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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Fantasma da crise ronda quadrinho nacional


HQ // Com o mercado em ebulição, profissionais dizem que ano será de retração, mas algumas editoras preparam surpresas
André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

Há 140 anos nascia a primeira história em quadrinhos produzida no Brasil: As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, série criada pelo italiano (depois naturalizado brasileiro) Angelo Agostini, e publicada no periódico Vida Fluminense.

Hoje, o caminho inverso foi percorrido: o artista brasileiro Rafael Grampá publicou sua primeira HQ no exterior, para depois conquistar a terrinha com Mesmo delivery (Desiderata), um dos melhores lançamentos dos últimos tempos. O trabalho de estréia rendeu prêmios, elogios e o convite para desenhar o personagem Constantine, criado por Alan Moore com roteiro do celebrado Brian Azarello.

O caso de Grampá contrasta com o espaço reservado à maioria dos autores nacionais, quase sempre espremidos entre editais públicos e a instabilidade de um mercado que investe em novos e promissores artistas, mas que pode estar entrando em recessão. A suspeita é baseada em indícios como o fechamento da Opera Graphica, que há pelo menos 15 anos publicou diversos autores brasileiros. Outros episódios preocupantes: a Conrad, uma das maiores editoras do ramo, teve parte das ações vendidas para poder seguir em frente; Cassius Medauar, responsável pelos quadrinhos da Pixel, pediu as contas ("Acabei não me encaixando mais nos planos da empresa", escreveu no seu blog); e o editor S. Lobo saiu do cargo que ocupava na Desiderata para criar a própria editora, a Barba Azul.

Para Gabriela Javier, atual editora da Desiderata, o ano será de muita cautela. "As empresas devem preferir projetos de retorno garantido, e o retorno financeiro dos quadrinhos ainda não é o mesmo que o de livros de prosa convencional. Espero que os prêmios - tanto os internacionais quanto o Jabuti conquistado pelo Fábio Moon e o Gabriel Bá pela versão em quadrinhos do Alienista - e a adoção pelas escolas públicas dessas publicações ajudem a rebater os efeitos dessa possível retração".

Indo pelo caminho inverso, a Companhia das Letras acaba de lançar o Quadrinhos e Cia, selo exclusivo para o gênero. Os planos são os melhores possíveis: ao lado das HQs Jimmy Corrigan, de Chris Ware, e American Born Chinese, de Gene Yang, serão lançados Jubiabá, adaptação de Spacca para o romance de Jorge Amado, e Cachalote, graphic novel de Daniel Galera e o Rafael Coutinho. "Acho que é um mercado novo, e há vários modelos a serem explorados. Estamos otimistas porque conseguimos uma série de títulos ótimos, porque as edições estão ficando muito bonitas. E porque acreditamos que há um público enorme que não lê quadrinhos, mas que, por inúmeros fatores, está muito mais aberto para começar", afirma o editor André Conti.

A postura otimista é compartilhada por Carlos Mann, ex-editor da Opera Graphica. Apesar da empresa ter fechado as portas definitivamente, ele acredita que a crise mundial afetará o mundo dos quadrinhos não a ponto de haver uma derrocada, mas sim, um resfriamento. "Esta visão fatalista a respeitode 2009 é, a meu ver, equivocada, pois coloca o foco em apenas um dos quadros do mercado brasileiro. Se, por outro lado, olharmos um panorama mais amplo de uma ou duas décadas, teremos uma análise menos pessimista e mais real. Nunca houve tantas editoras de médio e grande portes lançando quadrinhos, muito menos tamanha diversidade de gêneros, estilos e formatos", diz Mann. Apesar da transição acionária, a Conrad também guarda boas notícias: "temos muito material bom para lançar, e certamente o faremos ao longo de 2009", garante o coordenador editorial Alexandre Boide.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Lourenço Mutarelli no Recife



O senhor acima se chama Lourenço Mutarelli. A reprodução é um auto-retrato publicado em A arte de produzir efeito sem causa, seu novo livro, e o primeiro editado pela Companhia das Letras.

Ele chegou ontem ao Recife, para uma série de atividades a convite do 6º Festival Recifense de Literatura - A Letra e a Voz. Uma delas será o debate Literatura Quadro a Quadro, ao lado de João Lin (coletânea Domínio Público - ver post abaixo) e Artur Rogério (coletivo Nós-Pós). Anote aí: será amanhã, às 15h, no auditório da Livraria Cultura (Paço Alfândega). Após o debate, sessão de autógrafos.

