sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma pernambucana no Oscar



Não é megalomania: Karen Harley é a primeira diretora pernambucana a ter um filme indicado ao Oscar. Ao lado da inglesa Lucy Walker e do carioca João Jardim (Pro dia nascer feliz), ela assina Lixo extraordinário, documentário sobre as intervenções do artista plástico Vik Muniz no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. Para quem não assistiu ao filme, ele fez um trabalho parecido na abertura da novela Passione. A direção compartilhada não diminui a importância da Karen no processo de criação do longa. Lucy deixou o projeto após dez dias de filmagem para se dedicar a Countdown, seu projeto pessoal. Após certo ponto, João também teve que sair, o que levou Karen a assumir o leme da produção.

"Isso gerou muitos caminhos e muito material", diz Karen, por telefone, do Rio de Janeiro. "Lucy esteve bem no começo das filmagens, depois mandamos o corte final para a Inglaterra, onde ela retrabalhou os primeiros 30 minutos".

Lixo extraordinário é uma co-produção entre a O2 Filmes (de Fernando Meirelles) e Almega Projects, do inglês Miel de Botton Aynsley, de quem partiu a ideia do filme. Por questões contratuais, Lucy assina a direção e Karen e Jardim a codireção. "Mas o filme é dos três. Na verdade, Lucy foi quem menos trabalhou no projeto", revela a diretora.

Mais conhecida como montadora para cinema e TV, este é o primeiro longa dirigido por Karen. Filha de estrangeiros (pai norte-americano e mãe alemã), ela nasceu no Recife, terra pela qual o pai se apaixonou, mas vive no Sudeste desde 1985. "Saí pra ver o Rock in Rio e nunca mais voltei", conta.

Quando começou a trabalhar com edição não havia o método não-linear, apenas o método do corte seco. "Fui aprendendo na prática, com grandes montadores, como João Paulo de Carvalho e Mair Tavares, que foram meus mestres". Com Mair, Karen montou seu primeiro filme em película, Veja essa canção, do Cacá Diegues. Depois vieram O quatrilho, de Fábio Barreto (derrotado no Oscar para A excêntrica família de Antonia).

A relação com a terra natal foi retomada profissionalmente quando Karen assumiu a montagem dos longas de Claudio Assis e Marcelo Gomes. Seu último trabalho foi em A febre do rato, de Assis, e semana passada ela começou novo processo em Era uma vez Verônica, de Gomes. Outro trabalho recente foi com o finlandês Mika Kaurismäki, o documentário para a TV Mama Africa, sobre a cantora Miriam Makeba.

Expectativa - Lixo extraordinário foi indicado ao Oscar após vencer o prêmio do público em Sundance, Berlim e Paulínia (SP). Karen acredita que isto, somado à importância artística e social do filme, convenceram aos membros da Academia a incluir Waste Land (nome internacional do filme, em referência a poema de T.S. Eliot) entre os favoritos. Falado em inglês e português, com trilha sonora de Moby, o filme centra na interação de Vik Muniz, que vive nos Estados Unidos, com os catadores de lixo de Jardim Gramacho.

"A gente quer muito que Tião (Santos), o presidente da associação dos catadores, esteja na cerimônia do dia 27. Caso o filme vença, é ele quem merece receber a estatueta. Mais ainda porque o Jardim Gramacho vai fechar em 2012 e tem uma questão social pra ser resolvida aí", diz Karen. Com admiração, ela diz que Tião cita Nietschze e também O príncipe, de Maquiavel, no filme, comparando os textos à situação do Rio de Janeiro. "A alma do filme está nos catadores, que são pessoas bonitas, dignas, carismáticas, inteligentes e bem humoradas".

Karen não assistiu aos filmes que concorrem com Lixo extraordinário, mas ouviu falar bem de Exit trough a gift shop, do grafiteiro britânico Banksy. Com uma abordagem bem diferente, ele questiona os mecanismos que regem a arte contemporânea. Não deixa de ser a lógica pela qual Hollywood tem se reinventado ao longo dos anos.

(Diario de Pernambuco, 28/01/2011)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Coluna de lançamentos da semana + notas de bastidores

Lançamentos em DVD



Libertário- Quase um manual de rebeldia operária, o filme retrata a opressão com que trabalhadores de uma fábrica de roupas eram tratados pelos patrões. A chegada de um subversivo professor (Marcello Mastroiani) dá estofo intelectual à greve para diminuir a jornada de 14 para 13 horas diárias e assistência médica. O olhar humanista e libertário de Monicelli, que ressurge de forma plena em O exército de Brancaleone, é o grande condutor deste exemplar tardio do neorealismo italiano.
Os companheiros (I Compagni, Italia, 1963). De Mario Monicelli. 126 minutos. Lume Filmes.



Pesadelo - Com a indicação ao Oscar, a produção que trouxe a estética blockbuster para o mundo dos sonhos ganha novo fôlego. Após bons filmes como Amnésia e a nova franquia Batman, Nolan escorrega ao investir mais em efeitos e redundâncias do que em tutano para contar os apuros de uma equipe de mercenários liderada por Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), especialista em entrar na mente das pessoas para implantar e retirar informações. Assombrado pela ex-mulher, Cobb se vê preso num mundo pretensamente onírico. E que não tem nada de surreal.
A origem (The inception, EUA, 2010). De Christopher Nolan. 148 minutos.Universal.




Musical
- De volta em DVD duplo, este musical de grande sucesso marca o primeiro reinado de John Travolta, lançado ao estrelato pouco antes em Os embalos de sábado à noite. Se este foi um retrato da geração das pistas de dança, Grease é uma paródia dos filmes juvenis dos anos 1950. A trama mostra o romance entre Sandy (Olivia Newton-John) e Danny (Travolta), que se apaixonam nas férias sem saber que passariam a estudar no mesmo colégio. A trilha entrou para a lista das melhores já feitas para o cinema.
Grease - nos tempos da brilhantina (EUA, 1978). De Randal Kleiser. 110 minutos. Paramount.

Bastidores

Tiradentes - Pernambuco reina na Mostra de Tiradentes. Além da homenagem a Irandhir Santos, em mesa com diretores com quem o ator de Tropa de Elite 2 já trabalhou, os curtas de programação, como o inédito Mens sana in corpore sano (de Juliano Dornelles) tem empolgado público e crítica.

Nelson - O Cineclube Doze e Meia prossegue com homenagem ao mestre Nelson Pereira dos Santos. O filme de hoje é Como era gostoso o meu Francês (1970). No Centro Cultural Correios (Recife Antigo), 12h30.

Festival I - Não bastasse o excelente trabalho de relançar filmes autorais clássicos e contemporâneos no mercado de DVD, a produtora e distribuidora Lume Filmes, do Maranhão, agora prepara seu próprio festival de cinema. O 1º Festival Lume de Cinema será entre 14 e 23 de julho em São Luiz. Inscrições abertas para filmes nacionais e estrangeiros até 15 de maio pelo www.lumefilmes.com.br/festival2011.

Festival II - O Fluxus 2011 recebe inscrição para duas modalidades de trabalhos: filmes que serão exibidos na internet e projetos de filme-instalação. Inscrições gratuitas e poderão ser feitas inscrições até 28 de fevereiro no site do festival - www.fluxusfestival.com.

Luto - Morreu na última segunda, aos 61 anos, o produtor de cinema Bernd Eichinger. Nascido na Alemanha, ele é responsável por filmes díspares como A Queda! - As últimas horas de Hitler, Quarteto fantástico, O perfume, O nome da rosa, Eu, Christiane F., História sem fim, Resident evil e O grupo Baader Meinhof.

(Diario de Pernambuco, 27/01/2011)

Estreia // O TE(a)TRO de Francis Ford Coppola



Se em certo filme David Lynch declara que no cinema "no hay banda", podemos garantir atualmente que há ao menos um maestro em atividade: Francis Ford Coppola. Em seu novo filme, Tetro (estreia amanhã no Cinema da Fundação), ele assume a regência de uma obra pessoal e instigante, uma tragédia familiar movida a jogos de espelhos que reprocessam, em termos de luz e sombra, a própria biografia do diretor de O poderoso chefão e Apocalipse now.

A imagem é marcada pelo preto e branco cristalino, pontuado sequencias com cores saturadas, parecido com o de gravações caseiras dos anos 1970. Já havia um preto e branco assim em O selvagem da motocicleta (Rumble fish, 1983), inclusive no elogio à índole outsider do personagem principal.

Longe da sofisticação dos grandes estúdios, Coppola seguiu pelos anos 1980 e 1990, com pequenos filmes, nem sempre dignos de apreciação. Tetro faz parte de uma nova fase, marcada pela independência. Aos 70 anos e com a sobrevivência garantida pelos negócios gastronômicos e hoteleiros, Copolla pode filmar com total liberdade, desde que no limite permitido para pequenos orçamentos.


Uma pequena Itália em Buenos Aires

A escolha da Argentina como palco para a família Tetrocini lavar a roupa suja convém por mais de um motivo. Nos últimos anos, é lá que Copolla tem passado parte de seu tempo - ele já declarou que Buenos Aires é tão interessante quanto Nova York, cidade onde cresceu. A capital portenha tem cenários cinematográficos, facilidades e a oportunidade de filmar a baixo custo.

No roteiro de Tetro, o primeiro escrito por Coppola desde A conversação (1974), isso se resolve de forma simples. Imigrante italiano em Buenos Aires, o patriarca Carlo Tetrocini (Klaus Maria Brandauer) fixa residência em Nova York, após sucesso como compositor. Seu filho Angelo (Vincent Gallo), sufocado pela personalidade espaçosa do pai, some do mapa. Anos depois, seu irmão mais novo, Benny (Alden Ehrenreich), o encontra em Buenos Aires como um escritor visceral, conhecido pelo codinome Tetro.

O filme começa nesse ponto e dali se desdobra pelo bairro de La Boca, que recebeu imigrantes italianos fugidos da pobreza no começo do século 20. Há forte presença do teatro, música e dança. Na Patagônia, onde a trama tem seu desfecho, temos duas das cenas mais interessantes, que podem ser chaves de compreensão para o filme.

