão Fábio, o "número 2" do filme Tropa de Elite, Cortaz disse que impôs a si o desafio de mostrar um outro lado do pai que abandona a família em prol de outra mulher. "Estou criando o meu próprio Aristides. Tenho distanciamento para perceber que ele foi aquela pessoa dura, que abandonou a mulher e filhos, mas que também era pacato, e sentia amor pela família. Se eu for capaz de mostrar uma parte desconhecida deste pai, a ponto de criar dúvidas na própria família Silva, terei meu papel cumprido", disse o ator, que ressalta o caráter decisivo do pai para definir alguns traços de caráter de Lula, assim como seu futuro não no Agreste pernambucano, mas nas indústrias do ABC paulista.

Para entrar em contato com essas origens, o ator Rui Ricardo Dias, que será Lula na idade adulta, esteve presente nas locações. Com barba cheia e oito quilos a mais, ele disse que para compor seu personagem, ele buscou referência em filmes que retratam Lula em diferentes momentos, como ABC da greve, de Leon Hirzman, Peões, de Eduardo Coutinho e Entreatos, de João Moreira Salles.

"Não estamos preocupados em reproduzir como Lula fala ou anda, mas em como ele se sentia, quais são suas dores e alegrias. Quero me dedicar às questões emocionais, subjetivas, que acaba por revelar as atitudes objetivas. São das questões internas que nasce a verdade entre ator e personagem", revela o preparador de elenco Sérgio Penna, que com isso dá pistas de qual será a essência do longa-metragem.

Família unida nos bastidores

Matéria de capa // Clã Barreto participa de várias funções na produção de Lula o Filho do Brasil, filme orçado em R$ 12 milhões e que não terá recursos públicos

"Tem um cara de branco atrapalhando o quadro!", bradou o contra-regra. Os olhares se voltaram para o intruso, ninguém menos do que Luiz Carlos Barreto. A brincadeira com o produtor, que circulava no set como se estivesse em casa, descontraiu a equipe por alguns segundos. É possível compreender sua postura, ao mesmo tempo profissional e afetiva, pelo fato de que Lula – o filho do Brasil é basicamente um projeto tocado em família: os filhos Paula e Fábio assinam, respectivamente, produção e direção; e Lucy, a esposa, divide a produção geral com o próprio "Barretão", como é mais conhecido o patriarca.

Há também o fotógrafo Gustavo Hadba, que não tem ligações sanguineas com os Barreto, mas trabalhou em vários filmes produzidos pelo clã. Sua experiência como cinegrafista de Miguel Arraes, com quem viajou todo o estado nos anos 1980, dá segurança para a aposta na dura luz do meio-dia, com sombras e sem truques de embelezamento. "Busco a luz como ela é aqui, cruel, não-cosmética", revela.

Atenta a cada movimento estava Denise Paraná, co-roteirista e autora do livro que originou o filme. "Esta é a realização de um sonho de 18 anos. Quando comecei a pesquisa, as histórias que Lula me contava nas entrevistas com uma plasticidade tão grande que parecia um filme", contou a jornalista. Ela disse que o objetivo é reproduzir a realidade, mas com algumas licenças poéticas. "Nós queremos mostrar a formação do personagem, para que as pessoas entendam suas motivações". Durante a conversa com o Diario, ela revelou que sua próxima biografia será de Luiz Carlos Barreto, projeto em que já está trabalhando.

As filmagens em São Paulo começam neste domingo, e seguem até o fim de março, com locações na Igreja Matriz de São Bernardo no antigo Estádio da Vila Euclides, local do antológico discurso para milhares de operários. O objetivo é que o longa fique pronto em setembro, a tempo de ser exibido em pelo menos cinco países, a convite dos festivais de Toronto, San Sebastian, Roma, Latino LA (EUA) e Internacional Lima, no Peru.

Segundo a assessoria de imprensa da LC Barreto, ainda não foram divulgados os patrocinadores do filme, orçado em R$ 12 milhões, porque a captação ainda não está completa. O único consenso é que não haverá dinheiro público para que não acusem o filme de chapa branca. No entanto, inevitáveis comentários surgiram pelo o fato do lançamento no circuito comercial estar marcado para janeiro de 2010, ano de eleição presidencial.

