quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Mais um prêmio para Samuca



Entre os destaques do 33º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos está o artista pernambucano Samuel Rubens de Andrade, o Samuca. Cartunista do Diario de Pernambuco, ele foi agraciado com menção honrosa pela charge Chegou o Natal, publicada em 24 de dezembro de 2010. Nela, um garoto em situação de rua cheira cola enquanto ávidos consumidores transitam pela calçada.

Os profissionais de jornalismo premiados nesta edição foram divulgados na última segunda-feira, pelo blog www.vladoherzog.blogspot.com. O prêmio principal da categoria Artes foi para FCLopes, por trabalho publicado no Correio Braziliense, outra empresa do grupo Diários Associados. A cerimônia de premiação será dia 24 de outubro, em São Paulo.

A charge de Samuca transforma em objeto a famosa tarja preta, recurso utilizado pela mídia para supostamente proteger sua identidade, e que acaba servindo de estigma social. “Ele não pode ver porque está com uma tarja preta no olho, mas pode sentir, pelo movimento, que o Natal chegou”, interpreta o autor.

Uma das influências mais fortes de Samuca vem do brasileiro Renato Canini. Desde criança, ele admirava o traço do artista que melhor desenhou o Zé Carioca. Mas sua trajetória profissional começou na adolescência, quando, aos 14 anos, tornou-se auxiliar de Romildo Araújo Lima, o RAL.

Desde então, atua na imprensa local, tendo trabalhado do periódico O Rei da Notícia e na antiga Folha de Pernambuco. Seus trabalhos passaram a ser publicados no Diario a partir do ano 2000. Em 2010, Samuca assumiu a presidência da Associação Pernambucana dos Cartunistas - Acape.

Reconhecimento - Este não é o primeiro Vladimir Herzog da carreira de Samuca. Ano passado, ele recebeu menção honrosa pelo trabalho Cuba Libre, uma crítica à ditadura imposta ao povo cubano. Também em 2010 ele foi premiado pelo HQMIX - prêmio máximo dos quadrinhos brasileiros, pelo livro de cartuns Sem palavras (2009). Em 1999, ele havia sido contemplado pelo HQMIX com seu livro de estreia, A vida por uma linha. Além disso, já ganhou os prêmios Cristina Tavares (2008), por uma coletânea de charges publicadas no Diario e o 18º Salão Carioca de Humor (RJ). Mas o prêmio principal de sua carreira foi obtido em abril deste ano, quando o World Press Cartoon, o mais importante salão de humor editorial do mundo, premiou Samuca com o primeiro lugar na categoria desenho de humor.

(Diario de Pernambuco, 19/11/2011)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O show da realidade



Foi sem dúvida mais um momento histórico, talvez o maior dos oito anos de Coquetel Molotov. O motivo foi show de encerramento, a cargo dos rappers Racionais MC’s, que atraíram mais gente do que o espaço permite comportar. Se não havia como prever como terminaria a madrugada de sábado para domingo, no Teatro da UFPE, quando uma das portas de vidro foi destruída por invasores, a sensação era a de que tudo poderia acontecer. Apesar da produção ter demonstrado certo despreparo para lidar com a situação, é inestimável o valor cultural do ocorrido.

Nos últimos anos, o festival saiu do gueto indie ao convidar artistas famosos, como Milton Nascimento. Ampliar o público é algo que pega bem com os patrocinadores, que permitem uma zona de conforto para o festival convidar bandas pequenas e desconhecidas para seu igualmente modesto público sedento por novidades. Na noite de sábado, por exemplo, bons shows de Copacabana Club, Hindi Zahra, Rômulo Fróes e The Sea and Cake são a prova disso.

Quando o pernambucano China subiu ao palco, parte do público dos Racionais já ocupavam as cadeiras. Alguns demonstraram interesse no show, mas a maioria estava lá somente para ver os MC’s do Capão Redondo. Do lado de fora, alguns tentaram entrar sem pulseira, em vão. No entanto, quando o grupo começou a tocar, cerca de 70 pessoas espalhadas pelo câmpus conseguiram entrar. Na confusão, uma das portas foi quebrada, o que afugentou parte do público. Por um instante, o show foi interrompido e, para evitar mais problemas, luzes se acenderam sobre a plateia até o fim da apresentação. Tudo foi desmontado rapidamente no foyer do Centro de Convenções e o after party com DJs Golarolê foi cancelado. Em comunicado oficial, o evento descreve o episódio como “um pequeno tumulto”, que ninguém entrou sem pulseira e que o corpo de seguranças estava preparado para conter a situação. Não foi bem assim.

Durante o show, os Racionais se mostraram mais preparados para lidar com várias centenas de pessoas, prontas para entrar em processo de catarse coletiva, do que os oito seguranças engravatados, que deixaram a entrada a cargo dos bombeiros e foram para a a beira do palco. Na falta de pessoal, os próprios organizadores entraram na turma da contenção. O que se viu foi uma apresentação contida, em que hits como Capítulo 4 Versículo 3 e Diário de um detento foram sabiamente evitados. Era como lidar com um barril de pólvora, controlado unicamente pelo poder da palavra de Mano Brown, que habilmente conseguiu conciliar a Torcida Jovem do Sport e Inferno Coral. Na última música, o público invadiu o palco e os MCs cantaram protegidos pelos seguranças.

Por um lado, o Coquetel Molotov acertou ao promover um encontro inédito naquele espaço, entre habituées do festival e o público da periferia. Por outro, a organização demonstrou despreparo por não prever que poderia ser “engolido” pelas circunstâncias, como o consumo aberto de drogas, superlotação e o exército de fumantes, que elevou o risco de incêndio num teatro que já pegou fogo em 1997.

Momentos de pregação incitaram a consciência social – “esse país é seu, temos que reconquistar o que é nosso e está em mãos alheias”, disse um dos MCs, para logo elogiar Pernambuco, que estaria em situação melhor do que da última vez em que estiveram aqui. Outra fala certeira: “Racionais é risco constante. Adrenalina na direta. Na televisão é reality show, aqui é o show da realidade”.

Os indies quiseram brincar de periferia, mas suaram frio. Aprenderam na prática que, com periferia não se brinca, ainda mais se isso envolve seu espelho mais fiel. De qualquer forma, nada de grave aconteceu. E o resultado foi memorável. De proporções bíblicas, como Lobão descreveu o próprio show, na noite anterior.

Sexta-feira - Marcada por shows medianos, a noite de sexta foi salva por Lobão, atração de última hora que se mostrou das mais acertadas. O compositor carioca demonstrou vitalidade incomum para um senhor de 50. Ele e banda fizeram uma apresentação vibrante, equilibrada no fio da navalha, entre técnica e emoção. Lobão, que já fez shows em estado deplorável, como o do Abril Pro Rock em 2001 ou rodeado de vinte violões, em versão acústica no mesmo APR em 2009.

Elétrico, Lobão se mostrou em sua melhor forma. Invocou os parceiros mortos, Cazuza e Julio Barroso. Como guitarrista, demonstrou competência em solos instigantes. Rock na veia, redondo, potente, direto ao assunto. Lavou a alma do público que o esperava desde abril, quando teve o show cancelado na Concha Acústica, ao lado do teatro. E apesar de algumas falhas de som no começo do show, Lobão não teve muito do que reclamar, pois as condições de palco oferecidas pelo festival foram muito boas. “Obrigado Recife, foi lindo. Foi bíblico!”, disse o músico, no final.

De uma forma geral, antes do tsunami provocado pelos Racionais, a organização do Coquetel Molotov se mostrou exemplar. No foyer, stands dos patrocinadores, feirinha alternativa e barracas de alimentação conviveram harmonicamente. O espaço da Petrobras ofereceu um terceiro palco, para bandas gravaram seus vídeos. Já a Sala Cine, que abrigou o lado B da programação, merecia melhor climatização, o que rendeu a ela o apelido de “Sauna” UFPE.

(Diario de Pernambuco, 17/10/2011)

domingo, 16 de outubro de 2011

Reinvenção da trupe do Vivencial



Uma base de produção está em pleno vapor no sítio histórico de Olinda. O casarão de número 200 da Rua de São Bento, mais conhecido como a faculdade de direito da Aeso, foi ocupado pela equipe de Tatuagem, uma união de talentos que em breve culminará no primeiro longa de ficção de Hilton Lacerda. Não que a atividade cinematográfica seja novidade na cidade-patrimônio. A Parabólica de Claudio Assis funciona ali, virando a esquina. Na casa vizinha à da base montada pela REC Produtores estão os domínios de Alceu Valença, que esta semana encerrou as filmagens de sua Luneta do tempo. E rumo ao mar, Ladeira de São Francisco, está a Video nas Aldeias, de Vincent Carelli.

O que coloca Tatuagem em patamar diferenciado no cenário de produção local é combinação da estrutura privilegiada, que permite uma melhor organização e sintonia entre diferentes departamentos. No térreo estão o figurino, sala de objetos e a salão de ensaio. No primeiro andar, os departamentos de produção, direção, fotografia, financeiro e arte. De acordo com João Jr., tais condições fazem revelar o potencial da equipe. “Percebo uma evolução na carreira de muitos profissionais, principalmente de produção e arte, que têm atendido muito bem as demandas de produção de um longa-metragem”.

O projeto, de dimensões poético-anarquistas, recria livremente a experiência do grupo de teatro Vivencial, que conta com o cada vez melhor Irandhir Santos no papel de líder da trupe pós-tropicalista. As filmagens de começam no próximo dia 25, em Olinda, Recife, Bonito e Paudalho.

Aprovado pela Ancine para captação de até R$ 2,48 milhões, o longa ainda precisa captar 40% para a finalização e comercialização, mas já conta com a distribuição da Imovision, responsável por Cinema, Aspirinas e urubus e Verônica, de Marcelo Gomes. Apoios culturais como os da Prefeitura do Recife, UFPE e Aeso, diz João, são fundamentais para filmes de baixo orçamento. “Graças a eles, contamos com estagiários e licença para filmar em espaços públicos”.

Um deles é o Nascedouro de Peixinhos, onde uma construção está sendo erguida especialmente para o filme. Lá será a sede da trupe Chão de Estrelas, coletivo artístico ligado à tradição do circo e teatro. No papel do diretor está Irandhir, que descreve seu personagem como alguém que enxerga a beleza no gestos dos atores, para levar ao palco. “Somos desafiados a criar uma cena em poucas horas. Isso é muito estimulante. E Peixinhos será o espaço onde pessoas tolhidas pela ditadura pode ser homens, mulheres, bichos e bichas”, diz o ator, premiado ator por Tropa de Elite 2 e Febre do Rato. Não é de hoje que Irandhir fala em uma volta para o teatro, onde se formou. Curioso que isso venha a acontecer pelo cinema.

