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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ritual poderoso para o cinema



As hiper mulheres chegaram ao Recife. Produto da parceria entre realizadores brancos e índios, o longa aborda a transmissão de conhecimento entre gerações. Não só pelo tema, mas pelo exercício de linguagem cinematográfica, é um dos melhores da temporada. A sessão será hoje, às 21h30, no Cinema da Fundação.

Esta nova cria da produtora Video nas Aldeias, assinada por Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro, venha a público na 4ª Janela Internacional de Cinema do Recife, evento que organiza uma retrospectiva do diretor Stanley Kubrick - o filme de hoje (às 18h30, no Cinema São Luiz) é o claustrofóbico Nascido para matar (1987), ambientado na guerra do Vietnã.

Se comparados, é possível exergar o legado de Kubrick na composição, perspectiva e movimentos de câmera adotados para representar o ritual das mulheres do Xingu. Ali está a grandiosidade épica de Spartacus, o silêncio primitivo de 2001 - uma odisseia no espaço, a montagem rigorosa de Laranja mecânica.

“Amo o cinema de Kubrick, mas essa proximidade vem dos próprios Kuikuro, que são extremamente caprichosos tanto no ritual quanto nos movimentos de câmera”, diz Leonardo Sette, que participa de debate no fim da sessão. “Talvez a montagem responda de forma orgânica ao preciosismo das imagens. O trabalho foi muito intuitivo, havia um fluxo de não pensar que aquilo era um documentário, mas um filme de ficção, que é o cinema que eu mais vejo”.

Premiado nos festivais de Gramado e Brasília, mesmo que rodado no Mato Grosso, As hiper mulheres é defendido por Sette como um filme pernambucano. “Tanto pelo meu lado, quanto pelo do Vídeo nas Aldeias, que é sediado em Olinda. Isso talvez evidencie o Recife cosmopolita e eclético, ao lado da inegável e celebrada originalidade regional que a cidade tem”.

(Diario de Pernambuco, 09/11/2011)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Festival de Brasília - balanço e premiação



O 44º Festival de Brasília terminou na última terça-feira com a consagração de Hoje, novo longa de Tata Amaral. Longe de questionar os méritos do filme, premiado em seis categorias principais, a decisão do júri reforça a guinada do evento, que este ano se voltou mais à questões de mercado do que de linguagem ou inovação. Até então, Brasília era conhecida como arena propícia para repercutir o cinema de risco, que ultrapassa fronteiras. Agora investe R$ 250 mil (prêmio principal) em uma produção de qualidade técnica, certo apuro de linguagem, mas acima de tudo, conservadora.

O mesmo vale para Meu país, de André Ristum, que rendeu quatro prêmios, entre eles o de melhor ator para Rodrigo Santoro. Tanto ele quanto Denise Fraga, em Hoje, estão ótimos em seus papéis, o que não ameniza a conclusão de que a nova fórmula de Brasília é brindar o público com rostos conhecidos. No reino dos curtas, vale o mesmo para o paulista L, produção competente mas inofensiva, se comparado com o paranaense Ovos de dinossauro na sala de estar.

As sessões lotadas, com gente sentada nas escadas em todas as noites no Cine Brasília é a prova disso. No entanto, a temida plateia crítica que fez a fama do festival aplaudiu todos os filmes de forma irrestrita. Vaias, só para a ministra Ana de Holanda (na abertura) e à defesa do não-ineditismo na mostra competitiva. Se as noites foram de cinema lotado, no expediente diurno predominaram nos seminários discursos a favor de um cinema comercialmente viável, “de resultado”.

Os nove dias de programação foram permeados por elogios e pedidos de aplausos para líderes do PT, da presidente Dilma a Lula, e para o ex-ministro José Dirceu, sempre ressaltando que a maior novidade do ano são “as exibições descentralizadas em cidades-satélites”. Tudo isso reduz a dimensão de um festival em que a discussão política costumava ser bem mais ampla do que a dos interesses partidários.

Nesse contexto, não impressiona que As hiper mulheres, de Leonardo Sette, Carlos Fausto e Takumã Kuikuro, e O homem que não dormia, de Edgard Navarro, filmes com a antiga “cara” de Brasília, não tenham recebido o merecido reconhecimento. Estranho é perceber boa parte da crítica alinhada às decisões do júri oficial.

Premiação

Longa-metragem

Filme: Hoje, de Tata Amaral
Direção: André Ristum (Meu país)
Ator: Rodrigo Santoro (Meu país)
Atriz: Denise Fraga (Hoje)
Ator coadjuvante: Ramon Vane (O homem que não dormia)
Atriz coadjuvante: Gilda Nomacce (Trabalhar cansa)
Roteiro: Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald e Filipe Sholl (Hoje)
Fotografia: Jacob Solitrenick (Hoje)
Direção de arte: Vera Hamburger (Hoje)
Trilha sonora: Patrick de Jongh (Meu País)
Melhor som: Mahajugi Kuikuro, Munai Kuikuro e Takumã Kuikuro (As Hiper Mulheres)
Montagem: Paulo Sacramento (Meu país)

Júri popular | melhor filme: Meu país, de André Ristum
Júri da crítica | melhor filme: Hoje, de Tata Amaral

Curta-metragem

Filme: L, de Thaís Fujinaga
Direção: Thaís Fujinaga (L)
Ator: Horácio Camandulle (De lá pra cá)
Atriz: Eloína Duvoisin (A Fábrica)
Roteiro: Ali Muritiba (A fábrica)
Fotografia: André Miranda (Imperfeito)
Direção de arte: Raquel Rocha (Premonição)
Trilha sonora: Ilya São Paulo (Ser tão cinzento)
Som: Kiko Ferraz (De lá pra cá)
Montagem: Wallacee Nogueira e Henrique Dantas (Ser tão cinzento)

Júri popular | melhor curta: A fábrica, de Aly Muritiba
Júri da crítica | melhor curta: L, de Thaís Fujinaga
Prêmio Aquisição Canal Brasil: Ser tão cinzento, de Henrique Dantas

Curta de animação

Júri popular: Rái sossaith, de Thomate
Júri oficial: Céu, inferno e outras partes do corpo, de Rodrigo John

(Diario de Pernambuco, 05/10/2011)