O bem amado reencarna em Marechal Deodoro

Começaram ontem as filmagens de O bem amado, novo longa de Guel Arraes. O município escolhido como cenário é Marechal Deodoro, no interior de Alagoas. A equipe, que conta com os atores Caio Blat, Mateus Nachtergaele, Tonico Pereira e Maria Flor, chegou anteontem na histórica cidade. Antes, eles concederam coletiva de imprensa com a presença do governador do estado, Teotônio Vilela Filho. O ator Marco Nanini, que interpretará o lendário coronel Odorico Paraguaçu, tem chegada prevista para o sábado.

Escrita por Dias Gomes, com Paulo Gracindo no papel principal, a telenovela O bem amado bateu recordes de audiência na TV brasileira nos anos 1970, se tornando uma referência na teledramaturgia. O longa-metragem é produzido por Paula Lavigne (Natasha Filmes), em parceria com a Globo Filmes e a Buena Vista Internacional. O roteiro é Claudio Paiva e do próprio Guel Arraes, que já produziu outros filmesfortemente ligados à TV e teatro, como O auto da compadecida, Lisbela e o prisioneiro e A grande família.

Segundo Paula Lavigne, a versão cinematográfica não vai ser influenciada pela famosa adaptação televisiva. "Como as duas versões são baseadas na mema peça original, é natural que surjam diversos pontos em comum, mas vamos acrescentar, por exemplo, cenas narradas sob o ponto de vista do antagonista, intepretado por Tonico Pereira", prevê a produtora.

No mês passado, Guel e Lavigne estiveram em Pernambuco, e consideraram o Sítio Histórico de Olinda como forte candidato a locação. "Desistimos por causa da proximidade com o período carnavalesco. Seria inviável. As filmagens são uma verdadeira operação de guerra. Teríamos que interromper as ruas e pedir silêncio. Não queríamos atrapalhar a festa", justifica Paula.

O bem amado será um filme de época, pois Guel Arraes optou por manter o contexto histórico do texto original, ambientado na década de 1920, um pouco antes da Revolução de 30. As filmagens em MarechalDeodoro devem durar duas semanas. Logo após, a equipe vai ao Rio de Janeiro, rodar em cidades do interior e em estúdios, durante mais um mês de trabalho. Recentemente, Nanini intepretou o mesmo personagem no teatro, mas, de acordo com Paula, apesar da coincidência, os dois projetos não têm relação entre si.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Narrativas gráficas, de Will Eisner, em nova edição pela Devir



A Devir vai lançar a segunda edição de Narrativas gráficas, de Will Eisner. Assim como o clássico Quadrinhos e arte sequencial, também de sua autoria, o livro
é pioneiro na sistematização e definição dos conceitos que regem a linguagem das histórias em quadrinhos.

Usando exemplos de mestres como Harold Foster, Robert Crumb, Art Spiegelman, Al Capp e George Herriman, Narrativas gráficas é baseado no legendário curso de Will Eisner na Escola de Artes Visuais de Nova York, que inspirou gerações de artistas e estudantes.

Costa-Gavras apresenta novo filme no Brasil


Constantin Costa-Gavras virá ao Brasil no mês de abril, para apresentar seu novo longa, O Éden está à oeste (Eden à l'ouest).

O cultuado diretor greco-francês será o grande convidado da 13ª edição do Cine PE – Festival Audiovisual do Recife, marcado para o período entre 27 de abril e 3 de maio. O filme será exibido fora de competição, na noite de abertura.

A informação foi confirmada hoje por Alfredo Bertini, da BPE Produções, empresa responsável pela realização do evento.

"Este é o ano da França no Brasil e, neste sentido, a presença de Costra-Gavras é bastante emblemática", comentou Bertini.

Costa-Gavras, que entre em fevereiro presidirá o júri do 59º Festival de Berlim, na Alemanha, deve desembarcar na capital pernambucana no dia 26 de abril, um dia antes da abertura do Cine PE.

Bertini não adiantou detalhes sobre a agenda do cineasta, pois ela ainda não está definida, mas afirmou que ele passará cinco dias em Pernambuco.

Autor de clássicos da cinematografia européia, Costa-Gavras é conhecido por produzir filmes críticos e de forte teor político-social.

Z, Amén e O quarto poder são três de suas melhores e mais conhecidas obras. Em O Éden está à oeste, o diretor trata do fluxo de imigrantes ilegais nos países da União Européia.

Bertini também antecipou algumas das oficinas em planejamento para este ano, entre elas, cinema e literatura, economia da cultura, co-produção internacional e preparação de elenco.