Parceira de Hilton desde o curta A visita (2001), Renata Pinheiro conta como a direção de arte expande o conceito do roteiro, que apesar de ambientado em 1978, não pretende reconstituir a época à risca. A ideia é construir um tempo ficcional. “Como espaço simbólico, a sede do grupo Chão de Estrelas revela o contexto político da época. As ruínas representam a destruição de um sistema. Material reciclado surge entre restos de obra, uma exuberância de cores sobre o cinza, seco e mofado do militarismo em decadência. Queremos ocupar aquele espaço de forma orgânica, como um câncer às avessas, que traz de volta à vida”, explica Renata.

A concepção da fotografia, em 16mm, combina a imagem limpa do cinema convencional com a linguagem experimental de aspecto envelhecido do Super 8, que será simulado por uma câmera Bolex e filmes vencidos. Ivo Lopes de Araújo, do coletivo cearense Alumbramento, explica a busca de uma precariedade apropriada para o conceito do filme. “A ideia é trabalhar com o erro próprio do teatro mambembe. Por isso preferimos a luz natural aos refletores. Procuramos a inadequação, algo que aproxime da condição dos personagens”.

Entrevista >> Hilton Lacerda: “Temos um público grande e mal aproveitado”

“A única coisa boa de ser só roteirista é que você pode botar a culpa no diretor. Agora, se algo não der certo, tenho que assumir”, brinca Hilton Lacerda. Roteirista dos mais atuantes do cinema brasileiro, ele é parte fundamental de uma filmografia que passa por Baile perfumado, Amarelo manga, Árido movie e o recente Febre do rato. Como diretor, assina dois curtas - Simião Martiniano, o camelô do cinema (em parceria com Clara Angélica) e A visita - e o longa documental Cartola - Música para os olhos, com Lírio Ferreira. Agora chegou o momento de realizar seu trabalho 100% autoral.

Em Tatuagem, Hilton Lacerda faz um livre retorno ao início de sua vida adulta, momento delicado em que sonhos se projetam. A dez dias do início das filmagens, ele fala ao Diario sobre o que está por trás do filme.

Como surgiu a ideia do filme?
Na década de 1980, li o livro Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan, que faz um apanhado da questão homossexual na cultura brasileira. Nele tem o personagem de Tulio Carela, que sempre me encantou. Em torno de 1995, tive acesso ao livro dele, Orgia, que ainda não tinha sido reeditado. Quando fui morar em São Paulo, em 1998, me tornei vizinho de João Silvério e falei com ele sobre a a vontade de filmar a história de Tulio. Ele me disse que achava mais importante olhar para o grupo Vivencial, que se tornou uma referência muito afetiva para a construção do roteiro. Mas o filme não é sobre o Vivencial, é sobre a influência que exerceu no Recife, o que aquilo tudo gerou, a expectativa de futuro.

Como você adaptou aquela realidade?
Através da história de um grupo de teatro anarquista, com foco no líder desse grupo de 12 atores, o Chão de Estrelas. Estamos há quatro semanas ensaiando as coreografias, direcionadas no sentido do deboche, do exagero. Clécio, vivido por Irandhir, comanda o processo ao lado do braço direito dele, interpretado por Rodrigo Garcia.

Tatuagem guarda certa semelhança com a vocação anárquica de Febre do rato, que também traz Irandhir como protagonista. São filmes-irmãos?
Escrevi os dois roteiros ao mesmo tempo. Ficava com medo da proximidade, mas hoje estou tranquilo. E Irandhir está no projeto antes de entrar em Febre do rato, antes mesmo de Baixio das bestas. Desde o começo do projeto, escrevi o personagem pensando nele.

Como líder da trupe, ele é seu espelho como diretor?
Ele é o homem da ponte, que está lá na frente, responsável pelo olhar teatral, pelo registro burlesco. Eu trabalho com o registro do cotidiano, de conflitos como o do soldado Fininha, que vem de uma cidade pequena e se encontra com Clécio. É quando o núcleo militar e dos artistas se misturam.

Como o filme se relaciona com a sua própria história?
Clécio tem um filho de 13 anos, que é a idade que eu tinha em 1978. Para mim, foi o momento em que comecei a ter vida própria, sair pra festa, o início da vida sexual. Havia o processo de abertura e do milagre econômico, tinha a expectativa do que iria acontecer no país. Era um respiro de sexo livre e pílula anticoncepcional, mas também um momento de certo desencanto, que logo depois levou um golpe grande, da Aids como fator moralizante do discurso. Depois houva a discussão de gênero, mas antes disso toda uma geração pagou um preço muito caro. Toda essa construção de futuro bateu com um fato prático, de que as pessoas estão correndo um risco e a ideia de pecado vinha junto. A discussão do filme gira em torno disso, do futuro sonhado e suas consequências.

Sem chegar a ele?
A ideia é abordar o que se sonha agora, e como isso pode reverberar no futuro. Como podemos imaginá-lo, de que forma podemos provocar consequências. Na época, a expectativa era a de um mundo libertário, em que as questões de gênero foram superadas. O filme quer reconstruir um passado em que se faz uma projeção utópica do futuro, que, na prática, é o nosso presente. No grupo tem um personagem, Joubert, que produz um filme de ficção em Super 8, que se passa no futuro. É um viés completamente anarquista, em torno de uma estrutura melodramática. Por um lado, é o Super 8 como uso político do cinema como arma. Por outro, é a estrutura mercadológica, de um cinema mais convencional.

Qual é sua intenção em abordar esse tema?
É a minha forma de tentar fazer as pazes com o presente. Acho o cinema estabelecido uma chatice, uma caretice tão grande, é raro alguém fazer uma desconstrução. O Brasil, quando tem a possibilidade de estar na ponta, fica representando o último estágio de algo esgotado. Em vez de investir na possibilidade de criar um público radical, o cinema brasileiro apela para a linguagem estabelecida, para satisfazer um mercado que está se esgotando. Pode ser uma estratégia boa para os próximos cinco anos, mas depois não fará sentido. Temos um público grande e mal aproveitado. Fazer filme de 150 mil espectadores no Brasil é uma glória, mas podemos dar um passo além.


Ficha técnica

Direção: Hilton Lacerda

Diretor Assistente: Marcelo Caetano

1º Assistente de Direção: Carol Durão

2º Assistente de Direção: Milena Times

Preparação de elenco: Amanda Gabriel

Produtor de elenco: Rutílio de Oliveira

Continuidade: Adelina Pontual

Produtor: João Vieira Jr.

Produtora Executiva: Nara Aragão

Diretora de Produção: Dedete Parente

Platô: Brenda da Mata

Diretora de Arte: Renata Pinheiro

Cenógrafa: Dani Vilela

Figurino: Chris Garrido

Diretor de Fotografia: Ivo Lopes de Araújo

Técnico de Som: Danilo Carvalho

Trilha Sonora: Helder Aragão

Patrocínio: Petrobras / Fundarpe - Funcultura / Chesf - Eletrobrás

(Diario de Pernambuco, 16/10/2011)

sábado, 15 de outubro de 2011

O tempo e o cinema: Sudoeste, de Eduardo Nunes



Como no ano passado, em que exibiu Ex-Isto, de Cao Guimarães, o Festival de Gramado selecionou como filme de encerramento outro filme incomum. Mesmo após nove dias de atividade intensa, a sessão de Sudoeste, primeiro longa do carioca Eduardo Nunes, gerou fascínio e estranhamento. Tanto pela fantástica história de Clarice, que em 24 horas passa por todos os estágios da vida, quanto pelo rigor estético enquadrado em formato de tela 3.66:1, um pouco mais estreito do que o cinemascope. A sensação é a de estar diante de uma obra ao mesmo tempo nostálgica e inovadora.

A nostalgia remete ao cinema silencioso, com ênfase em Limite (1931), de Mário Peixoto. O russo Andrei Tarkoviski (1932-1986) é outra referência é assumida pelo diretor, que já trabalhava o conceito desenvolvido em Sudoeste em seus curtas-metragens nos anos 1990. “Existem também influências de realizadores mais narrativos, como Léon Hirzman, David Lean e Sergio Leone, mas Tarkovski é a maior. Não apenas pelo seu cinema, mas por todo seu respeito a vida, que é tão belamente contado em no livro Esculpir o tempo. Tarkovski demonstra que o cinema pode ser algo único, de conseguir compartilhar uma experiência espiritual durante uma projeção”.



Nesse sentido, Sudoeste é um convite à contemplação. A fotografia em preto-e-branco de Mauro Pinheiro Jr. é de uma poesia rigorosa, milimetricamente construída. O trabalho de sonoplastia - que investe em sons da natureza como o vento e chuva - e da figurinista pernambucana Luciana Buarque (colaboradora do Luis Fernando Carvalho em Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino) são igualmente incríveis. No elenco Simone Spoladore, Dira Paes e o paraibano Everaldo Pontes fazem atuações memoráveis.

Sudoeste foi filmado no Pontal do Massambaba, no Arraial do Cabo (RJ), uma antiga vila de salineiros que estava abandonada por mais de 40 anos. Nunes conta como foi encontrar esse lugar ermo, perdido no tempo. “Foi quase um milagre. O roteiro que eu e o Guilherme Sarmiento escrevemos se passa numa vila de pescadores que existia apenas em nossas cabeças. Como o filme tem um tom de fábula, era preciso encontrar uma locação que transmitisse essa ideia de abandono, do tempo atuando sobre as coisas e pessoas”.



O formato 3.66 é tido por Eduardo como um algo novo, inspirado em experiências de Abel Gance nos anos 20 e 30 em filmes como A roda e Napoleão, em que o quadro se adequava ao assunto tratado. “Acho que perdemos a vontade de experimentar para aumentar a potencialidade de uma narrativa”. Isso, aliado ao PB e aos 128 minutos de duração, colocam Sudoeste na contramão do cinema comercial. Por enquanto, não há data de lançamento ou outras exibições em festivais. “Acho que a história do filme está acima disso e todos os outros elementos estão em função desta história”.

Entrevista >> Mauro Pinheiro Jr.: "Abrimos mão da precisão tecnológica"

O fotógrafo pernambucano Mauro Pinheiro Jr. tem no currículo mais de 30 filmes, entre eles Linha de Passe, Os famosos e os duendes da morte e o recente VIPs. É parceiro constante de Camilo Cavalcante, Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, com quem desdenvolve novos filmes. Em entrevista ao Diario, ele conta que trabalhar em Sudoeste foi algo novo e desafiador.

Em preto-e-branco, o excesso de luz do litoral transforma o que seria uma paisagem tropical em algo gelado. Foi essa a intenção?
Acho que o céu azul, colorido e muito belo iria prejudicar o filme. O preto-e-branco, o formato de janela, o figurino, a arte, apresentam com uma coerência que foi fundamental. Foi a melhor solução para Sudoeste, que tem um universo próprio, a ação do tempo na vida da personagem, o tom de fábula, o PB se aproxima disso.

Solução bem diferente da usada em Cinema, Aspirinas e urubus.
Sim. Eu e Marcelo (Gomes) nunca pensamos no PB, mas também não queríamos um sertão de cartão postal. Nosso personagem era um alemão de olhos claros, que vai para região de luz abundante, e dali veio a inspiração para aquele plano de luz que fere o olho e que vai se acomodando mas nunca atinge a claridade normal. A luz permanece clara para sugerir que o personagem não se adapta nem fisicamente, nem culturalmente.

