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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Os criadores à frente das câmeras



Ao longo dos anos, Pernambuco tem sido pródigo em revelar realizadores inovadores. Notáveis, suas produções repercutiram em cinemas e festivais. Mas pouco se sabe sobre quem são, qual sua história e que ideias os guiam aos filmes. Dirigido por Camilo Cavalcante, a série Olhar é um trabalho inédito, que remete à importância não só de revelar as pessoas por trás dos filmes, mas de construir uma memória do cinema.

A primeira temporada, com dez episódios, vai ao ar todas as segundas-feiras, às 21h30 (horário de verão), no Canal Brasil. O primeiro programa traz o veterano Fernando Spencer, precursor e incentivador da geração do Super 8. Na sequência vem Jomard Muniz de Britto, Kátia Mesel, Simião Martiniano, Daniel Bandeira, Kleber Mendonça Filho, Marcelo Lordello, Marcelo Pedroso, Lírio Ferreira e Cláudio Assis.

“Considero de fundamental importância esta parceria entre TV e produtores independentes”, diz Camilo. “É uma forma de diversificar, pluralizar os conteúdos e abrir espaço para novas idéias e conceitos de programas. Na Europa, essa parceria funciona muito bem. No Brasil, ainda é uma iniciativa tímida. Mas sem dúvida o Canal Brasil tem avançado muito neste sentido, coproduzindo e licenciando vários programas e longas-metragens”.

Longevo repórter e crítico de cinema do Diario de Pernambuco, Spencer lembra de quando, na juventude, ganhou dos pais um projetor e chamou os amigos para fundar um cineclube. Eis a semente do Cinema Coliseu, referência nas sessões de arte dos anos 1960. Como jornalista, ele lembra com gosto a entrevista imaginária que fez com Charles Chaplin, que ocupou página inteira deste Viver. Como realizador, ganhou desesseis prêmios nacionais e um em Portugal. “Não tinha nada. Devo tudo aos amigos”, diz o diretor, que teve na banca de entrevistadores seu companheiro de geração, Celso Marconi.

Com patrocínio da Fundarpe, a série Olhar adota uma linguagem pouco comum à linguagem da TV. Como que uma vingança às avessas contra a vulgarização do cinema nacional pelos cacoetes televisivos, Camilo veste a luva de pelica e traz para a telinha recursos cinematográficos. e cuidados técnicos como movimento de câmera, cenário, luz e som que fazem toda a diferença. A qualidade do projeto se percebe já na animação de abertura, de Leanndro Amorim sobre música de DJ Dolores.

O formato jornalístico vai abaixo com a exclusão das perguntas na mesa de edição. Entre as falas dos cineastas, há apenas o silêncio. “É um programa que prima pela simplicidade com o foco totalmente voltado para o entrevistado e sua obra. Todo esse material torna-se um registro valioso do tempo, da política, do contexto sócio-cultural, da história do Brasil e do mundo, que reflete diretamente na produção de cada realizador”.

No fim de cada entrevista, Camilo pergunta que conselho dar para quem começa a fazer cinema? Kleber responde: “Em termos de estrutura, quem tem 17 ou 18 anos nasceu na época mais incrível para se fazer cinema. Mas não basta fazer filmes. Tem, que ler, viver, levar um pé na bunda, encher a cara. É preciso o toque pessoal, a experiência. Saber ver é saber fazer cinema”. Mais ácido, Jomard diz: “Não vou ficar passando a mão na cabeca de gente jovem, que nao lê, não debate e fica agindo como fossem gênios”.

Os dez primeiros programas são apenas a primeira temporada da série Olhar. “Estamos captando recursos para a produção da segunda temporada para entrevistar cineastas como Marcelo Gomes, Paulo Caldas, Adelina Pontual, Amin Stepple, Celso Marconi, Renata Pinheiro, Gabriel Mascaro, entre outros”. Após lá , Camilo organiza as entrevistas na íntegra, para lançar em livro e DVD.