Mais uma batalha dos Guararapes


Há três semanas o multiartista Lula Côrtes assumiu a gerência municipal de cultura de Jaboatão dos Guararapes. A nomeação, evidentemente carregada de simbolismo, provoca a imaginação e acende uma inevitável expectativa sobre o que vem por aí. Por um lado, ninguém melhor do que um representante da categoria para conhecer e pensar soluções para transformar a cidade em território favorável às atividades culturais. Por outro, é preciso concatenar sua estreia no ofício com os melindres políticos e entraves burocráticos que costumam reinar nas administrações públicas.

O notório músico, escritor e artista plástico chegou à função por indicação do radialista Ivan Lima, atual secretário municipal de cultura, turismo e esportes. O convite foi aceito de imediato. "Nunca fui conivente com política de exploração. Não gostava da forma como se comportava as gestões anteriores, e nunca quis me comprometer com esse tipo de convívio. Com a posse de Elias Gomes, que é umapessoa que confio, de palavra firme, eu não pensei duas vezes", conta Côrtes.

A primeira conquista chegou cedo: semana passada, a festa de Santo Amaro, que já chegou a custar R$ 80 mil, foi realizada a custo zero para os cofres públicos. "Não havia um centavo disponível. Fomos ao local, falamos com os barraqueiros e parques de diversão, e colocamos a condição de que, para participar do evento, seria necessário pagar uma taxa para a paróquia. Por sua vez, a paróquia pagou as bandas da festa. Tudo custou R$ 16 mil, sem nehum ônus para a prefeitura", relata Côrtes.

As intenções são as melhores possíveis, e os planos também. Ainda esta semana, será lançado o calendário cultural da cidade, que traz boas surpresas: em março, haverá o festival Patativa do Assaré, um encontro entre repentistas e cordelistas; em setembro, um festival de música. Ainda nos planos estão uma feira literária, a implantação do fundo municipal, a reabilitação do conselho municipal de cultura, e a criação de fóruns em cada distrito da cidade.Ainda este mês, o jingle oficial da gestão, com arranjos de hip hop, será gravado pelo próprio Côrtes (veja letra no box).

Segundo Ivan Lima, a captação de recursos via iniciativa privada será ponto fundamental da nova gestão. A começar pelo Carnaval, cuja licitação para os festejos de 2009 e 2010 foi aberta na última sexta-feira, e já conta com a partipação de uma famosa cervejaria. O objetivo é montar seis polos, um em cada região, com decoração feita com material reciclável por grupos da terceira idade. A programação privilegiará agremiações, caboclinhos, marcatus e escolas de samba do município. Não haverá prévias, mas está confirmada a gigantesca Orquestra Jaguar, com seus 567 integrantes, e uma Noite dos Tambores Silenciosos, no sábado seguinte ao Carnaval.

A decisão em terceirizar os recursos também vale para o São João e a bicentenária festa da Pitomba, e libera o pequeno orçamento da gerência, algo em torno de R$ 2 milhões, para investimento em projetos de capacitação, que funcionarão como "vasos capilares" para chegar a diferentes locais. "Esse trabalho é uma extensão do que já venho desenvolvendo. Tive uma escola onde cuidei de 80 meninos de rua, sem apoio algum da prefeitura. Agora vou poder ajudar 80 mil meninos", vislumbra Côrtes, prestes a dar os primeiros mergulhos nas comunidades.

Antes, a ideia é promover o cadastro cultural dos artistas da cidade. "Nossa matéria-prima é o talento dos nossos artistas. Na medida em que eles foram abandonados pelas gestões anteriores, ficaram apenas alguns focos de resistência. A função dessa nova gestão é reverter isso da maneira mais prática, que é a inclusão de artistas através do cadastro", explica Côrtes.

Olinda e Recife também estão nos planos da gestão, que quer estreitar laços com administradores e artistas vizinhos, e buscar alinhamento com os modelos estadual e federal. Um primeiro movimento nesse sentido ocorreu anteontem, em encontro com a presidente da Fundarpe, Luciana Azevedo. Na pauta da parceria está a recuperação de pontos estratégicos como a Casa Emílio de Morais, o Monte dos Guararapes e o Cine Teatro Samuel Campelo.

