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segunda-feira, 30 de março de 2009

Festival de Curitiba // Pernambucanos no Fringe


Foto: Diego Pisante / CLIX

Este ano, três grupos pernambucanos participaram do Fringe: o Galpão das Artes, de Limoeiro, apresentaram a comédia No humor como na guerra no fim de semana passado; a Cia do Ator Nú, de Recife, com o monólogo Fio invisível da minha cabeça; e a Cênicas Companhia de Repertório, com o espetáculo Que muito amou. As duas últimas derivam da obra de Caio Fernando Abreu, e acabam de ser selecionadas para a edição 2009 do Porto Alegre em Cena.

Que muito amou (título pinçado de uma carta escrita por Abreu em 1984) foi encenado no Teatro Mini-Guaíra, e adapta para o monólogo três contos do livro Os dragões não conhecem o paraíso. Nele, os atores Ana Dulce Pacheco, Antônio Rodrigues e Marcelo Francisco da Silva interpretam personagens que divagam tragicamente sobre sexo, solidão e morte. Este último, vive um transexual de meia-idade, fora das "rodas" sociais, e cheio de amargura. Na noite de sexta-feira, o público foi pequeno, mas saiu consternado do teatro. No dia seguinte, provavelmente motivados pelo boca a boca favorável, mais pessoas foram assistir.

“Foi maravilhoso. Eles têm um fortíssimo trabalho de atuação, o roteiro é muito bom, e o texto é sublime. O terceiro em especial, pois o personagem é muito forte e marginalizado, e passa a mensagem de que os que vivem à margem estão muito mais centrados e conscientes do que os que se consideram normais. Talvez porque o sofrimento traz essa consciência”, disse a estudante de teatro Luzana Medeiros, emocionada de tal maneira que não conseguiu conter as lágrimas.

Rodrigues, que também dirige o espetáculo, disse após a apresentação, que o objetivo da peça é provocar o público, para que ele não saia da sala somente para comer pizza. "No Recife, teve gente que ficou tão mexida que não conseguiu chegar ao fim, e voltou no outro dia para terminar".

Mesmo sem contar com apoio institucional, a companhia apostou na maturidade da peça, criada há cinco anos, e investiu cerca de R$ 6 mil para participar do Fringe, "pois aqui estão os olhos e cabeças pensantes", justifica o diretor.

A Cia do Ator Nú arcou com a mesma despesa, mas não obteve a mesma receptividade que os colegas. Eles apresentaram a peça Fio invisível da minha cabeça, que não teve espaço tão privilegiado como Mini-Guaíra, onde seus conterrâneos do Companhia de Repertório foram recebidos. Em conversa com o Diario, o grupo protestou pelo descaso da organização do Fringe, que alocou a peça numa espécie de salão multiuso do Solar do Rosário, no Largo da Ordem. Lá, o grupo teve de conviver com quadros pendurados nas paredes e um piano despropositadamente posicionado no meio do palco. “É surreal”, desabafou o produtor e ator Edjalma Freitas. “Por participar do Fringe, eu já imaginava que não seríamos bem tratados, mas não sabia que iríamos ser maltratados desta forma”, disse o diretor Breno Fittipaldi.

De forma que, encenada pela primeira vez na quinta-feira, Fio invisível da minha cabeça não recebeu críticas favoráveis. Na tarde de sábado, o espetáculo foi cancelado, pois havia apenas um pagante, devidamente remanejado para o dia seguinte. “Os críticos e público não puderam assistir ao espetáculo como ele realmente é. Aqui não tem coxia nem camarim. Precisamos de, no mínimo, um espaço vazio para encenar o monólogo”, disse Luciana Raposo, que participou da montagem como criadora e operadora de luz.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Festival de Curitiba // A moça dissimulada ainda vai tombar



José Wilker é a grande estrela da comédia A cabra ou quem é Sílvia?, encenada nas noites de segunda e terça-feira, no Festival de Curitiba. Tanto é que agiu como uma: se irritou e recusou a ser conduzido do hotel em que estava hospedado ao Teatro Guaíra na mesma van que Denise Del Vecchio, Gustavo Machado e Francarlos Reis, atores com quem contracena nesta adaptação da obra de Edward Albee, dirigida por Jô Soares. Exigiu um carro particular, com motorista, caso contrário não deixaria o hotel. E conseguiu.

Formado em sua maioria pela classe média-alta da capital paranaense, o público poderia não imaginar, mas estava prestes a acompanhar uma narrativa que evoca imagens de zoofilia, incesto e até pedofilia. O espetáculo apresenta Wilker como um homem de meia idade, bem sucedido no casamento e profissão. Moderno até certo ponto (aceita com reticências o filho gay), ele tem escondido por meses que está sinceramente apaixonado por Sílvia, uma cabra que vive na zona rural. Tudo vai bem, mas a estrutura familiar desmorona após revelado o segredo.

Escrita pelo mesmo autor de Quem tem medo de Virgínia Woolf?, a peça é uma grande oportunidade de, a partir dos tabus sociais, elaborar uma crítica ao hábito da dissimulação, onde manter as aparências está acima de qualquer sinceridade. Para explorar a dimensão cômica, no entanto, Jô Soares optou por soltar uma piada a cada minuto (de forma parecida a que submete certos entrevistados de seu talk-show), o que, se pode ter aliviado o clima barra-pesada da trama, também a manteve na superficialidade.



Fringe - "O vinho é a fenda na qual se conhece o homem por inteiro". A frase, atribuída a Nietzsche, é apenas uma das ótimas citações proferidas pelos personagens de O evangelho segundo São Mateus, do dramaturgo e diretor curitibano Edson Bueno. A peça se dedica a reconstituir a cena da Última Ceia, a exemplo da famosa tela de Leonardo Da Vinci afixada ao fundo do cenário. Para tanto, faz uso irreverente tanto do texto bíblico quanto de trechos do oitavo poema do Guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

A ação se dá enquanto Jesus, Maria e alguns apóstolos fazem o pão para a ceia. Entre frases de Pessoa e trilha sonora com versões para Pixies e Radiohead, os atores entraram e saíram de seus papéis. Comentam, discutem e explicam as razões de cada personagem. Ofereceu café, vinho e pão para o público, convocado a compor a mesa na cena final.

Após a encenação, Bueno disse que sua inspiração primeira foi o filme homônimo rodado em 1964 por Pasolini, e que a opção por se comunicar diretamente com o público é uma radicalização de seu trabalho anterior, Capitu (apresentado no Recife em 2005, no Palco Giratório). Seu próximo trabalho será nos mesmos moldes, desta vez sobre a vida de Franz Kafka, que tem como base a biografia em quadrinhos de Robert Crumb. O título será Escrever é um sono mais profundo que a morte.

publicado no Diario de Pernambuco