Numa delas, Tetro ronda um teatro (será daí a origem do nome Te-a-tro?) com um machado na mão enquanto a peça escrita por ele é encenada em festival. A outra, logo depois, é seu encontro com Alone (Carmem Maura), considerada a maior crítica da América do Sul. Ela pretende premiar sua peça como a melhor do festival. A rejeição - ele não admite fazer de sua dor um espetáculo - aponta para a postura do próprio diretor com relação ao sucesso comercial versus realização artística e pessoal. Na flor dos 70 anos, um belo manifesto de rebeldia e amor ao cinema.

(Diario de Pernambuco, 27/01/2011)

Sai lista dos indicados ao Oscar



A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou ontem a lista dos indicados à 83ª edição do Oscar, principal prêmio do cinema mundial. O discurso do rei concorre em doze categorias, mas nem por isso pode ser considerado o favorito. Basta lembrar que na cerimônia do ano passado Avatar ficou de fora das principais categorias e que este ano a disputa está pesada, com novos filmes dos irmãos Coen (Bravura indômita, dez indicações) e Danny Boyle (127 horas, seis indicações), oscarizados por Onde os fracos não têm vez e Quem quer ser um milinário?.

Há o fator A rede social (oito indicações), forte concorrente que tem o tempo a seu favor (mais contemporâneo impossível). Bem que merecem a estatueta a direção segura de David Fincher, a montagem que traduz o estado de espírito da geração 2.0 e a trilha de Trent Reznor (Nine Inch Nails).

Quem será o melhor ator? Eisenberg, que traduz o poderoso dono do Facebook em um pós-adolescente inseguro e vingativo? Ou Colin Firth, na pele do mitológico Rei George? James Franco, que amarga o drama real de Aron Ralston, montanhista que sobrevive em local inóspito? Ou Jeff Bridges, que refaz papel reservado a John Wayne em Bravura indômita? Se Bridges acaba de ser agraciado por Coração louco (2009), basta considerar que Biutiful, de Alejandro Iñárritu, que concorre entre os filmes em língua estrangeira, traz o astro espanhol Javier Bardem, melhor coadjuvante em 2008 por Onde os fracos não têm vez.

Assim como foi com Up - altas aventuras ano passado, Toy Story 3 concorre como melhor filme e melhor animação. Na mesma categoria, O mágico, de Sylvain Chomet, sob roteiro de Jacques Tati, trata do mesmo tema, a dificuldade de envelhecer com dignidade em tempos de ditadura do novo. Mas O mágico é 100% analógico/artesanal, enquanto Toy Story é 100% digital/industrial. Fácil crer na vitória deste último, mas importante ver a outra pequena e melancólica obra de arte reconhecida por Hollywood.

Boa surpresa para os brasileiros, que se achavam fora do páreo após Lula - o filho do Brasil ter sido recusado pela academia, será representado por Lixo extraordinário. Notícia especial para os pernambucanos, pois uma das diretoras (Karen Harley), nasceu e cresceu no Recife antes de mudar para o Rio, em 1990, onde fez carreira como montadora.

Lixo extraordinário, ou melhor, Waste land, trata das intervenções do artista plástico Vik Muniz em aterro sanitário carioca e disputa o Oscar com dois fortes candidatos: Inside job, onde Matt Damon narra o que há por trás da crise mundial de 2008, e Exit trough the gift shop, subversiva visão do britânico Banksy sobre o mercado da arte contemporânea. Com apresentação dos atores James Franco e Anne Hathaway, a entrega do Oscar será no dia 27 de fevereiro no Teatro Kodak, em Los Angeles.

Veja lista aqui a completa dos indicados.

(Diario de Pernambuco, 26/01/2011)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Curtas pernambucanos estreiam em Tiradentes


Mens sana in corpore sano, de Dornelles, estreia hoje em Tiradentes
Foto: Chico Lacerda

Dois curtas pernambucanos estreiam nesta semana: Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, e Mens sana in corpore sano, de Juliano Dornelles. Os dois serão lançados na 14ª Mostra de Tiradentes (MG), que abre o calendário nacional de eventos cinematográficos e que, sob a curadoria do crítico Cléber Eduardo, vem se tornando conhecido como um festival que privilegia a reflexão e o risco necessário para abrir novos caminhos.

Nada mais justo o festival ter iniciado na última sexta com o novo filme do mítico diretor do cinema novo Paulo César Saraceni. E nada mais justo também que se encerre no dia 29, com Ex-Isto, releitura de Catatau, de Paulo Leminski, dirigida por Cao Guimarães e estrelada por um João Miguel bêbado e perdido no Centro do Recife. Chama a atenção a homenagem ao ator Irandhir Santos, cuja carreira, coroada com a participação em Tropa de Elite 2, vem sendo cada vez mais reconhecida.

"É muito difícil não sentir ansiedade com a primeira exibição de um filme", diz Dornelles,sobre a ficção Mens sana in corpore sano. "Essa sensação aumenta quando se trata de um projeto que promete uma interação forte com a plateia", arremata o diretor, que não adianta mais informações para não estragar a surpresa final.

A ser exibido hoje em mostra não-competitiva, mas sujeita a voto popular, o curta-metragem realizado com recursos do concurso de roteiros Ary Severo/Firmo Neto é o mais recente fruto da parceria entre a Símio Filmes e a Cinemascópio Produções de Kleber Mendonça Filho. O filme mostra as desventuras de um cidadão que leva o fisiculturismo às últimas consequências. Uma das locações é a academia de Carmelo de Castro, na Boa Vista, que faz uma participação como ator.

"Tiradentes é um festival enorme, tem uma curadoria bem interessante, que já se tornou referência para vários outros festivais e ainda consegue manter um clima de discussão e formação de público. É um privilégio estar lá", avalia Dornelles, que já esteve no festival como produtor de Amigos de risco e Recife frio.

"O festival consegue abraçar filmes que têm características menos convencionais e ainda assim ser um panorama bem completo do que se faz de relevante no cinema brasileiro".

Outros pernambucanos em Tiradentes são os curtas 1:21 (Adriana Câmara); Aeroporto (Marcelo Pedroso); As aventuras de Paulo Bruscky (Gabriel Mascaro); Azul (Eric Laurence); Décimo segundo (Leo Lacca); My way (Camilo Cavalcante); Peixe pequeno (Vincent Carelli e Altair Paixão); e os longas Vigias (Marcelo Lordello), Paranã puca - Onde o mar se arrebenta (Jura Capela) e Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro).

Praça Walt Disney

Na próxima quarta, o público de Tiradentes poderá conferir Praça Walt Disney, novo trabalho do casal Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. Renata já assinou direção de arte de filmes de Sérgio, que por sua vez produziu Superbarroco, de Renata. Ambos já estiveram em Tiradentes com outros filmes. Desta vez, concorrem com o primeiro em que dividem a direção.


Foto: Mannu Galindo

O curta reivindica o direito de, a partir do cinema, reorganizar os signos de Boa Viagem, bairro em que os diretores vivem. O recorte temporal é o de um dia na vida, do primeiro trabalhador à última dama da noite, com som e imagem sincronizados que remetem a O homem com uma câmera, de Dziga Vertov. A coreografia de carros que circulam em torno da praça que dá nome ao filme (visível da janela do prédio onde moram Sérgio e Renata) faz lembrar Playtime, de Jacques Tati.

Adotada pela construtora Moura Dubeaux, uma das mais famosas grifes imobiliárias da cidade, a Praça Walt Disney é um pequeno perímetro cercado de altos edifícios, próximos à beira-mar. "Geralmente éum espaço deserto", conta Oliveira, "ou usado para o passeio dos cachorros dos moradores". Por trás do tratamento afetivo, há o inevitável viés político de quem observa um bairro que se transforma rapidamente. Ou melhor, se devora. "Partimos de um regionalismo, não para harmonizar, mas para problematizar essa situação", diz Oliveira.

Em outro momento, fotos antigas do bairro são sobrepostas à imagem atual. Verticalizada por prédios, reeditam um antigo trabalho de Renata chamado Arqueologia da amnésia. Uma animação simula ondas do mar no asfalto, com direito a barbatanas de tubarão. Os tubarões, aliás, modificaram hábitos a ponto de piscinas de plástico se multiplicarem na paisagem da praia. Do vai e vem de baldes para enchê-las surge a música e a inevitável analogia com Aprendiz de feiticeiro, episódio do clássico Fantasia (1940).

A performance no calçadão da beira mar ao som de Stayn' Alive (Os embalos de sábado à noite) é trilha sonora conveniente de um bairro para ser desfrutado. John Travolta, Mickey Mouse, Tati, Vertov. Sonho, Cinema. Boa Viagem merece.

(Diario de Pernambuco, 24/01/2011)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Zé Colmeia - o filme ou sobre a necessidade de defender a memória afetiva



Em mês de férias escolares, Zé Colmeia - o filme (Yogi Bear, EUA, 2010) funciona como uma boa peça de entretenimento. E, ponto a favor, não pretende ser mais do que isso. Até o tempo de duração, menos de 90 minutos, contribui para um espírito de leveza (para o espectador) e lucro (mais sessões por dia).

O filme de Eric Brevig (Viagem ao centro da Terra) se apropria com mérito da dinâmica do desenho animado criado em 1958. Sedentário, cuca fresca e guloso assumido, Zé Colmeia e seu escudeiro Catatau se tornaram um dos maiores sucessos da Hanna Barbera. Meio século depois, eles ganharam upgrade digital, com os mesmos vícios e virtudes, os principais: caçar cestas de piquenique para estocar na caverna e manter a amizade fiel que sentem um pelo outro.

Expert em efeitos visuais (trabalhou em Vingador do futuro, Homens de preto, O dia depois de amanhã e mais 25 filmes), Brevig coloca ursos animados no mundo real, interagindo com atores. Personagens caricatos e a estrutura cômica sãoos mesmos, contemporaneizados com a política que vincula ambições de poder com hipocrisia ecológica.

O vilão declarado é o prefeito da cidade (Andrew Daly), que pretende ganhar popularidade com o loteamento do Jellystone, que há dez anos não consegue pagar as contas. Com a venda, cada cidadão ganha mil dólares e o prefeito pode chegar a governador. A reação do guarda Smith (Tom Cavanagh) é promover uma festa e atrair os amigos do parque, que acaba de completar 100 anos. Mas o prefeito aproveita o comportamento desastrado de Zé Colmeia para sabotar o evento.