Na terça-feira que vem, Côrtes estará ao lado do secretário de cultura do Recife, Renato L, em palestra às 19h, no auditório da Livraria Cultura. "Defendo uma única obra para o bem de todos, e a necessidade de intercâmbio. Porque privar o povo de Jaboatão das obras de um artista de Olinda? Agora ficou mais fácil, porque as pessoas que estão ocupando os cargos públicos estão abertas ao diálogo", afirma Côrtes, em pleno recrutamento de forças para esta, que pode muito bem ser batizada de "nova batalha dos Guararapes".

Saiba mais

Conheça a nova equipe de cultura de Jaboatão:
Ivan Lima - secretário de cultura, turismo e esportes
Lula Côrtes - gerente de cultura
Roseane Cabral - coordenadora de fomento
Felipe Cabral - captação de recursos
Luzarcus, assessor técnico
Jota Andrade - coordenação de artes cênicas
Cordelista Cobra - coordenação de eventos
Lenemar - educadora popular

Recado para a juventude (Lula Côrtes)

Pense melhor,
Viva melhor
Lance o pensamento nas alturas,
Junte-se a nós,
E vamos promover a ruptura

Poder andar na sua cidade com cabelo ao vento,
E ter coragem de abraçar o novo movimento,
Ao sair para trabalhar com seu olhar brilhante,
Vivendo com dignidade assim como era antes,
Cruzando a rua sem ter medo,
E em cada cruzamento dar outro passo pro futuro,
Sem perder seu tempo.

Tente lembrar que nessa vida,
O bom é a plenitude,
Saiba que nada se conquista,
Sem ter atitude,
Não tenha medo do que é novo,
E abra o coração,
Para cantar o novo hino de Jaboatão.

Pense melhor,
Viva melhor
Lance o pensamento nas alturas,
Junte-se a nós,
E vamos promover a ruptura.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cinema é um ótimo negócio


Luiz Severiano Ribeiro ergueu um verdadeiro império de salas de exibição espalhadas pelo país; sua trajetória é contada em livro lançado pela Record
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

São Luiz, Odeon, Moderno, Majestic, Palácio. Por trás das maiores salas de cinema, havia um único homem: Luiz Severiano Ribeiro. Fundador da rede de exibição que por décadas foi a maior do país (hoje perde para o grupo estrangeiro Cinemark), o empresário cearense viveu entre 1885 e 1974. Através de uma terceira geração de descendentes, seu legado empresarial chega aos dias de hoje com mais de 200 salas no país. Elas atingem números surreais, como a marca de 15 milhões de espectadores por ano.

Essa trajetória, que se mistura com a história da própria indústria cinematográfica, está contada no livro O rei do cinema - a extraordinária história de Luiz Severiano Ribeiro (Record, R$ 37), do jornalista Toninho Vaz. Entre seus biografados anteriores estão o poeta paranaense Paulo Leminski (também pela Record) e o compositor piauiense Torquato Neto (Casa Amarela).

Lançado no mês passado, o novo livro de Toninho revela passo-a-passo como Severiano construiu seu império. Cearense de Baturité, ele nunca foi movido pelo ideal romântico de exibir filmes. Quando assumiu sua primeira sala, em 1915, não havia rádio, TV ou internet, o que fazia do cinema muito mais do que a maior diversão: era um ótimo negócio. Ele viu na atividade o grande filão na indústria do entretenimento, que deveria ser explorado com o máximo de competência - e o mínimo de concorrência.

Seus primeiros passos em Fortaleza, décadas antes de se consolidar na Cinelândia carioca, já indicavam que ele não levaria muito tempo para Severiano Ribeiro se tornar o grande nome por trás de um fenômeno de massa movido a luz, sombras e gigantescas salas, suntuosas em cada detalhe. Antes mesmo de mergulhar de cabeça na atividade, o empresário já tinha seu nome vinculado a atividades díspares como hotéis, cafés, e a Casa Ribeiro, com filial no Recife. Além disso, era revendedor exclusivo da Antarctica para o Nordeste, comércio que prosperou atrelado à venda de gelo, produto ainda mais precioso naquela época.

Por essa voraz propensão ao monopólio, ao passo em que o império se consolidava nos anos 30 e 40, crescia a antipatia das pessoas. A associação da Atlântida Cinematográfica, conduzida pelo filho Ribeiro Júnior, com a poderosa cadeia de exibição foi o próximo passo. Para se ter uma ideia, lembra o biógrafo, "O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, com Oscarito, teve 15 milhões de espectadores em 1959, época em que o Brasil tinha 60 milhões de habitantes". De acordo com o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (em trecho pinçado pela pesquisa de Toninho Vaz), "uma nova fase de harmonia para o cinema comercial no Brasil, que determinou a solidificação da chanchada e sua proliferação por mais de quinze anos. O fenômeno repugnou críticos e estudiosos".