A pós-produção interferiu no aspecto das imagens de Sudoeste?
Filmamos em película 16mm e ampliamos digitalmente para 35mm, e o processo digital permite um controle enorme, fizemos questão de dar uma “erradinha”, deixar o branco invadir um pouco o preto, para não ficar correto demais. Buscamos a falta de controle do processo ótico. Abrimos mão da precisão tecnológica absoluta criando um recurso de linguagem.

Ao adotar a proporção 3.66, Sudoeste quebra com os padrões de formato de tela?
Uma das grandes questões do cinema desde seus primórdios foi desenvolver um formato padrão para que os filmes pudessem ser distribuídos mundialmente. Câmeras e projetores adotaram como padrão o formato de negativo 35mm de 4 perfurações. Hoje em dia, a finalização eletrônica nos permite filmar em qualquer bitola desde que, no final, seja respeitado o formato padrão de projeção. O que fizemos foi desenvolver um formato de imagem novo, mais panorâmico, mas que ainda fosse compatível com os projetores atuais de película. Filmamos em Super 16mm e aproveitamos o benefício da finalização eletrônica para ganhar uma liberdade estética desafiadora.

Como vocês chegaram a esse formato?
Eduardo sempre quis trabalhar com o formato 2.35, ideal para aquela região, horizontal. Antes de filmar, fotografamos a locação e no primeiro exercício de decupagem fiz recortes horizontais com o photoshop nas fotos de pesquisa do momento onde a garota sai da cabana e descobre o mundo. Imaginei um quadro que não tivesse o corpo humano como referência. O formato quadrado valoriza o corpo, encaixa o ser humano dentro dele. Nós tomamos não o corpo, mas o espaço como medida e o ser humano, se encaixando dentro desse espaço. Naquele momento, tivemos certeza de que buscaríamos a viabilidade daquele formato.

Como foi a experiência?
É como se estivesse zerando o olhar. É como pensar em uma outra língua, que não tem tradução. Quando você filma muito no mesmo formato, acaba viciando o olhar, é algo automático encaixar os objetos no lugar certo. Não estávamos pisando em campo completamente desconhecido, ao mesmo tempo não ficamos refém disso. O quadro não se tornou um assunto, não distraia o set. Foi uma questão minha e de Eduardo. Não foi uma questão de virtuose, logo nos acostumamos.

Você trabalha com Eduardo há quase 20 anos. Como funciona a dinâmica de criação?
Sudoeste foi muito singular, por mais que tenha características em comum com o que já fizemos. Em 1998, com a primeira versão do roteiro, visitamos locações e começamos a decupar o filme. Quando a filmagem ganhou perspectiva mais concreta, jogamos a decupagem fora e olhamos para o filme como somos agora. No começo, me angustiava imaginar onde posicionar a câmera. Hoje isso me impulsiona, é uma pergunta instigante, é um dos grandes estímulos para filmar, para procurar a linguagem. Eu procurava a certeza e hoje vejo que a dúvida é algo mais interessante. Ter esperado esse tempo talvez tenha sido bom para podermos pensar nisso.

(Diario de Pernambuco, 02/09/2011)

Humor negro na academia



Desde que estreou, na última Mostra de Cinema de Tiradentes, o curta-metragem Mens sana in corpore sano fez carreira em oito festivais e ganhou seis prêmios. O destaque mais recente foi a menção especial no 64º Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça. E acaba de ser convidado para a Mostra de Cinema de Santo Domingo, na República Dominicana. Sem dúvida, um ótimo começo de carreira. Esta semana, além de participar da Mostra Brasil do 22º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, o terceiro curta de Juliano Dornelles integra o programa especial de terror Dark Side, com curadoria de Paulo Sacramento.

Cinéfilo de carterinha, Juliano trouxe para seu filme vertentes do cinema norte-americano dos anos 1970, além de beber na estranha morbidez dos filmes de David Cronenberg. A opção pelo 35mm tem contado a favor, não só pelo aspecto que a película imprime na tela, mas também por questões de ordem técnica. "Ainda não dá pra ficar satisfeito com as projeções digitais no Brasil. Não existe padronização, em cada lugar que vi esse tipo de projeção, algo dá errado. E o cinemascope é o formato que mais sofre com isso, não quis arriscar".

Coprodução da Símio Filmes (da qual Juliano é um dos sócios) e da Cinemascópio (de Kleber Mendonça e Emilie Lesclaux), Mens sana in corpore sano faz humor negro com os excessos da cultura de academia. O personagem principal é um fisiculturista (Flávio Danilo), cuja obsessão o fez perder o controle sobre seu corpo. A fotografia é impressionante e privilegia a luz e sombra do funcionamento das máquinas, roldanas e músculos superdesenvolvidos.



Entrevista >> Juliano Dorneles: "O corpo humano é a imagem mais recorrente no cinema"

Como surgiu e se desenvolveu a ideia? Desde o começo era pra ser um filme de terror?
Na verdade, na ideia original o filme era bem mais de humor que de horror, tínhamos um narrador que dava explicações científicas erradas e em completa contradição com o que se via nas imagens... A ideia original partiu de uma conversa com um amigo depois de assistirmos a um quadro do programa Hermes e Renato, na MTV. O filme é dedicado à Gil Brother, talvez a figura mais bizarra e engraçada que já vi na TV brasileira.

Antes de tudo, Mens sana é um filme que estuda o corpo e seus movimentos. Como isso se relaciona com seu universo de interesse?
Acho que o corpo humano é a imagem mais recorrente no cinema, somos nós mesmos, o interesse por isso é natural e imediato. Também gosto de histórias épicas, Grécia antiga, essas coisas. Acho que só consigo pensar em filmes onde temos a estrutura da epopeia.

Em que sentido a escolha do cinemascope foi importante para o filme?
Foi fundamental o scope pois, em termos de estética, o que se aproxima mais dessas atmosferas grandiosas, imagens potentes que ocupam a tela inteira no cinema, tudo que tá dentro do universo do protagonista do filme. Conan é cinemascope.

Mens Sana tem narrativa silenciosa, que evita diálogos. Como isso serviu ao teu trabalho?
Foi depois de optar por excluir a figura do narrador, que simplesmente não funcionava. Passei muito tempo na montagem querendo que funcionasse, mas simplesmente não rolou. O filme não perdeu o humor e ganhou sobriedade. Foi mais importante o uso da música, entramos de cabeça no filme de gênero, gostei mais assim. O diálogo, num filme como esse, diminuiria a solidão do protagonista, que para mim, era fundamental para a história.

(Diario de Pernambuco, 02/09/2011)

Primeira noite do Coquetel Molotov foi de Lobão

Lobão reinou absoluto na noite de ontem, a primeira do festival No Ar Coquetel Molotov. Foram quase duas horas de apresentação, em que o compositor carioca demonstrou competência e carisma. O público, que o aguardava desde abril passado, quando uma tempestade inviabilizou o show um pouco antes de o artista subir ao palco, respondeu à altura. Mais da metade se levantou das cadeiras do Teatro da UFPE para dançar e cantar em frente ao palco, junto da banda. Duas pessoas conseguiram invadir o palco, na tentativa de abraçar o ídolo.

A formação da banda, guitarras, baixo e bateria, favoreceu o conceito do rock elétrico que o artista vem investindo nos últimos tempos. O repertório combinou músicas menos conhecidas com sucessos radiofônicos dos anos 1980: Radio Blá, Me chama, Vida bandida, Decadence avec elegance. O bis veio com uma versão para Help, dos Beatles e Corações psicodélicos. “Obrigado, Recife. Foi bíblico”, disse o cantor, no final da inspirada apresentação, às 2h50 da manhã.

Antes, o palco principal recebeu shows de Maquinado (PE), HEALTH (EUA) e Gillemots (UK). O primeiro, projeto solo de Lúcio Maia, não empolgou tanto, talvez por ter feito o show de abertura (começou às 21h15). A concentração de pessoas aumentou para asssistir o performático quarteto HEALTH, da California. O grupo combinou peso instrumental com a leveza dos vocais de Jake Duzsik, causando reação positiva na platéia. Logo depois, o Gillemots trouxe ao palco elementos do britpop melódico, no que foi o show mais bem executado, até que Lobão subiu ao palco.

Entre às 17h e 20h30, o palco montado na Sala Cine UFPE, ao lado do teatro, serviu de aquecimento para o que viria depois. Apesar de terem oferecido bons shows, não havia tanto público para assistir Nuda (PE), Kng Size (PE), M.Takara (SP) e Beans (EUA).

O festival No Ar Coquetel Molotov continua hoje, a partir das 17h, com as bandas Rua (PE), Trio Eterno (PE), Copacabana Club (PR), Hindi Zahra (França), Romulo Fróes (SP), The Sea and Cake (EUA), China (PE) e Racionais MCs (SP). Ingressos estão à venda na bilheteria do Teatro da UFPE, por R$ 40 e R$ 20 (meia).

(Diario de Pernambuco, 15/10/2011)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cai The Fall, sobe Lobão

A programação principal do festival No Ar Coquetel Molotov começa hoje, marcada pela troca repentina de atração principal. Cai The Fall, sobe Lobão. Em comunicado oficial, os produtores do Coquetel se disseram “chocados e tristes” com o cancelamento da banda de Manchester. Aos que compraram bilhetes somente para assistir aos ingleses, podem ter o dinheiro de volta até hoje, na bilheteria do Teatro da UFPE. De qualquer forma, a opção de permancer com os mesmos é altamente recomendável. Além de Lobão, a noite ainda reserva boas atrações como o projeto Maquinado, de Lúcio Maia, e as indies HEALTH (EUA) e Guillemots (UK).

De acordo com Ana Garcia, uma das organizadoras do Coquetel, a rejeição tem sido mínima. “Até agora trocamos só dez ingressos. E desde o anúncio de Lobão, a repercussão ficou maior”. Lobão, como o novo âncora, finalmente fará as pazes com o público do Recife. “Estamos na maior felicidade em saber que vamos tocar no Recife”, tuitou o compositor carioca, anteotem. “A gente está com aquele show cancelado no último instante entalado na garganta”, escreveu ainda, a respeito de seu último show na cidade, marcado para acontecer na Concha Acústica da UFPE e cancelado por uma combinação de transtornos climáticos e falta de organização. Agora, protegida pelo espaço fechado do teatro universitário, a alegria deve estar garantida.