(Diario de Pernambuco, 16/01/2012)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Televisão reverencia memória do cinema

Em breve, uma nova série de TV vai ao ar. O tema é dos mais necessários: a memória do cinema feito em Pernambuco. Dirigido por Camilo Cavalcante, o programa OLHAR trará entrevistas com cineastas de diferentes gerações, em dez programas de 26 minutos. O lançamento será em maio, em evento no Cinema São Luiz (a série é patrocinada pelo edital do Funcultura). Na sequência ele deve ser exibido em uma emissora local e, só então, será transmitido em rede nacional, via TV a cabo.

As gravações começaram ontem, tendo como convidados o cineasta Fernando Spencer e Jomard Muniz de Brito. Eles foram entrevistados por jornalistas, críticos e colegas de geração, como é o caso de Celso Marconi. Hoje é a vez dos diretores Kátia Mesel e Lírio Ferreira. Até sexta-feira, serão Kleber Mendonça Filho, Marcelo Lordello, Marcelo Pedroso, Daniel Bandeira e Simião Martiniano, o camelô-cineasta.

"Nosso estado tem um cinema muito forte, em evidência, muito visto e premiado, mas os realizadores não são", diz Cavalcante. "O objetivo é promover uma grande retrospectiva da vida desses autores, aproximá-los do público, para que se tenha contato com seus processos criativos. Isso é algo urgente, que precisa ser transmitido pela TV. E ainda mais importante como registro para a posteridade".

Na gravação de ontem, Fernando Spencer narrou episódios remotos de sua vida, como o projetor que ganhou do pai quando criança e as primeiras sessões de cinema no bairro de Casa Forte. O período de quatro décadas em que trabalhou como repórter e editor no Diario foi lembrado com especial emoção. E revelou estar com um livro pronto, pronto para ser publicado: O viajante da fantasia.

O formato de OLHAR remete ao programa Ensaio, produzido pela TV Cultura, em que o espectador não escuta as perguntas mas somente as respostas dos entrevistados. Tudo está montado no Estúdio Marista (Apipucos), onde quatro câmeras - uma em travelling e três fixas estão instaladas.

Cineasta premiado e autor de quase 20 curtas, esta é a primeira incursão de Cavalcante na linguagem televisiva. Antes disso, já havia sido contratado para dirigir o programa Assombrações do Recife Velho. De acordo com ele, há fôlego para novas temporadas da série que estreia em maio. Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Adelina Pontual já confirmaram participação.

(Diario de Pernambuco, 01/02/2011)

domingo, 21 de novembro de 2010

Fôlego do cinema de Pernambuco



A presença de quatro produções pernambucanas inéditas no 43º Festival de Brasília é mais uma prova do bom momento do cinema feito no estado. O evento, que começa na próxima terça-feira e segue até o fim de novembro, costuma aplaudir filmes que refletem o atual momento político e apostam na criatividade narrativa.

Foi assim com os longas Baile perfumado, Amarelo manga, Baixio das bestas e curta-metragens de Camilo Cavalcante e Kleber Mendonça Filho, todos premiados em edições anteriores do festival.

De forma que Vigias, de Marcelo Lordello, Café Aurora, de Pablo Pólo, Acercadacana, de Felipe Peres Calheiros e My way, de Camilo Cavalcante, os novos selecionados para as mostras competitivas deste ano, já entram no páreo com esse background a favor.

Para saber um pouco sobre cada um, o Diario conversou com os realizadores. Confira a seguir.


Zelando pelo sono dos outros - Selecionado pelo Concurso de Roteiros Rucker Vieira, Vigias já foi visto no Recife no formato curta-metragem, em sessão especial promovida pela Fundação Joaquim Nabuco.

O novo corte também converte o documentário para o suporte 35mm, o que deve dar a ele novas cores e luzes. ´A narrativa agora está completa`, diz Marcelo Lordello, um dos realizadores da Trincheira Filmes. ´Ela precisava de mais espaço e tempo para dar conta de todos os personagens`.

Tudo foi feito com R$ 27 mil, impostos descontados. Para viabilizar o transfer para a película, o cineasta Daniel Aragão viajou para Los Angeles, onde o processo é 80% mais barato do que no Brasil.

Como o título sugere, os personagens do filme de Lordello são aqueles que ficam atentos nas portas dos condomínios, zelando pelo sono dos moradores. Seu recorte é mais sensorial do que geográfico.