Na entrevista a seguir, exclusiva para o Diario, Vaz conta como foi o processo de pesquisa, e sua visão sobre o empresário por trás de um mito.

Entrevista // Toninho Vaz: "Poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele"

Leminski, Torquato e Severiano ostentam personalidades distintas entre si. Para reconstruir essas trajetórias você adotou diferentes abordagens ou um método único?
O método é único: pesquisar. Saber o máximo do personagem e jogar luzes sobre sua obra, mostrando a intenção e a ação. Os três eram notáveis pela tenacidade e dedicação exclusiva ao seu ofício. Assim, na narrativa, é preciso aliar as informações colhidas em várias fontes e demonstrar a capacidade de acomodá-las nas personalidades sem criar ficção.

O que os leitores podem aprender com a história de Luiz Severiano Ribeiro?
Essa é a história de como um homem arrojado pode se atirar de cabeça num projeto pioneiro, movido apenas pela intuição de um sucesso improvável. Quando o Severiano conheceu o cinema, em 1910, este ainda era chamado de cinematógrafo, e o tempo perdido com complicações técnicas durante as projeções eram maiores do que os momentos de exibição. Por outro lado, poucos empresários brasileiros souberam tirar proveito do seu tempo como ele, quando funcionava como operador de finanças. Ele comprava com preço fixo em longo prazo, prevendo a inflação, e vendia em curto prazo. Foi pioneiro também na prática do overnight, operando com o dinheiro vivo que saia das bilheterias dos cinemas.

A biografia nasceu de um interesse espontâneo pelo personagem ou foi encomenda da família?
Eu fui contratado para escrever um livro chamado 90 anos de cinema, um álbum de luxo que não foi comercializado. Foi distribuído como brinde do Grupo Severiano Ribeiro para amigos e clientes numa festa oferecida no Rio de Janeiro. O texto era secundário, pois o magnífico trabalho gráfico mostrava dezenas de fotos inéditas do acervo da Atlântida (empresa criada pelo filho, Severiano Ribeiro Jr.) e tinha acabamento de livro de arte. A iniciativa de prosseguir nas pesquisas e fazer um novo livro, com mais investigação e pesquisa, foi minha, em parceria com a editora Record.

Como se deu o processo de busca de imagens, depoimentos e demais informações? Quais foram as dificuldades?
Nenhum sofrimento. As pesquisas foram desenvolvidas por um especialista, Vinicius Braga, que teve acesso ao fantástico acervo de 2 mil fotos da Atlântida e documentos da família Severiano Ribeiro, que ajudou bastante. Meu empenho foi entrevistar cerca de vinte pessoas ligadas a Luis Severiano Ribeiro, sobretudo, ex-funcionários da empresa e atores das chanchadas da Atlântida: Norma Bengel, John Herbert, Agildo Ribeiro, Anselmo Duarte...

Apesar de ter construído um império cinematográfico, a trajetória da família Severiano Ribeiro é pouco conhecida. Como isso se explica?
Eles tinham uma briga crônica com a imprensa carioca. Durante anos as iniciativas de instalações de cinemas na cidade foram muito criticadas, enquanto salas de exibição. Quando o filho, Ribeiro Jr, passou a produzir as chanchadas, a crítica que vinha de setores da esquerda exigia nacionalismo e seriedade temática e técnica nas produções. Mas as chanchadas, mesmo ingênuas e com muitos defeitos técnicos, foram importantes para a implantação e formação de uma platéia brasileira.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Robert e Aline Crumb na Piauí de janeiro



Já não era sem tempo: após publicar trabalhos de Art Spiegelman, Joe Sacco e Angeli, a edição de janeiro da revista Piauí traz uma história inédita do casal Robert e Aline Crumb.

A família Crumb está radicada na França desde 1994. No entanto, nada de aposentadoria. Todos continuam a desenhar HQs, inclusive Sophie, a única filha, hoje com 27 anos.

A HQ publicada na Piauí foi feita por Robert e Aline-Kominsky Crumb, que desenham juntos desde os anos 80.