Em defesa de Jellystone surge uma nova personagem, a loira Rachel (Anna Faris), que chega ao local para fazer um documentário e logo se identifica com a causa e seus heróis.

Se por um lado o público brasileiro perde com a versão dublada (em que as vozes de Dan Aykroyd e Justin Timberlake são trocadas por um afetado carioquês), ao menos foi preservado o timbre do dublador original, Older Cazarré. Que seja registrado o vacilo na dublagem do Catatau, que não diz mais o característico ´Seu gualda`. Para a velha geração, faz falta.

Da mesma forma que a ideia de ter o Parque Jellystone fechado soa ameaçadora a todos os que ele um dia habitaram. É importante que ele continue a existir, mesmo que não se pense mais nisso.

(Diario de Pernambuco, 22/01/2011)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estreia // "O Turista": No piloto automático



O turista (The tourist, EUA 2010) surge da mesma matriz responsável pela safra de filmes que misturam romance e espionagem, que ano passado culminou em Salt e Encontro explosivo. Entre os dois, pende para o primeiro, não apenas por Angelina Jolie protagonizar papel parecido, mas pela seriedade com que a trama trata situações inverossímeis. Além disso, o filme do alemão Florian Henckel von Donnersmarck (A vida dos outros, 2006) se diferencia dos demais pela contenção. Com boas imagens de Veneza, direção de arte e figurinos bem cuidados, investe mais na psicologia que na ação vertiginiosa.

O problema é que o filme não convence enquanto obra, talvez pela confiança excessiva na equação Johnny Deep + Angelina Jolie + romance em Veneza = sucesso. Não é o caso, nem mesmo de bilheteria, essa poderosa balizadora que, assim como a justiça, tem olhos vendados. Nem a união de três roteiristas conseguiu evitar o piloto automático, a falta de talento para fugir de lugares comuns e o consequente naufrágio da trama.

A história começa com uma ação em curso, Elise (Jolie) é observada pela polícia. Em poucos minutos, sabe-se que um incógnito Alexander Pierce se apropriou da fortuna de um gângster (Steven Berkoff). Que Elise é sua esposa, orientada a escolher um homem com estatura parecida e assim despistar o inspetor Acheson (Paul Bettany), chefe da investigação.

Isso nos leva ao professor Frank Tupelo (Deep), o mané-pobre-coitado que entra na história aparentemente por acaso. Ponto a favor, Deep está frágil e reticente, longe dos papeis freak ou galanteadores que o tornaram famoso. . E Jolie faz o tipo doce e sedutora - uma sequência faz clara homenagem a Sophia Loren. Mas falta química ao casal, e o filme não decola.

(Diario de Pernambuco, 21/01/2011)

Estreia // "Zé Colmeia - o filme": De olho no piquenique



Astro de desenhos animados desde 1958, Zé Colmeia por muito tempo foi a menina dos olhos da produtora Hanna-Barbera, tendo seu próprio programa de TV e liderando uma versão sideral da Corrida maluca. Nada mais justo que, como outros personagens dos quadrinhos e cartoons, ele volte na era digital.

De olho no piquenique alheio, ele e Catatau precisam se preocupar pois o Parque Jellystone será colocado à venda. No Recife, Zé Colmeia - O filme entra com cópias dubladas, uma pena pois as vozes originais em inglês são de Dan Aykroyd e Justin Timberlake.

(Diario de Pernambuco, 21/01/2011)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Coluna de lançamentos da semana



Erudito - Mais uma pérola de Bressane, esse filósofo das imagens. Com Selton Mello e Alessandra Negrinni, o filme adapta dois contos de Machado de Assis: A causa secreta e Um esqueleto. Casal se (re)conhece no cemitério e logo se une. A mulher está frágil pois acaba de sair da prisão e de se tornar órfã. Ele propõe casamento imediato, o que os leva à casa onde a ação se desenrola. Erudito (cada plano é uma obra em si), Bressane nos coloca dentro de pinturas de luz e forma barrocas.

A erva do rato (Brasil, 2008). De Julio Bressane. 80 minutos. TB Produções.



Ninfa - Neil Jordan, que se destacou no início dos anos 1990 com Traídos pelo desejo e Entrevista com o vampiro para logo se afastar do mainstream com Nó na garganta (Butcher boy), explora o cruzamento da mitologia irlandesa com a realidade sócio-afetiva de um melancólico pescador (Colin Farell) que se refugia no barco desde que foi deixou a bebida e o casamento. Certa manhã, ele joga rede ao mar e captura bela e misteriosa ninfa (Alicja Bachleda), por quem se apaixona e o faz se reaproximar da filha cadeirante.

Ondine (Irlanda/EUA). De Neil Jordan. 111 minutos. Swen Filmes.



Aventura - Desde O quinto elemento, Besson vem desenvolvendo um misto de escola europeia de ficção científica e a linguagem norte-americana dos cinema de aventura e ação. Seu novo filme é bastante fantasioso, com seus segredos antigos, múmias que voltam à vida e um bebê pterodáctilo que aterroriza a Paris de 1910. Conhecida personagem dos quadrinhos, a Indiana Jones de saias Adèle (Louise Bourgoin) continua independente, sensual e bem mais inteligente do que os espécimes masculinos que a ameaçam ou lisonjeiam.

As múmias do faraó (França, 2010). De Luc Besson. Imagem Filmes.

Bastidores

3D über alles - O cinema alemão entra com estilo na era do cinema 3D. A estreia mundial de Pina (Wim Wenders) e A caverna dos sonhos perdidos (Werner Herzog) será em fevereiro, no Festival de Berlim.

Verônica - Marcelo Gomes está no Rio de Janeiro, onde edita o longa Era uma vez Verônica, ao lado da montadora Karen Harley.

Seleção - Pedro Sotero e Daniel Bandeira, da Símio Filmes, abrem seleção de elenco para o curta-metragem Sob a pele. Para participar, não é preciso formação ou experiência: basta ter entre 25 e 35 anos e mandar um e-mail com portfólio, foto e contato para sobapelefilme@gmail.com.

Festival - As inscrições para o 15º Cine PE - Festival do Audiovisual vão até 31 de janeiro. Podem participar filmes finalizados a partir de maio do ano passado. O evento está marcado para os dias 2 a 8 de maio, no Centro de Convenções mas a data pode ser antecipada em dois ou três dias, para não disputar a atenção da mídia nacional com o Festival de Cannes, que começa dia 11.

Ariano para a TV - Ariano Suassuna é tema de um programa de TV produzido pelo Sesc, com direção de Walter Carvalho (de Budapeste). As gravações terminaram ontem, com locações como São José do Belmonte, Igarassu e Pau Amarelo (Paulista).

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A rede social vence Globo de Ouro



Com elogios a Mark Zuckerberg e perigosas piadas do apresentador Ricky Gervais, a 68ª edição do Globo de Ouro favoreceu o filme A rede social e o seriado de TV Glee. O prêmio da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) foi entregue na noite do domingo, em cerimônia com quatro horas de duração, em Beverly Hills. Outras atrações da TV de grande repercussão, como Big Bang theory e Boardwalk empire, também foram premiados.

Se o Globo de Ouro for prenúncio do Oscar, marcado para o próximo 27 de fevereiro, A rede social de David Fincher é o favorito, com O discurso do Rei, O vencedor, Minhas mães e meu pai e Toy Story 3 na fila da repescagem. No páreo, há que considerar O besouro verde de Michel Gondry Bravura Indômita (True Grit), remake dos irmãos Coen sequer citado pelo Globe. O filme estreou em 14 de dezembro nos EUA e irá abrir o próximo festival de Berlim.

"Zuckerberg, a garota do começo do filme está errada. Você é um grande visionário, empreendedor e altruísta", disse Aaron Sorkin, vencedor do prêmio de melhor roteiro por A rede social. Jesse Eisenberg, que vive Zuckerberg no filme, com expressão parecida à usada no filme, assistiu a Colin Firth (de O discurso de rei) ser escolhido o melhor ator. Mark Whalberg (O vencedor) aplaudiu o colega.

Premiado pelo conjunto da obra, Robert de Niro enumerou filmes "menores" como Jacknife, Frankenstein e Brazil, que ficaram de fora do vídeo editado com os "hits" Taxi driver, Os bons companheiros e Touro indomável. Ironizou ao anunciar que gravou DVDs com todos eles para vender na saída do teatro e disse que Tempo de despertar é um de seus favoritos, com elogios a Robin Williams. De Niro, aliado à premiação de Al Pacino e Steve Buscemi (estes dois por trabalhos para a TV) e à participação de Scarlett Johanson e Jane Fonda, no anúncio dos troféus, evitaram que uma cerimônia demasiado longa se tornasse um sonífero completo.

Natalie Portman (Cisne negro), Colin Firth (O discurso do Rei) e Christian Bale (O vencedor) também devem estar na lista dos mais cotados para o Oscar, que, queira Oxalá, venha mais enxuto e menos óbvio que o irmão mais novo.

No Brasil, O turista estreia na próxima sexta; O vencedor e Cisne Negro estreiam dia 4/02; e O discurso do Rei e Bravura indômita, em 11/02.

(Diario de Pernambuco, 18/01/2011)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Exposição marca mudança de Shiko para a Itália



De malas prontas para uma temporada de três anos na Europa, o artista paraibano Shiko reuniu trabalhos antigos e recentes para uma nova exposição. Dada a relação de parceria e admiração que mantém com a cena cultural do Recife, nada mais justo que o ´bota-fora` ser na cidade que já recebeu três individuais suas. A abertura será hoje, às 20h, no Bar Central (Boa Vista), suas obras permanecem à mostra até 20 de fevereiro.

Shiko e sua esposa vão morar na pequena cidade de Camerino, região central da Itália. A expectativa do artista em publicar seu trabalho na Europa é pertinente. ´Alguns colegas de lá dizem que o mercado editorial é bem mais amplo, não fica restrito a um só país`, diz. Fora isso, a ligação estética de seu trabalho com as artes gráficas do país de Milo Manara é mais do que evidente.