A entrada de Lobão não pretende suprir a ausência do The Fall, até porque isso seria impossível. “O festival ficou um pouco mais pop. O The Fall é menos conhecido, uma banda ao mesmo tempo cultuada e imprevisível, capaz de fazer coisas desse tipo, como cancelar na última hora E o Lobão também é roqueiro, tem pegada punk, de rebeldia”, avalia Ana, que agora comemora a mudança refletida no aumento da venda dos ingressos.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Racionais em show imperdível

A presença dos Racionais MC’s no Recife faz do festival No Ar Coquetel Molotov o melhor programa do próximo sábado à noite. O grupo de rappers do Capão Redondo já fez shows em outros teatros parecidos com o da UFPE, mas no Recife será a primeira vez que o poder incontestável de sua apresentação, capaz de levar o público ao transe coletivo, poderá ser experimentado em um palco, digamos, classe média. Eles acabam de sair do estúdio, o sexto álbum deve nascer no começo de 2012 e a expectativa é de que o show traga algo do primeiro disco de inéditas após dez anos de jejum - o último lançamento, de 2006, foi 1000 Trutas, 1000 Tretas, gravado ao vivo.

No entanto, a promessa é a de uma noite de clássicos obrigatórios como Diário de um detento, Fórmula mágica da paz, Capítulo 4, Versículo 3 e Mágico de Oz, todas do álbum Sobrevivendo no inferno, de 1997. Quem garante é Paulo Eduardo Salvador, codinome Ice Blue, que com o primo Mano Brown e os parceiros KL Jay e Edy Rock fazem o núcleo original dos Racionais. Em conversa por telefone, ele diz ao repórter que a presença do grupo em teatros é sinal de evolução. “A banda está há 22 anos na ativa e a melhora do lugar tem a ver com o patamar diferenciado que ocupamos em relação a outras bandas de rap”.

Ice Blue é conhecido por conciliar a ação social e o tino para negócios. Além de organizar um festival de hip hop em São Paulo, ele leva novos talentos do gênero em shows pelo Brasil. “É uma forma de preparar a nova geração”. Ao mesmo tempo, ele mantém a própria grife de roupas. “Nosso discurso sempre foi o de não ficar só reclamando, e fazer pelos nossos. Isso pode ser na música ou no futebol. Pode ser abrindo uma loja ou até uma padaria. Estou com 42 anos, tenho filhos e a consciência de que não vamos viver de música a vida toda”.

Sobre o trabalho novo, ele diz que se a dinâmica de criação coletiva permanece, mas o resultado é novo. “Foram vários anos sem gravar, aconteceu muita coisa, o Brasil mudou, a periferia também. Quando começamos a fazer rap, a periferia passava mais vontade, poucas coisas eram possíveis. Com o governo de esquerda isso mudou e agora se reflete numa evolução musical”.

A relação dos Racionais com a internet também está prestes a mudar. Com o lançamento do novo álbum, vai ao ar o www.racionais.tv, plataforma que disponibilizará material em vídeo, shows e clipes do grupo. “Já estamos muito na internet, Youtube, programas de troca de arquivos. Queremos uma relação mais próxima com esse público”, diz Blue.

Já a postura estabelecida com a imprensa continua a mesma desde que os Racionais surgiram, em 1988. Entrevistas são escolhidas a dedo, ou por exigência de produtores. “Muitas vezes a imprensa esquece que o artista é um ser humano como qualquer outro, que tem familia e uma vida que não pode ser invadida”. Em plena cultura da superexposição, essa postura contribui não só para preservar a coerência crítica e a privacidade dos integrantes, como para aumentar a aura de um dos grupos mais cultuados do Brasil.

(Diario de Pernambuco, 13/10/2011)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A educação salva



“A humanidade é 90% formada por imbecis e o paraíso deles é a internet”. A afirmação contundente é de Ziraldo, 78 anos, criador de um universo de personagens que marcaram o imaginário brasileiro, entre eles o Pererê, A Supermãe, Mineirinho e Jeremias, o bom. No entanto, o mais emblemático, que atravessa gerações é o Menino Maluquinho, que rendeu duas adaptações cinematográficas de sucesso, a primeira de Helvécio Ratton, em 1994; a segunda, em 1999, por Fernando Meirelles e Fabrizia Pinto.

Dele derivou o livro ilustrado Uma professora muito maluquinha (Melhoramentos), que acaba de ganhar reedição especial, motivada pela versão para o cinema está em cartaz. Dirigida por André Alves Pinto (sobrinho de Ziraldo) e César Rodrigues, a produção da Diler & Associados (responsável por filmes de Renato Aragão e Xuxa) remete ao espírito dos filmes antigos, aqueles que trazem mensagens construtivas, transmitidas pela emoção. No caso, a de que a escola pode ser um ambiente bem melhor para alunos e professores. Com Paola Oliveira no papel principal e participação especial do próprio Ziraldo, o filme é sobre como essa relação pode ser mais saudável.

“Enquanto o problema da educação não se resolver, vamos continuar batendo de frente”, disse Ziraldo, em palestra no último Festival de Brasília. A afirmação pode parecer óbvia, mas tão urgente quanto o problema da fome. “A escrita é o nosso sexto sentido. Temos que estabelecer o compromisso de que, a partir de hoje, não cresçam mais crianças analfabetas no país”.

Para ele, o mau uso da internet pode ser corrigido pela educação, pela palavra impressa. “A educação precisa ser pelo livro. Não adianta colocar internet na mão da criança. A palavra gravada mudou o mundo. Em 1500, o ser humano andava de charrete. 500 anos depois de Gutemberg, ele pisa na Lua. Não pode ser coincidência”.

Mas por que ambientar a história nos anos 1940? “Foram os anos em que cresci”, disse o escritor, em conversa com o Diario. “É uma década esquecida pelas artes. Os 1950 foram os anos dourados e os 1960, da revolução. Os 1940 ficaram de lado, marcados pela guerra”. E é uma boa forma de constatar que pouco se avançou em termos de educação.

Antes de tudo, o autor enxerga o filme como uma pequena história de amor para a família. “Somos filhos dos nossos pais, mas só ficamos prontos depois de passar pela professora. Escrevi o livro para levantar o amor próprio da professora brasileira. Para ela se perguntar ‘se eu posso ser isso, por que não sou’?”

(Diario de Pernambuco, 12/10/2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

São Luiz com projeção de DVD

Encerrada domingo, a mostra Play The Movie do Coquetel Molotov trouxe uma ótima seleção de filmes ao Recife. Por um lado, acertou em cheio ao lotar o Cinema São Luiz na última terça-feira, no cineconcerto O mágico de Oz. Mas, de forma geral, as condições em que foi realizada estão longe das ideais.

A exibição de Gretchen filme estrada, por exemplo, foi interrompida por problemas técnicos e a sessão de Daquele instante em diante foi antecipada em 30 minutos, sob justificativa de que funcionários do cinema não poderiam ficar até o horário previsto. Isso confundiu parte do público que aguardava na frente do cinema, quando o filme já havia começado.

No entanto, o principal problema foi a baixa qualidade da projeção digital, como ocorreu na projeção de A alma do osso, de Cao Guimarães. Isso aponta para um entrave maior: a falta de equipamento adequado para exibições do tipo no Cinema São Luiz. Em plena era da troca de arquivos em alta definição, não dá pra sair de casa e aturar a imagem “lavada” por insuficiência do projetor aliada à qualidade de DVD.

Após investimento de quase R$ 4 milhões para restaurar e adquirir o São Luiz, não seria absurdo esperar que o governo o equipasse à altura. Ou isso, ou ele continuará sendo um cinema público que ignora 90% da produção patrocinada pelo próprio estado.

(Diario de Pernambuco, 11/10/2011)

Festival Janela anuncia os curtas


Dia estrelado, de Nara Normande, estreia no festival

O festival Janela Internacional de Cinema do Recife anunciou ontem os curtas-metragens a serem exibidos em sua quarta edição. São 60 títulos de 17 países, selecionados pelos organizadores do evento, Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, em curadoria coletiva feita com Luiz Otávio Pereira, Fernando Vasconcelos, Rodrigo Almeida, o repórter do Diario Luís Fernando Moura e Lis Kogan.

A seleção contempla o que há de melhor e mais relevante na produção recente, como Oma (SP), de Michael Wahrmann, e Raimundo dos Queijos (CE), de Victor Furtado. Além disso, lança obras inéditas como a animação stop-motion Dia estrelado, de Nara Normande, e Zenaide, de Mariana Porto, versão estendida do curta feito para o projeto Olhares sobre Lilith.

A seleção ainda traz para o Recife curtas locais que permaneciam inéditos na cidade, como Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, Corpo presente, de Marcelo Pedroso, Ela morava na frente do cinema, de Leonardo Lacca, e Quarteto simbólico, de Josias Teófilo. Na competição internacional estão curtas de Gustavo Jahn & Melissa Dullius (Cat Effekt) e Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes (Incêndio).

A 4ª Janela Internacional de Cinema do Recife ocorre de 4 a 13 de novembro no Recife, com projeções no Cinema da Fundação e no São Luiz, que receberá uma retrospectiva do diretor Stanley Kubrick, inédita no Brasil.

(Diario de Pernambuco, 11/10/2011)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

De Einstein a Fukushima: Picuí



Questões atômicas têm sido recorrentes no cinema contemporâneo. No último festival de Berlim, o longa de ficção russo Um sábado inocente (V Subbotu) tratou dos efeitos emocionais nos operários de Chernobyl, no dia em que o reator explodiu - 2011 marca os 25 anos do famoso desastre. O tema nunca saiu da pauta mundial, mas o recente caso de Fukushima, no Japão, levou a um grupo carioca a criar o Urânio em Movimento - Festival Internacional de Filmes sobre Energia Nuclear, que este ano teve itinerância por seis cidades (Recife incluído) e já prepara a segunda edição.

Mas não seria exagero todo um festival dedicado ao tema? Nem tanto. “O assunto voltou, estava meio esquecido, mas sempre foi atual”, diz Tiago Melo, um dos diretores do curta-metragem Urânio Picuí. O documentário, que estreia hoje na Mostra Premiére Brasil do Festival do Rio (Cine Odeon, Cinelândia), revisita a incrível hipótese de que o urânio retirado das minas de Picuí e Parelhas, no interior paraibano, teria sido utilizado na montagem das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

“Não tenho dúvida de que o exército norte-americano extraiu urânio de lá. Se usaram para a bomba, eu não sei”, diz Tiago. Para ele, importa menos a busca pela verdade e mais o impacto que a operação gerou no imaginário da população local. No filme, mineradores e outros que conviveram com os visitantes gringos falam sobre casos de câncer, mutações genéticas e atividade alienígena: até os ETs querem o urânio de Picuí.

Sete anos atrás, bem antes do tema voltar à tona, Tiago já havia escrito o argumento para o curta. “É a cidade do meu pai, então é uma história que ouvia desde criança. Depois, já fazendo cinema, pesquisei e percebi a dimensão da história. Convidei Antônio Carrilho, com quem já havia trabalhado antes, para escrever o roteiro e fazer a codireção”. Entre a pré-produção e a filmagem, foram sete meses de convivio com as cidades, o que permitiu à equipe uma relação próxima com os entrevistados.