A história, como sempre uma autoficção (ou seria autobiografia?) versa sobre a vida íntima do casal, quando Aline volta de uma cirurgia plástica para rejuvenescimento facial.

Crumb, que nos últimos tempos vem produzindo sua versão para o antigo testamento, divide com os leitores seu horror em ver o estado do rosto da mulher. "... ela está chafurdando num materialismo nojento! O que ela sabe da extraordinária batalha interior, de quantos mulhares de horas de meditação são necessários para confrontar a verdade, a velhice e a morte?, reflete o desenhista, sentado em sua privada.

Além da espirituosa HQ, a revista traz uma excelente matéria sobre o caricaturista norte-americano David Levine, que após 45 anos trabalhando na New York Review of Books, está aposentando o pincel devido a uma doença degenerativa dos olhos.

A capa da revista também está uma beleza:


Boa leitura!

Adeus, Ricardo Montalbán...



Acabo de saber da morte do ator mexicano Ricardo Moltalbán. Ele tinha 88 anos.

Apesar da longa carreira, cujo auge se deu entre os anos 40 e 60, minha geração o imortalizou em dois papéis: o Senhor Roarke da série de televisão Ilha da Fantasia, e Khan Noniah Sing, o vilão de Jornada das Estrelas que recitava Sheakspeare em pleno espaço sideral.

O Quadro Mágico lhe deseja Vida longa e próspera, mesmo que em outra dimensão, Mr. Montalbán... !!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Poetas urbanos na tela grande

Cineasta Antônio Carrilho arma set de filmagem para retratar a poesia marginal do Recife e de Olinda em curta-metragem



André Dib // Especial Para o Diario
andrehdib@gmail.com

Na última quinta-feira, o clima festivo que tem tomado conta dos Quatro Cantos de Olinda na expectativa do carnaval deu lugar a uma movimentação menos efusiva, mas nem por isso desconhecida aos olhos de quem frequenta o local.

Até porque, bem pouco tempo atrás, boa parte dos recitais noturnos promovidos pelo poeta França aconteciam ali mesmo, na frente do bar de Dona Darcy. Desta vez, o elemento agregador foi a produção do curta-metragem Poeta Urbano, novo projeto do cineasta Antônio Carrilho, premiado diretor de O homem da mata.

No set montado nos Quatro Cantos estavam praticamente todos os representantes poesia "marginal" da cidade. Ou melhor, urbana, como faz questão de diferenciar o poeta Carlos Carlos, autor do argumento que deu origem ao projeto, e que assina o roteiro ao lado de Carrilho. Foi um grande - e infelizmente raro - encontro entre Jorge Lopes, Samuca Santos, Ãngelo Bueno, Valmir Jordão, Cida Pedrosa, Silvana Menezes, Lara, Malungo, Pitanga, Eunápio Mário, Luis Carlos Dias, entre vários outros. Alberto da Cunha Melo, Chico Espinhara, Erickson Luna e França também estiveram lá, em saudosa evocação de todos.

De acordo com Carrilho, o recente falecimento destes poetas foi uma das motivações para realizar o curta. "Em três semanas formatamos e escrevemos o roteiro", disse o diretor. Foram sete dias desta primeira fase, as filmagens, encerradas na segunda-feira passada. Entre as locações, bares do Pátio de São Pedro e da Praça do Sebo (no Centro do Recife), o casario deteriorado da Rua do Sol e da Rua do Imperador, a ponte Princesa Isabel, o Sítio Histórico de Olinda e a periferia do bairro do Cordeiro.

Graças a recursos do concurso Ary Severo/Firmo Neto, e ao apoio do Centro Audiovisual Norte Nordeste (Canne), a produção coordenada por Tiago Melo conseguiu reunir uma equipe de 40 pessoas e equipamento de qualidade, como a câmera Aaton 35mm, grua e traveling. O objetivo é valorizar, com recursos do cinema clássico, um personagem normalmente vistocom preconceito.

O suporte película e o tratamento técnico diferenciado podem ser decisivos para a construção de um novo olhar sobre o tema, mas também geraram alguns obstáculos à realização. Os melindres no manuseio da câmera e a necessidade de muitos ensaios antes de o rodar os preciosos rolos da Kodak atrasaram em três dias o cronograma, transferindo para março o fim das filmagens. Além disso, o suporte película exige um oneroso processo de finalização, o que está conduzindo a um novo processo de captação de recursos para a pós-produção.