Antes mesmo de descobrir Manara, ele já admirava Tanino Liberatore e Andrea Pazienza, que foram publicados no Brasil dos anos 80 nas páginas da revista Animal. ´É também uma oportunidade de ficar isolado por um tempo para estudar e produzir. Fui autodidata a vida inteira`. Entre os trabalhos que vai terminar no Velho Continente está a adaptação gráfica do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, para a editora Ática e a HQ autoral A boca quente. ´O trabalho que faço para o mercado nacional continua, já que a distância da Itália para o eixo Rio-São Paulo é a mesma que da Paraíba: uma conexão com a internet`.

Natural de Patos, Francisco José de Souto se estabeleceu em João Pessoa no fim dos anos 1990. Se tornou Shiko quando morou em Brasília. Lendo um mangá, ele aprendeu que a palavra define a área de alcance de uma espada samurai. Como já havia outro Chico no mercado de lá, adotou o codinome japonês.



Alguns trabalhos da exposição foram feitos sob encomenda, como as sete pin ups da cerveja Devassa. Algumas já foram utilizadas em campanhas, mas a maioria permanece inédita. Outra novidade é uma nova tela da série Olívia Palito, em versão femme fatale feita para a revista nórdica Fashion and Arts. Entre telas a óleo, aquarelas e desenhos originais, reproduções das suas obras mais conhecidas serão vendidas a R$ 50, autografadas.

Mais obras de Shiko no blog da produtora Cláudia Aires e no Flickr do artista.

Serviço
Exposição de Shiko
Quando: Hoje, às 20h
Onde: Bar Central (Rua Mamede Simões, 144 - Boa Vista)
Informações: 8175-7208

(Diario de Pernambuco, 17/01/2011)

UFPE promove curso sobre expressionismo alemão


Metropolis, de Friz Lang, será um dos filmes estudados

O cinema e a história da Alemanha dos anos 1920 será tema do curso de extensão O expressionismo alemão e a República de Weimar. As atividades começam na próxima quarta-feira (19) e seguem até a sexta (21), das 9h às 12h e das 14h às 17h, no auditódio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A organização é do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da democacia da UFPE. O programa inclui palestras, debates, exibição de filmes e o lançamento dos livros Presença das juventudes pernambucanas e Estado e classe operária no Brasil.

De acordo com o professor e cientista político Michel Zaidan, as aulas tratarão deste período específico do pós-guerra alemão para estabelecer diálogo entre as teorias do cinema e da história. ´São linguagens diferentes que apontam para uma crise de paradigmas`, diz Zaidan. ´Na arte, a representação clássica da vida foi subsituída pela alegoria, através do alto contraste entre claro e escuro e pessoas com feições e caráter distorcidos. Isso reflete a crise econômica e política da República de Weimar, que vivia a inflação, o desemprego, a xenofobia e a ascenção do partido Nacional-Socialista`.

Para ilustrar as aulas, no período da tarde serão exibidos os filmes Nosferatu (F.W. Murnau, 1922), Metropolis (Fritz Lang, 1927), O gabinete do Dr.Caligari (Robert Wiene, 1919), Doutor Mabuse (Lang, 1933) e O museu das criaturas de cera (Paul Leni, 1924). Os professores Zaidan, Paulo Cunha, Alexandre Figueirôa e o pesquisador Michel Rocha comentam as obras. O curso é gratuito e é preciso estar vinculado a instituições de ensino; basta se inscrever até segunda-feira, pela manhã, pelo telefone 2126-7351 e email neepd@ufpe.br.

Diario de Pernambuco, 17/01/2010)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Coluna de Lançamentos



Político - Há quem entenda a polêmica prisão de Polanski como consequência do teor acusativo deste thriller político premiado com o Urso de Prata de melhor direção no último Festival de Berlim. Ewan McGregor é o fantasma, roteirista sem nome contratado para dar um trato na biografia do ex-premiê britânico vivido por Pierce Brosnan. Polanski manipula seu fantasma, que corre pela própria vida enquanto descobre as relações perversas entre líderes dos EUA / Inglaterra.

O escritor fantasma (Ghost writer, EUA, 2010). De Roman Polanski. 128 minutos. Paris.



Digital - Restaurado para a tecnologia Blu-Ray de imagem HD e som 7.1, o filme-concerto da Disney ganha novo patamar. Obra pioneira no uso de cores e sons, o filme original formato letterbox (4:3) vem acrescido de outro longa, Fantasia 2000 em que a proposta original é estendida para novas peripécias visuais, compostas no compasso de clássicos da música erudita. O ponto alto é Aprendiz de feiticeiro com Mickey Mouse, uma das versões mais famosas do camundongo.

Fantasia (EUA, 1940/2000). 198 minutos. Disney.



Crítico - Esta seleta de críticas de Inácio Araújo é uma aula e tanto. Reunião de textos publicados na imprensa a partir de 1983, há nela um panorama da cultura fílmica desde então e o reencontro com clássicos. O material leva a refletir sobre fazer, assistir e pensar cinema. O texto preciso e suscinto faz renovar a fé na crítica, explicada por ele como a arte de amar e colocar filmes em crise. “Caso contrário, você fica sendo pombo-correio da indústria de cinema, dizendo o que eles querem que seja dito”, disse, em entrevista no prefácio.

Cinema de Boca em Boca – escritos sobre cinema. Organização: Juliano Tosi. 712 páginas. Imprensa Oficial.



Retrospectiva - Os primeiros 15 anos do maior festival de documentários da América Latina em um único volume. Ano a ano, o organizador Labaki comenta a evolução do evento (na primeira edição foram 2 mil espectadores; na última, 25 mil) ao mesmo tempo em que podemos acompanhar o desenrolar da obra de cineastas como Eduardo Coutinho, Cao Guimarães e Marcelo Gomes, que esteve lá na primeira edição, em 1996, com o curta Maracatu, Maracatus.

É tudo cinema - 15 anos de É Tudo Verdade, de Amir Labaki. 304 páginas. Imprensa Oficial.

(Diario de Pernambuco)

Um Gulliver no reino de Jack Black



Impossível imaginar esta adaptação de As viagens de Gulliver sem Jack Black no papel principal. Há graça no filme, principalmente para os que gostam do ator. Fora desse domínio, é um remake que patina e escorrega, ainda que divirta de forma honesta.

Black praticamente ´veste` o filme de Rob Letterman (Monstros vs. Alienígenas), feito sob medida para sua personalidade. De camiseta, bermuda, All Star e iPhone em punho, o aventureiro inglês do romance de Jonathan Swift foi convertido em um norte-americano trintão e 100% inserido na indústria cultural. Não espanta encontrar seres parecidos nos multiplexes onde o filme estreia hoje, em versões 3D sem muita justificativa.

A releitura pós-moderna apresenta um Gulliver sem autoestima, há cinco anos apaixonado pela editora de turismo do jornal onde trabalha discretamente, como ´o cara da expedição`. Para impressionar a garota, ele topa fazer uma reportagem, mas durante a viagem um acidente no Triângulo das Bermudas o faz naufragar em Lilliput, reino de pequenos humanos. Lá ele é recebido primeiro como monstro, depois como herói. A nova condição leva a antagonistas o general Edward (Chris O'Dowd), pretendente ao trono via casamento com a princesa Mary (a linda Emily Blunt) e o povo inimigo dos Blefuscianos. Seu aliado é Horatio (Jason Segel), jovem tímido e apaixonado pela princesa.

O tom de fábula pop vem do comportamento formal e de estranhamento dos lilliputianos enquanto Gulliver adapta ´maravilhas` contemporâneas como latas de Coca-cola, o Guitar Hero e o home theater literalmente vertido em teatro com versões de Star Wars, Avatar e Titanic distorcidas a seu favor.

Apesar dos perigos, nada realmente ameaça o herói, que age como se estivesse num parque de diversões, não por acaso, comportamento semelhante com boa parte do público responsável pela bilheteria.

(Diario de Pernambuco, 14/01/2011)

Cartaz oficial da 61ª Berlinale

De volta ao batente!



Após o descanso necessário, estou de volta às atividades do jornalismo diário. Aquele feito caldo de cana.

Em meio a filmes comerciais e independentes, festivais e notícias da cena cultural do Recife, reproduzo neste blog (quase) tudo o que escrevo para o Diario de Pernambuco, outras casas editoriais e parceiros com quem colaboro. Quando o tempo permite, também uma prosa sem pressa.

FELIZ 2011 para todos!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Os melhores de 2010

Relembrar é viver. Foram muitos filmes em 2010 e aí vai minha lista dos melhores filmes exibidos no circuito nacional.


A fita branca, de Michael Haneke


O escritor fantasma, de Roman Polanski


O que resta do tempo, de Elia Suleman


Vício frenético, de Werner Herzog


Deixa ela entrar, de Tomas Alfredson


À prova de morte, de Quentin Tarantino


Vincere, de Marco Bellocchio


O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella


A rede social, de David Fincher


O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson


Scott Pilgrim contra o mundo, de Edgar Wright


Kick-ass, de Matthew Vaughn

Retrospectiva 2010 // Um ano atípico para o cinema

2010 foi um ano atípico para o cinema. Para os brasileiros, a principal notícia é que produtos nacionais derrubaram a supremacia gringa. Tropa de Elite 2, Nosso Lar e Chico Xavier atraíram quase 20 milhões de brasileiros aos cinemas. Isso quer dizer que Capitão Nascimento não bateu apenas em traficantes e políticos corruptos mas em Avatar, Shrek, Eclipse e Toy Story 3. Com 11 milhões de espectadores e mais de R$ 100 milhões arrecadados, Tropa 2 é o filme nacional mais visto das últimas décadas e a maior bilheteria de todos os tempos. Com distribuidora própria (Zazen), desafia também um sistema dominado pelas norte-americanas Sony, Warner, Fox, Universal e Disney.

Antes de comemorar uma suposta vitória coletiva, um contraponto: Capitão Nascimento salva a própria pele, não o cinema nacional. Tropa 2, Chico Xavier e Nosso Lar cumpriram o seu papel e ocuparam todos os espaços possíveis. Nisso, filmes nacionais com bom potencial de público, como Antes que o mundo acabe e Reflexões de um liquidificador, perderam seu espaço. Essa lógica impediu o surgimento de filmes médios, entre 100 mil e 1 milhão de espectadores. O médio se tornou o grande que não deu certo. Como Lula - o filho do Brasil, que não passou dos 800 mil. Sem desmerecer o fenômeno Tropa 2, são questões a se pensar para que 2010 não seja um caso à parte.