Durante várias noites do Recife, uma equipe reduzida de sete pessoas visitou profissionais da vigilância da cidade.

´Meia hora de conversa bastava para entender o tipo de abertura e começar a filmar. Não queria um filme de pesquisa de personagem, de vida anterior. Em vez de obedecer algum tipo de dispositivo, me permiti sentir o tempo e observar a relação que se estabelece na hora`, explica Lordello.

Melancholic frevo - Veterano em Brasília, Camilo Cavalcante não adianta muito sobre My way, seu novo curta de ficção.

´É uma pequena parábola sobre a solidão humana. E nada melhor do que o Galo da Madrugada, esse bloco enorme, para encontrar mais um sofrendo na multidão`. Na base de duas câmeras (ele e Camilo Soares), um ator (Silvio Pinto, com quem já trabalhou em O presidente dos Estados Unidos), e muito suor, Cavalcante considera que fez um vídeo experimental, de resultado "bem emocionante".

´Vai de Vassourinhas a My way, de Frank Sinatra. Se disser mais, perde a graça`, diz o realizador, que convida o público recifense a comparecer no Festival de Vídeo de Pernambuco, que também selecionou o curta.

Vivendo o momento - ´O filme é uma ode ao detalhe`, diz o diretor Pablo Pólo, sobre Café Aurora, seu primeiro projeto 100% autoral. Ele está ansioso para sentir o retorno do público de Brasília. ´É meu momento de realização artística, pois estreei como ator muito novo, depois me afastei e sempre havia uma lacuna para me expressar artisticamente`.

O projeto surgiu anos atrás, a partir da simples ideia de um personagem que se apaixona por outro. Ele é um barista que encara o desafio de se comunicar com ela, uma artista plástica que faz uma escultura e dá um tempo para tomar um café. ´Hoje vivemos conectados, escrevemos no computador enquanto ouvimos música. E no filme é o contrário, eles se desconectam do mundo, se dedicam a curtir o momento. A capacidade de viver as situações de forma profunda é o que une os personagens`.

Tem gente no Canavial - Acercadacana é resultado de um processo de aproximação com a agricultora Maria Francisca, que há 40 anos mora em terreno rodeado por plantações de cana na Zona da Mata Norte e está ameaçada de perder a terra para um grupo usineiro.

O engajamento político dos realizadores evidencia a desproporção da disputa pela terra. ´Queremos discutir os lugares de poder e as possibilidades do cinema documentário interagir com isso`, diz o diretor Felipe Calheiros. ´Ao mesmo tempo, há cuidados que podem interessar do ponto de vista da construção da narrativa e montagem`.

A justiça concedeu o direito de usucapião a Dona Francisca, mas a usina recorreu e o caso ainda transcorre nos tribunais. Ela estará em Brasília com os realizadores e juntos divulgarão uma campanha pelo limite da propriedade da terra, uma proposta de emenda constitucional pela reforma agrária.

Brasília costuma receber bem filmes politicamente posicionados. Nesse sentido, Acercadacana tem tudo para se dar bem no festival. ´Tudo faz crer que a discussão vai ser boa. Estamos curiosos para essa sessão`.

Desde o início, o projeto foi bancado pela própria equipe. Para fazer o transfer para a película 35mm, houve aporte de R$ 40 mil da Fundarpe. Após a visibilidade obtida em Brasília, a ideia é começar a produção de um longa sobre o contexto da cultura do etanol.

(Diario de Pernambuco, 21/11/2010)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A hora e vez do curta pernambucano



Dois mil e nove foi um ano e tanto para o curta-metragem pernambucano. Somente em Brasília, mês passado, quatro filmes estreantes deram o que falar e monopolizaram os principais prêmios. No Recife, eles serão exibidos pela primeira vez hoje, às 20h20, na programação da Expectativa 2010/Retrospectiva 2009 do Cinema da Fundação.

Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante, foi escolhido melhor filme, fotografia (Beto Martins) e som (Nicolas Hallet) em Brasília. É o segundo de uma trilogia de documentários poéticos sobre as diferentes versões da Ave Maria de Schubert: a primeira, cantada por Stevie Wonder e transmitida diariamente às 18h por uma FM do Recife; agora, o diretor olha para os costumes arcaicos e modernos do povo do Sertão, ao som da Ave Maria sertaneja, de Luiz Gonzaga; o próximo curta, ainda sem nome, mostra a relação da burguesia com a Santa e terá como trilha a Ave Maria de Gounod.