Sequências são estrofes, planos são versos

Poeta urbano, o curta-metragem, conta a história de Urbano, poeta que vive de vender um jornal independente que divulga a produção poética da cidade. No entanto, a noite passa e ele não consegue vender nada. Ao contrário do que esperava, Urbano vira alvo de incompreensão e violência, e busca nos amigos que organizam um recital em Olinda a inspiração para seguir adiante.

Urbano tenta vender a coletânea Aciranda poesia urbana, criada especialmente para o filme e que deve ganhar vida própria a partir de agora. O argumento veio do poema Coletivoraz, que recorta toda a publicação de poemas e desenhos. "Vejo esse filme como um poema onde as sequencias são estrofes, e os planos são os versos. É algo intenso, como a poesia de Miró", diz Carlos Carlos, que por 15 anos manteve nas ruas o períodico Poesicanteantroz.

Entre os poetas presentes no set, foi grande a identificação com o personagem. "Urbano sou eu", garante Jorge Lopes, que participou das filmagens do recital. "Poucos fizeram isso. Eu fui um deles", garante Lopes, que viveu 20 anos exclusivamente da venda da coletânea Balaio de gato. "Mais do que a necessidade de sobrevivência, Urbano passa à determinação de um sonho", afirma, com brilho nos olhos.

Carlos diz que a poesia urbana no Recife encontra eco em outros locais e épocas, mas há quem defenda que no Recife esse movimento é muito mais forte. "Morei em muitas partes do Brasil e nunca vi nada parecido com o que existe aqui", afirma Ângelo Bueno. A fala de Valmir Jordão, no entanto, sintetiza o assunto com maestria: "são pérolas que estão por aí, escondidas, esperando para serem colhidas".

Coletivoraz (Carlos Carlos)

Além do desconforto
E de não poder pedir parada
Pior é o perigo de cair no catabiu
Meter a cara na cratera e
Talvez até, ser preso
É, acusado de danificar o asfalto!
Eu acho isso tão comum
Que já está ficando monótono
Só não desisto da viagem
Porque não tenho medo
De acidente de percurso
Eu ainda chego em casa hoje

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A vida íntima do presidente

Trajetória da família Silva será filmada sob o ponto de vista de Dona Lindu, a matriarca que migrou com os filhos de Capoeira, no interior de Pernambuco, para São Paulo


André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

"Se for para me puxar o saco, eu não quero não. Mas se for pra me ajudar a me entender, faça", teria dito o presidente Lula a Denise Paraná, autora do livro Lula - O filho do Brasil. A orientação, acatada à risca pela jornalista, parece ter sido igualmente adotada pela equipe que daqui a duas semanas começa a rodar, nos arredores de Garanhuns, a versão cinematográfica da história de uma das maiores lideranças populares do país.

O conselho do presidente foi resgatado por Luiz Carlos Barreto, o homem forte por trás da LC Produções, empresa dona do projeto. Em conversa exclusiva com o Diario, ele antecipou detalhes da produção, a ser dirigida por seu filho, Fábio Barreto (O quatrilho). De acordo com Barretão (como é conhecido no meio), em momento algum da película serão usadas imagens reais de Lula. Muito menos haverá conotação político-partidária.

O roteiro, escrito por Paraná em parceria com Daniel Tendler e o próprio diretor, se restringe a contar a trajetória da família Silva, sempre sob o ponto de vista da matriaca Dona Lindu (a ser vivida por Glória Pires), da vida simples em Capoeiras (zona rural de Caetés), à sua morte, em 1980. "Você conhece o homem, mas não a sua história", diz o slogan do filme, orçado em R$ 12,7 milhões, e que deve ser lançado simultaneamente em todas as capitais da América Latina, ainda este ano.

Até ontem, Barreto e sua esposa Lucy estiveram no Recife para articular, com a ajuda do produtor Alfredo Bertini, parcerias com o governo do estado e Prefeitura de Garanhuns. "Apoios não financeiros", ressalta o produtor, que não usou dos sistemas de lei de incentivo para evitar qualquer suspeita de que o filme seria "chapa-branca".

Em Pernambuco, serão dez dias de filmagens em Capoeiras e na Serra do Tará, onde será reconstituída a casa onde nasceu Luiz Inácio. A segunda etapa começa em fevereiro e durará oito semanas, com locações em Santos e na periferia de São Paulo, cenário em que se formou o operário e líder sindical.