Mas Urânio Picuí não se concentra só nos depoimentos e “causos” dos que viveram aquela época, intercaladas com trechos de antigos filmes sobre ações militares feitos em Hollywood. Ele tem sequências ficcionadas e se interessa pelos efeitos reais do urânio sobre as pessoas, como o minerador quase cego que conta sobre o pai que morreu soterrado. Ou o cientista especializado no tema, que desmistifica os supostos males provocados pelo uso indevido das pedras.

Apesar de jovem, Tiago Melo não é um realizador estreante. Em 2003, havia dirigido o curta de ficção Um homem que viveu metade da vida e a outra metade passou relembrando. Em 2005, fez um documentário sobre a chegada do telefone celular em Picuí. “Ele passou em dois festivais e depois parei para investir no Urânio Picuí. Como assistente de direção, trabalhou em Febre do rato, de Claudio Assis e O presidente dos Estados Unidos, de Camilo Cavalcante. Como produtor, dos inéditos Jardim Atlântico , de Jura Capela, Todas as cores da noite, de Pedro Severien, ambos em finalização e Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão, atualmente em produção.

Urânio Picuí foi produzido com R$ 70 mil captados pelo edital Ary Severo (governo do estado) e SIC municpal, mais R$ 35 mil desembolsados pelo próprio Tiago. As prefeituras de Picuí e Parelhas também foram apoiadoras.

Ficha Técnica

Elenco
Dona Rita, Zé de Berto, Gersino, Bododa,Vidal, Antônio de Nego Biu, Inácio Zacarias, Nozinho dos Santos e Ebenézer Moreno

Produção Executiva
Tiago Melo

Roteiro
Tiago Melo e Antônio Carrilho

Fotografia
João Carlos Beltrão e Camilo Soares

Montagem
André Sampaio

Som
Pedro Moreira

Direção de Arte
Mozart Gomes

Trilha Sonora
Vitor Araújo

(Diario de Pernambuco, 10/10/2011)

Coquetel Molotov amadurece

Há dez anos, um grupo de jovens estudantes de jornalismo fundou o Coquetel Molotov, um programa de rádio sem pretensões maiores do que procurar e compartilhar informações sobre música. Eram apenas garotos de 20 anos, que não imaginavam que, ao chegar aos 30, seriam os organizadores de um dos melhores festivais do país.

“Tudo evoluiu de forma natural”, conta Jarmeson de Lima. Quando ele entrou na turma, Tathianna Nunes já fazia parte do Coquetel Molotov, ao lado de Thiago Marinho e Viviane Menezes. “Depois que entrei, descobriram que eu tinha discos bacanas”, lembra Ana Garcia. Thiago saiu em 2004, depois Viviane. Àquela altura, já estavam com o site no ar, a revista piloto e os louros de terem trazido a banda escocesa Teenage Fanclub pela primeira vez ao Brasil.

“A gente quis mostrar que é possível fazer as coisas do nosso jeito. Não dava para depender de dois ou três produtores ou de eventos promovidos pelo poder público”, conta Jarmeson. Mais do que possível, o Coquetel Molotov provou ser um sucesso. Ana evita definir o atual núcleo como um coletivo. “Somos três produtores que trabalham com vários colaboradores, diretores de arte, artistas, assistentes, técnicos, roadies, mais de vinte voluntários. Somando, são mais de 50 pessoas na equipe”.

Há cinco anos que o festival opera no limite, com ingressos esgotados. O recorde de público foi em 2009, com o Teatro Guararapes lotado para os shows de Beirut e Milton Nascimento e Lô Borges. Ano passado, os dois mil lugares do Teatro da UFPE não foram suficientes para receber o público de Otto. Outros grandes momentos: Coco Rosie (2006), Dinossaur Jr (2010) e Marcelo Camelo (2008), que escolheu o festival para estrear carreira solo.

Sim, o Coquetel Molotov cresceu. Este ano, são mais de 20 logomarcas a ocupar suas peças de mídia. Ele ainda pode ser chamado de indie? Pode, por servir de abrigo para artistas que assumem a carreira de maneira independente. E também por continuar garimpando bandas estrangeiras que, de outra forma, jamais se apresentariam ao Recife. “Mas nada de reducionismos”, pede Ana.

“Ele ficou diversificado, está mais com cara de festival. Em 2004 ele parecia uma festa para gente. Hoje, a base permanece e ele continua sendo feito com muito carinho, mas temos uma preocupação maior com a cidade, com o público”.

A divisão do trabalho existe, mas na prática, todos fazem de tudo um pouco. “Jarmeson assume o programa de rádio e a parte administrativa. Tathianna a faz a comunicação e lida com a parte institucional, com os patrocinadores. E fico com as bandas, apesar da curadoria passar pelos três”. Foi assim como o The Fall, banda ícone do pós-punk inglês, sugerida por Jarmeson. “Fizemos um brainstorm do que seria possível e o The Fall surgiu como uma banda importante que permanece na ativa, que desde 1989 não vem ao Brasil e que continua fazendo coisas novas. Por que não chamar?”

Além dos ingleses, as atrações principais do No Ar 2011 são Racionais MCs, The Sea and Cake, Rômulo Fróes, Maquinado, Guillemots, Health e China, que se apresentam no próximo fim de semana, no Teatro da UFPE. Ana Garcia diz que os planos mudam no caminho, mas que está satisfeita com a grade. “The Sea and Cake, eu venho paquerando há uns três anos, mas só agora deu certo. E os Racionais tem o melhor show que eu já vi. É legal ter uma banda forte assim no teatro”.

Show

O No Ar é o ponto alto da programação que engloba música, cinema, artes plásticas e moda. Começou no mês passado, com oficinas, debates, exposição de cartazes no Memorial Chico Science e shows no Pátio de São Pedro. E pelo segundo ano, haverá etapa em Salvador, nos dias 11 e 12, com atrações próprias, como Tom Zé, Retrofoguetes, Mombojó, O Círculo e Mundo Livre S/A, Health, Guillemots, The Fall.

Agenda

Sábado | 15 out

17h — Sala Cine UFPE
Nuda (PE)
King Size (PE)
Rodrigo Brandão e M.Takara (SP)
Beans (EUA)

21h — Teatro da UFPE
Maquinado (PE)
HEALTH (EUA)
Guillemots (UK)
The Fall (UK)

Domingo | 16 out

17h — Sala Cine UFPE
Rua (PE)
Trio Eterno (PE)
Copacabana Club (PR)
Hindi Zahra (França)

21h — Teatro da UFPE
Romulo Fróes (SP)
The Sea and Cake (EUA)
China (PE)
Racionais MCs (SP)

Serviço
No Ar Coquetel Molotov
Quando: 15 e 16 de outubro, a partir das 17h
Onde: Teatro da UFPE (Cidade Universitária)
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia), 1º lote; e R$ 40 e R$ 20 (meia), 2º lote
Informações: www.coquetelmolotov.com.br

(Diario de Pernambuco, 10/10/2011)

sábado, 8 de outubro de 2011

Território do cinema



Após extensa carreira em festivais, estreia hoje o longa Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro. Como tudo o que vem fazendo, o diretor de Um lugar ao Sol e As aventuras de Paulo Bruscky, fica difícil definir o que é ficção e o que é documentário na nova obra. A única certeza é a de que seus personagens se encontram em uma geografia somente permitida no território do cinema.

Sob o argumento de registrar as mudanças recentes ocorridas no bairro de Brasília Teimosa, o projeto de Mascaro foi aprovado em 2007 no edital para documentários DOC TV. No entanto, o filme se construiu como obra autônoma, que utiliza recursos de linguagem na intenção de confundir percepções do que é real e o que é representação.

Se ao assistir ao cotidiano do garoto Caio, do cinegrafista amador Phábio, da manicure Débora e do pescador Pirambu, encontramos atitudes comuns à maioria dos recifenses, o jogo de luzes, a captação de som e a fotografia elaborada nos levam a questionar até que ponto tais cenas são espontâneas, ou “naturais”. É a partir desse estranhamento que, tênue, o filme se equilibra.

Avenida Brasília Formosa chega a várias capitais através da Sessão Vitrine, que no Recife tem como parceiro o Cinema da Fundação. Atenção para os horários, pois as poucas sessões acontecem hoje, amanhã e terça-feira. Antecede o curta Material bruto, de Ricardo Alves Júnior.



Mudança de rumo - No filme, ele trabalha num restaurante e faz frilas editando videos. Tem vida religiosa ativa e gosta de dançar. Mas nem a casa em que habita no filme, em Brasília Teimosa, ou o restaurante fazem parte do cotidiano de Phábio Mello. Na verdade, ele mora no bairro ao lado, o Pina. E se na época fazia bico como garçom, hoje, aos 26 anos, vende produtos de segurança eletrônica. E nos fins de semana, filma e coloca som em eventos.

Quando foi convidado para participar do filme, Phábio pensou que não precisaria sair da rotina. Quando percebeu que precisaria interpretar um personagem, aceitou, mas durante o processo pensou em desistir. “Não conhecia Brasília Teimosa por dentro. No começo achei legal, mas tinha outros compromissos. Aí chegamos num acordo de gravar somente no tempo livre”.

Desde o começo do ano, Phábio tem viajado, representando o filme em festivais: Tiradentes, Salvador, Triunfo, São Luís, Belo Horizonte. A experiência mexeu com seus planos. “Depois que minha foto saiu nos jornais, cresceu a demanda para filmagens. E despertou a vontade de fazer um curta. Vou pegar umas dicas com o Gabriel”.



Conversa de pescador - A bordo de seu barco, Pirambu atende o telefone e conversa com o repórter. Na época da filmagem, o pescador vivia no Conjunto Habitacional construído no bairro do Cordeiro, para onde foram transferidos os moradores das palafitas. Pirambu é Alexandro José de Olivera, 35 anos. Diz que gostou do filme, que se sente bem representado. A única diferença é que ele voltou a morar em Brasília Teimosa. O apartamento ficou com a tia. “Eu tenho um barco de pesca, não dá pra morar naquele meio de mundo. Meu trabalho é aqui”.

No mais, Pirambu diz que continua com a mesma vida de quando foi convidado para participar do filme. Nada de estranhar os equipamentos ou o movimento da equipe. “Já participei de várias reportagens para a TV sobre o dia a dia no mar. E a conversa dos pescadores é aquela mesma, só não é aquela parte de falar de mulher, não é assim não, era só a gente puxando conversa pra fazer a cena”, brinca. Quando soube a data em que seria publicada esta reportagem, ele lamenta não poder conferir o jornal. Pirambu está no alto mar e só volta em 10 dias. O nome do seu barco? "Deus Todo Poderoso".



Manicure extrovertida - “Aquilo ali é a minha realidade, o meu dia a dia, muito pouco foi mexido”, conta a manicure Débora Leite. Muito pouco? “Algumas coisas que eu falei, na forma de agir e a festa que a gente foi. Não frequento aquele barzinho. No mais, foi natural, não fiz cena”. Se a vontade de participar do Big Brother surgiu como proposta da produção, aos poucos foi sendo assumida por Débora como um desejo real, a ponto de ter mandado o vídeo para se inscrever no programa global, no ano passado. “A experiência de fazer o filme foi ótima, sou extovertida, adoro aparecer. Estou pensando em enviar o vídeo novamente este ano”.