Recife frio, em foto não publicável em jornais

Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, é uma comédia que usa elementos de ficção científica, documentário e musical para narrar o dia em os recifenses foram obrigados a adaptar costumes e valores culturais e econômicos a uma inversão climática radical. O filme brinca com as paisagens típicas da cidade e ainda conta com locações em Calhetas, Gramado e litoral da África do Sul. No elenco, Andrés Schaffer, Yannick Ollivier, Junior Black, Pedro Bandeira e Lia de Itamaracá. Durante a sessão em Brasília Recife frio causou furor, foi aplaudido duas vezes antes da sessão acabar e venceu como melhor curta (público e crítica), direção e roteiro (júri oficial). Sua carreira está só começando: no último domingo, foi eleito melhor filme (júri oficial e popular) no 13º Festivalde Cinema Luso-Brasileiro em Santa Maria da Feira (Portugal).

Com produção de Isabella Cribari e direção de arte de Dantas Suassuna, a ficção Azul, de Eric Laurence demonstra força nas imagens e sons (Hallet, também premiado em Brasília) e na atuação de Zezita Matos, que interpreta uma senhora que todos os dias leva a mesma carta, escrita pelo filho (Irandhir Santos), para que a amiga (Magdale Alves) a leia. Ela vive numa casa isolada no Agreste, construída especialmente para o curta, e que remete a outro locus, o da solidão existencial.

A linguagem caótica/anárquica de Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, gerou risadas e certo estranhamento na plateia de Brasília. Parte da crítica adorou o filme, que deve ser o primeiro inteiramente dedicado ao universo do brega. Com imagens e sons típicos, o filme incorpora a permissividade inerentes à música como experimento de linguagem. Tudo parte de uma câmera-carrinho de CDs pirata, literalmente o veículo de divulgação dos artistas, para setornar um delírio que passa por programas de TV, salões de beleza e paquera na praia de Brasília Teimosa, que gerou uma sequência em formato fotonovela, onde uma dançarina (a atriz Samara Cipriano) contracena com Rodrigo Mell (autor de Chupa que é de uva). Para a sessão, os diretores convidaram alguns artistas, entre eles o Conde do Brega, João do Morro, Kelvis Duran e a banda Vício Louco, que devem permanecer para o bate papo com o público.

Amanhã, às 21h10, o programa traz mais quatro curtas da nova safra: o inédito Teatro da alma, de Deby Brennand, Nossos ursos camaradas, de Fernando Spencer, Confessionário, de Leonardo Sette e Tchau e bênção, de Daniel Bandeira. Nas duas noites, os realizadores participam das sessões e depois conversam com o público.

(Diario de Pernambuco, 16/12/2009)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pernambucanos faturam prêmios em Brasília



Brasília (DF) - O 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro terminou na última terça-feira, com uma cerimônia de premiação que privilegiou o longa paulista É proibido fumar, de Anna Muylaert. O filme foi contemplado em oito categorias: melhor filme, ator (Paulo Miklos), atriz (Glória Pires), atriz coadjuvante (Dani Nefussi), roteiro (Anna Muylaert), direção de arte (Mara Abreu), trilha sonora (Márcio Nigro), montagem (Paulo Sacramento) e o prêmio da crítica. Uma pré-estreia e tanto - a estreia comercial será em 4 de dezembro.

Entre os curta-metragens, Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante, e Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, receberam prêmios principais. O primeiro ganhou prêmios de melhor filme, fotografia (Beto Martins) e som (Nicolas Hallet, também premiado pelo trabalho em Azul, de Eric Laurence). Esta é a primeira vez que Cavalcante, duas vezes eleito melhor diretor em Brasília, vence nessa categoria. Já o crítico e programador de filmes Kleber Mendonça se consagra como realizador - apesar de já ter vencido em Brasília com Noite de sexta, manhã de sábado e Vinil verde, ele nunca colecionou tantas estatuetas e prêmios: melhor filme (júri popular), melhor direção, melhor roteiro, Prêmio Aquisição Canal Brasil, Prêmio Saruê, Prêmio Vagalume e prêmio da crítica. Kleber confirmou que em dezembro o Cinema da Fundação fará uma sessão especial com os quatro curtas locais exibidos em Brasília. Diretor de Faço de mim o que quero ao lado de Sérgio Oliveira, Petrônio Lorena disse que artistas do brega que participam do filme serão convidados a fazer uma performance.