O elenco ainda não foi oficialmente anunciado, mas é praticamente certa a escalação dos pernambucanos Tay Lopes e Sóstenes Vidal, que farão, respectivamente, Lula (Lopes engordou dez quilos para viver o personagem) e seu irmão Ziza, mais conhecido como Frei Chico. Juliana Baroni será a primeira-dama, Dona Marisa Lima. Cleo Pires, filha de Glória, fará a primeira esposa de Lula.

Quem assina a produção geral é a irmã de Fábio, Paula Barreto. Já a equipe técnica está muito bem definida, com profissionais recorrentes nas produções da família Barreto. A fotografia será de Gustavo Hadba; a arte, de Clóvis Bueno; a montagem, de Letícia Giffoni.

Barreto disse que cinco atores interpretarão Lula, em diferentes momentos de sua vida. Ele não confirmou a escolha, mas deixou a entender que Tay Lopes teria sido escolhido após um teste com mais de 70 atores, selecionados entre 500 candidatos. "Fábio irá bater o martelo ainda esta semana". Leia mais a seguir.

Entrevista // Luiz Carlos Barreto: "O objetivo não é exaltar nada"

Qual o maior apelo da história de Lula, em termos cinematográficos?
A história de Lula é a mesma de milhares de famílias pobres. Ela representa as famílias Silva do Brasil, sobretudo entre os anos 20 e 60, em que houve o deslocamento de populações pobres em busca de sobrevivência. As estradas eram coalhadas de cruzes, de adultos e crianças que morriam no caminho. Só que essa família soube superar as dificuldades e melhorar de vida. Lula e seus irmãos tinham tudo para cair na marginalidade, e essa é a história que ninguém conhece: a da família Silva, que segue para Santos e emerge, contrariando todas as possibilidades.

Como nasceu o projeto?
Em 2003, a pergunta que mais ouvia nos festivais em torno do mundo era: e o Lula? Antes era Pelé, Garrincha, Ronaldinho, mas de uma hora pra outra, era o Lula, e a gente não sabia responder muita coisa. Um dia, conversando com Gilberto Carvalho, que é secretário dele, coloquei essa situação e ele me entregou uma cópia do livro de Denise Paraná. Quando li, pensei: aqui tem um filme. Inicialmente, ele seria um docudrama, com narração de Fernanda Montenegro. Mas como tínhamos outros projetos em marcha, encostamos o projeto. Quando retomamos, a ideia já era fazer um filme de ficção, baseado em fatos reais.

Assim como Lula, o senhor é um nordestino que migrou para o Sudeste. Existe aí alguma identificação pessoal com a história do presidente?
Sim, pois meu pai também sumiu do mundo, e deixou minha mãe com 11 filhos. Fui para o Rio de Janeiro em 1947, não de caminhão, mas de pau-de-arara aéreo, o avião dos Correios, porque eu era do partido comunista do Ceará, e tive que me afastar de lá por causa da perseguição. Lá, sempre recebi muito convite para me tornar político, mas nunca quis. Dizia que o meu partido era o PCB, partido do cinema brasileiro.

O filme será um tipo de cinebiografia?
Não me interessa uma cinebiografia, pois todo mundo sabe quem é o Lula presidente. O que ninguém sabe é quem foi esse personagem, cuja trajetória guarda coisas verdadeiramente surpreendentes. O objetivo não é exaltar nada, nem de culto à personalidade. Por exemplo, todo mundo pensa que Lula tem uma ideologia política, mas a visão de mundo de Lula é a visão de Dona Lindu, uma mulher analfabeta que tem como princípio de vida uma visão da leitura direta e concreta da vida.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os melhores do ano na revista O Grito!



Já que estou mais ausente do que presente nas últimas semanas, recomendo uma visita à revista eletrônica O Grito!, que acaba de publicar sua lista das melhores HQs do ano.



A lista, da qual faz parte O circo de Lucca (Devir), Black Hole (Conrad), Frango com ameixas (Companhia das Letras), Underworld (Zarabatana) e os dois últimos volumes de Sandman (Conrad), foi feita por belo time de convidados, entre eles Paulo Ramos (Blog dos Quadrinhos), Sidney Gusman (Universo HQ), Wellington Srbek (Mais Quadrinhos) e este que vos escreve... !

Boa leitura, e feliz 2009!