À sua maneira, Hollywood também contrariou o padrão blockbuster quando deixou Avatar chupando o dedo e concedeu os prêmios principais do Oscar a Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, primeira mulher a ganhar a estatueta de melhor direção. Assim, a Academia repete seu elogio às produções pequenas - Guerra ao Terror custou US$ 10 milhões – e autorais (Onde os fracos não têm vez, dos Coen, venceu em 2008; Quem quer ser um milionário, de Danny Boyle, em 2009). O recado foi claro: tecnologia é importante mas não é tudo. Na prática, no entanto, vampiros, lobisomens, bruxos, monstros verdes, bichinhos e brinquedos continuaram a mover as engrenagens do cinema pipoca.

2011 não será diferente. O selo “também em 3D” será o mais reproduzido nos materiais de divulgação de mais da metade dos grandes lançamentos como Zé Colmeia, Thor, Capitão América, Rio (de Carlos Saldanha), Besouro Verde, Piratas do Caribe e o último Harry Potter. No Brasil, o mercado se prepara e já conta com 268 salas equipadas com a tecnologia de exibição. Em 2008, eram apenas 20. Hoje representam mais de 10% do parque exibidor. No Recife, a UCI Ribeiro acaba de inaugurar três novas salas.

Enquanto isso, o maior festival do mundo radicalizou ao conceder Palma de Ouro para Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas (Tailândia), de Apichatpong Weerasethakul. Para Cannes, a luz no fim do túnel surge de um filme estranho e inventivo, considerado um alienígena em seu próprio país. Em Veneza a premiação pegou mal para o presidente do júri, Quentin Tarantino, que agraciou a ex-namorada Sofia Coppola (Somewhere) com o Leão de Ouro e seu “discípulo” Alex de La Iglesia (Balada triste de trompeta) com o Leão de Prata. Em Berlim, Roman Polanski foi impedido de receber o Urso de Prata de melhor diretor por O escritor fantasma, também vencedor do European Film Awards. O filme foi finalizado em prisão domiciliar na Suíça, onde permanece detido. Outro cineasta foi preso pelo governo de seu país. O iraniano Jafar Panahi foi condenado a seis anos de reclusão e proibido de realizar filmes nas próximas duas décadas. Cinema também é subversão.

2010 também foi um ano de grandes perdas, entre elas Blake Edwards (88 anos), Mario Monicelli (95 anos), Irvin Kershner (87 anos), Eric Rohmer (89 anos), Dino de Laurentis (91 anos) e os atores Dennis Hopper (74 anos), Tony Curtis (85 anos) e o comediante Leslie Nielsen (84 anos). Em Pernambuco morreu Germano Coelho (52 anos), produtor de e="font-style:italic;">Baile perfumado.

Ano que vem – Na esteira do ano do espiritismo no Brasil, 2011 ainda reserva o derradeiro As mães de Chico Xavier. Mas a estreia recente de Muita calma nessa hora aponta para o retorno das comédias. Entre as estreias do primeiro semestre estão De pernas pro ar (com Ingrid Guimarães), Qualquer gato vira-lata (com Cléo Pires), Cilada.com (Bruno Mazzeo), Família vende tudo (com Caco Ciocler e Luana Piovani) e o novo de Hugo Carvana Não se preocupe, nada vai dar certo. Entre os infantis estão Brasil animado 3D, Uma professora muito maluquinha e Desenrola. Possíveis hits são Bruna Surfistinha, VIPS e Xingú, em que Cao Hamburguer dirige a história dos irmãos Villas-Boas, vividos por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat.

Vitalidade - 2010 já é um ano memorável para o cinema feito em Pernambuco. Ao longo do ano várias produções em 35mm foram rodadas no estado, entre elas, País do Desejo, de Paulo Caldas, O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, Febre do rato, de Cláudio Assis e Era uma vez Verônica, de Marcelo Gomes. Todos devem estrear em 2011, quando serão produzidos Sangue azul, de Lírio Ferreira e Tatuagem, de Hilton Lacerda.

Igualmente inédito é o volume de produções independentes sendo realizadas em suporte digital, patrocinadas por editais cada vez mais generosos do governo estadual e por recursos federais. Com 65 trabalhos exibidos, o Festival de Vídeo de Pernambuco é a maior vitrine dessa produção. Outra leva foi feita na base da “guerrilha”, com recursos da própria equipe. Vencedor do último Festival de Brasíla, o curta Acercadacana, de Felipe Peres Calheiros, é um deles.

Outros curtas multipremiados este ano são Recife frio (mais de 40 prêmios em 11 países), de Kleber Mendonça, Faço de mim o que quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio de Lorena, As aventuras de Paulo Bruscky, de Gabriel Mascaro e Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante, presentes na maioria dos festivais nacionais. O documentário Do Morro?, dos estreantes Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro, surpreendeu ao estrear no Cine PE e circular em mais de 20 festivais do Brasil.

A volta do Cine São Luiz está entre as melhores novidades do ano. Apesar disso, o palácio do cinema pernambucano precisa definir melhor sua atuação. Durante o ano, ele virou pomo da discórdia entre o programador Lula Cardoso Ayres e a Fundarpe, que administra o local. A queda de braço diz respeito, de um lado, à exibição de filmes que atraíram pouco público, e por outro, ao excesso de eventos que impedem uma programação capaz de formar plateias.

Pernambuco também viu em 2010 o ator Irandhir Santos se estabelecer entre os grandes nomes do cinema nacional. Principalmente ao interpretar o deputado Fraga, um dos protagonistas de Tropa de Elite 2, mas também em Quincas Berro D’Água, Olhos Azuis e em breve em A hora e a vez de Augusto Matraga, O som ao redor e Febre do rato.

Série Novos Olhares // Um cinema que não sei de cartaz


Walter Carvalho e Cláudio Assis no set de Febre do Rato

O cinema feito em Pernambuco vive um momento inédito. Se sua história é contada em ciclos, este já pode ser considerado o maior e mais fértil. Nunca tantos filmes foram realizados, aplaudidos e premiados como nos últimos anos. Somente na temporada 2009-2011, cerca de duas dezenas de longas em suporte digital ou 35mm estão em fase de preparação, produção ou finalização. Em 2010, seis longas foram rodados no Recife, três com distribuição nacional garantida.

Se num primeiro momento a urgência em se fazer filmes superava as reais condições para realizá-los, hoje não podemos dizer o mesmo. Temos equipamentos, mão de obra especializada, formada em cursos técnicos e prestes a alcançar nível superior, em cursos de graduação oferecidos por três universidades locais. Não por acaso, no começo de outubro o recém-criado curso de cinema da UFPE foi sede do 14º Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema - Socine.

Essencial para movimentar a cadeia produtiva, o fomento oferecido por órgãos públicos tem sido exemplar. Em 2008 o governo do estado criou edital específico para projetos do audiovisual, o último no valor de R$ 8 milhões. Um terço a mais do que o anterior, quando 95 roteiros de curtas e 35 de longas pleitearam recursos. Nos últimos quatro anos, R$ 33 milhões foram investidos no setor. Festivais se fortalecem e multiplicam, inclusive no interior.

Para Paulo Caldas, que finaliza seu quarto longa, País do desejo, o atual panorama se explica por uma série de fatores, que podem ser resumidos pelo status acumulado nos últimos 20 anos, quando foi retomada a produção no estado. "Esse respaldo é o nosso grande trunfo. Quem trabalha com cinema há mais tempo, percebe a transformação".


Equipe de O som ao redor comemora o fim das filmagens Foto: Victor Jucá

Kleber Mendonça Filho, que acaba de rodar O som ao redor, arremata: "É incomparável. Com novos processos técnicos e iniciativas se espalhando, a própria ideia de fazer um filme não é mais absurda. É um pouco do que se queria naquela época, acontecendo agora, com cinco longas produzidos em umano. Antes, acontecia um a cada década. Hoje, o país está muito bem financeiramente. E há muito dinheiro para cinema".


Hermila Guedes e João Miguel no Carnaval cenográfico de Era uma vez Verônica

Marcelo Gomes, que finaliza Verônica seu terceiro longa, afirma que vivemos um ano histórico para o cinema em Pernambuco. "Nunca se rodou tantos longas na cidade desde o Ciclo do Recife, nos anos 1920. Espero que o público assista a esses filmes, agora que temos mais salas exibindo o nosso cinema como o Cine São Luiz e o Cinema da Fundação".

Uma produção constante e sem sinais de cansaço pode colocar em xeque a tradição de ciclos do cinema local? "Talvez daqui a 20 anos possamos dizer que vivemos um ciclo, mas hoje apenas dizemos que se trata de algo diferente", afirma o crítico e professor de cinema Alexandre Figueirôa, que enumera uma série de fatores que cuminaram no bom momento para a produção pernambucana, como a proliferação de festivais e a abertura de outros mercados para difusão como o DVD e a internet.

Para ele, a ideia de ciclo vem de momentos específicos que, por razões sociais e econômicas, fez surgir períodos de maior produção em torno de um grupo de pessoas. "Mas basta olhar de perto para ver que nunca se deixou de produzir cinema em Pernambuco. Hoje é diferente porque temos um cinema dentro de uma perspectiva mais aberta, sem hierarquia. E que permite uma continuidade, com menos dependência do modelo institucional de grandes financiamentos. Isso gera longevidade. Por outro lado, sempre tivemos a tradição do audiovisual. Essa vocação, a partir do momento em que encontra cenário favorável, tende a se expandir".

No entanto, a dependência de recursos públicos leva a refletir sobre a fragilidade da cadeia produtiva. "A partir de Baile perfumado entramos num processo de sustentabilidade discutível", diz Paulo Cunha, pesquisador e um dos fundadores do curso de graduação em cinema da UFPE. "Espero que haja bom senso da gestão pública, já que a temos uma produção excelente que subsiste justamente pelo apoio estatal. Precisamos garantir que o nosso cinema continue a existir como é, poético, experimental, inovador e avançado. Isso gera um retorno não de bilheteria, mas de grande visibilidade. Seria fantástico dar mais segurança a isso. Caso contrário, essa fase que parece estupenda pode virar outro ciclo e se encerrar".

