O Teatro da UFPE não estava tão cheio, mas a energia que circulou na noite de sexta remeteu aos ginásios que a Legião Urbana lotava na virada dos anos 1980-90. Dado Villa-Lobos nem precisou se esforçar muito. Houve quem cantou junto as músicas novas, mas 99% do público tinha ido mesmo para cantar (e chorar) junto os velhos tempos. E foi o que ocorreu, durante quase duas horas com Soldados; Eu sei; Teatro dos vampiros; Por enquanto, Ainda é cedo. Faroeste caboclo ficou de fora: “É muito longa. A gente tá velho e pode morrer no meio da música”, disse Toni Platão. Mas nem a atitude debochada de Platão conseguiu impedir o inevitável culto a Renato Russo. Principalmente depois que um fã entregou uma foto do compositor, colocada ao lado da bateria até o fim do show.
Com sua morte em 1996, em outubro completam-se 15 anos desde que a Legião Urbana acabou. É incrível observar como sua força permanece intacta. Não somente nos fãs, que se renovam e dão novo sentido aos versos de Índios, ao sentir saudade de tudo o que não puderam viver. O próprio guitarrista demonstrou transbordar ao tocar Andrea Dória. “Faz tempo que não tocava essa”, disse.
A atitude pós-punk que une romantismo e crítica comportamental sempre foi o trunfo do grupo e isso fica claro nos hinos Tempo perdido, Há tempos, Será, Geração Coca-cola (sim, Dado bebeu uma latinha durante o show). Durante Índios, uma versão para Love will tear us apart, do Joy Division, influência primeira dos rapazes do Planalto Central. E o final triunfante, para lavar a alma, com Pais e filhos.
Problemas com som atrapalharam, mas não chegaram a ser um problema. Show de rock tem que ter alguma microfonia. Entre uma música e outra, Dado agradeceu aos amigos do Alto José do Pinho, com ênfase para Neilton, da banda Devotos. Cannibal também estava lá e depois foi confraternizar no camarim. Do lado de fora, mais de cem pessoas aguardavam para falar com Dado, tirar fotos, pedir autógrafos. Como já havia anunciado, ele atendeu a todos. Alguém trouxe um violão e em sua volta fez-se um grupo a cantar músicas da Legião. Para estes, a noite estava somente começando.
(Diario de Pernambuco, 15/05/2011)
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domingo, 15 de maio de 2011
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Arnaldo Antunes na UFPE: espaço ideal

Finalmente Arnaldo Antunes encontrou local apropriado para mostrar seu Ao vivo no estúdio para o Recife. Desde que começou a turnê, há dois anos, suas passagens pela cidade foram notáveis, porém, incompletas. Mesmo que a presença do ex-titã seja um convite para dançar e cantar junto, este é um show para assistir sentado, com olhos e ouvidos abertos. No palco do Teatro da UFPE, onde esteve sábado à noite, Antunes teve a estrutura de luz e som que precisava para apresentar a versão completa, nos moldes do gravado em DVD. Por isso, não importa quantas vezes o show passou pelo Recife. E muito menos que, antes e depois, seja nessário assistir a um comercial de biscoito.
No repertório composto quase que totalmente por canções de Saiba e Qualquer, os dois últimos álbuns de estúdio, não houve novidades. Para quem assistiu aos shows anteriores, o grande barato foi curtir o conceito visual do projeto, que investe em jogos de luzes laterais e sombras, muitas sombras projetadas num telão, atrás da banda, e sobre a própria banda, formada por Marcelo Jeneci (teclado, acordeon eefeitos eletrônicos), Chico Salem e Betão Aguiar (violão e guitarras).
Poucos movimentos agressivos restaram do tempo em que Arnaldo usava cabelo arrepiado e batia a cabeça ao som de AA-UU e Bichos escrotos. Vinte e cinco anos depois, sua desconstrução da estética punk parece ter chegado ao máximo. Pois se reinventa em canções de ninar e bossas de ruídos estranhos e aura tranquila.
Do disco novo (Iê, Iê, Iê, em que divide composições com Ortinho e Edgard Scandurra), Arnaldo apresentou somente uma música, Longe. Do tempo dos Titãs, cantou O quê, Não vou me adaptar e O pulso, todas com novos arranjos. Da primeira fase solo, vieram à tona O silêncio em versão forró e Judiaria em arranjo soft.
A passagem pelo Recife é também um pit-stop para a participação especial que Antunes fará no show de Nação Zumbi na próxima quinta-feira, em Garanhuns. Ao lado de Edgard Scandurra e Bnegão, eles comemoram os 15 anos do álbum Da lama ao caos. Por isso, é provável que a música Inclassificáveis, gravada por Chico Science e Antunes em 1996, faça parte do tributo.
(Diario de Pernambuco, 20/07/09)
* com alterações e acréscimos
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