De 2008 pra cá, Débora continua vivendo e trabalhando no mesmo lugar, o Salão Belas Unhas, que ontem completou 12 anos. “A única mudança na minha vida foi ter trocado de namorado”. Sobre a forma como Brasília Teimosa é apresentada no filme, a manicure de 32 anos diz que o bairro tem coisas bem melhores para se mostrar. “Por conta da compra dos terrenos ao redor, ele está menor do que antes, mas continua a mesma coisa em termos de comunidade”.

(Diario de Pernambuco, 08/10/2011)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

À mestra com carinho



No contexto de violência em que as salas de aula tem sido profanadas, um filme como Uma professora muito maluquinha (BRA, 2011) pode soar um tanto deslocado. E talvez por isso mesmo, necessário. A obra foca na relação de afeto entre a professora Cate (Paola Oliveira) e uma turma de infantes do ensino público.

Dirigida por André Pinto (sobrinho de Ziraldo, autor do livro) e César Rodrigues, a produção está ambientada nos anos 1940, em cidadezinha do interior de Minas Gerais. Tempo-espaço distante o suficiente para que nele se depositem todas as utopias. Na média, é um filme bem confortável, que remete à ingenuidade das comédias antigas e pode ser habitado sem medo.

Já a mensagem é urgente e defende algo mais do que a harmonia professor-aluno, por questionar métodos tradicionais de ensino como o sistema de avaliação por notas. Pela empatia que desperta nas crianças, Cate é observada com desconfiança pelas demais professoras, reduzidas a repressoras e infelizes fofoqueiras, todas de olho no potencial romance da rival com o padre Beto (Joaquim Lopes), o diretor da escola.

Cai bem a presença de Chico Anysio, como o sábio monsenhor, assistido por um Aramis Trindade bem próximo ao Batista, o coroinha de Irmão Carmelo, criado por Jô Soares nos anos 1980. Com sombrancelhas pretas e bigodinho que evocam Monteiro Lobato, o próprio Ziraldo faz ponta como o gerente do cinema onde a professora leva a classe para assistir Cleopatra.

Para os adultos, é nostalgia garantida. E o elogio à leitura e à sala de aula como espaço afetivo garante a adesão dos professores. Mas com tantas referências ao passado, Uma professora muito maluquinha funcionará com as crianças? A conferir.

(Diario de Pernambuco, 07/10/2011)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Szafir e o profeta Elias

Elias, o profeta do Antigo Testamento, terá uma versão contemporânea dirigida por Guilherme de Almeida Prado. O diretor, que estreou em 1981 com o filme As taras de todos nós e ganhou fama em 1988 com A dama do Cine Shanghai, foi convidado pela produtora recifense Anjoluz Filmes para realizar A palavra de Elias, protagonizado por Tuca Andrada. No entanto, o nome mais famoso é o de Luciano Szafir, que aterrissa na capital amanhã de manhã. Ele será Acabi, o rei politeísta que, no roteiro assinado por Prado e Tarciana Oliveira, retorna como o dono de uma emissora de TV.

As filmagens começaram na última segunda-feira, em Nova Jerusalém, e incluem sequências no Recife e Vale do Catimbau. Além de Szafir e Andrada, o elenco conta com Regina Remensius, Karina Barum, Rubens Teixeira e Germano Haiut. A fotografia é de Roberto Yuri. A direção de arte, de Luiz Rossi; O figurino, de Beto Normal. A montagem será de João Maria.

Prado, que não tem inclinação religiosa, descreve a história como um drama de inspiração bíblica, com elementos de comédia, trazido para os tempos atuais. “Há momentos de realismo mágico, que não chega a ser fantástico. Mas não vai ter ninguém de saias romanas andando por aí. São temas atu-ais como a indústria da seca, o uso da mídia, assuntos que já estão na Bíiblia, que também é uma história política do povo de Israel”.

De acordo com a produtora executiva, Zitah Oliveira, a ideia é gerar um produto para TV e DVD, mas uma edição para cinema não está descartada. Ela quer que A palavra de Elias seja o primeiro de uma série de adaptações. A próxima será A palavra de Eliseu, que susbstituiu Elias quando foi arrebatado para o céu em uma carruagem de fogo. Zitah, que é da Assembleia de Deus, não soube precisar o orçamento com que trabalha a produção, mas garante que não há patrocínio institucional.

(Diario de Pernambuco, 06/10/2011)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Coluna de lançamentos + notas de bastidores + "eu indico" da semana



Filme socialismo (França, 2010). De Jean-Luc Godard. 101 minutos. Imovision.

Aos 80 anos, o diretor francês oferece outra obra vigorosa e sem concessões. Como as ondas do Mediterrâneo por onde cruza o navio repleto de turistas que passam pelo Egito, Palestina, Odessa, Hellas, Napoles e Barcelona, Godard coloca imagens como derivações de seu pensamento estético e político sobre os descaminhos da humanidade. A completa liberdade com que o faz o reafirma como um dos maiores criadores do cinema.


Thor (EUA, 2010). Kenneth Branagh. 110 minutos. Paramount.

O dilema sheakespeareano orquestrado por Branagh conta a origem de mais um heroi Marvel, de olho na chegada de Os Vingadores em 2012. Em Asgard, o poderoso Thor (Chris Hemsworth) desobedece o pai Odin (Anthony Hopkins) e cai na provocação de inimigos do reino vizinho. Como castigo, seu pai o envia à Terra para aprender a ser menos arrogante. Lá ele encontra a cientista Jane Foster (Natalie Portman), que o ajuda a recuperar o martelo Mjolnir. Pena que o roteiro a reduza a um mero bibelô.



Uma manhã gloriosa (Morning glory, EUA, 2011). De Roger Michell. 102 minutos. Paramount.

Comédia crítica sobre bastidores da TV traz um Harrison Ford ranzinza como âncora de programa matinal de notícias. Entre receitas de bolo conduzidas por Diane Keaton e ouras amenidades, ele conta com a admiração da idealista mas atrapalhada nova produtora (Rachel McAdams) para enfrentar uma equipe preguiçosa para exercer o jornalismo com dignidade.

Bastidores

Imperdível - Em novembro, um paraíso cinéfilo se instalará no Cinema São Luiz. É quando a 4ª Janela Internacional de Cinema do Recife promove uma retrospectiva de Stanley Kubrick inédita no país. Todos os filmes do diretor serão exibidos, com destaque para Laranja macânica, que completa 40 anos em versão restaurada em digital 4k.

Set - Três novos filmes de ficção estão em pleno vapor no Recife: Boa sorte meu amor, longa de estreia de Daniel Aragão (Símio Filmes); o curta Um Dia de Veraneio, de Henrique Paiva (Página 21); e Tatuagem, primeiro longa de Hilton Lacerda (REC Produtores), que está em preparação em Olinda.

Infantil - Começa na próxima quarta-feira o 9º Festival Internacional de Cinema Infantil. São mais de 100 filmes de 20 países, entre eles a ótima animação, Ponyo, de Hayao Miyazaki, que será debatido na sessão Pequeno Jornalista. No Cinema da Fundação.

Roteiro - De 25 a 28 de outubro, a roteirista mexicana María Escandón dará oficina no Recife. Sua obra mais conhecida é Santitos, traduzido para 22 idiomas e lido em 86 países. A oficina é gratuita, com limite de 25 vagas. Quem promove é o Centro Audiovisual Norte-Nordeste, sediado na Fundaj.

Residência - Com o curta As aventuras de Paulo Bruscky, Gabriel Mascaro foi contemplado pelo festival VideoBrasil (SP) com o prêmio de residência artística Videoformes, em Clermont-Ferrand, França.

Eu indico
Recomendo que assistam a trilogia O poderoso chefão (1972, 1974, 1989), de Francis Ford Coppola, seguidos e sem intervalo. São filmes muito bem produzidos e as interpretações são tão boas que chegam a dar agonia!

Oswaldo Montenegro, compositor

(Diario de Pernambuco, 06/10/2011)

Em defesa da invenção


Edgard Navarro e Luís Paulino: ícones do cinema baiano

Um dos melhores filmes do Festival de Brasília, O homem que não dormia, de Edgard Navarro, passa a limpo o universo simbólico do diretor baiano, autor dos ótimos Super Outro e Eu me lembro, ambos consagrados em festivais em 1989 (Gramado) e 2005 (Brasília). Dessa vez, Navarro dividiu opiniões. Houve quem achasse seus delírios dramáticos filmados entre vales e rios herméticos demais, mal costurados até. Pode ser. Mesmo se “recebidas no coração”, como pede o cineasta no início da fita, as imagens, de inegável beleza e ousadia, podem não ser tão acessíveis.

Estamos em Igatu, a pequena cidade de pedra cravada na Chapada Diamantina, no filme povoada por arquétipos comuns à vida no interior: o coronel, o padre, o maluco, a “mulher da vida”, o vagabundo, o poeta, o fofoqueiro. Uma cartela de personagens que orbitam em torno de Navarro, ele mesmo no papel do barão que mata a esposa, o amante, enterra seu tesouro em um baú e peregrina mundo afora, sem ter o direito de morrer ou ao menos dormir. Anos depois, já “encarnado” por Luiz Paulino dos Santos (desde os anos 1960, figura emblemática para o cinema baiano) ele retorna à vila, causando rebuliço.

Espírito livre, Navarro propõe uma destemida viagem em que exorcisa os próprios demônios. O projeto remonta ao fim dos anos 1970, pode ser considerado o filme de sua vida, tanto que o diretor se diz desobrigado a realizar qualquer outro, a não ser por diletantismo.

Aos que procuram a invenção, termo pelo qual o cinema de Navarro se definiu enquanto gênero, O homem que não dormia é um prato cheio. Risco é sinônimo de liberdade, defendem os anarquistas, e nesse percurso, errar é um direito tão importante quanto o acerto. Importa mais para onde o filme aponta: o cinema enquanto potencial de emancipação.

(Diario de Pernambuco, 05/10/2011)

Festival de Brasília - balanço e premiação



O 44º Festival de Brasília terminou na última terça-feira com a consagração de Hoje, novo longa de Tata Amaral. Longe de questionar os méritos do filme, premiado em seis categorias principais, a decisão do júri reforça a guinada do evento, que este ano se voltou mais à questões de mercado do que de linguagem ou inovação. Até então, Brasília era conhecida como arena propícia para repercutir o cinema de risco, que ultrapassa fronteiras. Agora investe R$ 250 mil (prêmio principal) em uma produção de qualidade técnica, certo apuro de linguagem, mas acima de tudo, conservadora.

O mesmo vale para Meu país, de André Ristum, que rendeu quatro prêmios, entre eles o de melhor ator para Rodrigo Santoro. Tanto ele quanto Denise Fraga, em Hoje, estão ótimos em seus papéis, o que não ameniza a conclusão de que a nova fórmula de Brasília é brindar o público com rostos conhecidos. No reino dos curtas, vale o mesmo para o paulista L, produção competente mas inofensiva, se comparado com o paranaense Ovos de dinossauro na sala de estar.