Muitos prós e alguns contras

Mais um fato inédito, hoje é possível realizar um longa com equipe 100% pernambucana. Quem garante é Cynthia Falcão, presidente da seção pernambucana da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD/PE), com 88 sócios. "Na concepção da ABD, não faltam profissionais de nenhuma área, do diretor aos técnicos de elétrica. Porém, quando se trata de finalizadoras, sabemos que as empresas especializadas em HD e 35mm ainda estão no Sudeste".

Outro passo à frente é a criação de uma subsede do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica (Stic). "A maioria dos profissionais de cinema de Pernambuco não tem DRT na área. Eles querem regulamentar a atuação no estado, estipular um piso local, organizar melhor a categoria e a forma de trabalho. Pelo Stic, poderemos entrar em contato com as produtoras, estabelecer um diálogo com esse mercado", diz Cynthia.

A intensificação da atividade e demais conquistas, no entanto, não correspondem a um monitoramento adequado dessa produção. O último foi realizado em 2005 pelo Sebrae-PE. "Na época, atendemos o pleito do Sindicato da Indústria do Audiovisual e tivemos o apoio da Fundação Joaquim Nabuco, que usou a pesquisa para para buscar melhores políticas públicas, como a implantação do Centro Audiovisual Norte-Nordeste e a disponibilização da câmera 35mm para a região", diz Alexandre Ferreira Gomes, gestor de cultura Sebrae-PE (novo levantamento deve ser iniciado pela ABD-PE assim que terminar o período eleitoral).

Para os realizadores, também há o que melhorar. "De produção, para fazer a coisa andar, o Recife está muito bem servido. Mas a maquinaria utilizada ainda é precária no Recife. Também existe carência de profissionais para esse tipo de equipamento", diz Kleber. Entre os preparativos de Verônica, Marcelo Gomes entende que as novas tecnologias ajudam bastante, mas, por outro lado, fazer cinema está ficando mais caro. "Temos mais pessoas se especializando e nosso edital está mais aperfeiçoado. Mas ainda falta uma maior sensibilidade do empresariado".

Linha do tempo do cinema pernambucano

1902 - Primeira exibição de cinema no Recife, no animatógrafo da Rua da Imperatriz

1918 - Ugo Falangola traz o equipamento que deu origem à Pernambuco Film. Em 1924, exibem Veneza Americana

1923 - Gentil Roiz e Edson Chagas fundam a Aurora Filmes

1925 - Com roteiro de Ary Severo, Roiz e Chagas começam a filmar Aitaré da Praia

1927 - A filha do advogado, de Jota Soares, é exibido em 13 salas no Rio de Janeiro

1936 - Em parceria com a ABA Film, imigrante sírio Benjamin Abrahão filma de Lampião e seu bando

1942 - Newton Paiva e Firmo Neto rodam o longa O coelho sai, cuja única cópia foi destruida em incêndio

1952 - Alberto Cavalcanti dirige O canto do mar no Recife; José de Souza Alencar (Alex) foi assistente de direção

1960 - Instituto Joaquim Nabuco patrocina os documentários Aruanda, de Linduarte Noronha e A cabra na região semi-árida, de Rucker Vieira

1964 - Eduardo Coutinho começa a filmar Cabra marcado para morrer que só viria a concluir 20 anos depois

1969 - Fernando Spencer finaliza seu primeiro curta, A busca, em 16mm

1973 - Sérgio Ricardo filma em Nova Jerusalém A noite do espantalho; no elenco, Alceu Valença, José Pimentel e Geraldo Azevedo; 11 filmes pernambucanos se increvem na 2ª Jornada Nordestina de Curta-metragem de Salvador

1976 - Jomard Muniz de Britto dirige o curta O palhaço degolado

1977 - É criado o Grupo de Cinema Super 8 de Pernambuco

1978 - Cleto Mergulhão dirige O palavrão, o último longa-metragem pernambucano até o lançamento de Baile perfumado

1984 - Kátia Mesel funda a Arrecifes Produções e roda Bajado - um artista de Olinda

1985 - Paulo Caldas, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Adelina Pontual e Samuel Holanda fundam o grupo Van-retrô

1996 - Primeira exibição de Baile perfumado(foto), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, no Festival de Brasília

1997 - Primeira edição do festival Cine PE

2003 - Amarelo Manga, de Cláudio Assis é sete vezes premiado no Festival de Brasília

2005 - Cinema, aspirinas e urubus é exibido na seleção oficial da Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes

2006 - Baixio das bestas, de Cláudio Assis, é eleito o melhor filme do Festival de Brasília e vence o prêmio Tiger de Melhor Filme no Festival Internacional de Roterdã, na Holanda

2007 - Deserto feliz, de Paulo Caldas, estreia no Festival de Cinema de Berlim; com o curta Décimo segundo, Leo Lacca é melhor diretor no Festival de Brasília; o longa Amigos de risco, de Daniel Bandeira, participa da mostra oficial.

2008 - Curta Muro, de Tião, é premiado no Festival de Cannes; KFZ 1348, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso é premiado pela 32ª Mostra de Cinema Internacional em São Paulo.

2009 - Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz é exibido em Veneza; Um lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, participa de mais de 20 festivais no mundo; curtas Ave Maria ou mãe dos sertanejos, de Camilo Cavalcante e Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, ganham prêmios do Festival de Brasília; Recife frio e Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro, integram Festival de Roterdã.

(Diario de Pernambuco, 26/09/2010)

Série Novos Olhares // Cinema não se faz só com diretores


A prática pode ser uma grande escola. E por muito tempo a única, para quem quis aprender cinema em Pernambuco. A novidade é que a atual sequência de produções gerou um ambiente de continuidade e procura por mão de obra específica. Mais dinheiro para patrocínio e o consequente aumento do número de pessoas envolvidas são fatores que tem estimulado essa especialização. Isso contraria um movimento histórico, em que o grande objetivo era chegar ao posto de diretor. Hoje contamos com jovens assistentes de produção, direção, fotografia e especialistas em seleção e preparação de elenco, arte, figurino, continuidade e montagem.

“Desde o Ciclo do Recife cultivamos essa aura mitológica em torno dos diretores. Mas não se pode fazer um cinema só de diretores. O avanço dessa nova geração é que ela percebe que há muitas outras funções. De certa forma, isso cria um núcleo criativo de pessoas que trabalham com ligação emocional e profissional”, diz Paulo Caldas. Há poucos meses, com a realização de seu novo filme, País do Desejo, novos nomes foram agregados à equipe com quem trabalha há quase 20 anos. Além disso, o diretor estabeleceu parceria com o curso de cinema da UFPE, que mobilizou quatro alunos para produzir o making of.

“É um percurso curioso. Na época em que comecei, nunca entrei num set de filmagem que não fosse o meu”, diz Marcelo Pedroso, da Símio Filmes. “Não havia tantos filmes sendo feitos e a gente preferia pegar a câmera e sair filmando”. Com dezenas de filmes em dez anos de atividade, a própria Símio tem sido incubadora de novos profissionais. “Eles entram com um background que nunca tivemos, obtido via tecnologia da informação, um repertório muito grande. Há dez anos a internet ainda estava engatinhando, conseguir acesso a filmes era uma guerra. E hoje é possível assistir filmes de qualquer época ou nacionalidade. Sem falar que alguns estão estudando cinema na universidade, têm bastante propensão a assimilar conteúdo. Daqui alguns anos essa galera vai começar a fazer filmes e podem pintar boas surpresas”.

Kleber Mendonça Filho vê algo de inédito nessa possibilidade. “Esse tempo todo produzimos cineastas que estudaram cinema de forma empírica. Eu mesmo sou de uma geração que estudou jornalismo pra chegar mais perto do cinema. Estou muito interessado em ver os artistas que podem sair dessa escola”. Enquanto isso, o método tradicional de formação de cineastas continua valendo. Em agosto, o set de O som ao redor, seu primeiro longa, foi escola para Leo Lacca, Daniel Bandeira, Juliano Dornelles e Daniel Aragão, que devem utilizar a experiência em breve, em seus próprios filmes.

Marcelo Gomes, que aprendeu estagiando em produções enquanto estudava cinema
na Inglaterra considera Baile perfumado fundamental para sua formação. No seu set, ele diz ser primordial contar com sangue novo. “Já tinha esse pensamento quando rodei Cinema, Aspirinas e urubus, de chamar pessoas em início de carreira. Na época chamei Gabriel Mascaro, Daniel Aragão, Pedro Sotero. Eles vêm com novas ideias e informações, que a gente aprende com eles. Espero continuar isso agora, com o novo filme”. Em outubro, Gomes filmou Verônica, nome provisório para seu terceiro longa. “Cinema é um trabalho que demanda dez, às vezes doze horas de trabalho diário. Por isso é importante trabalhar com gente com muita energia e vontade de fazer cinema”.

Escola formal - Uma das consequências do cenário favorável para produção de filmes no estado é o surgimento de três cursos de graduação. O mais abrangente foi fundado ano passado, na Universidade Federal de Pernambuco. Os resultados começam antes mesmo da primeira turma se formar, com estagiários trabalhando nos novos filmes de Paulo Caldas, Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Kleber Mendonça.

“Nossos alunos rapidamente se encaixam nas produções”, diz o professor Paulo Cunha, fundador do curso o qual coordenou até o mês passado e atualmente dá aulas de cinema brasileiro. Para ele, a relevância da graduação está atrelada ao crescimento do sistema de produção. “O projeto foi montado para estar com um pé na produção real, onde ele se complementa. Por isso, uma parte da carga horária pode ser preenchida com o trabalho feito nas produtoras”.

Ao longo de quatro anos, disciplinas como história e teoria do cinema são aliadas à prática em campo e no laboratório. “É preciso se alfabetizar para a linguagem audiovisual. Tem alunos que trabalham sem ter visto um Hitchcock ou um Godard. É uma oportunidade para refletir e experimentar a própria pegada, pois quando ele chegar na produtora tem que fazer o que os outros mandarem”, diz Cunha.

O Laboratório de Imagem e Som da UFPE está disponível não só para alunos de cinema e conta com equipamento de ponta e uma midiateca com 330 títulos. Desde o mês passado, três ilhas Mac Pro Octacore para edição de imagem e som estão em funcionamento. Entre as novas aquisições estão câmeras de alta resolução Panasonic HPX300. O objetivo é suprir a necessidade educacional e tornar o espaço uma pequena produtora. “Queremos promover atividades extracurriculares e fazer parcerias para fazer algo mais dinâmico, um laboratório de criação e formação de novos técnicos”, diz o professor Camilo Soares, coordenador do LIS.