Após a cerimônia, Evaldo Mocarzel, eleito melhor diretor pelo longa Quebradeiras, evocou não somente mineiros como pernambucanos como vanguarda do cinema nacional. "Da mesma forma que o documentário mineiro está bombando, Pernambuco continua imbatível na ficção". Para o ano que vem, ele pretende apresentar o novo filme, São Paulo Cia de Dança, no festival É tudo verdade. Assim como em Quebradeiras, ele investe na estética sensorial e radical que explora imagens de composição rigorosa e trilha de áudio desprovida de palavras. E quer voltar a Brasília com Cuba libre, um "doc gay almodovariano".

Merecido o destaque para o longa Filhos de João - admirável mundo novo baiano, que recebeu o voto do júri popular, prêmio especial do júri oficial e troféu Vaga-lume, concedido por integrantes do projeto Cinema para Cegos. Com depoimentos generosos de Tom Zé, o filme foi de longe o mais querido do festival. "A todos os filhos de João espalhados por aí, crentes de que podemos fazer algo diferente, porque o mundo está muito chato", disse o diretor estreante Henrique Dantas. Representando o grupo na noite de terça, Moraes Moreira cantou, declamou poesia e disse que o sonho dos Novos Baianos não acabou. "Ele continua no filmes, nos filhos, nos shows de cada um de nós, através do som dos 'novos novos' baianos", disse o compositor.

* O repórter viajou a convite do festival

(Diario de Pernambuco, 26/11/2009)

Entrevista // Camilo Cavalcante: "O sertão tem mil vieses a serem descobertos"



Ave Maria... foi premiado em três pontos fortes do filme. Qual é sua avaliação?
A alma desse filme é muito simples, acho que o mais simples que já fiz. Ele tem a poesia da simplicidade que não se forja, mas a que simplesmetne existe e nós conseguimos captar. Sem dúvida o trabalho de Nicolas Hallet e Beto Martins foram essenciais. Eles tiveram não só técnica, mas muita sensibilidade e generosidade a partir do momento em que fizeram oficinas e treinaram assistentes. Eles mergulharam no sertão e compartilharam a experiência com quem não tinha experiência alguma. Creio que o filme foi premiado porque a honestidade do processo está na tela. O sertão é mostrado de maneira íntima e o júri reconheceu essa verdade no projeto.

Você sempre defendeu o cinema enquanto arte coletiva. Desta vez, abriu mão do crédito de diretor para assinar com toda a equipe, da qual participaram moradores de Serrita. Como isso funcionou na prática?
Antes fizemos uma parte teórica, hisória e linguagem do cinema, depois introduzimos noções de roteiros e pedimos que trouxemos ideias em torno da Ave Maria. Depois de tudo selecionado, escrevemos o roteiro. Paralelamente havia a pesquisa de locação, com todo mundo numa kombi e discutimos em sala os lugares mais interessantes. Filmamos somente as tardes, o que dava tempo para fazer um set tranquilo e participativo. Os sets estão cada vez mais estressados, todos ficam nervosos e a magia se perde no ritmo de trabalho. Não existiu hierarquia. Eu estava como a pessoa que propôs o exercício, o desafio. De certa forma, era o pilar de referência, sem impor nada. Quando via algo que do meu ponto de vista era muito importante, colocava para discutir com eles. Por exemplo, na edição, os alunos julgaram o primeiro plano muito longo e ele foi diminuido até surgir o consenso.