As sessões lotadas, com gente sentada nas escadas em todas as noites no Cine Brasília é a prova disso. No entanto, a temida plateia crítica que fez a fama do festival aplaudiu todos os filmes de forma irrestrita. Vaias, só para a ministra Ana de Holanda (na abertura) e à defesa do não-ineditismo na mostra competitiva. Se as noites foram de cinema lotado, no expediente diurno predominaram nos seminários discursos a favor de um cinema comercialmente viável, “de resultado”.

Os nove dias de programação foram permeados por elogios e pedidos de aplausos para líderes do PT, da presidente Dilma a Lula, e para o ex-ministro José Dirceu, sempre ressaltando que a maior novidade do ano são “as exibições descentralizadas em cidades-satélites”. Tudo isso reduz a dimensão de um festival em que a discussão política costumava ser bem mais ampla do que a dos interesses partidários.

Nesse contexto, não impressiona que As hiper mulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro, e O homem que não dormia, de Edgard Navarro, filmes com a antiga “cara” de Brasília, não tenham recebido o merecido reconhecimento. Estranho é perceber boa parte da crítica alinhada às decisões do júri oficial.

Premiação

Longa-metragem

Filme: Hoje, de Tata Amaral
Direção: André Ristum (Meu país)
Ator: Rodrigo Santoro (Meu país)
Atriz: Denise Fraga (Hoje)
Ator coadjuvante: Ramon Vane (O homem que não dormia)
Atriz coadjuvante: Gilda Nomacce (Trabalhar cansa)
Roteiro: Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald e Filipe Sholl (Hoje)
Fotografia: Jacob Solitrenick (Hoje)
Direção de arte: Vera Hamburger (Hoje)
Trilha sonora: Patrick de Jongh (Meu País)
Melhor som: Mahajugi Kuikuro, Munai Kuikuro e Takumã Kuikuro (As Hiper Mulheres)
Montagem: Paulo Sacramento (Meu país)

Júri popular | melhor filme: Meu país, de André Ristum
Júri da crítica | melhor filme: Hoje, de Tata Amaral

Curta-metragem

Filme: L, de Thaís Fujinaga
Direção: Thaís Fujinaga (L)
Ator: Horácio Camandulle (De lá pra cá)
Atriz: Eloína Duvoisin (A Fábrica)
Roteiro: Ali Muritiba (A fábrica)
Fotografia: André Miranda (Imperfeito)
Direção de arte: Raquel Rocha (Premonição)
Trilha sonora: Ilya São Paulo (Ser tão cinzento)
Som: Kiko Ferraz (De lá pra cá)
Montagem: Wallacee Nogueira e Henrique Dantas (Ser tão cinzento)

Júri popular | melhor curta: A fábrica, de Aly Muritiba
Júri da crítica | melhor curta: L, de Thaís Fujinaga
Prêmio Aquisição Canal Brasil: Ser tão cinzento, de Henrique Dantas

Curta de animação

Júri popular: Rái sossaith, de Thomate
Júri oficial: Céu, inferno e outras partes do corpo, de Rodrigo John

(Diario de Pernambuco, 05/10/2011)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O lado escuro do arco-íris



O fetiche em torno da suposta sincronia entre o filme O mágico de Oz e o álbum Dark side of the moon, do Pink Floyd, ganhará hoje uma edição de luxo. Às 21h, o Cinema São Luiz exibirá o filme acompanhado pela execução de todas as faixas, ao vivo, por oito músicos do projeto pernambucano Dark Side.

A sessão é promovida pela Mostra Play The Movie do Coquetel Molotov, que em sua quinta edição chega ao Cinema São Luiz (Rua da Aurora, 175 - Boa Vista). A programação, que sempre inclui um cine-concerto, desta vez mexe com uma teoria mitológica para os fãs de rock e cinema.

Desde quando foi lançado, em 1973, repercutiu-se a hipótese de que o cultuado grupo inglês teria se baseado no clássico de 1939 estrelado por Judy Garland para compor certas passagens e interlúdios do álbum conceitual que se tornou um dos pilares do rock progressivo e um dos três albuns mais vendidos de todos os tempos.

Nos anos 80, com o advento do home video, fãs promoviam sessões para provar a sincronia, cujo efeito é realmente impressionante. No entanto, integrantes do Pink Floyd sempre negaram a intenção, alegando que naquela época era impossível exibir o filme dentro do estúdio Harvest, na Inglaterra. Décadas depois surge o projeto que colocou na internet uma versão que funde filme e disco no mesmo arquivo digital, intitulado Dark side of the rainbow (referência à música tema do filme, Somewhere over the rainbow).

Idealizador do projeto, Cláudio N (Chambaril) diz que não houve ensaio para acompanhar as imagens do filme. “Procuramos ser fieis ao disco, que naturalmente vai se adequar ao filme”. É a quarta vez que a banda apresenta o projeto de tocar o álbum faixa a faixa, na íntegra. Ele define o Dark Side como uma banda-tributo, que busca uma sonoridade a mais parecida possível. “Todos nós somos fãs do Pink Floyd e é difícil viver somente da nossa produção autoral”.

Além de Claudio, fazem parte da banda os músicos Pi-R (Chambaril), Publius e Juliano Holanda (Azabumba), Alexandre da Maia e Pedro Parini (Pocilga de Luxe), a cantora Rachel Bourbon e o saxofonista Mavi Pugliesi.

Antes do cine-concerto, às 17h, outro clássico será exibido: Cantando na chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen e os curtas Eu tenho pressa e Di Melo, o imorrível, de Alan Oliveira, além de um debate com o produtor de cinema João Jr.

A mostra Play the Movie continua no sábado e domingo, com os filmes Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, Gretchen Filme Estrada, de Eliane Brum e Paschoal Samora, Explosão Brega, de Hanna Godoy, A alma do osso, de Cao Guimarães, Daquele instante em diante, de Rogério Velloso e Nas paredes da pedra encantada, de Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim. A entrada é franca.

(Diario de Pernambuco, 04/10/2011)

domingo, 2 de outubro de 2011

Vladimir velho de guerra

Autor de obras seminais como O país de São Saruê (1971), Conterrâneos velhos de guerra (1990) e O engenho de Zé Lins (2007), o documentarista Vladimir Carvalho não precisa provar mais nada a ninguém. Mesmo assim, aos 76 anos, ele reafirma a vitalidade criativa com seu mais novo filme, Rock Brasília – anos de ouro.

Lançado no Festival de Paulínia, onde foi eleito o melhor de sua categoria e agora no Festival de Brasília, em que arrastou uma multidão para a cerimônia de abertura, o longa promove um panorama íntimo, político e social de uma geração de músicos que vieram a fundar as bandas Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.

Paraibano de Itabaiana, ainda criança Vladimir morou por dois anos no Recife, período suficiente para guardar lembranças. “Vivenciei muito a cidade, onde andava pelos bairros a pé”. Cícero Dias, a quem admira, não chegou a conhecer, mas quer que seja o tema de seu próximo documentário. Sobre o Festival de Brasília, do qual faz parte do júri da competição de longas (Rock Brasília está fora do páreo por conta da premiação em Paulínia), o veterano diretor não emite opiniões precipitadas. Prefere acreditar em seu histórico potencial. Leia mais na entrevista a seguir.

Entrevista >> Vladimir Carvalho: "Não estou a fim de renovar linguagem, meu objetivo é comunicar"

Como foi o seu tempo no Recife?
Aos nove anos, fui expulso de Itabaiana porque meus pais achavam que lá eu não ia me desenvolver. Fui para a casa da minha tia, no bairro de Água Fria. A zona do cais, onde é hoje o Marco Zero, sempre foi interessante. Andava de bonde, com aqueles trilhos brilhosos. O ano era 1945, eu cheguei a assistir, no Porto do Recife, à chegada do primeiro esquadrão da FEB (Força Expedicionária Brasileira), tocando músicas. Em seguida teve o carnaval da vitória.

E de onde vem a vontade de fazer um filme sobre Cícero Dias?
Estava fazendo o filme sobre José Lins do Rego em Paris, estava procurando uma foto dele com Cícero. Fui numa exposição dele e me deparei com uma frase na parede da galeria. Então visitei o ateliê, onde deitei na rede dele e entrevistei a viúva dele e sua filha, que é afilhada de Picasso.

Qual o seu método para conduzir um documentário?
Quando gravo, nem sempre sei que filme estou fazendo naquele momento. Por exemplo, quando tiraram uma favela de onde seria a Ceilândia, procurei fazer esse registro, pois aquilo me pareceu importante. Depois, filmei a chegada dos tricampeões para cumprimentar o presidente da República. Anos depois, percebi a atração entre os materiais e isso culminou em Companheiros velhos de guerra. Não é método, é circunstância.

Foi assim com a entrevista inédita com Renato Russo, gravada em 1988 e só revelada em Rock Brasília?
Naquela época eu era professor da Universidade de Brasília e procurei fazer com que os alunos se interessassem pela cidade de forma ampla, pois ela fervilhava de temas sociais, políticos, culturais. Pedi aos alunos que trouxessem interpretações pessoais, na linguagem visual do cinema. Entre as outras coisas surgiram mais de 200 bandas de rock. Mas aquilo não era exatamente um filme. Quando as bandas voltaram do Rio e de São Paulo, em 1987, o Capital Inicial abriria o show do Sting e fui filmar, pois isso me pareceu importante.

Além da trajetória das badas, Rock Brasília conta também a história recente da cidade que você escolheu para morar.
Cheguei em Brasília em 1970 para participar do festival com o curta A bolandeira. Dez anos antes, chegaram alguns dos pais dos músicos, atraídos pelo projeto da cidade, pela figura do Juscelino, por uma vida diferente. Foi uma coisa de coração, foi onde eles quiseram educar os filhos. Essa mística que motivou os pais reflete na formação dos filhos, que criaram uma ligação com a cidade e herdaram a vontade de viver uma utopia, um experimento, só que de forma mais anarquista.

No filme, você se alinha mais com o ponto de vista dos pais do que com o dos filhos.
Sendo que não tive filhos, é uma identificação geracional. Por isso, tomei a atitude de não levar os filhos deles tão a sério. Eles não eram engajados ou militantes, mas reagiram à pressão da sociedade e da família. É um rito de passagem natural da idade, tem a libido, a descoberta como ser humano. Na prática, foi algo intuitivo, quase inconsciente.