Fundado em 2007, o curso de cinema de animação da Faculdade Barros Melo - Aeso deve formar no ano que vem a primeira leva de animadores. De acordo com o coordenador, Leonardo Castro, no curso é possível aprender diferentes técnicas de animação para cinema, videogames e celular, além de efeitos visuais para filmes live-action. Criada em 2005, a produtora BAM Studio é incubada pela faculdade e tem no portfólio títulos premiados como Jumento Santo, A morte do Rei de Barro, O homem planta, e o videoclipe A sorte, da banda Volver.

Voltado para profissionais, os cursos de formação e capacitação técnica do Centro Audiovisual Norte-Nordeste são uma parceria entre a Fundação Joaquim Nabuco (Ministério da Educação) e a Secretaria do Audiovisual (Ministério da Cultura). “São cursos de aperfeiçoamento para quem já atua na área, mas trabalha de forma empírica, com os amigos”, diz Isabella Cribari, diretora de cultura da Fundaj. Ministrados por especialistas de todo o país, os cursos são elaborados a partir de carências apontadas pelo mapeamento do audiovisual realizado em 2005 pelo Sebrae. Os mais requisitados são como desenho de som, fotografia subaquática, produção digital e montagem. A próxima turma será de direção de arte, com Vera Hamburguer.

Números

200 alunos estão matriculados no curso de cinema da UFPE. A capacidade é de 400

Em três anos, o Canne promoveu 73 cursos para 1500 pessoas de 13 estados do
Norte e Nordeste

80 vagas disponíveis para curso de cinema de animação da Aeso

O curso de cinema digital da Faculdade Maurício de Nassau oferece 240 vagas

180 alunos formados pelo curso de formação técnica da Aurora Filmes; 30 destes
atuam no mercado

Série Novos Olhares // Um cinema feito à mão



Nos últimos três anos, um casarão do Recife Antigo serviu de set para o curta-metragem de animação Dia estrelado. O projeto é idealizado por Nara Normande que, com papel e massa de modelar construiu cenários, objetos e personagens praticamente sozinha. O movimento é obtido com a técnica stop-motion, em que milhares de imagens são capturadas digitalmente para depois serem alinhadas em sequência no computador. Para cada minuto de animação, são necessárias, no mínimo, 720 fotos.

Nara me recebeu no estúdio montado no segundo andar do Canal das Artes, onde criou um mundo árido onde habitam seus personagens. São três ambientes externos e dois internos. Um deles mostra o leito seco de um rio com um casebre. Com exceção das flores, todos os objetos são artificiais. "Quis representar o quadro Noite estrelada, de Van Gogh, com outras cores", diz.

Aos poucos, a jovem realizadora (24 anos) montou equipe formada por Marcelo Lordello (fotografia),Tião (assistência de direção), Raphaela Spencer (direção de produção), Lívia de Melo (produção executiva), Manuela Costa (finalização), Nicolas Hallet (som), João Maria (montagem) e os animadores Renata Claus, Maurício Nunes e Fábio Yamaji (de O divino, de repente). A trilha sonora será de Fernando Catatau (Cidadão Instigado).

Para a artista não importa o longo período demandado pelo projeto. "Com o tempo, a essência é a mesma e o roteiro amadurece. Fazer em 3D é mais fácil e rápido, mas não atinge o mesmo efeito, fica perfeito demais. Sempre gostei de filmes mais rústicos, artesanais, que dão margem para que se veja que aquilo é maquete, que tem uma pessoa por trás".

Para aprender o ofício, Nara passou longe dos cursos de animação oferecidos na cidade. Formada em jornalismo pela Universidade Católica, Nara gosta de modelar e de cinema desde criança. Bastou um curso com Peter Peak, do estúdio ingês Aardman (de Wallace and Grommitt e A fuga das galinhas), contatos e informações via internet e a leitura de alguns livros. Como referências estão Jan Svankmajer e Michaela Pavlátová, da República Tcheca. Com a última, estabeleceu contato e trocou ideias à distância.

Concebido para o formato de tela cinemascope, Dia estrelado foi viabilizado com recursos de editais da Fundarpe e do SIC municipal, ao custo de R$ 140 mil, incluindo o transfer para película 35mm. Nara já vem colaborando com outros filmes como A vida plural de Laika, de Neco Tabosa, Animal político, de Tião, e Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro, todos em fase de produção. Já fez experimentos próprios, mas considera este o seu primeiro trabalho autoral. Depois de Sem coração, curta live action que dirigirá com Tião, Nara quer experimentar o desenho animado direto na película, riscando e colando objetos como nos primórdios da animação.

Série Novos Olhares - Entrevista // Tião: “Os filmes que me empolgam são os que mostram que podem fazer o que quiser”

Tião finalizou seu primeiro filme aos 25 anos e com ele conquistou um prêmio inédito no festival de cinema mais prestigiado do mundo. Para os desavisados, foi uma surpresa meteórica. Só que até Muro chegar à sua forma final, alguns anos se passaram. O curta nasceu a partir de ideias que o diretor trazia desde adolescente, teve seu roteiro trabalhado por mais de um ano, foi realizado com recursos públicos (e uma parte do próprio bolso) e com o trabalho de vários amigos.

Tudo começou com a fundação da Trincheira Filmes em 2003, por ele, Leo Lacca e Raul Luna. Primeiro veio o projeto coletivo Eisenstein. Depois, os trabalhos individuais: Ventilador e Décimo segundo (Lacca), Número 27 e Vigias (Marcelo Lordello). Atualmente, enquanto trabalha na produção de Animal político, Tião participa de outros novos projetos da Trincheira: Eles voltam, de Lordello, o curta Ela morava na frente do cinema, de Lacca (que também prepara o primeiro longa), além de outro curta de Tião e Nara Normande, Sem coração. Em entrevista ao Diario, Tião fala sobre sua breve e notável trajetória. Aos novatos, aconselha: “sejam corajosos e acreditem nas ideias”.

Muro estreou no cobiçado Festival de Cannes. Há um “caminho das pedras” para chegar lá?
Fiz o caminho mais óbvio: preenchi os formulários e mandei uma cópia pra lá. Muita gente apressa o processo de um filme para colocá-lo em determinado festival. É importante não forçar esses limites e respeitar o processo, fazer um filme em que se acredite e trabalhar nele o tempo necessário. Cada filme tem um tempo próprio e isso é muito importante. Em Muro, trabalhei por muito tempo e com isso pude ver com mais clareza.

O que motivou a realizar Muro?
Primeiro, um sentimento forte presente em várias ideias desde que comecei a pensar em cinema. Eisenstein foi meu primeiro filme, mas as ideias de Muro vieram antes. Anotei e vi que entre essas ideias, lugares e épocas, pensadas para suportes diferentes, falavam mais ou menos a mesma coisa e também falavam umas pra outras. Então decidi juntá-las no mesmo lugar, pois precisava falar sobre elas, expressar num filme, quase como um prefácio. Precisava falar isso pra depois pensar em outras coisas.

E de que ideias você trata no filme?
É uma resposta simplesmente a estar aqui, agora. É sobre uma carga histórica de violência, que vem da gente, pois não existe personagem fora da sociedade violento assim. Falam que é algo de gênero, que a mulher sofreu mais violência histórica, mas acho que é uma coisa humana. E tem a corrida em direção à frente, a noção de progresso, que eu tento questionar.

Nos últimos meses, você tem se dedicado a seu novo filme, Animal político, que deve se tornar um média-metragem.
Ele foi aprovado como curta pelo edital da Fundarpe, mas agreguei novas partes. Ele foi crescendo com o tempo, porque quis fazer algo inverso a Muro. Como antes do roteiro de Muro não tinha feito nenhum filme, fazer o roteiro era como fazer a obra, demorou um ano e seis meses. Isso gerou umroteiro muito sólido, com estrutura parecida ao filme. Na filmagem isso até atrapalhou, pois fiquei preso à força do roteiro. Em Animal político, quis lidar com um processo mais imperfeito. Já filmamos uma parte, vamos começar outra daqui a um mês e ainda estou fazendo o roteiro, que continua aberto a ponto de permitir que no processo de montagem seja escrito mais alguma coisa.

Curtas enfrentam problemas específicos para serem exibidos. Como você pensa estratégias para seus filmes?
Muro teve uma boa exibição em festivais, mas o que me incomoda é a diferença de tratamento e de repercussão dos curtas com relação
aos longas. E isso é uma coisa muito do cinema, a literatura absorve bem o formato curto e longo, as artes plásticas também - não importa se o objeto tenha um metro ou cinco. Sei que os curtas estão muito distante do circuito comercial, mas se eles não podem ser vistos por esse público, que sejam por pessoas que estudam cinema, jornalistas, professores.

Você tinha 20 anos quando a Trincheira foi fundada. Como foi o começo?
Ainda no colégio, tocando em bandas diferentes, eu e Leo Lacca assistimos filmes americanos de estúdio como Cidade dos sonhos, Magnólia, Quero ser John Malkovich. Esse último foi muito importante, porque percebemos que dava pra colocar qualquer ideia, por mais absurda, dentro de um filme. Depois o Raul Luna entrou e nos empolgamos com essa possibilidade e começamos a escrever o roteiro de um longa, um policial absurdo, por puro prazer de se encontrar e traficar ideias para o filme.

Você procurou formação específica antes de partir para a prática?
Formação em cinema não tive quase nada, aprendi fazendo e com Leo, Marcelo e outros amigos, trocando informação, assistindo filmes. Eu tinha vontade de fazer um curso para aprender a lidar com câmera, mas não tinha muitas opções na época. Leo e Marcelo fizeram cursos na Fundaj. Depois participamos de um curso na UFPE, onde conhecemos outras pessoas como Gabriel Mascaro, Felipe Cabeça. Pensamos em estudar no Rio, ter um conhecimento sistematizado, mas isso tem prós e contras. Se por um lado podemos aprender o que há de bom e ter alguém para dialogar, a personalidade da pessoa que ensina influencia o seu trabalho.