O que te levou a adotar esse método?
Para fazer um filme sobre uma realidade que não é a minha, achei interessante esse tipo de mergulho. Foi uma grande experiência. Cheguei com informações e as pessoas me deram sua forma de enxergar o mundo. Quem vai para Lisboa de avião, gasta sete horas. Para Serrita, de ônibus gasta o mesmo, mas não tem o abismo geográfico do oceano, mas do contato, da percepção. Sou uma pessoa urbana e pensei que esse contato poderia dar alma a um filme que a gente não vê muito por aí. Na maioria dos filmes, o sertão acaba sendo estereotipado por quem se apropria dele para construir uma obra. Quis o contrário, um filme onde as pessoas pudessem se expressar, que não entra como um colonizador, que passa como um trator em cima dos outros, coisa que transparece num filme. O sertão é muito mais do que um território geográfico, mas da alma humana. Apesar de muitos críticos dizerem que o tema está desgastado, acho que ele ainda tem mil vieses a serem descobertos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Festival de Brasília // Pernambucanos de olho no Candango



A 42ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa hoje, com a pompa de sediar a primeira exibição pública do filme Lula, o filho do Brasil. Até o dia 24, seis longas e doze curtas-metragens concorrem ao troféu Candango, sinônimo de prestígio para os realizadores.

Afinal, falamos do mais antigo e um dos mais conceituados festivais do país. Quatro novos curtas pernambucanos estreiam no evento: Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, Azul, de Eric Laurence, Recife frio, de Kleber Mendonça Filho e Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante.

Juntos, eles correspondem a um terço dos filmes em competição, clara demonstração da força do cinema feito no estado. Laurence, que concorre pela primeira vez no festival, enxerga na situação favorável mais do que talento de seus realizadores. "É reflexo do apoio e incentivo que o cinema têm recebido em Pernambuco", diz o cineasta.

Estrelado por Zezita Matos, Magdale Alves e Irandhir Santos, Azul é o terceiro curta de ficção dirigido por Laurence (Entre paredes), que também assume a montagem. Na equipe estão Antonio Luiz Mendes (fotografia), Isabella Cribari (produção executiva), Dantas Suassuna (direção de arte) e Carlinhos Borges (trilha sonora). Inspirado em conto de Luzilá Gonçalves (Uma doce maneira de ir morrendo), o roteiro gira em torno da solidão de uma mulher analfabeta que mora numa casa isolada e todos os dias procura uma amiga que lê a mesma carta, escrita pelo filho.

Se o curta de Laurence estabelece um locus existencial / ficcional (o cenário foi especialmente construído pela produção), Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante, se debruça nas possibilidades da interseção documentário / poesia. O filme utiliza a mesma estrutura de Ave Maria ou mãe dos oprimidos (2003), desta vez aplicada ao universo do Sertão, onde, às 18h, as rádios executam a música Ave Maria sertaneja, de Luiz Gonzaga.


Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante

"Diferente do anterior, que mostrava a quase resignação dos moradores do centro do Recife com Nossa Senhora, entre os sertanejos há uma relação mais íntima", fala Camilo, duas vezes premiado em Brasília (por História da eternidade e O presidente dos Estados Unidos). Seu novo "filho" conta com fotografia de Beto Martins, som de Nicolas Hallet, edição de Caio Zad e produção de Stella Zimmermann.

Recife frio, do crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho (outro ganhador de Candangos por Vinil verde e Noite de sexta, manhã de sábado), parte da suposição de que a capital pernambucana passou por mudanças climáticas que inverteram a temperatura proporcionada pelo sol intenso. O plano inicial era simular um falso documentário, com depoimentos dos cidadãos que mudam hábitos para se adaptar às novas condições que tornaram o Recife, nas palavras do diretor, "um cenário de ficção científica". Enxuta, a equipe é formada por Kleber, Emilie Lesclaux e Juliano Dornelles.

O universo da música brega é o mote de Faço de mim o que quero, parceria entre Petrônio Lorena (O som da luz e do trovão, 2004) e Sérgio Oliveira (Porcos corpos, 2003). Rodado em locações como a praia de Brasília Teimosa (entre Boa Viagem e o centro do Recife), o filme procura traduzir a cultura mais popular da capital ao acompanhar um carrinho de CDs que propaga o som de compositores do gênero, como o Conde do Brega, não por acaso, um dos personagens.

(Diario de Pernambuco, 17/11/09)