Nesse sentido, seu interesse pelo rock é menos estético e mais político, como instrumento de contestação sociocultural?
Sim, o faça você mesmo do punk, eles levaram isso a sério. Quando a Legião Urbana e Plebe Rude foram para o show Patos (Minas Gerais) e foram presos é um marco, pois eles percebem que estão mexendo com o poder, o resquício da ditadura. Mas, bem antes disso, me identifiquei com o rock através de meu irmão mais novo, o fotógrafo Walter Carvalho. Sou 13 anos mais velho e quando minha mãe enviuvou, tive ele no colo por muito tempo. Quando ele começou a sair para bares de rock, em 1957, eu tranquilizava a minha mãe. Lembro de ter assistido Sementes de violência, de Richard Brooks, em que um professor lida com uma classe de rebeldes e, na hora das músicas, o Cine Rex de João Pessoa teve as cadeiras cortadas com navalhas pelo público que dançava. Aquela coisa primitiva me deu a possibilidade de examinar o rock como fenômeno.

Rock Brasília costura depoimentos, imagens de arquivo e sequências dramatizadas. Fale um pouco da linguagem do filme.
Uso elementos da narrativa clássica, uma jornada epicrônica de uma vida coletiva. Há a partida, a motivação para vencer o ambiente doméstico, provinciano. É uma história de perseverança, sobre sair do conforto familiar, do zelo dos pais temerosos, sobre ousar. Há os empecilhos, as pessoas que guardam templos sagrados, o herói e mentor, no caso, Renato Russo, que era o líder natural, a cabeça privilegiada. Não usei tanta música para que o público não se distraísse dessa odisseia que foi a história deles. Guimarães Rosa disse que o real não está na saída nem na chegada, mas na travessia. E há a ressurreição, no momento em que o Capital Inicial volta após a morte de Renato. Tudo isso está na narrativa clássica. Faço isso sem me diferenciar do restante do meu trabalho. Não sou do tipo que busca primeiro a forma. Ela virá de qualquer maneira, não vou procurar firula. Não estou a fim de renovar a linguagem, meu objetivo é comunicar.

Seu filme estreia nacionalmente ainda este mês. De que forma o cinema brasileiro pode ter mais aceitação comercial?
Esse momento é riquíssimo, de aceitação internacional em casos isolados, como o de Fernando Meirelles e Walter Salles. A produção existe mas não temos a plenitude do nosso território, não estamos no mercado. Concordo com as criticas à Ancine, no sentido de haver uma resposta mais objetiva com relação ao desenvolvimento do cinema brasileiro. Há uma “caixa preta” de recursos bloqueados e a postura de delegar apenas o mercado como regulador. Em termos de recursos, temos a possibilidade de ampliar não só o financiamento dos filmes, como a ocupação do mercado.

Por um lado, há as facilidades tecnológicas. Por outro, imposições de mercado e patrocínio. Está mais facil ou dificil fazer cinema atualmente?
Cinema sempre foi área sofrida e a tecnologia criou grande alento, gerando rapidez e baixo custo. O problema é que nossos filmes não frequentam o mercado, temos mais filmes do que possibilidade de exibição. Isso é cruel, ter vários tipos de cinema sendo feitos, que deveriam chegar ao público de forma mais intensa, dentro de um plano organizado. Documentários podem expandir para a televisão, salas convencionais, banda larga. Devemos compartilhar o bolo geral, conseguir mais visibilidade.

Após décadas no comando de Fernando Adolfo, o Festival de Brasília mudou de direção e passa por mudanças pelas quais vem sendo criticado. Qual sua visão sobre o assunto?
Geralmente, dar uma olhada no retrovisor é sempre benéfico. A troca de comando é a oportunidade de rever o que foi feito, acertos e erros. Não sei se vai acontecer, mas o momento é de virada. O próprio contexto de Brasília, que inclui uma faculdade e um polo de cinema, a troca de governo local, pode resultar numa reforma, num aprimoramento dos instrumentos. Brasília já foi considerada o terceiro polo de produção de cinema. Perdemos essa condição por falta de atendimento às demandas locais. A reforma do festival faz parte de uma atitude para avançar. O poder local, em raríssimas ocasiões, teve a percepção de reconhecer o papel tem a cultura. Iveste uma fábula de dinheiro com publicidade quando Brasília poderia ser um polo que irradia cultura. Mas ela é como uma capital provinciana. Vivemos nessa maquete arquitetada por Oscar Niemeyer, em que as pessoas não ocupam as ruas, delegam isso à estudantada. Arruda, por exemplo, não seria exonerado não fosse o enfrentamento dos estudantes.

Após tantos anos de cinema, o que lhe instiga a rodar um filme?
Aquilo que me comove, que afeta o cidadão Vladimir Carvalho. Isso talvez seja o primeiro impulso, pois a realidade social está implícita no que eu faço. Trabalho à mercê desse impulso.

(Diario de Pernambuco, 02/10/2011)

sábado, 1 de outubro de 2011

Brasília, noite 4 - Armadilhas da memória



O primeiro longa inédito do 44º Festival de Brasília foi muito bem recebido. Inspiradíssimo na linguagem teatral, Hoje desponta na competição como um dos favoritos aos Candangos. Um deles, o de melhor atriz, deve ir para Denise Fraga, em papel dramático pouco usual para atriz marcada pela comédia. Em 1996, a diretora Tata Amaral já havia arrebatado Brasília com o longa de estreia, Um céu de estrelas, que tem alguns pontos em comum com este filme, como a reclusão de um casal em um único ambiente, o apartamento. No entanto, a força de Hoje está na maneira em que aborda os anos de chumbo da ditadura brasileira, através de suas consequências na psiqué de ex-militante.

Para realizar Hoje, Tata convocou antigos colaboradores, como o roteirista (e crítico) Jean-Claude Bernardet, o diretor de fotografia Jacob Solitrenick e a montadora Idê Lacerda. Assim como Um céu de estrelas, a história adapta um romance de Fernando Bonassi, Prova contrária. Bernadet disse que seu método foi o mesmo: não ler o livro, mas deixar que a diretora o contasse: “quis descobrir o que ela vê no texto. Ali se formaram os alicerces, como a ideia de se reduzir ao apartamento”.

O “hoje” do filme se passa em 1998. Vera (Denise) acaba de comprar um apartamento e, enquanto recebe a mudança, se surpreende com a volta do companheiro desaparecido nos anos 1970, vivido pelo uruguaio César Troncoso. A paranoia logo se instala e ela o esconde dos funcionários da transportadora, da síndica indiscreta, deixa janelas semicerradas. Na penumbra, a memória se mistura à arquitetura.

Apesar de algumas incoerências “de época” (em 1998 não havia celulares com ringtones e encanadores 24h na internet) e alguma descontinuidade (perdoável, já que o real se mistura à memória), o filme convence pela atuação e um incrível trabalho de luz. Para representar o trauma da personagem, portas e paredes são banhados em imagens artificiais, projetadas nos próprios atores, como em outro filme recente que trata da ditadura, Uma longa viagem, de Lúcia Murat. E a fotografia final, que representa a liberdade atingida pela personagem, é uma das mais lindas do cinema nacional. Hoje é dividido em “atos” e conforme avança desvela novos territórios da memória de Vera, cujo comportamento levou Denise Fraga a aceitar o papel. “Foi a personagem mais complexa que já fiz”.

É curioso perceber como se fala da necessidade de lembrar dos crimes cometidos durante o militarismo, quando suas vítimas apenas querem, em vão, esquecer. Para a diretora, é preciso debater aquela época de forma mais incisiva. “Não enfrentamos os nossos fantasmas. Ao contrário de outros países, não punimos os nossos torturadores”.

(Diario de Pernambuco, 01/10/2011)

Coluna de lançamentos, bastidores e "eu indico" da semana



Waldick – sempre no meu coração (Brasil, 2011). De Patrícia Pillar. 58 minutos. Canal Brasil.

Neste documentário de estrada, a diretora viaja com Waldick Soriano, onde visitam lugares e pessoas mais significativas para o famoso compositor popular, morto em 2008, aos 75 anos. Da pequena Caetité, Bahia, ao apartamento onde passou os últimos dias, em Fortaleza, vemos o retrato de um boêmio irredutível, capaz de suportar as consequências do álcool e da infidelidade amorosa – centenas de músicas, dezenas de mulheres e a solidão. Permaneceu fiel a si ou ao personagem que criou? Eis o mistério da vida artística.



House - 7ª temporada (EUA, 2011). Universal. 1.000 minutos. Universal.

O sétimo ano da série começa com a união amorosa entre Dr. House (Hugh Laurie) e a Dra. Cuddy (Lisa Edelstein). Agora, tomar decisões difíceis no hospital sem deixar que o relacionamento atrapalhe é o primeiro dos desafios. Contratar uma nova médica para a equipe é outro. Mesmo com roteiro previsível, a série vale ser assistida pelo carisma do personagem principal, um médico imprevisível, incorreto e brilhante. É divertido acompanhar seus métodos questionáveis para resolver os casos mais difíceis.



Bravura indômita (True grit, EUA, 2011). De Joel e Ethan Coen. 110 minutos. Paramount.

Apesar da aparência, o novo filme dos irmãos Coen não é um faroeste. Muito menos um remake do clássico de 1969, estrelado por John Wayne. Os diretores foram direto à fonte, o livro de Charles Portis, e deram a ele o tratamento de fábula onde garota (Hailee Steinfeld) procura xerife aposentado Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e o “ranger” LaBoeuf (Matt Damon) para vingar a morte de seu pai, pelas mãos de um bandido degenerado (Josh Brolin). Ela quer proteção, mas tudo o que encontra é violência.

Eu indico

Meshes of afternoon (EUA, 1943), de Maya Deren. Marco do cinema experimental. Sinto por usar este clichê, mas é isso. Tempo circular paranóico explicitado em objetos carregados de simbologia e que conduzem o roteiro (na aurora deste genêro, experimental tinha roteiro sim). Inspiração potente para trabalhadores em arte e apreciadores do livre pensamento”.



Lia Letícia é artista plástica

Bastidores

Literatura - Filmes de Luci Alcântara serão exibidos durante a Bienal do Livro de Pernambuco. Sábado, às 14h, o Café Cultural apresenta Geração 65: aquela coisa toda (2008), A minha alma é irmã de Deus (2009), Úrsula (2011) e JMB, o famigerado (2011). No domingo, às 19h, o CineSesc apresenta o longa Olhares sobre Lilith, onde a diretora participa com o curta Úrsula. Tudo no Centro de Convenções.

Arriba - Semana passada, a rede exibidora mexicana Cinépolis, a quarta maior do mundo, adquiriu os complexos da carioca Box Cinemas, que em Pernambuco mantém doze salas no Shopping Guararapes. Resta saber quando começa a esperada reforma do complexo, agora no padrão da nova proprietária.

Rio - Pernambucanos selecionados para o Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2011: Corpo presente, de Marcelo Pedroso, Ela morava na frente do cinema, de Leonardo Lacca, Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, Acercadacana, de Felipe Calheiros, e Peixe pequeno, de Vincent Carelli e Altair Paixão.

Etnodoc - Sueños de mayo (México), de Mariana Rivera, e Aperreio (Brasil), de Doty Luz, dois curtas exibidos no Festival do Filme Etnográfico, ganham sessão extra hoje, às 21h no Curta no Xinxim (Av. Sigismundo Gonçalves,742 – Carmo, Olinda), com a presença dos diretores.