O que um realizador iniciante precisa para começar bem no cinema?
Para fazer um bom filme, antes de tudo, é preciso ter a ideia. E ser honesto consigo, fiel com o que pensa. Tudo precisa servir a essa ideia. Por isso, é necessário ser corajoso e acreditar nelas. Essa convicção faz bem para o filme. E para isso prevalecer, é bom trabalhar com amigos, mais até do que manter um esquema profissional, achando que isso vai assegurar alguma coisa. O ideal pra mim é trabalhar não com muita gente e quanto mais amigos, melhor. Não sei se todos os filmes dá pra trabalhar nesse esquema, mas seria o ideal. Fora isso, trabalhar com vontade, com prazer, para ter boas recordações. Nós, da Trincheira, queremos moldar o processo, não moldar o filme à estrutura, mas a estrutura ao filme. Isso tem um custo, mas se é para gastar dinheiro, é nisso que vale a pena.

O que te move a fazer filmes?
Me interessa muito o que as outras artes podem trazer para o cinema, que é uma convergência de artes. Fotografia, texto, minha formação artística é isso. Não vim do cinema, não “sou” do cinema. A noção de que posso trazer coisas de outros lugares para mim é mais interessante do que o cinema em si, do que ficar o tempo todo dentro do cinema, que é um canal interessante. Pena que a forma como ele vem sendo usado nos últimos anos o transformou em algo inofensivo. A classe média vai ao cinema, é uma coisa social, vai porque está no shopping, é como fazer palavras cruzadas. Comparar essa situação com os cineastas que existem e já existiram, é um potencial perdido. Para a maioria, cinema deixou de ser arte. Mesmo assim acho interessante a relação que existe no Recife, aqui temos um cenário especial, o cinema que se faz aqui está na mídia, há incentivo. E quando pessoas assistem a estreia de um curta numa segunda-feira, com sala lotada, a perspectiva só pode ser boa.

A velha (e fértil) lógica dos coletivos

A tradição de coletivos marca o cinema de Pernambuco desde seu início e novos grupos de produção e exibição não páram de surgir. Se por um lado há um contexto favorável que permite aos novatos se especializar e aprender com veteranos, há os adeptos da old school. Eles começam do zero, desempenham várias funções e, entre amigos, adquirem experiência com os próprios projetos de produção e exibição. Quatro deles conversaram com o Diario de Pernambuco sobre suas motivações, inquietações e modus operandi.

ASTERISCO
Com cinco integrantes, seis curtas prontos e três em andamento, o coletivo Asterisco foi criado em 2008 por estudantes da UFPE. A ideia, viabilizar projetos pessoais coletivamente. Inicialmente, Felipe Peres Calheiros assumiu a fotografia; Evandro Dunoyer, a produção e pesquisa de linguagem documental; Paulo Sano, a edição e finalização de imagem; Rafael Travassos, o som direto e finalização; e Sérgio Santos, o roteiro e linguagem ficional.

“Começamos do zero e aprendemos uns com os outros”, diz Calheiros, diretor de Acercadacana. Eleito o melhor do último Festival de Brasília, o curta trata da luta de uma senhora que está sendo expulsa da casa onde vive há mais de quatro décadas por uma grande empresa, a dona do canavial.

“Depois de uma época de reflexões e projetos pequenos, começamos a produzir coisas maiores. Basicamente, cada projeto tem o seu ‘pai’. A partir disso organizamos a equipe, sempre tentando agregar parceiros aos projetos”, diz Sano, que com Travassos assina a direção de Dia de Clássico.

Para ele, o surgimento de coletivos se explica também por imposições financeiras. “Pernambuco possui hoje técnicos excelentes, mas que nem sempre podem ser remunerados da maneira adequada. Muitos dos filmes são urgentes e não podem esperar patrocínio para serem iniciados. Ainda que o setor tenha recebido um pouco mais de atenção nos últimos anos, ainda falta um longo caminho para que o lado econômico acompanhe o lado criativo”.

MORRA
Formado por Ayla Alencar, Nina Wicks e Guilherme Martins, o coletivo se uniu em setembro de 2009, pelo apetite de realizar o curta Entre pernas, uma releitura do mito da perna cabeluda. Diz a lenda, em voga nos anos 70, que uma perna peluda perseguia e atacava pessoas no meio da rua. No filme, Marília Correa, estudante de historia que começou a se interesar por teatro durante o filme. Ela interpreta a vítima, que formaliza queixa contra a perna e se vicia em técnicas para convencer o delegado. “Ela quer materializar sua loucura e usa de artifícios e seduções para fazer as pessoas acreditarem naquilo”, diz Ayla, que busca no filme a imagem crua do cinema marginal. “Nosso método é a produção jazz, onde vale a intuição, o improviso e muita sintonia. Tudo é questão de puxar a história certa pela câmera”.

Independente, a produção tem custo estimado de R$ 60 mil. Ainda não há recursos captados, mas o trabalho flui na base da colaboração de Xuruca (figurino), João Sagatio (luz) e DJ Dolores com Orquestra Cidadã dos Meninos do Coque (trilha sonora). A direção e roteiro são de Ayla, a direção de arte, de Guilherme e Nina e Frederico Ferreira assina os figurinos. A produtora Remo entra com a infra-estrutura. As filmagens começaram em novembro passado, no Armazém 14 e será finalizada em novembro deste ano. O calendário de filmagem não foi escolhido por acaso. “De acordo com os estudos astrológicos, está na hora de voltar a gravar”, diz Nina. “Estaremos no ciclo de escorpião, que favorece o profundo, o denso, o violento”.

JACARÉ
Um documentário sobre dois caçadores de jacaré na mata de Dois Irmãos foi o que primeiro uniu João Lucas, Rafael de Amorim, Hugo Coutinho e Leandro Santonianni, em 2008. Pedro de Andrade entrou após estudar com João Lucas no Centro de Formación Profesional del Sindicado del Cine Argentino, em Buenos Aires. “Já éramos amigos antes de Jacaré e essa amizade ainda hoje é um dos alicerces do grupo. Além disso temos também uma lógica de trabalho onde todos fazem tudo, o que é bastante dinâmico”, diz João Lucas. Logo depois veio Cinema Império, de Coutinho, sobre o cinema de rua que funcionou até 1979, no bairro de Água Fria. De acordo com Hugo, a ideia é continuar o projeto, desta vez, com os antigos cinemas do interior. Antes disso a turma lança Véio Peru. Além deles, a Jacaré produziu O Ano Passado em Itamaracá, em parceria com a Dipjurah Pictures de Germano Rabelo.

DISSENSO
De um blog/projeto de conclusão do curso de jornalismo nasceu o Cineclube Dissenso, que reúne Rodrigo Almeida, Luís Fernando Moura, André Antônio, Fernando Mendonça, Hermano Callou, Paulo Faltay, Pedro Neves e Tiago Correa. Já na origem, em 2008, o motivo principal é discutir cinema. A exibição veio depois. “Não queria escrever ensaios para deixar na gaveta. Então convidei algumas pessoas, fizemos reuniões e resolvemos que uma boa forma de atrair as pessoas seria exibir um filme a cada semana”, diz Almeida. Ano passado o coletivo migrou da UFPE para o Cinema da Fundação. Desde então, são mais de 50 sessões e 100 filmes exibidos. “Na Federal todos as sessões eram surpresa. Cada um levava um filme e decidíamos qual seria na hora, para as pessoas não chegarem com um discurso pronto. Na Fundação, para atrair
público tivemos que divulgar os filmes com antecedência, mas mantemos a ultima
de cada mês para que a ideia original não fique descaracterizada”.

Luiz Fernando Moura explica o critério que guia a escolha de filmes. “Se o filme não for muito conhecido, melhor. Queremos filmes bons que são pouco acessíveis, sem distribuição no Brasil ou que teve uma sessão perdida em alguma mostra. Filmes nacionais com a presença do realizador e que problematizam a linguagem do cinema também são bem-vindos”.

Entrevista // João Lucas (Coletivo Jacaré)

Existe uma unidade que caracteriza os filmes do coletivo?
Desde Jacaré procuramos ter uma relação especial com os personagens dos filmes. A idéia é deixar que os personagens se mostrem da forma mais natural possível. Propomos uma relação mais amistosa com eles, nos colocamos na frente da câmera e buscamos quebrar essa relação hierárquica entre entrevistado e entrevistador. A idéia foi essa quando nos juntamos com os caçadores para caçar juntos o jacaré. Se repetiu em Cinema Império, pois as entrevistas eram
como conversas informais. Em Véio Peru, ainda inédito, essa informalidade guiou o filme, feito em uma só tomada e sem a pretensão de ser documentário. A gente quer deixar a câmera invisível para que a atenção maior seja no papo, sem a forma convencional de pergunta-resposta.

Quais as principais dificuldades para viabilizar um filme?
Hoje a gente sabe que por conta do digital é mais barato fazer filme do que na época em que só existia a película. Mesmo assim cinema é um trabalho caro. É difícil imaginar alguém que vive bem só de realizar filmes, os trabalhos técnicos de edição, câmera e som para TV, cinema e shows e até publicidade (embora não tenhamos feito nada nessa área ainda) são essenciais para a manutenção de uma produtora. De qualquer forma, também é fato que Pernambuco hoje é um estado privilegiado na área do audiovisual, aqui são oferecidos muitos incentivos o que nos faz ter essa relação financeira com o governo. Fazer filmes independentes não é a coisa mais vantajosa, a não ser pelo prazer de filmar e na verdade todos os nossos filmes são independentes.

Como vocês pensam estratégias de exibição e distribuição?
Cinema Império foi realizado junto com uma sessão do filme O Ébrio, na frente do antigo cinema do mesmo nome em Água Fria. Jacaré foi exibido durante o festival Pai da Mata, no Curupira, em Dois Irmãos. Temos uma idéia de exibir os filmes em lugares que de alguma forma se relacionam com o próprio filme ou os personagens. Coque: Histórias da Terra também terá sessões especiais no bairro. A idéia é que o filme pertence ao lugar e as pessoas que o fizeram. A internet também é um meio de disponibilizar os filmes, por enquanto temos uma página no Vimeo e ainda não colocamos todos os filmes. Sempre pensamos em fazer DVDs pois essa ainda é a mídia mais popular para filmes.