Ontem tive o prazer de conhecer Mutarelli. Foi durante o debate sobre literatura e cinema ao lado de Homero Fonseca e Fernando Monteiro. Entre outros assuntos, ele disse que não se sente proprietário de seus trabalhos, por isso não precisa ter controle sobre as adaptações de seus livros para o cinema, como no caso de O cheiro do ralo (dirigido por Heitor Dhalia) e O natimorto (dirigido por Paulo Machline). Ele considera este último, com estréia prevista para o começo de 2009, como um filme estranho e mais condizente com sua estética. Mas há a ressalva: "eu não faria tão pesado".

Assim como em O Cheiro do Ralo, Mutarelli participa da produção como ator, desta vez, o protagonista. Para compor o personagem, ele teve que perder peso e se submeter a um preparador de elenco. "Ele disse para usar o constrangimento a meu favor. Não costumo me orgulhar do que faço, mas gostei do resultado", confessou.

Sobre a carreira de quadrinista, ele diz ter desistido por estar preso a uma teia de cobranças da antiga editora (Devir). "Entrei numa crise que me deixou um ano e meio sem desenhar", contou. "Me especializei tanto em bico de pena que não havia mais descobertas. Voltei a desenhar há pouco tempo, com materiais precários, onde não tenho tanto controle do resultado".

Saiba mais sobre Mutarelli e a coleção Domínio Público clicando aqui ou nos posts abaixo.

Lourenço Mutarelli traz arte múltipla ao Recife



André Dib // Especial para o Diario
andrehdib@gmail.com

A influência mútua entre literatura e quadrinhos volta à pauta da programação do Festival recifense de literatura - A letra e a voz, promovido pela Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife. Para discutir essa relação cada vez mais íntima e seus possíveis desdobramentos, o evento promove a mesa Literatura quadro a quadro, com participação de Lourenço Mutarelli, João Lin e Artur Rogério. O encontro está marcado para amanhã, às 15h, no auditório da Livraria Cultura (Paço Alfândega).

Entre outras considerações, João Lin deve trazer à mesa sua experiência em editar a Domínio Público, coletânea de contos adaptados para os quadrinhos, que acaba de ganhar nova edição pela editora paulista DCL (veja matéria abaixo). Por sua vez, Artur Rogério representa o Nós-pós, promissor coletivo da nova geração da literatura recifense. Logo após o debate, Mutarelli autografa A arte de produzir efeito sem causa (Companhia das Letras), terceiro romance de uma carreira que começou nas artes gráficas e hoje se estende à seara cinematográfica, inclusive como ator principal da adaptação de seu primeiro livro, O Natimorto, transformado em comédia noir pelo diretor Paulo Machline.

O novo livro do autor de O cheiro do ralo conta a história de um homem que abandona a família e o emprego para se hospedar na casa do pai. O elemento autobiográfico é pressentido na semelhança do protagonista com o autor: ambos têm 43 anos e foram batizados com o nome do pai. Em entrevista ao Diario, o autor confessa que, apesar de utilizar cenas e detalhes reais como matéria prima, os dois "Júnior" vivem momentos diferentes.

Na ficção, "Sênior" se preocupa com "Júnior", que desenvolve a afasia, grave doença degenerativa que aos poucos acaba com a capacidade cognitiva, principalmente de pensar e compreender as palavras. "Me inspirei em William Burroughs, que tinha em sua obra uma tentativa em destruir a linguagem". Isso se traduz visualmente no próprio livro, na presença de estranhos gráficos desenhados porJúnior / Mutarelli com caneta esferográfica azul. As interferências visuais instigam e comprometem um bocado o conceito convencional de diagramação.



Apesar do reconhecimento obtido no mundo dos quadrinhos, Mutarelli não pretende voltar à atividade, com ressalva para trabalhos puramente experimentais e sem a rigidez dos prazos editoriais. "Estava me tornando um profissional, tinha que entregar uma HQ por ano", justifica o escritor. "A literatura abriu outras portas para mim. Eu já estava cansado de fazer quadrinhos, então não foi difícil parar". Claro que as chuteiras (temporariamente?) penduradas não o impedem de falar sobre o assunto. "Minha literatura é fruto das histórias em quadrinhos. Aprendi a escrever com síntese por causa do espaço pequeno dos balões, a descrever um cenário com poucos elementos. Até a forma de abordar e aprofundar os personagens é influenciada por esse universo".

Esse texto radicalmente condensado, principalmente nos diálogos, estabelece um ritmo que encontra paralelo não somente nosquadrinhos, mas nos roteiros de cinema, o que faz deste A arte de produzir efeito sem causa um produto atípico e potencialmente renovador do fazer literário.

Serviço
A arte de produzir efeito sem causa, de Lourenço Mutarelli
Editora: Companhia das Letras
Preço médio: R$ 39,50